2. BÖLÜM: DÜNDEN BUGÜNE ZEKÂT UYGULAMALARI
2.1. Zekât Literatürü
Outra das principais preocupações desta tese encontra-se nas literacias emergentes entre os atores em rede envolvidos com o programa AcessaSP. Neste sentido, tendo feito a análise de como se dão as interações mediadas destes atores com a tecnologia, passa-se a uma questão fundamental no contexto deste trabalho: Que literacias eles têm consciência de estar adquirindo ou desenvolvendo?
Ao serem perguntados sobre o impacto que a Internet tem em suas vidas, dentre outras variáveis, a maioria dos respondentes da PONLINE 2012 concorda, parcialmente ou totalmente, que se diverte muito pela rede (83%); que ela se tornou sua principal fonte de informação (76%); que tem mais facilidade de aprender depois da Internet (71%); e que fica mais à vontade para dizer determinadas coisas pela Internet (65%).
O aprendizado para a utilização da rede também foi avaliado na PONLINE. Neste caso, como já informado anteriormente, o posto do AcessaSP possui papel fundamental, porém, o protagonismo dos atores também é um dado que deve ser ressaltado, já que 40% deles afirmou ter aprendido a utilizar a Internet sozinho. Outros agentes que se sobressaem neste quesito são cursos (30,1%), casa (27,1%), celular (24,7%), escola (20,5%) e amigos (19,2%).
Buscando compreender como pode estar ocorrendo este aprendizado, foram cruzadas as seguintes perguntas: Como aprendeu a utilizar a Internet e Tenho mais facilidade em aprender depois da Internet. O resultado segue na figura 16.
Entre aqueles que discordam em parte ou totalmente que têm mais facilidade em aprender depois da Internet, sobressaem os que o afirmam tê-lo feito sozinhos ou por meio de um curso, numa proporção muito maior do que aqueles que relacionaram o aprendizado com monitores, amigos, escola, trabalho ou parentes. O comportamento, no entanto, não é muito diferente daqueles atores que concordam em parte ou totalmente que têm mais facilidade de aprender depois da Internet, já que neste caso mantém-se dinâmicas muito próximas, como pode ser conferido na figura 16. Em todos os casos, porém, um fator que parece ser importante para esta resposta em relação ao aprendizado é uma postura ativa em relação à sua própria relação com a Internet, onde prevalecem os espaços de aprendizado solitário ou em cursos, seguidos daqueles nos quais é mais favorecida uma relação interpessoal, como amigos, monitores e parentes, ou em ambientes de relações sociais, como a escola e o trabalho. De qualquer maneira, também é interessante notar para aqueles que responderam esta questão que, exceto entre os que concordam em parte, os monitores têm um papel menor no aprendizado em relação aos amigos, escola, trabalho e parentes.
Esta mesma questão, sobre o modo como aprendeu a utilizar a Internet, foi cruzada com outra variável, que buscava compreender se a Internet tornou-se a principal fonte de informação destes atores. O resultado segue na figura 17.
Neste caso, repete-se o comportamento dos dados levantados para questão acima, sobre o aprendizado pós-Internet, ressaltando novamente o protagonismo dos atores do AcessaSP em relação a seu aprendizado, seguido de estratégias que envolvem, nesta sequência, cursos, amigos, escola, trabalho e parentes. Este resultado, assim como poderá ser conferido na figura 18, não apresentou comportamentos substancialmente diferentes quando os atores foram perguntados se ficam mais à vontade para dizer determinadas coisas pela Internet.
Por fim, em relação a este cruzamento sobre aprendizado e impacto da Internet na vida dos atores do AcessaSP, os dados da PONLINE foram cruzados com uma pergunta que questionou os frequentadores se a Internet melhorou sua participação política. A figura 19 demonstra o mesmo padrão de respostas. Entretanto, neste gráfico nota-se uma expressão maior do papel dos amigos e até mesmo um comportamento similar tanto entre os que discordam como entre os que concordam que a Internet melhorou a participação pública e política. Neste caso há uma sequencialidade mais aparente entre os caminhos pelos quais aprenderam a utilizar a Internet, nesta ordem: sozinhos, em cursos, com amigos, escola, trabalho, monitores e parentes.
Como é possível notar nestes comentários, o papel protagonista do ator do AcessaSP em relação ao seu aprendizado é bastante grande. Ao indagar se isto está relacionado à posse de tecnologia e a uma proximidade maior com o computador, esta informação foi cruzada com os dados sobre o impacto da Internet na vida dos frequentadores. O resultado pode ser visualizado nas figuras 20, 21 e 22, exibidas a seguir:
Figura 19: Aprendizado e participação público/política de atores do AcessaSP
Por fim, foi analisado o tempo de uso da rede, conforme pode ser conferido nas figuras abaixo:
Figura 21: Participação política e posse do computador de atores do AcessaSP
Figura 23: Tempo de uso e facilidade em aprender depois da Internet de atores do AcessaSP
Ao perceber que era preciso de outros dados, além destes apresentados acima, para inferir sobre a experiência de desenvolvimento de literacias que estes atores têm na relação
Figura 26: Tempo de uso e a Internet como principal fonte de informação de atores do AcessaSP
com a Internet, uma nova questão foi adicionada à PONLINE em 2012 visando recolher dados sobre as literacias emergentes entre estes atores. Neste caso, optou-se por formular uma questão embasada nos indicadores de Media and Information Literacy da Unesco, como apontado nos referenciais teóricos desta tese – a questão pode ser conferida no Apêndice I, na página 241. Assim, o modelo de análise adotado para este conceito trabalhou com seis dimensões e indicadores, que visam, em linhas gerais, compreender tanto o ponto de vista do acesso à informação e seu uso ético, como a capacidade de compreensão das funções dos
media e o envolvimento racional dos atores com os meios de auto-expressão. Com isto, o
objetivo também foi possibilitar o cruzamento destes dados com outras variáveis já existentes na pesquisa online, o que é apresentado a seguir.
1ª dimensão – Entendimento do papel dos Meios de Comunicação e da Informação na Democracia
Para compreender esta dimensão das Media and Information Literacy, a PONLINE 2012 perguntou se os respondentes concordavam totalmente, concordavam parcialmente, discordavam em parte, discordavam totalmente ou não sabiam responder a seguinte questão:
• Eu percebo que os meios de comunicação (Jornal, Rádio, TV, Sites/Portais na Internet) influenciam a formação da minha opinião.
As respostas demonstram que a maior parte dos atores do AcessaSP (65,93%) concorda totalmente ou parcialmente que os Meios de Comunicação influenciam sua formação de opinião, comparados aos que discordam em parte ou totalmente (25,1%) ou não sabem (8,96%), conforme pode ser verificado na figura 27.
Na perspectiva de entender se o acesso à tecnologia pode influenciar nesta resposta, foi verificado que prevalece, entre os que concordam em parte ou totalmente, os que não possuem em casa dispositivos como computador (34,69%). Porém, prevalecem os que possuem um ou mais celulares. Os que não possuem este aparelho entre os que concordam totalmente ou em parte com a influência dos meios de Comunicação na formação de opinião são 12,44%.
Figura 27: Influência dos media na formação de opinião dos atores do AcessaSP
Figura 28: Posse do computador e influência dos media na formação de opinião de atores do AcessaSP
Como pode ser notado nas figuras 28 e 29, não há indícios para afirmar que a posse de TIC é necessariamente garantia de influência dos meios de comunicação e informação sobre a formação de opinião dos atores do AcessaSP.
Já o tempo de uso da Internet pode influenciar a formação de opinião através dos meios de comunicação e informação? Ao cruzar os dados da questão desta primeira dimensão com o tempo de uso da rede, verificou-se que prevalecem, entre os que concordam totalmente ou parcialmente, os que usam a Internet entre um e três anos, sendo que há uma dinâmica interessante, sendo gradual a resposta entre aqueles que a usam há menos de seis meses (4,4%) até chegar no ápice de um a três anos (16,38%), depois começando a decrescer entre aqueles que usam a rede entre três e cinco anos (15,84%) até chegar àqueles que a usam há mais de 10 anos (8,73%). Isto pode ser indício de que a influência da Internet na formação de opinião sobre os meios é maior durante os primeiros anos de uso da rede, diminuindo à medida que os atores vão conhecendo e experimentando melhor o meio, assim como, consequentemente, se tornando mais críticos e seletivos em relações às informações às quais têm acesso.
Figura 29: Posse de celular e influência dos media na formação de opinião de atores do AcessaSP
Pode haver relação entre a influência na formação de opinião e a forma como aprendeu a utilizar a Internet? O cruzamento destes dados demonstra que são praticamente indiferentes as respostas entre os que concordam e discordam que os meios de comunicação e informação os influenciam. Em todos os casos, sobressai o aprendizado autônomo ou a partir de um curso. Entre os que concordam parcialmente ou em parte com a pergunta chave desta dimensão, afirmaram aprender a utilizar a Internet, nesta ordem: sozinhos, por meio de um curso, com amigos, na escola, com monitor ou atendente em acesso público, com parentes, no trabalho ou outros espaços.
Figura 30: Tempo de uso da Internet e influência dos media na formação de opinião de atores do AcessaSP
Por fim, buscando compreender esta primeira dimensão das literacias e também as dimensões relacionadas à interação mediada por computador, foram cruzados os dados desta primeira questão com as atividades realizadas pelos atores do AcessaSP na Internet.
Também neste caso, o comportamento é praticamente igual entre os que concordam e discordam da afirmação de que os meios de comunicação influenciam sua formação de opinião, prevalecendo, em todos os itens da escala, gradações semelhantes, prevalecendo, nesta ordem, o envio e recepção de e-mail, conversas via mensagens instantâneas, conversas via recados em redes sociais, participação em salas de bate-papo/chat, criação ou atualização de blogs e sites, postagens em micro-blogs, conversas usando programas de mensagens de voz/conferência, participação em listas de discussão ou fóruns ou outros. Os que responderam não realizar nenhuma atividade estão na ordem de 9,8% que concordam totalmente ou em parte; 9,7% para os que discordam totalmente ou em parte; e 10,6% entre os que não sabem. Não parece ser relevante, mas é importante apontar que as porcentagens entre os que discordam totalmente ou em parte em relação à influência dos meios de comunicação na formação de opinião são maiores entre aqueles que afirmaram não realizar nenhuma atividade na Internet.
Figura 31: Aprendizado da Internet e influência dos media na formação de opinião de atores do AcessaSP
2ª e 6ª dimensões – Compreensão dos conteúdos dos Meios de Comunicação e seus usos / Contextualização sociocultural do conteúdo dos Meios de Comunicação Social
Aqui estão reunidas duas dimensões de MIL, avaliadas por meio de uma única pergunta da PONLINE 2012, relacionada ao entendimento do posicionamento e opinião dos meios de comunicação e a influência que isto tem junto ao ator do AcessaSP. A figura 33 demonstra que neste sentido prevalecem aqueles que concordavam totalmente ou em parte com a compreensão da influência que os meios de comunicação e as opiniões e posicionamentos que assumem. São 71,87% entre os que concordam, 17,76% entre os que discordam e 10,36% que não sabem.
Figura 32: Atividades realizadas na Internet e influência dos media na formação de opinião de atores do AcessaSP
Ao cruzar esta questão com outras variáveis, em termos de posse das TIC, se por um lado entre os que afirmam que buscam entender o posicionamento dos meios de comunicação que os influenciam prevalece a inexistência de computador em suas residências, por outro há uma posse expressiva destes mesmos atores de um ou mais aparelhos celulares, como já verificado na primeira dimensão. Também neste sentido, ao verificar as atividades realizadas na Internet e cruzá-las no âmbito da segunda e da sexta dimensões, verifica-se também uma pequena diferença, já que difere a resposta daqueles que concordam em parte ou totalmente. Neste grupo prevalecem aqueles que enviam e recebem e-mail, já no grupo que discorda em parte ou totalmente prevalecem os que, com mais frequência, conversam via mensagens instantâneas.
Sobre o tempo de uso da Internet, os gráficos obtidos a partir das respostas no cruzamento com a pergunta levada em consideração nestas dimensões perfazem uma escala que vai crescendo a partir de um número mais baixo daqueles que responderam usar a rede há menos de 6 meses até atingir o ápice entre os que usam a Web entre três e cinco anos, para, a partir daí, começar novamente a decrescer a partir dos que a usam entre cinco e dez anos, até atingir níveis mais baixos entre os que usam a rede há mais de dez anos. Estes, porém, são ainda em maio número que os que apontaram usá-la há menos de seis meses.
Não há outras questões que sejam indício de influência substancial na formação desta resposta. Neste sentido, não há diferença neste cruzamento quando avaliados os mecanismos de aprendizagem predominantes entre os atores do AcessaSP, ressaltados, como no quadro geral, os que aprendem sozinhos e, em seguida, os que aprendem a partir de um curso.
Figura 33: Entendimento da influência dos media na formação de opinião de atores do AcessaSP
3ª dimensão – Acesso à informação de maneira eficaz e eficiente
Numa dimensão sobre acesso eficaz e eficiente da informação, a PONLINE perguntou se o ator do AcessaSP busca diferentes fontes de informação antes de formar sua opinião. Esta perspectiva de acesso, por sua vez, mostrou ser um índice relevante, já que a maioria respondeu concordar totalmente ou concordar em parte sobre este tipo de postura. Como pode ser visto na figura 34, os que discordam em parte ou totalmente não ultrapassam 14% e os que não souberam responder não chegam a 8%.
Na terceira dimensão, no entanto, não há diferenças em relação às dimensões apresentadas anteriormente, verificando situações muito similares em relação a posse às TIC, tempo de uso da Internet e forma de aprendizado. Interessante notar, inclusive, que quando se trata das atividades de comunicação realizadas na Web nos últimos três meses, também há a mesma dinâmica de alteração entre os que costumam mais frequentemente enviar e receber e- mails e os que mais conversam via mensagens instantâneas.
4ª dimensão – Avaliação crítica da informação e suas fontes
A quarta dimensão de MIL pode ser avaliada por meio de uma pergunta da PONLINE que questionou a capacidade dos atores do AcessaSP de avaliação crítica das informações que têm acesso nos media. O resultado é indício de que há uma auto-percepção que eles se sentem capazes de proceder este tipo de olhar mais criterioso para meios como Jornal, Rádio, TV e Internet. Os que concordavam totalmente ou em parte são 77,83%,
enquanto há 12,85% entre os que discordam em parte ou totalmente e 9,32% que afirmaram não saber responder a pergunta, como pode ser visto na figura 35.
Também na quarta dimensão os comportamentos dos índices nos cruzamentos com outras variáveis se repetem, tanto em relação à posse das TIC, como tempo, aprendizado e atividades de comunicação frequentes na Internet.
5ª dimensão – Aplicação de novos e tradicionais formatos de mídia
Numa dimensão que busca compreender a capacidade criativa dos atores em rede, a PONLINE perguntou sobre a capacidade de utilizar a Internet para expressão e comunicação, o que no conceito de MIL está voltado para o entendimento da aplicação de novos e tradicionais formatos de mídia. Nesta questão, no entanto, diferente das dimensões anteriores, nos índices entre os que discordam e concordam não houve algum deles que se ressaltasse de forma significativa. Ainda assim, prevalecem os que discordavam totalmente ou em parte, com quase 50% dos respondentes. Os que concordavam são 37,33% e os que não sabiam 13,59%.
O comportamento dos dados neste gráfico é bastante diferente dos demais, onde prevalecia uma postura mais ativa de compreensão dos meios de comunicação e da Internet entre os atores do AcessaSP. O cruzamento com as variáveis, entretanto, assim como nas questões anteriores, não demonstrou nenhum indício relevante de influência nesta resposta.
Assim, pode-se afirmar ser evidente que estes atores possuem uma propensão maior para uma compreensão crítica dos meios e da Internet, assim como de seu contexto, do que uma postura produtiva em relação a estes meios, já que, como esta dimensão revela, é menor o número daqueles que se sentem capazes de atuar numa direção de expressão e comunicação com outros grupos.