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Como vimos, as corvetas Mindello e Affonso d’Albuquerque rumaram para o Rio da Prata em ritmos distintos. A diferença de marcha entre as embarcações fez a Affonso

d’Albuquerque chegar primeiro em Buenos Aires. Existia, porém, a possibilidade de que os

navios de guerra portugueses, com os asilados brasileiros a bordo, aportassem antes em Montevidéu. Afinal, esta é a primeira capital estrangeira depois do extremo sul do território brasileiro e potencial ancoradouro para abastecimento de suprimentos, água, etc.

O ministro de Portugal junto às Repúblicas da Argentina e do Uruguai, Visconde de Faria, já alertado sobre a possibilidade da chegada das corvetas, resolveu comunicar o cônsul geral de Portugal no Uruguai, Antônio de Portugal de Faria (filho do Visconde de Faria), sobre aquela eventualidade.243 Ao que parece, o Visconde de Faria preferiu transmitir

pessoalmente a seu filho as ordens recebidas de não permitir o desembarque. Em seguida, retornou a Buenos Aires para aguardar os desdobramentos da chegada dos navios.244

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243

Os documentos que alertam o Visconde de Faria sobre a possibilidade de chegada das corvetas são: Telegrama do Conde de Paraty ao Visconde de Faria. 20.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 257a); Relatório do Conde de Paraty ao Visconde de Faria. 20.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 258); Telegrama de Hintze Ribeiro ao Visconde de Faria. 21.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 263); Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/CONSELHO DE GUERRA DE AUGUSTO DE CASTILHO (1894). Livro 910, vol. III, p. 76; [s.n.], 1894, p. 3.

244

Telegrama do Visconde de Faria para Hintze Ribeiro. 23.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 281). Disponível também em: [s.n.], 1894, p. 4.

No dia 24 de março, às 16h, o Visconde de Faria tomou conhecimento de que a corveta Affonso d’Albuquerque havia chegado em Montevidéu e que realizaria quarentena no lazareto da ilha de Flores. Ao mesmo tempo, o diplomata enviou um ofício ao comandante Francisco de Paula Teves e um telegrama ao ministro Hintze Ribeiro. De acordo com as instruções do governo português, o ofício instruía o comandante no sentido de não desembarcar nenhum refugiado.245 O telegrama informava a chegada da corveta e repassava a

informação que um transporte de guerra era solicitado com urgência para levá-los até um porto português.246

Entretanto, às 19h do dia 24 de março de 1894, Antônio de Portugal de Faria comunicou ao seu pai que a Affonso d’Albuquerque prosseguiu viagem para Buenos Aires antes de receber instruções. Ou seja, nem chegou a tocar o porto de Montevidéu. Na manhã do dia 25, porém, a corveta ainda não havia chegado na cidade vizinha, o que gerou certa apreensão ao Visconde de Faria, uma vez que se dizia que a frota sul, comandada pelo Almirante Custódio de Mello, tinha há pouco partido das águas do Prata e ainda poderiam estar por perto. O receio era de que houvesse alguma tentativa de resgate à força dos companheiros de revolta asilados na Mindello e na Affonso d’Albuquerque.247

Enquanto o Visconde de Faria aguardava as corvetas naquele domingo de Páscoa, dois importantes telegramas foram recebidos: um do ministro da Marinha de Portugal, Neves Ferreira; outro do presidente do Conselho de Ministros e ministro dos Negócios Estrangeiros, Hintze Ribeiro. O telegrama de Neves Ferreira solicitava que o diplomata português comunicasse ao comandante Augusto de Castilho que a ida do transporte levaria muito tempo. Dessa forma, conviria tentar aportar em Luanda ou pelo menos na ilha de Santa Helena, onde o transporte Bartholomeu Dias estaria esperando, porém “[...] em caso algum desembarque

refugiados sem ter recebido ordens”.248 A comunicação de Hintze Ribeiro reforçava as

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245

Relatório do Visconde de Faria para Francisco de Paula Teves. 24.03.1894. Ver: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 287. Disponível também em: SÁ, 1894, vol. III, p. 282.

246

Telegrama do Visconde de Faria para Hintze Ribeiro. 24.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 283). Disponível também em: [s.n.], 1894, p. 4. Não conseguimos encontrar nenhum indício de como o Visconde de Faria ficou sabendo que um transporte de guerra era solicitado, uma vez que a Affonso d’Albuquerque não chegou a entrar no lazareto da ilha de Flores. Uma explicação possível, é que esse pedido tenha sido feito pelo comandante Francisco de Paula Teves a Antônio de Portugal de Faria quando esta corveta cruzou por Montevidéu, e que o cônsul tenha telefonado para se comunicar com o seu pai como fez outras vezes. Ver, por exemplo: SÁ, vol. III, p. 245. [Nota extra de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 24.05.1894]. O jornal argentino La Prensa, de 25 de março, confirmou que houve esse contato entre o comandante e o cônsul. Ver: La Prensa. 25.03.1894. Consultado em microfilme.

247

Telegrama do Visconde de Faria para Hintze Ribeiro. 25.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 293). Disponível também em: [s.n.], 1894, p. 4.

248

Telegrama de Neves Ferreira para o Visconde de Faria. 25.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16- A (doc. 286). Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro

orientações de Neves Ferreira, no sentido de não desembarcar nenhum refugiado e partir, logo que possível, para porto português.249

A Affonso d’Albuquerque chegou em Buenos Aires às 14h do dia 25 de março. Logo depois, às 16h, uma embarcação do Departamento Nacional de Higiene se aproximou e determinou uma quarentena de rigor de dez dias, afinal, a corveta vinha do porto do Rio de Janeiro, onde reinava um surto epidêmico de febre amarela.250 O comandante Francisco de

Paula Teves aproveitou a oportunidade para enviar, por meio daquele barco, um telegrama para ao ministro Neves Ferreira. A comunicação informava a chegada em Buenos Aires, o tempo de quarentena imposto e terminava afirmando que “aguardava ordens do nosso governo para desembarcar 251 passageiros.”251 A resposta de Neves Ferreira foi categórica

“Não desembarque refugiados em caso algum sem ordem do governo.”252

No dia seguinte, 26 de março, às 14h, o Visconde de Faria foi até a Affonso

d’Albuquerque com um pequeno vapor alugado para facilitar a comunicação com as corvetas

e auxiliar no envio de mantimentos. Nesta oportunidade, o diplomata entregou um ofício ao comandante que salientava, mais uma vez, “as terminantes ordens” de não desembarcar nenhum refugiado e não se demorar em águas argentinas, partindo, logo que possível, para porto português onde um transporte de guerra seria enviado.253

O Visconde de Faria ficou aguardando uma resposta do comandante, para rapidamente transmiti-la ao governo português. Neste documento, Francisco de Paula Teves informou ao governo que não desembarcaria nenhum refugiado, mas salientou, também, a absoluta impossibilidade de prosseguir viagem para qualquer um dos distantes portos portugueses com 251 indivíduos a bordo, além da guarnição do navio.254

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910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 293; SÁ, 1894, vol. III, p. 286; [s.n.], 1894, p. 4. [grifo nosso em “refugiados”]

249

Telegrama de Hintze Ribeiro para o Visconde de Faria. 25.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16- A (doc. 288). Disponível também em: [s.n.], 1894, p. 4. [grifo nosso].

250

A quarentena em Buenos Aires será trabalhada no próximo item. 251

Telegrama de Francisco de Paula Teves para Neves Ferreira. 25.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 294). Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 288; SÁ, 1894, vol. III, p. 284; FORJAZ, 1894, p. 23; [s.n.], 1894, p. 4. [grifo nosso]

252

Telegrama de Neves Ferreira para Francisco de Paula Teves. 26.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 295). Disponível também em: FORJAZ, 1894, p. 26; [s.n.], 1894, p. 4. [grifo nosso]

253

Ofício do Visconde de Faria para Francisco de Paula Teves. 26.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 291; SÁ, 1894, vol. III, p. 283. [grifo nosso]

254

Ofício de Francisco de Paula Teves para o Visconde de Faria. 26.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 290; SÁ, 1894, vol. III, p. 283-284. [grifo nosso]

Figura 11 – Francisco de Paula Teves, anos mais tarde quando alcançou o posto de contra-almirante

Fonte: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal. Álbum 4, p. 1.

Assim que retornou para Buenos Aires, o diplomata informou Hintze Ribeiro sobre a resposta do comandante. Nesta comunicação, o Visconde de Faria aproveitou para salientar a necessidade de que o transporte de guerra fosse até Buenos Aires, e não para algum porto português, em função da falta de mantimentos e a pouca capacidade da corveta para realizar uma longa viagem superlotada. Também informou que Francisco de Paula Teves garantiu que os refugiados brasileiros a bordo da Affonso d’Albuquerque não desembarcariam.255

Um novo telegrama do ministro Neves Ferreira, endereçado ao comandante da

Mindello, estava a espera do diplomata quando este retornou à cidade. A comunicação

atualizava o destino mais propício das corvetas. Em vez de Luanda, porto português, as corvetas deveriam rumar para Ascenção ou Santa Helena, ilhas inglesas no meio do oceano Atlântico.256 O diplomata se comprometeu em repassar todas essas informações para o

comandante assim que a Mindello chegasse no dia seguinte.257

Entretanto, Visconde de Faria foi surpreendido pela chegada da corveta ainda no dia 26, às 18h50min. No dia seguinte, a primeira lancha que se aproximou da Mindello estava !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

255

Telegrama do Visconde de Faria para Hintze Ribeiro. 26.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 293). Disponível também em: [s.n.], 1894, p. 5. [grifo nosso]

256

Telegrama de Neves Ferreira para o Visconde de Faria. 26.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 294; SÁ, 1894, vol. III, p. 286.

257

Telegrama do Visconde de Faria para Neves Ferreira. 26.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 292). Disponível também em:[s.n.], 1894, p. 4.

cheia de políticos brasileiros de oposição aos governos de Floriano Peixoto e Júlio de Castilhos, tais como Demétrio Ribeiro e Barros Cassal, mas não atracou ao navio, apenas se comunicou à distância.258 Mais tarde, o representante de Portugal foi até a Mindello para

repassar ao comandante Augusto de Castilho todas as comunicações recebidas do governo português que instruíam, sobretudo, não desembarcar nenhum refugiado.259

Quando Visconde de Faria retornou à legação apressou-se em comunicar ao governo de Portugal sobre a chegada da segunda corveta. Além disso, repassou a informação de que também Augusto de Castilho considerava impossível seguir viagem, pois a corveta necessitava de reparos em função do seu péssimo estado material. O diplomata também comentou a pressão realizada pelo Departamento Nacional de Higiene, que exigia que os

passageiros de ambas embarcações fossem realizar a quarentena no lazareto, mas que ele

insistira com o comandante para que não permitisse o desembarque. Por isso, o encarregado de negócios de Portugal acreditava na urgente necessidade do envio de um transporte de guerra diretamente para Buenos Aires.260

O diplomata encarregou-se de repassar ao ministro da Marinha, Neves Ferreira, a resposta do comandante da Mindello. Esta comunicação afirmava a impossibilidade de seguir para um porto português com 267 passageiros a bordo.261 À primeira vista, o emprego da

palavra passageiro passaria despercebido. Acredito, porém, que com um pouco mais de atenção reconhecemos facilmente o discurso do Departamento Nacional de Higiene da Argentina por trás da utilização desse conceito. Afinal, como veremos, o próprio Visconde de Faria referia-se aos brasileiros refugiados nas corvetas portuguesas como passageiros ao corresponder-se com as autoridades argentinas e vice-versa.262 Além disso, para esta

instituição, os navios portugueses são apenas “mais dois” dos muitos navios que traziam !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

258

No mesmo dia também se aproximou uma lancha com membros da imprensa local. O Departamento Nacional de Higiene da Argentina só foi a bordo da Mindello no dia seguinte, 28 de março. Ver: [anotação de 27 e 28 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. Disponível em: COSTA, 1944, p. 302.

259

Ofício do Visconde de Faria para Augusto de Castilho. 26.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 292; SÁ, 1894, vol. III, p. 285. [grifo nosso]

260

Telegrama do Visconde de Faria para Hintze Ribeiro. 26.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 310). Disponível também em: FORJAZ, 1894, p. 26; [s.n.], 1894, p. 5.

261

Telegrama de Augusto de Castilho para Neves Ferreira. 27.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16- A (doc. 312). Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/ Arquivo 285/n. de ordem 33/Cota 5-VII-3-4; FORJAZ, 1894, p. 24; SÁ, 1894, vol. III, p. 281;[s.n.], 1894, p. 5. [grifo nosso]

262

Ver, por exemplo: ofício do Visconde de Paraty para o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Eduardo Costa. 01.04.1894. Original em: ACA/Caja 562/Carpeta 1/Legacion y Consulado de Portugal-1894. Ver também: ofício do inspetor sanitário dr. Emilio Cardalda para o presidente do Departamento Nacional de Higiene, Dr. Ramos Mejia. 29.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 297-298. Disponível também em: SÁ, 1894, vol. III, p. 294-295.

passageiros para Buenos Aires.263 De fato, deve-se lembrar que a capital argentina atraiu o

maior contingente de imigrantes europeus da América Latina.264 Portanto, referir-se ao

refugiados como passageiros, de certa forma, o Visconde de Faria reforça seu caráter transitório dentro dos navios, pois, normalmente, passageiros desembarcam ao concluir uma viagem, e era exatamente isso que se esperava neste caso.

Não obstante, em um ofício datado de 27 de março para Augusto de Castilho, Francisco de Paula Teves retomou o conceito de refugiados para se referir à impossibilidade de seguir com aquele elevado número de indivíduos até algum porto português.265 Assim, um

impasse estava instaurado: por um lado, os comandantes enfatizavam a impossibilidade de prosseguir viagem e a necessidade de desembarcar aquelas pessoas; por outro lado, o governo português queria que as corvetas rumassem para alguma ilha inglesa no oceano Atlântico.

À sua maneira, o Visconde de Faria mostrava sua preocupação com aquela indefinição. Parecia-lhe imprudente deixar os refugiados nas águas do Prata, afinal, as repúblicas do Uruguai e da Argentina estavam cheias de revolucionários brasileiros “[...] que estão trabalhando activamente e gastando muito dinheiro para ver se illudem a vigilancia das autoridades”. Sem falar, evidentemente, no desejo dos próprios asilados em desembarcar. Caso essa hipótese se confirmasse, o diplomata previa sérias complicações com o governo brasileiro.266

Frente àquele impasse, o comandante Augusto de Castilho assim descreveu o momento aos seus superiores em Lisboa:

Foram recebidos telegrammas de 25 e 26. Mindello deixou dois tenentes no hospital do Rio de Janeiro. O immediato é completamente inutil por incapacidade physica. É indispensável seguir pela junta de saude, pessoal de machina, marinhagem insufficiente, helice precisa concerto. Faltam barracões e toldos. Caldeira e fogão em concerto no Rio de Janeiro. É completamente impossivel emprehender viagem larga. Além d’isso os refugiados dormem no convez, estorvando a manobra. A quarentena será dez dias. É da maior urgencia auctorisar o desembarque no lazareto, aliás é impossivel evitar doenças em ambos os navios. É perigoso e deshumano expor todos [e] correr grande perigo. Um aspirante asylado sabe-se officialmente que morreu na Affonso d’Albuquerque. Há razão para suppor que Saldanha e officialidade estão promptos para não promover hostilidades, dentro do praso de tempo rasoavel.

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263

No diário do aspirante Roberto de Barros, ele registrou o “grande número de navios em quarentena” nas águas argentinas. Ver: COSTA, 1944, p. 302. [anotação de 26 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros].

264

Sobre os imigrantes na Argentina, ver: LENZ, 2004. Especialmente o capítulo 13, p. 167-181. Sobre a atuação dos Departamentos Nacionais de Saúde do Brasil, Argentina, Estados Unidos e Inglaterra em relação aos imigrantes, ver: REBELO, 2010. Sobretudo o segundo capítulo, p. 96-158.

265

Ofício de Francisco de Paula Teves para Augusto de Castilho. 27.03.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 295; SÁ, 1894, vol. III, p. 281-282.

266

Ofício do Visconde de Faria para Hintze Ribeiro. 27.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 308). Recebido em 19.04.1894.

Officiaes inferiores e praças de pret não ha o menor perigo. Se V.Exa. auctorisar a contractar [sic], offerecem garantias sufficientes ao governo do Brazil. Alguns officiaes [portugueses] querem seguir para o seu destino na Europa quando partir o paquete directo – Pedir resposta com a maxima urgencia, dar as necessarias instrucções.267

Neste extenso telegrama, o comandante da Mindello expôs todas as dificuldades da situação para Neves Ferreira, para tentar demovê-lo da ideia de empreender uma viagem longa. Mesmo que o ministro não tenha respondido diretamente aos pontos elencados por Augusto de Castilho, aparentemente, a comunicação teve o efeito esperado, pois o ministro perguntava-lhe sobre a possibilidade de fretar em Buenos Aires um vapor que pudesse transportar os refugiados sob a bandeira portuguesa.268

Todavia, foi noticiado na Europa, pela agência Havas, que os refugiados haviam desembarcado. A notícia pegou todos de surpresa em Lisboa. Assim, o ministro Neves Ferreira enviou novo telegrama para Augusto de Castilho, no dia 30, ressaltando as instruções dadas, e avisando-o das responsabilidades que lhe adviriam caso permitisse o desembarque, contrariando as ordens do governo. No final do telegrama, o ministro cobrava uma “urgente resposta sobre a possibilidade de fretar navio.”269

Na mesma sexta-feira, 30 de março, o Visconde de Faria telegrafou para Hintze Ribeiro para informá-lo de que o desembarque no lazareto só foi evitado por sua intervenção junto ao governo argentino, e que Augusto de Castilho “quer auctorisação hoje sem falta desembarque e declara, que se eu não permittir, assumirá elle responsabilidade.” Na !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

267

Telegrama de Augusto de Castilho para Neves Ferreira. 28.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16- A (doc. 333). Disponível também em: FORJAZ, 1894, p. 26-27; SÁ, 1894, vol. III, p. 287; [s.n.], 1894, p. 5- 6. Este telegrama foi encaminhado, mais uma vez, através do Visconde de Faria. (Ver: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 299). O Imediato da corveta a quem Augusto de Castilho se refere é o segundo tenente Vieira da Fonseca. Ao cruzar com outros documentos [Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (doc. 339 e 343)] e obras (ABRANCHES, 1914, p. 168) posso afirmar que os dois tenentes portugueses que permaneceram no Rio de Janeiro foram: Carlos Viegas Gago Coutinho e Augusto Henrique Metzner. O segundo tenente Gago Coutinho foi imediato da Mindello por um curto período de tempo. (Ver: SÁ, Vol. III, p. 176 [Nota n.50 de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 28.02.1894]). Apenas por curiosidade: esse oficial se tornaria pioneiro da aviação portuguesa ao realizar a primeira travessia do oceano Atlântico de Lisboa até o Rio de Janeiro. Este feito foi realizado juntamente com o aviador Sacadura Cabral a bordo de um hidroavião.

268

Telegrama de Neves Ferreira para Augusto de Castilho. 28.03.1894. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16- A (doc. 285). Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 300; SÁ, 1894, vol. III, p. 207; [s.n.], 1894, p. 5. A reclamação de Augusto de Castilho alegando não ter recebido “resposta alguma” está em: SÁ, vol. III, p. 235. [Nota extra de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 24.05.1894]

269

Telegrama de Neves Ferreira para Augusto de Castilho. 30.03.1893. Original em: AHDMNEP. 3 Piso. A. 16- A (doc. 323). Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 301; FORJAZ, 1894, p. 26; [s.n.], 1894, p. 5. O periódico monarquista Diário Illustrado publicou a notícia a partir da agência Havas no dia 29.03.1894. Disponível em: HM – Lisboa. Diário Illustrado. 29.03.1894.

sequência, o diplomata mostrava-se apreensivo porque os exilados brasileiros que residiam em Buenos Aires estavam trabalhando “sem descanso” para obter a liberdade dos refugiados. Nesse caso, o representante português fazia uma sugestão: “creio poderiam corvetas seguir viagem levando mantimentos vapor reboque. Peço instruções urgentes.”270

No dia seguinte, ainda sem resposta sobre a notícia divulgada pela agência Havas, o ministro Neves Ferreira enviou novo telegrama para Augusto de Castilho, pelo intermédio do Visconde de Faria, ressaltando a ordem de não desembarcar os refugiados em caso algum, pois o governo de Portugal assegurara ao governo brasileiro que só os desembarcaria em território português. Se o comandante deixasse de cumprir essa ordem assumiria grave responsabilidade. Assim, como meio alternativo ao desembarque, o ministrou deu ordem para que “com auxilio encarregado negocios veja se pode fretar ahi navio que sob bandeira portugueza conduza refugiados porto portuguez. Caso contrario irá d’aqui transporte.”271

Ao tomar conhecimento do telegrama do Visconde de Faria, que dizia que o desembarque no lazareto só foi evitado pelo seu intermédio, Hintze Ribeiro apressou-se em reforçar a exaustiva ordem de absolutamente não desembarcar nenhum refugiado. O ministro também deixou claro que Augusto de Castilho se tornaria responsável pelo não cumprimento daquela ordem. Assim, em sintonia com o ministro Neves Ferreira, as ordens eram as seguintes:

Necessario trazer refugiados para territorio portuguez com maior brevidade possivel. Para isso já ministro da marinha telegraphou a Castilho, perguntando se possivel fretar ahi navio; que sob bandeira portugueza possa auxiliar condução refugiados.