1.1.3. Öğrenci Merkezli Eğitim
1.1.3.4. Öğrenci Merkezli Eğitimde Ölçme ve Değerlendirme
Em Pela mão de Alice, Santos aponta, como já dissemos, que a modernidade é concebida por volta do século XVI (SANTOS, 2010, p. 78). Enquanto uma weltanschauung notoriamente burguesa, ela se caracterizaria por uma série de valores que se concretizariam posteriormente, de maneira bastante, clara na filosofia positivista. Sendo assim, a modernidade se constituiria sob a égide do lema ordem e progresso, e estaria fundada sobre o que Santos chama de dois pilares: o da regulação e o da emancipação (SANTOS, 2010, p. 77). Cada um dos pilares fundantes da modernidade se constituiria por três princípios cada um. O pilar da regulação seria formado por três princípios de valor, comuns ao pensamento jusnaturalista.34 Seriam eles o princípio de Estado, o de mercado e o de comunidade.35
34 O Dicionário de Política (BOBBIO, 2004) define jusnaturalismo como “uma doutrina segundo a qual existe e pode ser conhecido um ‘direito natural’”, independente do direito positivo constituído a partir da instituição estatal, possuindo validade em si mesmo, sendo que, em caso de conflito “é ele que deve prevalecer” (BOBBIO, 2004, pp. 655-656). Como bem ressalta o texto relacionado ao verbete, o jusnaturalismo apresenta variações ao longo do tempo. No caso apontado por Santos, trata-se, obviamente, da concepção vinculada ao pensamento moderno, do século XVIII, vinculado pela ciência política à trinca de autores clássicos John Locke, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. Embora existam diferenças bastante significativas nas concepções de cada, é
Quanto ao pilar da emancipação o autor entende que os princípios que o constituem se materializam na forma de três lógicas de racionalidade: “[...] a racionalidade estético- expressiva da arte e da literatura; a racionalidade moral-prática da ética e do direito; e a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da técnica” (SANTOS, 2010, p. 77).
Cada uma dessas racionalidades pertencentes ao pilar da emancipação relacionar-se-ia ao da regulação através de seus princípios. Assim, as formas de racionalidade emancipatória que orientariam o indivíduo em sua prática teriam, de algum modo, uma inserção no pilar da regulação (SANTOS, 2010, p. 78).
A racionalidade estético-expressiva, que só poderia ser compreendida a partir de um ideário de identidade e comunhão necessário à contemplação estética, acabaria por desenvolver um vínculo com o princípio da comunidade pertencente ao pilar da regulação, garantindo assim, sua realização. Já a racionalidade moral-prática vincula-se ao Estado, porque é este que detém o monopólio e que, justamente por conta disso, garantiria a definição e o cumprimento de um mínimo ético e do direito. A racionalidade cognitivo-instrumental teria seu vínculo específico com o princípio do mercado, pois a partir do século XVIII seria visível o sinal de conversão da ciência enquanto força-produtiva, proporcionando o desenvolvimento do capitalismo. E, ainda, o vínculo da racionalidade cognitivo-instrumental se dá com o mercado porque é lá que se condensam as ideias de individualidade e da concorrência fundamentais para o desenvolvimento da ciência e da técnica. (SANTOS, 2010, p. 77).
Ainda segundo Santos, seriam estes vínculos existentes entre os pilares que fizeram do projeto moderno um empreendimento ambicioso e revolucionário para o seu tempo, pretendendo abrir um campo infinito de possibilidades para a humanidade. Mas essa pretensão só fez criar um excesso de promessas, as quais não puderam ser cumpridas em sua integridade.
Segundo Santos, enquanto o pilar da emancipação continha formas de racionalidade que propiciariam a formulação de práticas sociais capazes de subverter constantemente a sociedade existente, sua união com o pilar emancipatório permitia o estabelecimento de um equilíbrio determinado ao desenvolvimento social. De maneira mais precisa, esse equilíbrio
comum aos três a ideia da existência de um suposto “estado de natureza”, uma forma de sociedade repleta de conflitos e tão incerta de futuro que para superá-lo seria necessário um “contrato social”, a constituição de uma instituição jurídico-política que salvaguarde os direitos inatos daqueles que vivem na sociedade e que combata os perigos oriundos da antiga forma de organização.
35 “O pilar da regulação é constituído pelo princípio do Estado, cuja articulação se deve principalmente a Hobbes; pelo principio do mercado, dominante sobretudo na obra de Locke; e pelo princípio da comunidade, cuja formulação domina toda a filosofia política de Rousseau” (SANTOS, 2010, p. 77).
determinado se daria enquanto “[...] concretização de objectivos práticos de racionalização global da vida colectiva e da vida individual” (SANTOS, 2010, p. 78). Para Santos, o caráter altamente abstrato dos valores envolvidos nos dois pilares teria resultado na falta de primazia de um sobre o outro nessa relação, causando o surgimento de tensões que estariam reguladas por princípios complementares aos dois pilares. Deste modo, estariam estabelecidas tensões controladas em prol de um desenvolvimento positivo de ambos os pilares, e da sociedade, invariavelmente.
Mas é fácil ver que um horizonte contém, em si mesmo, o gérmen de um défice irreparável. Por um lado, a construção abstracta dos pilares confere a cada um deles uma aspiração de infinitude, uma vocação maximalista, quer seja a máxima regulação ou a máxima emancipação, que torna problemáticas, se não mesmo impensáveis, estratégias de compatibilização entre eles, as quais necessariamente terão de ser assentes em cedências mútuas e compromissos pragmáticos (SANTOS, 2010, p. 78).
Embora o projeto moderno tivesse, segundo Santos, em sua concepção a ideia de que o controle abstrato das tensões entre os seus pilares fundamentais fosse altamente eficaz na concretização de sua agenda, não teria sido exatamente assim que tudo aconteceu. Ainda segundo Santos, foi justamente esse caráter contraditório na relação entre valores conservadores e progressistas, regulada por meio de abstrações o responsável pelo surgimento dos excessos e dos défices do projeto moderno.
Os excessos seriam derivados pelo caráter globalizante das formas de racionalidade existentes, que para além de sua vinculação às instituições diretrizes da sociedade, se espalharia para o controle da vida individual, marcada pela atividade prática do cotidiano. Assim, se afastariam cada vez mais os controles abstratos das contradições entre os dois pilares, intensificando os conflitos entre esses valores no cotidiano das relações pessoais (SANTOS, 2010, p. 86).
Já o déficit decorreria da impossibilidade dos valores dos dois pilares de encontrarem vazão na vida prática, pelo fato de que a falta de abstrações faz esboroar a concretização dos valores modernos, tornando-os criações autônomas. A associação pessoal a cada forma de valor ou racionalidade deveria ser dada de maneira pragmática, pontual, elevando cada princípio a uma condição de prevalência sobre os outros, homogeneizando as práticas cotidianas (SANTOS, 2010, pp. 89-90).
As afirmações de Santos acerca dos vínculos entre os pilares fundantes da modernidade bem como das contradições derivadas deste relacionamento não estariam descontextualizadas. A articulação entre os pilares da regulação e da emancipação seria um processo histórico que se realiza ao longo do capitalismo. É necessário enfatizarmos aqui, mais uma vez, que o sociólogo português faz uma distinção entre capitalismo e modernidade. A processualidade envolvida no desenvolvimento dos pilares seria algo próprio a modernidade, mas que encontraria no capitalismo um período histórico propício para sua intensificação. Assim, o autor pretende
[...] demonstrar que à medida que se sucedem os três períodos históricos do capitalismo, o projeto da modernidade, por um lado, afunila-se no seu âmbito de realização e, por outro lado, adquire uma intensidade total e até excessiva nas realizações em que se concentra (SANTOS, 2010, p. 80).
Santos faz referência a três períodos históricos do capitalismo: o primeiro período, o do capitalismo liberal, que abrange todo o século XIX; o segundo período, do início do século XX até o período imediato ao pós-guerras mundiais, chamado de capitalismo organizado; e o último, o do capitalismo desorganizado, que começa na década de 1960 e chega até aos nossos dias (SANTOS, 2010, pp. 79-80).
Para melhor compreendermos o entendimento que Santos possui sobre a processualidade existente entre os dois pilares modernos, tomaremos como exemplo como ele observa o desenvolvimento do pilar emancipatório no primeiro período do capitalismo.
Neste período histórico o pilar da emancipação começaria a sofrer aquilo que apontamos anteriormente como um processo de maximização unilateral dos princípios constituintes de ambos os pilares. Especificamente, a racionalidade cognitivo-instrumental começaria a atingir um nível de desenvolvimento e de autonomia bastante grande se comparada às outras formas de racionalidade, pois que esta forma de racionalidade estaria diretamente vinculada ao principio valorativo de mercado pertencente ao pilar regulatório. Isto representaria um sinal do comprometimento da ciência às atividades de mercado, tornando-se, segundo Santos (2010, pp. 81-82), força produtiva dentro do processo de acumulação de capital.
Esta inflação da racionalidade cognitivo-instrumental provocaria o eclipse das outras formas de racionalidade, estabelecendo-se como a principal medida de racionalidade do
período. Como consequência, haveria uma valorização dos princípios de mercado sobre toda a sociedade, em detrimento dos outros valores do pilar regulatório, o de Estado e o de comunidade. Especificamente aqui, haveria um abandono quase completo do princípio de comunidade e a sujeição do principio de Estado aos valores de mercado (SANTOS, 2010, p. 82).
Assim, ocorreria nesse período do capitalismo um aumento excessivo das promessas modernas, em especial aquelas próprias às formas de racionalidade comum, à ciência e forma de organização social baseada no mercado. Ao mesmo tempo, isso provocaria um défice no cumprimento das outras promessas vinculadas aos outros princípios, tanto regulatórios quanto emancipatórios. Perder-se-ia do horizonte conceitual os elementos supostamente necessários para a concretização de uma prática progressista harmônica, tornando o projeto moderno tacanho, muito embora essa fraqueza já estivesse contida, segundo Santos, desde a constituição do projeto moderno (SANTOS, 2010, p. 83).
Neste ponto, o idealismo de Santos aparece de maneira velada. Embora indique, em sua argumentação, determinados momentos históricos, ela não passa apenas de uma descrição sem profundidade de momentos do capitalismo, não realizando uma avaliação do processo que constitui o momento apontado. Cada descrição realizada parece servir apenas para garantir um pano de fundo ao desdobrar ideal do paradigma moderno. São as diferentes partes de ambos os pilares que se relacionariam entre si, e não as pessoas que encarnariam os valores desses pilares. Essa falta de descrição material poderia se justificada como uma opção retórica, dentro da argumentação do texto, para dedicar maior atenção aos aspectos possivelmente mais interessantes do desdobramento interno do paradigma. Entretanto, considerando os seus pressupostos idealistas, trata-se, aqui, de um falso historicismo de Santos. A história não é compreendida como um processo material, possuidor de uma objetividade distinta da percepção humana, e cuja dinâmica integraria seus diversos momentos em um único e complexo movimento. Ela se apresentaria mais como uma composição de momentos inertes nos quais as ideias, estas sim possuidoras de dinâmica e vida, pois que vinculadas à vontade humana, se realizariam. Assim, ocorre a negação, mesmo que involuntária, de toda a concepção marxista que Santos inicialmente considerava como necessária à constituição do paradigma emergente. Com o desdobrar de sua argumentação ao longo de suas obras, Santos executa progressivamente uma espécie de varredura de qualquer possível influência substancial do marxismo. Isto fica claro em sua posição acerca da teoria da história que sustentaria as práticas na modernidade, interligando as facetas científica e societal do paradigma moderno.
1.3.2 A teoria da história da modernidade e os supostos limites da teoria revolucionária