WOMEN MINSTRELS IN TURKEY IN THE SECOND HALF OF TWENTIETH CENTURY
2. Â ŞIK GELENEĞİ VE BU GELENEK HAKKINDA BAZI TEKNİK AÇIKLAMALAR
A cultura mediterrânea, principalmente no mundo das elites, assimilou o costume de realizar banquetes no espaço e na forma do triclínio. Os banquetes tornaram-se expressão e representação em miniatura da forma como se davam as relações sociais daquela época.
Em Séforis, na Palestina do tempo de Jesus, encontrou-se uma casa que a partir de suas ruínas se produziu uma reconstrução aproximada do que provavelmente seria uma sala de refeição e seu triclínio (cf. a imagem do anexo III). Crossan descreve com mais detalhes o que é um triclínio:
O termo refere-se a dois pormenores específicos. Em primeiro lugar, havia três (daí tri) divãs principais: o do meio para o anfitrião, e os outros dois para os hóspedes de honra. Em segundo lugar, o hospedeiro e seus mais importantes hóspedes reclinavam-se (daí clinia) – não se sentavam em cadeiras como nós – e consequentemente, exigiam servos e auxiliares para as refeições. Reclinar-se, em outras palavras, significa pertença à classe social mais alta (CROSSAN & REED, 2007a, p. 141).
Além de representar objetivamente as relações sociais vigentes, o triclínio possuía uma força simbólica de reprodução, afirmação e legitimação da estratificação social, esta por sua vez, baseada na clara demarcação de quem são os superiores e quem são os inferiores na escala da divisão social que distribui discriminadamente trabalho, bens, poder e privilégio113.
A obra de Aries & Duby (1987) ao retratar as salas de recepção na Domus romana114, que era disposta em forma de triclínio, procura deixar bem evidente sua
113 Crossan e Reed (2007b, p. 147) descrevem com detalhes como “A hierarquia social era reforçada ainda de outras maneiras entre as elites convidadas para o triclinium” quando analisam a imagem da reconstrução da Vila de Dionísio em Séforis, do período romano posterior (ANEXO III).
114 Farias (1967) afirma ser a casa e tudo o que ela contém uma realidade usada principalmente para referir-se ao lar de famílias poderosas da elite romana.
função chave: apesar de ser manifestação das distâncias sociais entre os diferentes membros da casa, é também ocasião de reforçar identidades distintas muito bem delimitadas hierarquicamente como forma de garantir a coesão da família e de seus agregados.
Muitas vezes é fácil reconhecer as salas de recepção, as quais, sabemos através dos textos, desempenham um papel muito importante na vida da casa, o dono devendo receber com frequência e luxo. Tal sociabilidade se exerce em particular durante as refeições, [...]. A refeição serve também para assegurar a coesão da família, no âmbito mais amplo do pessoal da casa. Escravos podem aproveitar os restos da mesa (Metamorfoses, X, 14) e, em alguns dias de festa, recebem o direito de se deitar para comer à maneira dos amos: a arte da refeição, graças ao jogo das proibições e autorizações excepcionais, marca as distâncias sociais, mas também contribui para a coesão de grupos heterogêneos (ARIES & DUBY, 1987, p. 8 e 11).
De maneira mais específica, os mesmos autores compreendem o triclínio como lugar de afirmação da posição que cada um ocupa no tecido das relações sociais:
O triclínio constitui, portanto, um dos lugares essenciais da casa. Lugar de recepção por excelência, mas também teatro dos grandes momentos da vida da casa [...]. É o lugar onde se exprimem mais abertamente as relações que tecem a esfera do privado, em todos os níveis, quer se trate do casal, da família no sentido estrito, quer do pessoal da casa ou do círculo dos convidados (ARIES & DUBY, 1987, p. 11).
O triclínio é, portanto, portador por excelência dos códigos culturais que legitimam a hierarquia determinada por toda a sociedade, dentro e fora da casa.
O triclínio é, com efeito, um espaço muito codificado: o lugar que se ocupa indica o nível social, pois os leitos, e cada lugar de cada leito, são classificados conforme uma ordem hierárquica estrita que culmina na posição do dono da casa, a saber, o lugar da direita no leito central: ser o
magister convívio, presidir os banquetes, é próprio do dono da casa
(Apuleio, Apologia, 98). Os convivas tomam seus lugares sob a vigilância de um servo especializado, o nomendator, e todo o festim se desenrola graças ao zelo de escravos também especializados, os servi
tridinarii, cada um, encarregado de tarefas precisas [...] (ARIES & DUBY, 1987 p. 11. O grifo é nosso).
Os evangelhos testemunham com muita criticidade (Mt 9, 10-13; 22,1-14; 26,6-13; Mc 2,15-17; Mc 14,-3-9; Jo 12,1-8), e de modo particularmente mais
abundante em Lucas (5,29-32; 7,36-50; 11,37-44; 14,7-24; 15,23-24; 16, 19s; 24,30), esse fenômeno do banquete como lugar dos códigos culturais e sociais que delimitam a estrutura das relações sociais de dependência, subordinação, discriminação e desigualdade entre as pessoas.
Em todos esses relatos, mas principalmente na parábola em que convidados disputam os primeiros lugares (Lc 14, 7s), ocorre o que chamamos de inversão dos valores vigentes, sobretudo do status admitido pelo etos social dominante: ricos patronos são chamados a convidar não aqueles que podem retribuir - os iguais na escala da estratificação social vigente - mas, os pobres e aqueles que se encontram em situação de fato de inferioridade social. Há sempre uma proposta de contestação ou de questionamento das posições sociais admitidas como normais.
No EJ, o cenário de banquete que pode fazer alusão ao triclínio, além do capítulo 13, encontra-se em episódios como o da festa de casamento em Caná (2,1- 12) e na unção em Betânia (12,1-8). Os relatos de refeição como o da aparição às margens do mar de Tiberíades (21,13) ou o episódio da partilha dos pães (6,1-15) não fazer alusão alguma ao triclínio. Os dois episódios estão demarcados por cenários completamente diferentes ao de um banquete ordinário. Ambos se dão em ambientes abertos e nada convencionais para a realização de um banquete dominado pela estrutura do triclínio. Tudo indica que a partilha do pão na comunidade joanina tenha superado esse modelo de refeição com características estratificadoras. O triclínio parece ter sido abolido de seus encontros e refeições em comum. Só assim, a comunidade deve ter conseguido servir, além do pão, o lava-pés da transformação social. As outras narrativas estão na mesma perspectiva de contestação das estruturas do triclínio.
No primeiro evento (2,1-12), o questionamento é duplo: aos padrões religiosos e aos socioculturais. Os padrões religiosos, com base nos códigos judaicos de pureza, estão superados e se expressam quando se considera o símbolo das seis talhas vazias que trarão o novo vinho, tornando obsoleta a função de purificação. Quanto aos padrões sociais, há uma inversão que torna o arquitriclínio (2,8: avrcitrikli,nw|) obsoleto. Embora a tradução mais frequente para o português dessa palavra seja “mestre-sala” ou “chefe de cerimônia”, esses termos não fazem justiça à menção óbvia ao triclínio, pois se trata do primeiro (avrci), o chefe daqueles que servem o triclínio. Desse modo, servos e discípulos, Maria e Jesus, na festa dos noivos transformam-se em protagonistas do episódio, sugerindo a inversão
e reciprocidade de status e de posição, inclusive dos papéis que o ambiente do
triclínio não podia prever e muito menos admitir. Eis aí a novidade: não se invertem
apenas os status, mas os papéis: Maria intercede, Jesus realiza e todos desfrutam igualmente, do mesmo vinho, sem qualquer discriminação.
O evento da unção em Betânia traduz um cenário com características muito próximas a uma refeição em forma de triclínio. A unção dos pés de Jesus feita por Maria e questionada por Judas Iscariotes aproxima esse texto por demais de Jo 13. Maria acaba sendo um exemplo do que se propõe em Jo 13,14: ela não só lava os pés de Jesus, mas os unge, antecipando simbolicamente o anúncio de sua morte. Ela testemunha uma solidariedade extrema através desse gesto de serviço a Jesus. O evento aqui tem caráter profético e simbólico e está em oposição, como em Jo 13, a Judas Iscariotes, o traidor.
O protagonismo da mulher como pano de fundo e modelo do que será ordenado em Jo 13,14 ainda não explicita a inversão que irá acontecer no gesto realizado pelo próprio Jesus. Em Jo 12 a figura de Maria, irmã de Lázaro, representa a reprodução do papel costumeiramente reservado às mulheres, cujo status está identificado com aquela tarefa, da qual estavam excluídos os homens e os sujeitos de status superior dentro e fora da casa. Isso tudo não precisa estar explícito, mas ao levarmos em conta o que foi levantado a respeito do significado sociocultural que o lava-pés tinha em ambiente doméstico naquele tempo, não é difícil perceber a proximidade dos dois textos. Voltaremos a essa aproximação entre 12,1-8 e 13,1-17 como referência ao protagonismo da mulher no lava-pés no capítulo IV.