ÂVÂZ-İ PER-İ CİBRÎL (CEBRAİL’İN KANAT SESİ)
3. ÂVÂZ-İ PER-İ CİBRÎL (CEBRAİL’İN KANAT SESİ) HİKÂYESİNİN TAHLÎLİ
No período histórico em que prevalecia o modo de produção manufatureiro, antes da emergência do modo de produção industrial, já se podia observar a subsunção do trabalho ao capital, ainda que os processos fossem tecnologicamente rudimentares (Marx, 2004).
Nas últimas décadas do século XVIII, emerge na Inglaterra a revolução industrial. Em sua primeira fase - ou primeira revolução industrial - ela baseou-se na produção têxtil de algodão que, com o advento posterior da máquina a vapor, possibilitou a superação da fase histórica da manufatura. Em seus primórdios, essa revolução não estava ancorada na ciência, mas nascia em oficinas e ateliês sem o suporte do conhecimento conduzido pelo método científico, base da definição da ciência moderna. A produção, então voltada para os bens de consumo, era aprimorada sistematicamente por meio de métodos empíricos. A invenção da máquina a vapor ilustra essa separação entre o conhecimento científico e os primórdios da produção industrial, pois ela foi criada por James Watt quase trinta anos antes de os princípios teóricos da termodinâmica serem concebidos por Sadi Carnot (HOBSBAWN, 2012a; CASLTELLS, 1999).
A partir de meados de 1830, tem início a segunda revolução industrial, quando se expande o transporte ferroviário e, com ele, toda uma extensa cadeia dos bens de produção, que inclui segmentos como mineração, siderurgia, comunicações, elementos da indústria de bens de capital e logística. Isso abre caminho para o desenvolvimento da mecanização industrial e para a crescente incorporação do conhecimento científico à produção fabril (HOBSBAWN, 2012a, 2012b).
Partindo das ideias de Marx, Bolaño (2007) afirma que o modo de produção capitalista precisou, em seu processo de constituição, não só da acumulação primitiva de capital que financiou a expansão mercantil ocorrida no período anterior, tendo sido necessário também aquilo que Bolaño designa como uma acumulação primitiva de conhecimento, ou seja, a incorporação, pelo capital, do conhecimento dos processos de trabalho que haviam sido desenvolvidos pelos artesãos ao longo dos séculos anteriores. Essa apropriação pelo capital do conhecimento anteriormente produzido pelo trabalho, bem como do conhecimento que emerge com o desenvolvimento da mecânica e do trabalho intelectual científico, permitiu o
desenvolvimento da máquina ferramenta. Este maquinário, no qual está materializado o conhecimento extraído da classe trabalhadora sob a forma de capital constante, torna-se elemento central no processo de constituição do capitalismo.
O autor afirma ainda que o capital promoveu um duplo movimento quando da revolução industrial: usurpou o conhecimento da classe trabalhadora artesã e articulou-o com o desenvolvimento do conhecimento científico que se deu no campo propriamente intelectual. Nesse sentido, afirma que a revolução industrial significou uma revolução na relação entre poder e conhecimento (BOLAÑO, 2002).
Ao comparar o modo de produção vigente no período da manufatura, nos primórdios do capitalismo, com o modo de produzir que surge a partir do desenvolvimento da grande indústria, Marx apresenta os conceitos de subsunção formal e subsunção real.
A subsunção formal do trabalho ao capital é a forma geral de toda subsunção baseada na relação de assalariamento, quando o capitalista adquire a força de trabalho, e o processo de trabalho é convertido num instrumento do processo de valorização (BOLAÑO, 2007; MARX, 1980a, 2004; PRADO, 2005).
No período manufatureiro, quando vigorava a subsunção formal, a produção ainda era dependente do conhecimento e das habilidades do artesão que manejava seu instrumental. Nessa fase, a coordenação do trabalho pelo capital limitava-se ao produto do trabalho e não ao trabalho em si. Isso significa que o capital não controlava os processos de trabalho, ou seja, não dominava a organização coletiva do trabalho (AMORIM, 2009; MARX, 1980a, 2004).
Segundo Santos (2013), a característica marcante da subsunção formal é a centralidade do trabalhador no processo de produção. Nesse caso, o processo de produção tem alto grau de dependência das habilidades e qualificações do trabalhador individual.
No período posterior, com o advento da revolução industrial, a subsunção meramente formal torna-se subsunção real, quando o capital se liberta da dependência do conhecimento do trabalhador, “subsumindo realmente o trabalho através da máquina ferramenta, que inverte a relação sujeito-objeto, com o capital constante definindo, a partir de então, a forma e o ritmo do processo de trabalho” (BOLAÑO, 2007, p.5). Ganha força uma lógica sistêmica de produção dirigida para a acumulação, que determina os fins particulares a serem perseguidos pelos trabalhadores (PRADO, 2005a).
Conforme explica Prado (2005b), com o advento da subsunção real
o trabalhador, que antes era órgão funcional de um organismo complexo de produção de mercadorias, transforma-se, agora, nas palavras de Marx, em "apêndice do sistema de máquinas". O processo de produção deixa de estar adaptado ao trabalhador, ao seu modo específico de trabalhar, pois agora, ao
contrário, o seu modo de trabalhar tem de estar adaptado ao processo de produção (PRADO, 2005b, p.4).
Nessa conversão do trabalhador coletivo em apêndice da máquina, quando o saberes empíricos e científicos passam a dominar a produção, o capital liberta-se das limitações ligadas às habilidades dos trabalhadores. O saber-fazer do trabalhador, ao ser incorporado à máquina, permite o emprego de força de trabalho desqualificada, expandindo o domínio do capital na produção e na sociedade (AMORIM, 2009).
Nos termos de Marx (1980a, 2004), com a subsunção real, os processos produtivos passam a ser ditados pelo maquinário, e o trabalho vivo passa a se submeter ao trabalho morto. Ao abordar o aspecto ideológico dessa dominação da "coisa sobre o homem", "do produto sobre o produtor", Marx (2004, p.56) afirma tratar-se da mesma relação que se apresenta na religião, ou seja, "a conversão do sujeito em objeto e vice-versa".
Nesse resgate histórico apresentado por Marx, manifesta-se de maneira marcante a importância da informação e do conhecimento nos processos produtivos e socioeconômicos capitalistas. Esse ponto de vista tem inspirado muitos autores, que partem dessas ideias e vão além delas, buscando compreender a sociedade em que vivemos hoje e as dinâmicas socioeconômicas que surgem a partir do avanço tecnológico, especialmente após o advento das tecnologias de informação e comunicação e das redes. Entre os autores que têm trilhado esse caminho, tem sido referência comum o famoso trecho dos Grundrisse em que Marx apresenta a hipótese de superação da teoria do valor e da desestruturação do capitalismo por meio do conhecimento coletivo.
No próximo tópico, nossa exposição teórica analisa a passagem em que Marx aborda o intelecto geral (general intellect) para que a seguir possamos discutir algumas releituras contemporâneas que estas ideias têm fomentado no campo da Economia Política da Informação e do Conhecimento.