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2.4. Kültürel Zekâ

2.4.1. Zekâ Kavramının Tanımı ve Gelişimi

No dia 25 de março de 1894, o La Prensa de Buenos Aires publicou uma matéria com o título “Defesa Militar e Sanitária do Rio da Prata: ilhas artificiais – lazaretos”. Discutiam-se os benefícios que adviriam da construção de uma ilha artificial para alocar um novo lazareto no estuário do Rio da Prata. Até aquele momento, o processo de desinfecção de bagagens e quarentenas de observação dos passageiros era realizado na ilha de Martín García e a quarentena de rigor era executada no hospital flutuante Rodolfo del Viso. (ALVAREZ, 2004). Porém, na concepção difundida naquele periódico, a localização dessa ilha não seria a mais adequada, pois estava posicionada mais acima no rio do que a própria cidade. Isso poderia acarretar problemas de saúde pública, uma vez que a correnteza poderia trazer doenças para a cidade através das águas, “meio onde os micróbios se desenvolvem e são transportados”.

A própria matéria relativizava esses perigos epidêmicos em função do grande volume de água e da força da correnteza do rio, que se encarregaria de “dissolver os germes” e fazer os “micróbios se perderem” até o mar. Contudo, quando ventava forte de sudeste as águas ficavam “detidas” e “não seguiam seu curso natural”. Desde a implantação do lazareto em Martín García, nunca havia ocorrido nenhuma epidemia grave, porém, isso não garantia que problemas não pudessem ocorrer no futuro. Além disso, a ilha artificial seria facilmente empregada com fins militares em tempos de guerra.311

O temor de alguma epidemia, sobretudo de doença pestilencial exótica (febre amarela, cólera e peste), ocupava os jornais da época. No final do século XIX, a defesa da saúde pública era tão importante quanto defender o território nacional em uma guerra. A proteção contra moléstias importadas começava no controle sobre os navios, populações e bagagens que chegavam aos portos. A Argentina, signatária da Convenção Sanitária Internacional de

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BNA – Buenos Aires. La Prensa. 25.03.1894. Consultado em microfilme. Esse periódico possuía uma orientação política elitista com fortes vínculos com o governo, pois reproduzia diversos documentos oficiais.

1887 junto com o Brasil e Uruguai, procurava exercer esse controle na principal entrada do país: o porto de Buenos Aires.312

No início de 1894, o Departamento Nacional de Higiene da Argentina era presidido pelo médico J. M. Ramos Mejía. O departamento se estruturava de acordo com as normas estabelecidas na convenção de 1887. Assim, contava com médicos inspetores, que realizavam as visitas sanitárias aos navios, e com uma rígida organização que separava as embarcações em quarentenas de rigor e observação. Os médicos inspetores eram os responsáveis pela execução de todas medidas necessárias para garantir a saúde dos passageiros e tripulantes: visitavam a enfermaria, conferiam os diários de bordo, aconselhavam cuidados pessoais, exigiam o isolamento de doentes e vigiavam todo o processo de desinfecção anotando os procedimentos em seus diários para acompanhar a evolução das moléstias. A quarentena de observação mantinha o navio em detenção o tempo necessário para realizar uma rigorosa visita sanitária a bordo; a quarentena de rigor procurava “isolar passageiros com moléstia pestilencial exótica em período de incubação e proceder à desinfecção de objetos suspeitos de se prestarem à transmissão da doença”. (REBELO, 2010, p. 138).

A quarentena de rigor era imposta aos barcos que apresentassem casos de doenças exóticas, ou que tivessem tocado algum porto com surto epidêmico.313 Ora, como vimos, este

era o caso do Rio de Janeiro. Naquele verão de 1894, o mesmo La Prensa, de 25 de março, informava que no dia 19 daquele mês morreram 57 pessoas de febre amarela no Rio de Janeiro; no dia 20, outras 49; no dia 21, 47 óbitos; no dia 22, mais 51 pessoas haviam falecido. Ou seja, em quatro dias a febre amarela matou 204 pessoas naquela cidade. Não é de se estranhar, portanto, que os vapores Clayde, Equatuer e Boston City estivessem cumprindo quarentena de rigor em Buenos Aires por terem tocado o porto do Rio de Janeiro e apresentar casos de febre amarela. Da mesma forma, a corveta inglesa Sirius cumpria os procedimentos de profilaxia no lazareto uruguaio da ilha de Flores, por ser proveniente do Rio de Janeiro e !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Chaves (2008, p. 124) e Rebelo (2010, p. 140) afirmam que a convenção foi extinta em 1893. Porém, Alvarez (2004, p. 303) mostra que a estrutura do Departamento Nacional de Higiene da Argentina continuou a trabalhar com a mesma orientação profilática até 1895, quando as quarentenas foram suprimidas por serem consideradas medidas antieconômicas. Sobre o impacto econômico das quarentenas, a tese de Fernanda Rebelo (2010) faz uma comparação dos modelos de fiscalização dos passageiros em navios no Brasil, Estados Unidos e Inglaterra. Este último país se opunha às quarentenas por considerar meio ineficaz e antieconômico no controle de doenças. Em vez de quarentenas, preferiam corrigir as deficiências do meio através de medidas de saneamento como forma de prevenção às doenças. Em Portugal, Domingos José Bernardino d’Almeida (1891) condenava a ineficácia das quarentenas e seu prejuízo econômico. O impacto das políticas de saúde pública nas relações entre Brasil e Portugal foi trabalhado por Moreno (2002). Na Espanha, Bonastra (2000) mostra como as disposições contrárias às quarentenas eram consubstancializadas nas proposições liberais, que defendiam as concepções anticontagionistas, em oposição aos absolutistas, defensores do contagionismo e ferrenhos adeptos das quarentenas, lazaretos e cordões de isolamento.

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Sobre esse assunto ver: BONASTRA, 2000; ALVAREZ, 2004; SANTOS, 2007; REBELO, 2010. Agradeço ao professor Jaime Benchimol pela indicação deste último texto.

apresentar dois doentes de febre amarela.314 Portanto, era esperado que a chegada da Mindello

e da Affonso d’Albuquerque fosse acompanhada de perto pelas autoridades do porto de Buenos Aires.

O Regulamento Sanitário Marítimo vigente na época exigia que fosse enviado um inspetor de saúde até os barcos para acompanhar os procedimentos. Assim, o presidente do Departamento Nacional de Higiene, J. M. Ramos Mejía, enviou um documento ao comandante Francisco de Paula Teves para indicar o médico Enrique A. Zárate, e o guarda sanitário N. Orellana, como responsáveis pela verificação sanitária da Afonso de Albuquerque e submeterem a corveta a uma rigorosa desinfecção. O documento aproveitava para informar que, em função da procedência da corveta, a quarentena de rigor seria de 10 dias. Este documento foi entregue em mãos ao comandante quando os dois designados para desinfecção foram até a corveta, às 16h do dia 25 de março.315

Em seguida, um membro da redação do jornal La Prensa foi enviado para averiguar – dentro das possibilidades abertas pelas medidas sanitárias, pois não poderia haver contato físico com os navios em quarentena – se Saldanha da Gama estava a bordo da Affonso

d’Albuquerque. A chegada de um dos líderes da revolta contra o governo brasileiro era

aguardada com muita expectativa em Buenos Aires, pois, como vimos, muitos políticos da oposição estavam exilados naquela capital. Com a autorização do Departamento Nacional de Higiene, o repórter embarcou no pequeno vapor Volga acompanhado do guarda sanitário Sr. Pereda. No caminho até o espaço marítimo destinado à quarentena, o vapor cruzou pela bombardeira argentina Picomayo, responsável pela vigilância dos navios isolados, e entregou- lhe o ofício que autorizava a entrevista.

O vapor carregando o repórter do La Prensa se aproximou da Affonso d’Albuquerque até uma distância que o guarda sanitário Pereda considerou segura, e foi recebido pelo comandante Francisco de Paula Teves, “[...] um homem de alguma idade, de longas barbas brancas e de presença varonil”, que informou que Saldanha da Gama estava a bordo da

Mindello e chegaria no dia seguinte. Por isso, a entrevista foi realizada com um oficial

brasileiro que o repórter não conseguiu ouvir o nome, por causa dos ruídos do mar e do vento. A entrevista foi curta devido ao avançado da hora, mas entre as informações obtidas destacam-se: que a situação sanitária a bordo era boa, mesmo com a superlotação; que os !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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BNA – Buenos Aires. La Prensa. 25.03.1894. Consultado em microfilme. O jornal Diário Illustrado de Lisboa, talvez exagerando as cifras, cita que chegariam a 200 mortes diárias de febre amarela no Rio de Janeiro. Ver: HM – Lisboa. Diário Illustrado. 27.03.1894.

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Ofício de J. M. Ramos Mejía para Francisco de Paula Teves. 25.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 289; SÁ, 1894, vol. III, p. 284-285.

oficiais brasileiros acreditavam que após a quarentena de dez dias todos desembarcariam em Buenos Aires; e que não havia planos de se afastarem da capital portenha, ao menos por enquanto.316

Figura 13 – Ilustração da bombardeira argentina Pilcomayo

Fonte: Disponível em: <www.histarmar.com.ar>. Acesso em: 26 set. 2013.

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Figura 14 – Foto de arma principal da canhoneira Pilcomayo, o canhão Armstrong de 240mm

Fonte: Disponível em: <www.histarmar.com.ar>. Acesso em: 26 set. 2013.

A Mindello chegou em Buenos Aires no fim do dia 26. Na manhã seguinte, levantou âncora e foi fundear ao lado da Affonso d’Albuquerque, que estava com o bandeira a meio mastro. Ao sul da Mindello era possível ver a cidade ainda coberta pela neblina e protegida pelo cruzador 9 de Julio, pelo encouraçado Independencia e por uma canhoneira (possivelmente a Pilcomayo), todas embarcações da marinha argentina.317 Mais tarde, por

meio de um ofício do comandante Francisco de Paula Teves para o comandante Augusto de Castilho, soube-se o motivo da bandeira a meio mastro: um dos asilados, o aspirante de primeira classe Jonathas Rodrigues Loureiro Fraga, de apenas 19 anos, havia morrido de “congestão pulmonar.”318

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COSTA, 1944, p. 302. [anotação de 27 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 318

Ofício de Francisco de Paula Teves para Augusto de Castilho. 27.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 295; SÁ, 1894, vol. III, p. 281-282.

Figura 15 – Fotos do encouraçado Independencia da marinha argentina

Fonte: Disponível em: <www.histarmar.com.ar>. Acesso em: 26 set. 2013.

No mesmo dia 27, o La Prensa publicou uma matéria sobre a condição sanitária de várias embarcações que naquele momento realizavam quarentena. A situação da Affonso

d’Albuquerque foi descrita em entrevista pelo médico Enrique A. Zárate: a maior parte dos passageiros era formada de jovens, cheios de vida, mas com a saúde debilitada pelas

privações da guerra; mal alimentados; com poucas roupas; e desejosos de chegar em terra o quanto antes. O inspetor de saúde sentia pena de ver tão distinta oficialidade numa situação que não havia como remediar por falta de espaço. Em sua opinião, todos deveriam ser encaminhados ao lazareto de Martín García para realizar os procedimentos profiláticos, impossíveis de realizar-se a bordo, pois a corveta não possuía estufa de desinfecção.319

Logo que tomou conhecimento da opinião médica da necessidade de que a Mindello e

Affonso d’Albuquerque realizassem quarentena no lazareto de Martín García, o Visconde de

Faria encaminhou um ofício confidencial para o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Eduardo Costa, solicitando que os refugiados cumprissem o período quarentenário a bordo das corvetas, pois havia recebido ordens categóricas do seu governo para não deixar desembarcar ninguém. O ministro argentino, por sua vez, também por meio de um ofício confidencial, encaminhou o pedido do diplomata ao prefeito marítimo, Carlos A. Mansilla, explicando que os refugiados políticos não podiam desembarcar e solicitava que fossem dadas ordens no sentido desejado pelo encarregado de negócios de Portugal. Carlos Mansilla encaminhou a ordem para o ajudante maior da Prefeitura Marítima, A. Losanz, que designou !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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BNA – Buenos Aires. La Prensa. 27.03.1894. Consultado em microfilme. Rebelo (2010, p. 139) comenta que as estufas de desinfecção estavam presentes nos lazaretos e hospitais flutuantes para desinfetar roupas, bagagens e demais objetos com vapores d’água.

o segundo ajudante Francisco Carballido para notificar pessoalmente os emigrados brasileiros sobre a impossibilidade do seu desembarque por “decreto superior”.320 Uma ordem

semelhante também foi expedida pelo ministro Eduardo Costa para o presidente do Departamento Nacional de Higiene, J. M. Ramos Mejía, responsável direito pela quarentena dos navios, para evitar o desembarque dos refugiados políticos.321

Figura 16 – Fotos do cruzador 9 de Julio da marinha argentina

Fonte: Disponível em: <www.histarmar.com.ar>. Acesso em: 26 set. 2013.

O caminho percorrido por essa ordem evidencia como as instituições argentinas percebiam os refugiados na Mindello e na Affonso d’Albuquerque. Para o Departamento Nacional de Higiene, antes de mais nada, aquelas pessoas eram passageiros que deveriam ser submetidos a rígido controle sanitário. O Ministério das Relações Exteriores da Argentina os considerava refugiados políticos, assim como outros tantos que já residiam naquela cidade, e só por uma gentileza do ministro Eduardo Costa o desembarque foi proibido. A Prefeitura !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Ofício confidencial do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 28.03.1894. Ofício confidencial de Eduardo Costa para Carlos A. Mansilla. 29.03.1894. Nota de Carlos A. Mansilla para A. Losanz. 29.03.1894. Nota de A. Losanz para Francisco Carballido. 30.03.1894. A ordem não pôde ser cumprida imediatamente porque as corvetas estavam em quarentena imposta pelo Departamento Nacional de Higiene. Somente depois que as embarcações fossem liberadas por aquele departamento e se dirigissem ao porto de Buenos Aires, a “ordem superior” poderia ser executada. No final, como vimos, as corvetas receberam ordens de sair das águas argentinas. Por isso, Francisco Carballido explicou ao seu superior porque não pode executar aquela ordem (nota de Francisco Carballido para A. Losanz. 09.04.1894). Todas essas notas trocadas estão disponíveis em: AHC/Caja 562/Carpeta 1/Legacion y Consulado de Portugal-1894.

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Não encontramos o original desse documento. Apenas tivemos conhecimento de sua existência e conteúdo por referência cruzada: nota de J. M. Ramos Mejía para Eduardo Costa. 30.03.1894. Disponível em: AHC/Caja 562/Carpeta 1/Legacion y Consulado de Portugal-1894. [grifo nosso]

Marítima, por sua vez, os classificava como emigrados, que nada mais são do que refugiados políticos. (PAULO, 2009; SZNAJDER, RONIGER, 2009).

Ainda naquela terça-feira, 27 de março, o jornal La Prensa enviou um repórter para confirmar se Saldanha da Gama estava realmente entre os asilados brasileiros abordo da

Mindello. Com alguma dificuldade para se vestir, em função do ferimento no ombro esquerdo

que recebeu no combate de Niterói, o almirante Saldanha da Gama conversou com o enviado do periódico argentino depois de recusar outras entrevistas. O repórter descreveu o almirante como “um homem jovem, que não aparenta ter mas do que 40 anos, tem um aspecto aberto e simpático”. Entre as informações obtidas diretamente com Saldanha da Gama estava a confirmação do número total de refugiados na Mindello: 267 pessoas, dentre as quais 156 oficiais e guardas marinhas e 111 marinheiros.322

No dia seguinte, 28 de março, o presidente do Departamento Nacional de Higiene da Argentina, J. M. Ramos Mejía, acompanhado do seu secretário, Nicolas Lozano, resolveu inspecionar o fundeadouro de quarentena a bordo do pequeno vapor de aviso Argentino. Segundo o jornal La Prensa, o objetivo era visitar o novo navio de guerra designado pelo Estado Maior da Marinha para realizar a vigilância sobre as embarcações em quarentena. Tratava-se do cruzador 25 de Mayo comandado pelo capitão de fragata Atilio Barilari. Nesta visita, acompanhada por membros da imprensa, chamou a atenção de todos o asseio impecável do cruzador argentino. As instruções que o navio de guerra colocaria em prática no cumprimento de suas atribuições de vigilância resumia-se em sete artigos:

1) Os navios submetidos a tratamento sanitário deveriam ancorar no fundeadouro de quarentena, que não deveria ultrapassar um determinado espaço, de uma maneira que o cruzador pudesse realizar vigilância permanente durante o dia e à noite. 2) Salvo o vapor de sanidade que praticava a visita diária, nenhuma embarcação

poderia dirigir-se a um navio em quarentena sem permissão correspondente. 3) Toda embarcação que se aproximasse de um navio em quarentena para se

comunicar, entregar mantimentos, realizar operações de carga e descarga, etc., deveria apresentar ao cruzador 25 de Mayo uma autorização do Departamento Nacional de Higiene, assinado pelo presidente ou secretário, especificando o tipo de operação a ser realizada. Somente com essa autorização seria permitida a passagem.

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4) As embarcações que infringissem os dois artigos anteriores seriam obrigadas a fundear perto do cruzador e permanecer em quarentena, avisando-se o Departamento.

5) Nos vapores menores, que estivessem carregando víveres aos navios à vela em quarentena, seria obrigatório o embarque de um guarda que vigiaria a entrega das provisões. A referida guarda não permitiria que baixassem pessoas, ou objeto algum, dos navios quarentenários enquanto durasse a operação, a qual deveria ser realizada por meio de botes.

6) O médico de sanidade em serviço ficaria responsável por repassar diariamente ao comandante do cruzador as informações referentes aos navios que recebessem “prática livre”, assim como os que permanecessem em quarentena.

7) As comissões de urgência enviadas pelo Departamento durante a noite seriam atendidas imediatamente pelo cruzador.

Em sua visita ao fundeadouro da quarentena, J. M. Ramos Mejía, resolveu visitar as embarcações portuguesas e ver pessoalmente o estado sanitário delas. A reportagem do La

Prensa comentou que o vapor Argentino se situou a uma distância conveniente da corveta Mindello e manteve diálogo com Augusto de Castilho. O almirante Saldanha da Gama,

alegando indisposição em função dos seu ferimento, não atendeu o chamado do presidente do Departamento Nacional de Higiene para uma conversa. Nesta oportunidade, o comandante português apresentou sua recusar verbal em permitir o desembarque dos passageiros sem ordens diretas do seu governo.323

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BNA – Buenos Aires. La Prensa. 29.03.1894. Consultado em microfilme. O aspirante Roberto de Barros registrou esta visita em seu diário da seguinte forma: “Vieram hoje cá, num rebocador, o Chefe de Saúde e diversos oficiais argentinos. De noite, chegou aqui a bordo o médico de observação sanitária”. COSTA, 1944, p. 302. [Anotação de 28 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros].

Figura 17 – Vapor de aviso Argentino da marinha argentina

Fonte: Disponível em: <www.histarmar.com.ar>. Acesso em: 26 set. 2013.

Figura 18 – Cruzador 25 de Mayo da marinha argentina

Fonte: Disponível em: <www.histarmar.com.ar>. Disponível em: 26 set. 2013.

Nesta ocasião, J. M. Ramos Mejía entregou um ofício para o comandante Augusto de Castilho indicando o médico Emilio Cardalda e o guarda sanitário Alberto Robert para ajudar o médico de bordo da Mindello a verificar a “rigorosa desinfecção a que deve submeter-se o navio”. Também indicou a necessidade de cumprir uma quarentena de rigor de 10 dias em

função do porto de procedência da corveta. Se o comandante considerasse dispensáveis os serviços desses funcionários, eles tinham ordens de se retirar.324

Este não foi o caso, e Augusto de Castilho permitiu que os enviados realizassem o seu trabalho. Após a vistoria, o inspetor sanitário Emilio Cardalda encaminhou ao Departamento Nacional de Higiene um ofício relatando as condições de saúde da Mindello. Esse inspetor e o Guarda Sanitário Alberto Robert chegaram até o navio pelo pequeno vapor Cardiff. O relatório recuperava as informações de que o navio aportou no Rio de Janeiro em 18 de agosto de 1893, proveniente de Angola, e que permaneceu naquele porto até o dia 18 de março de 1894. Neste período houve 13 casos de febre amarela entre a tripulação, sendo os infectados imediatamente enviados para hospitais em terra no Rio de Janeiro. O documento informava que desde o dia 8 de março não havia casos de febre amarela a bordo, mesmo que a embarcação estivesse superlotada com 417 pessoas a bordo (267 passageiros e 150 homens de tripulação). Sobre as condições de higiene, Cardalda apontava que deixavam muito a desejar em função da superlotação. Essa condição anti-higiênica era pior nos homens de baixa patente porque não tinham roupas para trocar e estavam sujeitos às intempéries. Ao contrário, alguns alto oficiais conseguiram embarcar com roupas sobressalentes, o que lhes permitia um maior asseio. O médico assinalava que somente a imunidade adquirida no próprio Brasil poderia explicar a ausência de uma epidemia de febre amarela entre os passageiros a bordo. Porém, com aquela aglomeração, não seria surpresa se rompesse algum surto epidêmico nos próximos dias. Por fim, recomendava que as pessoas fossem enviadas para outro lugar para realizar plenamente a missão de desinfecção que lhe foi confiada pelo Departamento Nacional