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Historicamente a soberania está relacionada com a origem do Estado moderno. No âmbito interno, ela se constituiu como uma oposição aos múltiplos poderes da época medieval através da noção de “direitos reservados ao Príncipe”. (ESPADA, 1995, p. 104). No que diz respeito à esfera externa, a soberania se afirmou negando qualquer poder superior ao seu, sobretudo na relação com a Igreja e o Império.

Entre os séculos XV e XIX, os novos territórios descobertos, assim como os “corredores” marítimos, foram intensamente disputados pelos impérios europeus. Nesse contexto, os navios exerceram papéis fundamentais de transportar e representar o Estado. A figura do comandante, por exemplo, representava a mesma ordem e disciplina que o soberano em seu território, até porque estava investido com todos os poderes necessários para assegurar a tranquilidade a bordo. Assim, acatar as normas estipuladas pelo comandante era considerado o mesmo que respeitar as leis do país de origem. A cultura jurídica viajava junto com os agentes do Império. (BENTON, 2010).

Os comandantes da Mindello e da Affonso d’Albuquerque personificaram esta obediência ao soberano. Tanto Augusto de Castilho quanto Francisco de Paula Teves receberam instruções para não deixar ninguém desembarcar em outro território que não português. Se os comandantes concordavam ou não com esta diretriz é outra questão. Independentemente de suas convicções pessoais, as ordens eram para coibir o desembarque dos brasileiros.

Mesmo que as corvetas portuguesas estivessem em águas territoriais da República Argentina, o princípio de extraterritorialidade dos navios de guerra garantia aos comandantes o privilégio de não se submeter às leis locais. Todos indivíduos, de qualquer nacionalidade, que estivessem a bordo da Mindello e Affonso d’Albuquerque deviam obediência aos

respectivos comandantes e às leis portuguesas. Não seria exagero afirmar que a bordo das corvetas imperava a soberania portuguesa.

Contudo, aquele episódio da tentativa de fuga que um grupo de asilados realizou no palhabote argentino Pepito Donato gerou um interessante debate. Quais seriam os limites da extraterritorialidade dos navios de guerra? A soberania portuguesa estava circunscrita apenas às dimensões espaciais das suas corvetas? Quando terminava a soberania portuguesa e quando começava a imperar a argentina? O conflito ocorrido entre brasileiros e portugueses a bordo de uma embarcação argentina deveria ser investigada por quem? Estas são algumas perguntas que ambos governos se faziam sobre aquele acontecimento.

O governo argentino, ciente de seus direitos e responsabilidades em suas águas territoriais, enviou nota oficial ao diplomata português, Visconde de Faria, exigindo satisfações sobre aquele episódio. O documento expunha que o comandante do cruzador argentino 25 de Mayo, Atilio Barilari, recebera a notícia, por meio de vários emigrados

políticos brasileiros asilados no palhabote Villa Colon, de que um outro grupo, de mais de 30

“companheiros de causa”, havia se refugiado na Pepito Donato, “de bandeira argentina”, e foram retirados à força desta embarcação por um bote armado da Affonso d’Albuquerque, sendo reconduzidos para bordo desta corveta. O ofício explicou a motivação da reclamação e a solicitação de que aquelas pessoas “aprisionadas” fossem entregues:

Como Sua Senhoria facilmente compreenderá este caso reveste transcendental importância, porque se trata de um atropelo inusitado e de uma violação a soberania territorial e, o governo argentino, não pode de nenhuma maneira aceitar em silêncio esse proceder, agravado ainda mais, por haver se produzido em águas nacionais e contra um navio que arvorava a bandeira argentina.433

Este protesto formalizou o início de um conflito diplomático pouco conhecido entre Portugal e a Argentina. Bueno (1995, p. 205) afirmou que este foi um “incidente de pouco alcance”. A disputa, em sua essência relacionada aos conceitos de extraterritorialidade e soberania, tinha como cenário a tentativa de fuga dos brasileiros que saltaram para bordo do

Pepito Donato. Porém, esse episódio também nos ajuda a compreender como os governo de

Portugal e da Argentina percebiam e conceituavam aqueles indivíduos.

A princípio, a estratégia do Visconde de Faria foi ganhar tempo até garantir que os brasileiros, finalmente, fossem conduzidos para território português por meio do transporte

Pedro III, fretado com este propósito. Assim, o diplomata português respondeu ao ministro

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Ofício de Eduardo Costa para o Visconde de Faria. 11.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 3-4. Uma versão em espanhol foi publicada em: La Prensa. 13.04.1894. BNA – Buenos Aires. Consultado em microfilme.

das Relações Exteriores da Argentina que informaria seu governo sobre aquela reclamação, e esperava que a solução fosse rápida e honrosa para ambas as nações.434

A estratégia de ganhar tempo foi percebida por Saldanha da Gama. No mesmo dia em que o almirante recebeu o ofício do capitão-tenente Joaquim Franco, sobre a tentativa de fuga da Pepito Donato, enviou uma correspondência para Gaspar Silveira Martins, líder civil da Revolução Federalista que residia em Montevidéu e circulava por Buenos Aires.435 Nesse

documento, Saldanha da Gama recuperava decisão de desobrigar seus companheiros de asilo “de qualquer dever de cortesia ou de pessoal dedicação, deixando-os livres para procederem conforme melhor entendessem”. O resultado dessa resolução, como vimos, foram as fugas de 8 e 9 de abril. Segundo o almirante,

deste navio, a Mindello, houve uma escapada de cerca de 122 companheiros, sem acidente desagradável, por isso que o comandante e oficiais tiveram a sábia prudência de evitar todo e qualquer ato de repressão; outro tanto, porém, não aconteceu a bordo da Affonso d’Albuquerque. Ali houve repressão à mão amada dentro e fora do navio, o que deu lugar a conflitos bastantes desagradáveis. Do que se passou fora daquele navio, está Vossa Excelência informado, porque já se tornou motivo de reclamação diplomática por parte do governo argentino.

A correspondência de Saldanha da Gama também orientava Silveira Martins para que não fosse pessoalmente até as corvetas, pois seria complicado estabelecer diálogo naquelas circunstâncias. O almirante receava que a vinda de outra embarcação de Buenos Aires proporcionasse novo incidente com os navios portugueses. A melhor solução seria explorar o conflito diplomático entre Portugal e a Argentina, pois “se Portugal cede quanto à entrega dos 30 asilados, arrancados à força de bordo do palhabote argentino, tenho motivos para crer que desembarcaremos todos de uma forma ou de outra.”436

Essa carta de Saldanha da Gama nos ajuda a entender as estratégias dos brasileiros a bordo das corvetas. Ao mesmo tempo em que estavam aguardando a solução do transporte !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 12.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 4. Uma versão em espanhol foi publicada em: La Prensa. 13.04.1894. BNA – Buenos Aires. Consultado em microfilme.

435

!!A carta do almirante acusava o recebimento, no dia anterior de uma missiva do chefe federalista datada de 9 de abril, o que reforça a apontada comunicação entre exilados brasileiros residentes na Argentina e Uruguai e os asilados nas embarcações portuguesas. Neste caso, o agente responsável pela entrega da correspondência de Gaspar Silveira Martins para Saldanha da Gama foi Antônio Francisco dos Santos Abreu, 1o Barão dos Santos Abreu, natural de Pelotas e pai do Dr. Antônio Francisco dos Santos Abreu, que compartilhava com o almirante Saldanha da Gama o asilo a bordo da Mindello. Outras vezes, como vimo, a troca de mensagens ficava a cargo de Manuel Floriano Correia de Brito, amigo de Rui Barbosa que frequentemente se dirigia até as corvetas para trocar correspondências com os asilados. Sobre o Barão dos Santos Abreu, ver: PORTO ALEGRE, 1917, p. 213.

436

Carta de Saldanha da Gama para Silveira Martins. 14.04.1894. Disponível em: ABRANCHES, 1914, p. 47- 53; AXT; COSTA; MARTINS, 2009, p. 53-57.

fretado para levá-los até território português, os refugiados também acompanhavam de perto as notícias referentes ao conflito diplomático, procurando meios de tirar vantagens daquela negociação para conseguir o desembarque.

Após alguns dias sem nenhuma resposta do governo português sobre a reclamação diplomática, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Eduardo Costa, enviou novo ofício para o Visconde de Faria. O documento cobrava um posicionamento de Portugal sobre a “violação do território argentino pelo chefe dos barcos Mindello e Affonso d’Albuquerque”, pois seria muito inconveniente que as corvetas deixassem o Rio da Prata antes de solucionar aquele incidente.437

O encarregado de negócios de Portugal respondeu apenas no dia seguinte alegando motivos de saúde. Em um primeiro momento, o Visconde de Faria dizia “não compreender os receios” do ministro de que as corvetas deixassem o Rio da Prata. De acordo com o diplomata, isso não poderia nem remotamente influir na solução da reclamação argentina. Na segunda parte da nota, o representante português dizia que estava reunindo todas as informações possíveis sobre aquele episódio, e também já despachara ordens para que a

Mindello permanecesse no Rio de Prata com os refugiados da reclamação em seu bordo, até

que houvesse uma solução para o caso.438

Contudo, essa réplica do encarregado de negócios de Portugal chegou depois que o ministro Eduardo Costa já havia enviado uma segunda solicitação de resposta à nota emitida em 11 de abril.439 Ao receber o novo ofício, e já tendo contestado ao anterior, o Visconde de

Faria se limitou a tranquilizar o ministro argentino de que em nenhum caso faltaria com a cortesia de respondê-lo.440

Somente no dia 21 de abril que o Visconde de Faria se considerou habilitado para responder à nota ministerial argentina do dia 11 daquele mês. O documento retomava com exatidão os mesmos conceitos utilizados por Eduardo Costa para formalizar sua reclamação diplomática, que qualificava os brasileiros fugidos como emigrados políticos asilados. O encarregado de negócios de Portugal dizia sentir que apenas uma informação, sem nenhum caráter oficial, repassada ao comandante do cruzador 25 de Mayo por dois revolucionários evadidos da corveta Affonso d’Albuquerque, fosse o suficiente para “levantar o espírito do !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Ofício de Eduardo Costa para o Visconde de Faria. 17.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 4.

438

Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 18.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 5.

439

Ofício de Eduardo Costa para o Visconde de Faria. 18.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 5.

440

Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 19.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 6.

governo argentino, a preocupação de um agravo praticado contra sua soberania territorial por uma nação amiga”. O diplomata desculpava-se com o ministro pela demora em responder à nota, mas “não podia trabalhar apenas com a denúncia de dois revolucionários colocados como fora da lei, e fugidos de má fé do asilo que incondicionalmente aceitaram”. Por isso, somente depois de um minuciosa investigação que o Visconde de Faria se sentiu apto a contestar a nota de Eduardo Costa. O ofício prosseguia recuperando praticamente as mesmas informações do corpo de delito, salientando que não havia bandeira alguma hasteada e que o número de evadidos, na realidade, não ultrapassava oito pessoas. Uma novidade trazida pelo documento foi a informação de que as cordas que ligavam o palhabote à corveta foram cortadas, efetivamente, por ordens do oficial português que estava a bordo, para evitar que mais asilados pulassem para a goleta. O ofício concluía dizendo que aqueles fatos ocorreram sob a legítima autoridade portuguesa, pois

havendo os asilados, que se entregaram a nossa jurisdição e que estavam sob a guarda e responsabilidade das nossas forças navais, procurado evadir-se de má fé, saltando para dentro do palhabote, tendo ali travado luta com nossos marinheiros e usado da força, agredindo-lhes com facas e navalhas, procurado cortar as espias e desatracar o palhabote contra nossa autoridade legítima; tendo, nessas circunstâncias, em ato contínuo (e sem que os asilados tivessem chegado a sair da nossa ação e fiscalização) sido reprimida a agressão e assegurada nossa autoridade sobre eles, e não sendo este um caso de extradição, é evidente que nenhuma razão fundada teria o governo português para mandar entregar os ditos asilados ao governo argentino, faltando a declaração que fez ao governo brasileiro de que somente os desembarcaria em território português.441

Assim que Eduardo Costa recebeu este ofício do Visconde de Faria, ele procurou responder ao diplomata que, devido às “informações contraditórias” expressas naquela nota, o Ministério das Relações Exteriores da Argentina realizaria uma prolixa investigação para apurar aquelas denúncias. O ministro, porém, solicitava que até o término do incidente os indivíduos que motivaram aquela reclamação permanecessem no Rio da Prata “posto que não seria correto que, se resultasse que foram indevidamente apreendidos, não fosse possível dar- lhes a liberdade a que teriam perfeito direito”.442 O Visconde de Faria não perdeu a

oportunidade de relembrar Eduardo Costa que aquela ordem fora dada anterior e

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Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 21.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 6-8.

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Ofício de Eduardo Costa para o Visconde de Faria. 24.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 8.

espontaneamente pelo governo português, ao determinar que os refugiados objetos da reclamação permanecessem a bordo da Mindello.443

A investigação produzida pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina “com o propósito de obter a liberdade dos brasileiros apreendidos em águas argentinas, e a reparação conseguinte pela violação do nosso território” ficou pronta no dia 26 de abril, às 18h. Neste documento, Eduardo Costa comunicou que o presidente da República Argentina, Luis Sáenz Peña, recebera um telegrama daqueles refugiados, objetos da contestação, indicando que haviam sido transladados para o Pedro III e que seguiriam viagem para território português “contra sua vontade”.444 A averiguação argentina também confirmou

alguns fatos elencados pelo Visconde de Faria em seu documento de 21 de abril. Entre os pontos, foi confirmado que o número de pessoas que buscaram asilo no Pepito Donato era, efetivamente, oito indivíduos, e não trinta como o governo argentino dissera anteriormente. Outro ponto de congruência entre os inquéritos foi a descrição do combate ocorrido entre a guarnição portuguesa e os brasileiros armados com facas e navalhas. Porém, a investigação ministerial apontava que, depois que as amarras foram cortadas, o palhabote se distanciou cerca de um quilômetro da Affonso d’Albuquerque e fundeou em águas argentinas, e que só depois um escaler armado foi até a goleta e apreendeu os asilados. Esta seria a prova, segundo o ofício de Eduardo Costa, que o aprisionamento ocorreu em águas argentinas e seria “uma verdadeira violação do nosso território”. O documento dizia que, forçando um pouco mais a argumentação, até mesmo seria possível provar que a violação existiu ainda quando a Pepito

Donato estava atracada à corveta. Dessa forma, o ministro concluía que

[…] são hoje os mesmos refugiados, oito ou trinta, o número pouco importa sendo a violação sempre a mesma, os que correm ao governo dizendo que se pretende levá- los, contra sua vontade, à terras portuguesas. Com esse motivo, me permito chamar seriamente a atenção de Sua Senhoria sobre o que deixo exposto e cumpro com o dever de significar à S. S. que, se os refugiados retirados do Pepito Donato forem obrigados a sair do Rio da Prata contra a sua vontade, o governo argentino consideraria este fato como uma violação da palavra empenhada por S. S. na nota que fiz referencia antes e uma falta aos respeitos e a cortesia que tem direito a exigir de uma nação amiga.445

Este documento não foi muito bem recebido pelo Visconde de Faria. O diplomata se apressou em responder no dia seguinte em um longo ofício em que lamentava os termos !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 26.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). FARIA, 1897, p. 10.

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Não encontramos esse telegrama. 445

Ofício de Eduardo Costa para o Visconde de Faria. 26.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 8-9.

utilizados pelo ministro em sua nota. A contestação do encarregado de negócios de Portugal lastimava que o governo argentino considerasse mais fidedignas as comunicações de estranhos – sem citar nomes, mas se referindo ao telegrama recebido dos brasileiros reclamados a bordo do Pedro III – do que aquelas repassadas pelo representante oficial de Portugal. Para o Visconde de Faria, o ministro deveria ter aguardado, “com o repouso que esses negócios reclamam” o desenvolvimento dos fatos “para depois castigar com o rigor dos seus conceitos qualquer falta que descobrisse no desempenho dos meus deveres de honra e da nação que represento.”446

Como vimos, a “falta” a que o diplomata se refere era a reclamação de Eduardo Costa sobre a não observância da promessa de manter os indivíduos referentes da questão diplomática no Rio da Prata, pois, de acordo com o telegrama recebido pelo governo argentino, aqueles brasileiros estavam a bordo do Pedro III e diziam-se contrariados em seguir viagem para território português. O Visconde de Faria, sentindo-se ultrajado, relembrou ao ministro argentino que já havia comunicado oficialmente no dia 18 de abril que o governo português decidira, espontaneamente, deixar os oito refugiados da reclamação na

Mindello. Além disso, o diplomata estranhava o comportamento do Ministério das Relações

Exteriores em cobrar urgência naquela questão, já que faziam 21 dias que o Visconde de Faria aguardava uma resposta do governo argentino a uma nota enviada para ter certeza de que o navio Pedro III, fretado para transportar os asilados, seria considerado, para todos fins, como navio de guerra de Portugal.447

Mesmo assim, o diplomata explicou por que os indivíduos objeto da reclamação estavam a bordo do Pedro III. O governo português decidira que a Affonso d’Albuquerque acompanharia o navio fretado para evitar qualquer problema com aquela embarcação durante a viagem. Porém, era necessário que a corveta recebesse o resto do carvão e dos víveres essenciais para empreender a longa viagem. Evidentemente, para evitar mais incidentes como aquele ocorrido na Pepito Donato, todos os refugiados foram transladados para o Pedro III para dali, depois de receber igualmente os brasileiros da Mindello, passar para esta corveta apenas as oito pessoas reclamadas. Além disso, o Visconde de Faria afirmou que só depois que o ministro argentino reconheceu que eram apenas oito, e não trinta, o número exato de fugidos, que ele então expediu novas ordens alterando as anteriores.

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Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 27.04.1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: FARIA, 1897, p. 10-12, passim.

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O documento a que o Visconde de Faria se refere neste caso é: Ofício do Visconde de Faria para Eduardo Costa. 06.04.1894. Original em: ACA/Caja 562/Carpeta 1/Legacion y Consulado de Portugal-1894. Cópia em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: BNA – Buenos Aires. La Prensa. 08.04.1894.

Em outra parte da resposta, o diplomata português levantou suspeitas sobre a investigação realizada pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina, cujos resultados “tão errados podem ser como foi a primeira informação oficial de que eram trinta os evadidos, sendo que V.E. se convence agora que são apenas oito”. O Visconde de Faria argumentava que não houve nenhuma ofensa à soberania territorial argentina, pois

se por ventura estavam dentro do palhabote com os refugiados, o sentinela, o oficial da marinha portuguesa e seus marinheiros, os que se encontravam ali em serviço e exercendo a autoridade, a situação era a mesma de que quando o palhabote estava atracado à corveta, pois somente se separou dela por ordem do oficial superior que estava a bordo antes de terminado o serviço que obrigava o pessoal da armada portuguesa a conservar-se dentro do palhabote. Somente depois de terminado o serviço e retirada a autoridade portuguesa de bordo, é que a embarcação distante, tivesse ou não tivesse bandeira, poderia considerar-se território argentino; antes, era, em vista de todos os direitos do mundo, território português, pois nele estavam exercendo sua ação autoridades portuguesas, seja que estivesse em águas argentinas, seja que não, pois também as corvetas portuguesas estavam em águas argentinas e a ninguém ocorreu disputar o direito de reter a seu bordo os asilados que estavam sob sua guarda.

Pois V. E., que reconhece nossa autoridade enquanto o navio está atracado à corveta Affonso d’Albuquerque, pode por acaso desconhece-la quando este larga as amarras, se dentro desta mesma embarcação se mantem inalterável a mesma situação e a mesma autoridade exercida sem nenhuma interrupção?448

O diplomata aproveitou para desqualificar ainda mais a argumentação da violação