• Sonuç bulunamadı

A promoção, proteção e recuperação da saúde, objetivadas pela atenção pública, são dependentes da disponibilidade e da qualidade do cuidado prestado. Dessa forma, os resultados sobre o estado de saúde da população são influenciados por seu acesso a esses serviços. Devido a isso, essa dissertação promoveu duas análises para investigar esse acesso, referentes aos níveis de atenção à saúde existentes, em Minas Gerais no ano de 2004.

No primeiro artigo, buscou-se verificar o efeito dos serviços de APS providos (em termos de disponibilidade e qualidade) sobre os níveis superiores de atenção, a partir das internações por condições sensíveis à atenção ambulatorial (CSAA). Utilizou-se um modelo hierárquico, interagindo informações individuais e contextuais, e um modelo de Mínimos Quadrados Ordinários, direcionado para a análise municipal, segundo três grupos etários definidos. Ambos métodos tiveram resultados muito similares. De uma forma geral, os serviços de APS realizados nos municípios não tiveram efeito significativo sobre as hospitalizações potencialmente evitáveis. O acesso aos serviços oferecidos e a qualidade destes parecem ainda insuficientes para a prevenção de agravos, proposta por esse nível de atenção. Esse resultado associa-se diretamente com os problemas de execução e gestão enfrentados por essa atenção e com a necessidade de reformulação do tipo de assistência realizada, já proposta pela SES-MG. Contudo, vale destacar a significância do saneamento básico e da imunização (via vacinação de tetra- valente), para menores de 5 anos, e do acesso aos serviços médicos por meio de consultas, para as demais idades, na redução da ocorrência de internações por CSAA. Outro resultado importante foi a significância da atenção realizada pelo Programa Saúde da Família nos municípios médios e grandes (mais de 50 mil habitantes) para a redução das internações potencialmente evitáveis no grupo de idosos.

Também, o acesso a fonte suplementar de atenção, a proporção de negros na população e a disponibilidade de leitos hospitalares por habitante foram significativos, sendo os primeiros contribuintes para a redução da (probabilidade de) ocorrência desse conjunto de internações e o último para a sua elevação. Vale ainda ressaltar a importância da infra-estrutura hospitalar na relação com essas internações, sendo que este foi o fator com maior contribuição na explicação na variância entre municípios. Este resultado é

relevante, pois remete a práticas de internações não baseadas, especificamente, nas condições de saúde e que poderiam ser desnecessárias, implicando aí custos significativos evitáveis.

Esses resultados sugerem, de uma forma geral, a necessidade de reformulação do cuidado prestado na APS, de forma a melhorar a qualidade da assistência realizada. Nesse intuito, algumas políticas aparecem como alternativas a serem consideradas, tais como programas de capacitação técnica dos profissionais, investimentos na estrutura física da unidade básica de saúde e em recursos materiais, elaboração e utilização de diretrizes clínicas, fortalecimento dos sistemas de referência e contra-referência, programas de educação para profissionais e gestores que permitam a compreensão do modelo e de seu papel no sistema de saúde, além de mecanismos de monitoramento de resultados, dentre outros.

No segundo artigo, buscou-se verificar a distribuição geográfica dos serviços de média e alta complexidade/custo e da população demandante, a partir dos fluxos intermunicipais realizados para atendimentos nesses níveis. Para compreender essa rede urbana de serviços, foram selecionados municípios pólos e delineadas suas áreas de influência, possibilitando uma comparação com o planejamento proposto pela SES-MG. Duas abordagens paralelas foram utilizadas na definição dos municípios pólos e na delimitação das áreas de influência. Os pólos foram selecionados segundo a relação definida pelo Plano Diretor de Regionalização 2003/2006 (PDR) e pela classificação de maiores recebedores de demanda externa. As áreas de influência seguiram o critério de maior fluxo direto aos pólos selecionados e maior fluxo, baseado no princípio da transitividade. Os resultados revelam iniqüidades no acesso e distorções significantes relativas ao PDR.

No plano da média complexidade/custo, vale destacar as extensas áreas atendidas por “Belo Horizonte”, “Montes Claros” e “Teófilo Otoni”. Essa situação remete à capacidade de polarização parcial de alguns municípios e, ainda, a não funcionalidade de outros, os quais polarizam apenas sua área municipal. Quanto à alta complexidade, problemas semelhantes foram encontrados, sendo “Belo Horizonte”, “Uberaba” e “Uberlândia” pólos efetivos de áreas relativamente extensas. Verificou-se também uma concentração dos serviços de média e alta complexidade/custo, observada a partir da demanda atendida, na porção centro-sul do estado, superior à concentração populacional

e contrária à estrutura viária existente. Essa distribuição desigual dos serviços no território ainda é desfavorável à população com maior dificuldade de deslocamento, uma vez que as áreas com menor assistência são aquelas localizadas na porção norte do estado, caracterizada por piores condições sócio-econômicas. Esse quadro revela as graves iniqüidades existentes no acesso a esses serviços.

Na tentativa de mitigar as iniqüidades de acesso encontradas e as disparidades relativas ao planejamento da SES-MG, algumas políticas podem ser avaliadas. Nesse sentido está a necessidade de investimentos na capacidade de atendimentos de municípios pólos propostos, principalmente na porção norte do estado onde os deslocamentos se mostraram maiores. Ações de coordenação das relações intermunicipais e de organização dos fluxos de pacientes também merecem ser intensificadas. Além disso, a revisão do planejamento proposto, sustentada em análises técnicas mais precisas, também pode ser considerada.

Ambos artigos, portanto, mostraram problemas na acessibilidade aos serviços públicos de saúde e a uma assistência adequada, no caso da APS. Os resultados revelaram uma violação dos princípios de universalização e equidade no acesso à atenção sanitária, almejados pelo Estado e norteadores do sistema público de saúde. Esses resultados importam, uma vez que refletem lacunas e problemas existentes na atenção à saúde realizada e sugerem uma reformulação dos serviços oferecidos nos diferentes níveis da assistência sanitária.

Benzer Belgeler