O que pretendemos discutir adiante no nosso trabalho são as tendências da linguagem no telejornalismo. O avanço tecnológico cada vez mais rápido na captação e edição de sons e imagens vai trazer uma maior capacidade de explorar o poder
6 Sempre que fizermos referência ao personagem entre aspas não se trata de elemento ficcional, mas sim a
uma expressão largamente utilizada no jargão jornalístico, que indica alguém escolhido pela produção de jornalismo para ilustrar determinada reportagem, pela sua representatividade no contexto da matéria.
35 informativo e expressivo das linguagens não-verbais e notadamente a da imagem? Ou as facilidades trazidas representarão a banalização definitiva das imagens, que continuarão a ser pouco valorizadas, apesar de sua onipresença?
Há quem acredite que tal questão simplesmente não terá espaço nem sentido no mundo de uma mídia única:
A especulação sobre qual sentido percepcional prepondera no cyberspace, o visual, o auditivo ou tátil, sobre qual fator prevalece sobre o outro, se a imagem, a palavra ou o número, pertence a uma querela ultrapassada. A exemplo da tendência multimedia em tecnologia, que conjumina em uma mesma unidade vários equipamentos antes separados, o cyberspace é o paraíso das mesclas ou sínteses: a interação a que ele convida exige os três sentidos, e os sons e as formas, a imagem e a palavra têm o mesmo peso.(TRIVINHO,1998: 117)
Outros, menos afoitos, duvidam dessa mudança tão rápida e radical de comportamento dos telespectadores. Até mesmo porque continua sendo enorme o encanto e prazer – e talvez o maior trunfo da TV – de colocar-se em frente à tela colorida apenas para olhar, sem compromisso maior. Para estes fica a dúvida, sem menosprezo ao conflito entre as linguagens de um mundo inundado pelo excesso de informação inútil, que atrofia a capacidade de imaginar e criar:
...que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar de “civilização da imagem”? O poder de evocar imagens IN ABSENTIA continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais inundada pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas? (...) estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de PENSAR por imagens. Penso numa possível pedagogia da imaginação que nos habitue a controlar a própria visão interior sem sufocá-la e sem, por outro lado, deixá-la cair num confuso e passageiro fantasiar, mas permitindo que as imagens se cristalizem numa forma bem definida, memorável, auto-suficiente, “icástica”. (CALVINO, 1994: 107-108)
A incapacidade de imaginar e criar, aliás, nos parece ser a cadeia a que o telejornalismo se prende já há muito tempo. Por mais que as estratégias comerciais sejam levadas em consideração e por mais que elas, baseadas no perfil do público dos telejornais, definam em boa medida até que ponto a linguagem pode inovar sem esbarrar na incompreensão e na recusa dos telespectadores, falta ao telejornalismo a coragem de ousar. O telejornalismo padrão que hoje se pratica no Brasil (e no mundo todo de uma maneira geral) tem qualidades inegáveis, mas é muito parecido com aquele que se fazia no início da década de 1950, quando a televisão chegou ao país: um estúdio, um locutor falando, um repórter falando, um entrevistador falando, outro entrevistado falando e
36 algumas imagens para ilustrar todo esse palavrório. E o pior de tudo é que este é o modelo de telejornalismo que continua sendo ensinado nas faculdades de Jornalismo de todo o país como único possível.
A pobreza da linguagem telejornalística é apontada por Beatriz BECKER (dez.2005) quando diz que
Não há ainda, porém, uma necessária ousadia na seleção de temas e na contextualização dos problemas sociais brasileiros, que levariam a um
jornalismo de maior qualidade, tampouco investimentos em novos modos de contar as notícias, o que às vezes se encontra em algumas reportagens de programas da própria Rede Globo, como o Fantástico. A série Mercadão de Sucessos, exibida de 25/09 a 23/10 de 2005, apresentada por Regina Casé, revelou como é possível informar com criatividade e conteúdo a diversidade de comportamentos culturais brasileiros. Essa série mostra numa linguagem “semitelejornalística” renovadora, sem texto off e “passagens”, a criatividade das pessoas envolvidas em novos movimentos musicais, como o tecnobrega, que incorporam a tecnologia digital para a expressão da cultura regional. Gente que aproveita com prazer a experiência de viver num mundo “glocal”, remexendo as nossas emoções e reflexões. (p.62)
A evolução tecnológica contribuiu muito para a maior qualidade das imagens em todos os estágios de seu processo de captação, tratamento e transmissão, mas a questão é: como essa maior qualidade tem sido aproveitada pelo telejornalismo? Usar e abusar dos links ao vivo para mostrar um repórter que não tem absolutamente nenhuma informação relevante que não pudesse ser dada em uma nota, ou sair sobrevoando a cidade de helicóptero para mostrar um engarrafamento na cidade ou na estrada, definitivamente são práticas que pouco contribuem para a valorização das qualidades informativas das imagens. Pouco contribuem também as pretensas reformas editoriais que apenas mudam o apresentador e redecoram o estúdio, sem tentar injetar sangue novo na estrutura tradicional das matérias.
As qualidades informativas das imagens e dos sons sem a necessidade da intervenção redundante do repórter existem sem dúvida. Basta desenvolver estratégias e modos adequados para explorá-las, seja através de maior elaboração das coberturas ao vivo e principalmente de um maior investimento em matérias especiais, que comecem já na produção. Mas para isso o material deve ser pensado por toda a equipe, começando pelo produtor e com o auxílio indispensável do repórter cinematográfico, do repórter, e dos editores de imagem e texto.
Ter a coragem de ousar em determinados momentos também é fundamental para mostrar que existem novas possibilidades de linguagens que não as tradicionais: no dia 1º de junho de 2000 o SP-TV 2ª Edição, o telejornal local da Rede Globo na cidade de São Paulo fechou o programa com uma reportagem editada de maneira totalmente não
37 convencional para os padrões de telejornalismo vigentes. O episódio retratava o confronto físico em praça pública entre o então governador de São Paulo Mário Covas e professores em greve.
Apenas uma breve cabeça lida pelo apresentador anunciava a confusão ocorrida na Praça da Sé. As imagens falavam por si só através das lentes atentas do repórter cinematográfico, além da perfeita captação de áudio, mostrando os insultos proferidos pelos professores contra o governador, até que ele é atingido por um ovo e posteriormente leva um tapa na cabeça. A reação descontrolada de Mário Covas partindo para a briga e sendo posteriormente contido pelos seguranças. Em determinado momento do material aparece o repórter escalado para realizar a cobertura no meio da multidão, apenas observando a cena, tão estupefato com o que estava ocorrendo quanto o telespectador em casa ao assistir o material.
A riqueza do material audiovisual captado durante a confusão toda associada a decisão posterior de editores e da chefia de jornalismo permitiram ao telespectador presenciar um momento raro no conservador telejornalismo brasileiro. O que normalmente se assiste nestas ocasiões é uma reportagem editada de maneira convencional, com o repórter contando o que as imagens estão mostrando e fechando com entrevistas de lado a lado explicando o que aconteceu.