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BÖLÜM IV 4 KURAMSAL TEMELLER

4.5 Çinili Camii Çinileri İle İlgili Bilgiler

Na fala de agentes da própria PMC, as falhas do PLANO DIRETOR, inclusive a falta dos secretários às reuniões e seu pequeno ou nenhum envolvimento no processo é dada sua indisposição, negligência ao planejamento das atividades da respectiva secretaria. Tal racionalidade ancora-se também no discurso que se vem realizando pelo espaço a partir das premissas de que é possível que a atividade mineraria seja desenvolvida de forma “sustentável” e que traga emprego e renda para o município. Entretanto, incorre-se na mesma característica do atual modelo de desenvolvimento de prevalência técnico-instrumental e econômico-produtivista, a qual com base na técnica, e, sem questionar sua aplicação privilegia somente um segmento capaz de operá-la: os tecnocratas. Se o PLANO DIRETOR é objeto de descrenças pelos mais variados motivos, o discurso que alardeia a sustentabilidade também o é.

Embasado nos questionamentos de Lefebvre (2007) perguntar-se: o que é sustentável, para quem, para qual uso, em que bases, ou seja, a que serve 32. Sob tais questionamentos e considerando

processos similares que vêm ocorrendo, como veiculado no Jornal Estado de Minas, em 17/12/06, no Caderno Economia, aponta-se a materialização do paradoxo que é realizado, sob licenciamento ambiental em múltiplas escalas: “Mineração fatura alto e cidades pagam caro”. Em tal reportagem evoca-se os efeitos que não somente o ambiente sofre, mas a própria sociedade. Itabira-MG município que sediou por anos a Companhia Vale do Rio Doce, vivenciou em 2006, pressões sobre o abastecimento d’água, severa poluição atmosférica e um processo de adoecimento psíquico ainda a ser estudado, trata-se da elevada taxa de suicídio.

32Segundo Wolfgang Sachs (2000), A Comissão Mundial sobre Meio ambiente e Desenvolvimento - CMMAD, apresenta ao mundo o Relatório Nosso futuro comum que vem promover a conciliação entre a ânsia pelo desenvolvimento e a necessária atenção ao seu efeito sobre o ambiente. Se antes a conservação era um entrave ao desenvolvimento e o meio ambiente era o algoz da pobreza, agora era possível alcançar este desenvolvimento. Mesmo porque, a pobreza era identificada como um obstáculo à conservação do ambiente e a melhoria na renda dos países possibilitaria melhores condições de habitação e práticas ambientais menos degradantes. Desenvolvimento Sustentável passou então a significar o novo paradigma na condução do relacionamento entre sociedade e natureza. Agora se tornava possível o acesso aos recursos naturais, desde que preservado para o uso das gerações futuras, assegurando o atendimento às suas necessidades. Em 1992 a conferência de Meio Ambiente, ECO-92, ocorrida no Rio de Janeiro, Brasil, despertou em todo o mundo a expectativa de construção de documentos que orientassem políticas nacionais e que resultassem em respostas sensíveis por todo o planeta. Para Carneiro (2005, p. 31) “Os trabalhos fundados no discurso do desenvolvimento sustentável apresentam a crise ambiental como conjunto de “problemas ambientais” com o que o homem se defronta ao ameaçar os limites da biosfera”. Tal afirmativa configura para o autor, discurso vazio, mera abstração, pois a atividade humana sempre alterou a natureza e a partir das bases capitalistas, as relações com a natureza são enquanto mediação de relações de reprodução das condições de produção, voltados à acumulação. Pereira (2005) critica a mera adoção do termo “sustentabilidade”, mesmo que no âmbito do Estado, onde através de suas pesquisas na conservação da biodiversidade, tem se deparado com inúmeros insucessos nas políticas públicas. Suas indagações aclaram a profundidade do conceito tão alardeado: “A questão ambiental ultrapassa a relação homem/natureza e se dirige à faceta das relações entre os homens como objeto econômico, político e cultural e principalmente, como luta social.” (PEREIRA, 2005, p. 120).

Em outra publicação, também no Caderno Economia, em 14/1/2007, apresenta-se um débito de 2,2 bilhões de reais das mineradoras para com 23 municípios e a União, cifras contestadas pelo Instituto Brasileiro de Mineração - IBRAM e outras entidades empresariais. A manchete dá conta de que tal dívida refere-se à sonegação de impostos junto aos municípios e ao governo federal. Tal dívida estaria sendo cobrada pelo próprio governo federal, através do Departamento nacional de Produção Mineral - DNPM.

Um constrangimento à democracia relatado pelos sujeitos em Caeté, muito embora não seja privilégio desta, está na concentração de forças políticas pelo prefeito em configurar e conduzir os conselhos gestores de políticas públicas. Gohn (1997) mostra que os conselhos e os orçamentos participativos-OP’s resultam de mobilizações da sociedade civil, por meio dos movimentos sociais, nos anos 80 como forma de aproximação do Estado a fim de participarem dos destinos do País. Seriam na opinião da Carvalho (2001, p. 188)33 “[...] uma das formas de participação mais permanentes e que resistem às mudanças e aos diferentes graus de abertura dos governos à participação social.” Em sua análise a autora deixa claro que os conselhos gestores oferecem resistência à centralização que as políticas antidemocráticas adotam e “[...] mesmo sem apoio significativo de governos, conseguindo inclusive pressionar governos contra atitudes privatistas, obter subsídios financeiros [...]” (CARVALHO, 2001, p. 188). Mas, prossegue a reflexão da autora, sem um mínimo de apoio do Estado, de retorno aos investimentos que os membros do conselho desenvolvem não se consegue avanços significativos: “Quando se quer tomar decisões corporativas, clientelistas, baseadas em acordos políticos privados e escusos, procura-se burlar, esvaziar ou desqualificar os conselhos”. (CARVALHO, 2001, p. 189)

Em Caeté, segundo o Sr. Wilson34, somente na gestão do prefeito Raul Messias (01/1997 a 12/2000) os conselhos obtiveram maior apoio, mesmo porque foi naquele momento que tiveram a possibilidade de serem constituídos. Neste período haveria melhor relacionamento entre governo e sociedade civil, dando-se inclusive autonomia para que o conselho pudesse escolher seu próprio presidente, como no caso do Codema. Entretanto o mesmo relato destaca que a partir da atual gestão, iniciada em janeiro de 2005, são observados constantes constrangimentos ao bom funcionamento dos conselhos. Um destes constrangimentos pode-se inferir com base nas reflexões de Carvalho (2001), refere-se a uma estratégia de ausência de membros do poder executivo às reuniões, impedindo o debate e a aprovação de resoluções que contrariem aos anseios do Executivo, mesmo que essas promovam celeridade e eficácia às políticas públicas. Há ainda, conforme o Sr. Wilson (nome fictício), outras estratégias para redução do poder de deliberação dos conselhos municipais como a supressão

33Cientista política, pesquisadora do Instituto Polis. 34 Entrevista concedida em 18/1/07, BH-MG.

de apoio logístico ao Conselho Tutelar, por exemplo, criado sob apoio do judiciário local, com quem a atual gestão não teria bom relacionamento. Recorrendo a Carvalho (2001) pode-se ampliar a lista de estratégias de esvaziamento das possibilidades de exercício da autonomia pelos conselhos:

“É grande, portanto, a capacidade dos governos de esvaziá-los, seja tomando decisões “por fora” dos conselhos, seja, desmobilizando-os, retirando-se deste espaço ou indicando para os conselhos funcionários pouco representativos, com grande rotatividade e/ou com pouca capacidade de tomar decisões.” (CARVALHO, 2001, p. 191)

A atual gestão dos municípios foi tema de uma das apresentações do Programa Palavra Cruzada, veiculado na TV Minas, em 27/12/0635. Neste debate a partir de recente pesquisa da Controladoria da União, citada pelos entrevistados, apontou-se a existência de conselhos gestores em somente 50% dos municípios brasileiros, sendo eles, em sua maioria, controlados pelo poder Executivo, ou seja, o Prefeito.

Martins (1994) em seu estudo sobre a sociologia de uma “história lenta” que versa sobre as transformações e permanências na histórica política da sociedade brasileira, concebe que

“A dominação política patrimonial, no Brasil, desde a proclamação da República pelo menos, depende de um revestimento moderno que lhe dá uma fachada burocrática-racional-legal. Isto é, a dominação patrimonial não se constitui, na tradição brasileira, em forma antagônica de poder político em relação à dominação racional-legal”. (MARTINS, 1994, p. 20)

Com esta reflexão, no Brasil, o moderno nem sempre é o novo, já que “o novo surge sempre como um desdobramento do velho” (MARTINS, 1994, p. 30). Ademais em muitas práticas políticas municipais brasileiras o clientelismo político ainda é presente e “eficiente”.

O espaço fragmentado, hierarquizado e homogeneizado (LEFEBVRE, 2005) revela a disputa de grupos que nele constroem campos onde se digladiam pelo uso do espaço enquanto realização da vida, da experiência humana, ao passo que outros o têm como pura mercadoria. Embates que aproximam a cidade a uma obra ou um produto ( LEFEBVRE, 1999).

A atividade mineraria constituiu-se em um campo de embates de representações que pode inclusive ser fruto do que Lefebvre (1999) denomina como campo cego no qual o domínio da representação da existência como mera e contínua reprodução das relações capitalistas de reprodução, cega seus integrantes. Estes chegam mesmo a acenar com o discurso da sustentabilidade (SACHS, 2000) como

doxa. No sentido contrário, também discursam e disputam a doxa os portadores da heterodoxia

35 Debatedores: representantes de entidades que acompanham a gestão municipal como a Associação Mineira de Municípios; um professor de direito administrativo da UFMG- Universidade Federal de Minas Gerais, um consultor em administração municipal e outros jornalistas.

(BOURDIEU, 1989). Ambos atritam pela primazia da construção da realidade, pelo poder simbólico de dizer o que é real e como ele se constitui (BOURDIEU, 1996a, 1989).

Tal confronto em Caeté tem criado um divisor de águas: os ambientalistas, os agentes que se opõem a mineração, aparecem como os inimigos da gestão atual da PMC, que em todas as oportunidades, visa reduzir-lhes os capitais (BOURDIEU, 1996a) que dispõem. Esses confrontos de representação do espaço, entre os que advogam o uso e aqueles que consagram a troca, ocorrem na cidade, lugar de mediação entre as mediações, lugar de reunião - nas palavras de Lefebvre (1999, p.111) “A cidade atrai para si tudo o que nasce, da natureza e do trabalho, noutros lugares: frutos e objetos, produtos e produtores, obras e criações, atividades e situações.” E mais, ainda nos esclarece o filósofo, a cidade tem sua especificidade; a cidade se relaciona com a sociedade que contém sua composição, dinâmica, enfim, a historicidade e os elementos que a constituem, o campo, a agricultura, indústria, os poderes políticos, sua morfologia. Mas a historicidade, as mudanças que sofre, as contradições que se constroem são também reflexos do que o autor designa por uma ordem distante; a Igreja, os códigos jurídicos (formalizados ou não), as grandes corporações, a cultura. Estas se rebatem sobre a ordem

próxima afetando a realidade prático-sensível (LEFEBVRE, 1991). É neste sentido que se entende a

cidade enquanto local da mediação, pois, “o que ela (a cidade) cria? Nada. Ela centraliza as criações. E, no entanto, ela cria tudo. Nada existe sem troca, sem aproximação, sem proximidade, isto é, sem

relações.” (LEFEBVRE, 1999, p. 111).

Todo o percurso que se travou até aqui tenciona vislumbrar o espaço social em formas distintas, mas também complementares para Pierre Bourdieu (1996; 1989) e Henri Lefebvre (2007; 2005) constituído em Caeté, anteriormente às deliberações do Estatuto das Cidades e o PLANO DIRETOR.36

Benzer Belgeler