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Depois das fugas que ocorreram na noite de 8 de abril, a manhã seguinte se iniciou com um forte nevoeiro que dificultava a finalização da preparação das corvetas para, finalmente, deixarem as águas argentinas.420 A lancha421 argentina Pepino Donato estava

atracada a bombordo da corveta Affonso d’Albuquerque finalizando a descarga de carvão, quando um grupo de brasileiros saltou para seu bordo por volta das 9h40min da manhã. Assim que os asilados desceram para esta embarcação, uma briga generalizada se instaurou entre eles e os portugueses que realizavam o serviço. No meio da luta, as amarras que ligavam esta embarcação à corveta foram cortadas e a Pepino Donato ficou a deriva enquanto a confusão continuava. O oficial imediato da Affonso d’Albuquerque preparou um grupo armado da guarnição do navio e se dirigiu até o palhabote através de um escaler para terminar com o combate. Assim que a ordem foi reestabelecida, os brasileiros que tentaram escapar foram reconduzidos para bordo da Affonso d’Albuquerque.

O oficial português responsável pela operação de descarga de carvão da Pepino

Donato era Bernardo de Mello Castro Moreira. Em seu ofício encaminhado ao comandante da

corveta, Francisco de Paula Teves, ele resumiu o episódio em que um grupo de asilados, “armados de navalhas e facas”, “assaltou” o palhabote. Contra esses indivíduos, “foi preciso usar da intimidação pela força, para que largassem as armas offensivas que possuíam”. O curioso é que apenas no final do documento foi mencionada a questão da bandeira do palhabote: “Tenho mais a mencionar que o palhabote não tinha bandeira alguma que lhe designasse a nacionalidade, e que os seus tripulantes e o nome ‘Donato’ que tinha na prôa, me parecem italianos.”422

Este último período, no final do documento, em que começa com “tenho mais a mencionar...” gera a desconfiança que esta sentença tenha sido incluída posteriormente depois !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

420

SÁ, vol. III, p. 245. [Nota extra de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 24.05.1894].

421

A Pepito Donato foi classificada de diversas formas, tais como “lancha”, “palhabote” e “goleta”. Infelizmente, não encontramos nenhuma imagem ou ilustração desta embarcação. Portanto, temos dificuldade em afirmar qual é a melhor palavra para se referir a esta embarcação. Se analisarmos as definições de “palhabote” e de “goleta”, chegaremos à conclusão que se tratava de um barco a vela. Mas não temos a certeza de quantas velas havia naquela embarcação (tanto o palhabote quanto a goleta podem ter duas ou três velas). Assim, optamos por reproduzir a imagem de um palhabote e de uma goleta qualquer para ajudar a imaginar a Pepito Donato (Figuras 19 e 20). Ao longo do texto, utilizaremos estas palavras alternadamente como sinônimos para se referir a essa embarcação.

422

Ofício de Bernardo de Mello Castro Moreira para Francisco de Paula Teves. 10.04.1894. Disponível em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 330; SÁ, 1894, vol. III, p. 315.

da indicação de alguém. Porém, mesmo que essa frase tenha sido inserida depois, ela nos ajuda a compreender, desde já, a linha argumentativa que Portugal seguiria nesta questão. Para o governo português, o fato da lancha não ter nenhuma bandeira hasteada é fundamental para defender o ponto de vista de que não houve excesso na condução da situação pelos marinheiros portugueses.

Figura 19 – Palhabote Vencedor (1900)

Figura 20 – Goleta Guerrero Garibaldi (s.d.)

Fonte: Disponível em: <www.histamar.com.ar>. Acesso em: 26 set. 2013.

A confusão deixou alguns feridos dos dois lados da contenda. Dessa forma, o oficial brasileiro mais antigo a bordo da Affonso d’Albuquerque, o capitão tenente Joaquim Franco, solicitou ao comandante Francisco de Paula Teves a realização de um corpo de delito nos

asilados vitimados naquele episódio.423 O comandante da Affonso d’Albuquerque, de posse

deste requerimento e do ofício de Bernardo de Mello Castro Moreira, resolveu instaurar um processo de corpo de delito para apurar aqueles acontecimentos. Nomeou responsável o capitão tenente da armada portuguesa, e comandante imediato da corveta, Hypacio Frederico de Brion, que por sua vez nomeou o primeiro sargento Francisco Rodrigues Tavares como escrivão.

O exame de corpo de delito se dividiu em duas partes. A primeira foi o laudo do médico naval da corveta, Alberto Goulart de Medeiros, que examinou todos os envolvidos. Pela descrição das lesões a vítima mais grave foi João Vianna, brasileiro, empregado do comércio de 24 anos:

[...] João Vianna, empregado de commercio, tem uma enchymose infra-clavicular de sete centimetros de extensão; longa excoriação, com tumefacção abrangendo quasi

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423

Ofício de Joaquim Franco para Francisco de Paula Teves. 09.04.1894. Disponível em: AHC/Caja 558 Bis/Legaciones y Consulados de America – Brasil, Bolivia e Colombia – 1894/Carpeta 8.

todo o ante-braço esquerdo de cima a baixo na parte postero-interna. Parecem produzidos por instrumento contundente. – Não havendo complicação na evolução do processo, as offensas corporaes nada offerecem de grave.424

A segunda parte do corpo de delito foi escutar os depoimentos de algumas pessoas envolvidas para apurar detalhes do ocorrido.425 O primeiro a ser escutado foi Pedro Tavares,

que exercia a função de cabo da guarda dentro da Affonso d’Albuquerque.426 A ordem recebida

foi para não deixar ninguém desembarcar. Assim, como medida de segurança, ele designou um sentinela para permanecer na Pepito Donato enquanto esta lancha estavesse atracada à corveta descarregando carvão. Igualmente, por questões de segurança, ele procurou “não permittir que qualquer individuo se aproximasse, quer da ponte, quer do convez, das varandas ou da borda do lado de bombordo”. Porém, às 9h30 da manhã um grupo de “officiaes brazileiros asylados” saltou para o palhabote e, imediatamente, os guardas portugueses de serviço fizeram o mesmo para “obstar a que saltassem mais indivíduos para o palhobote, gritando ‘aqui não salta mais ninguem’”.

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424

Laudo médico de Alberto Goulart de Medeiros. 09.04.1894. Disponível em: AHC/Caja 558 Bis/Legaciones y Consulados de America – Brasil, Bolivia e Colombia – 1894/Carpeta 8; Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 351-352; SÁ, 1894, vol. III, p. 345.

425

Corpo de delito. 10.04.1894. Cópia em :AHDMNEP. 3 Piso. A. 16-A (pasta de documentos soltos). Disponível também em: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal/Livro 910/Conselho de Guerra de Augusto de Castilho (1894)/Apendice n.4/vol. 6/ p. 331-337; SÁ, 1894, vol. III, p. 316-322. 426

Pedro Tavares, 1o marinheiro n. 599 de matrícula e 120 da 2a companhia do corpo de marinheiros da armada portuguesa. Analfabeto.

Figura 21 – Hypacio Frederico de Brion, quando alcançou o posto de capitão de fragata

Fonte: Arquivo Histórico da Biblioteca Central de Marinha de Portugal. Álbum 1, p. 22.

O relato prosseguiu com detalhes da briga ocorrida entre brasileiros e portugueses dentro da Pepito Donato. Em seu depoimento, Pedro Tavares destacou que o brasileiro João Vianna estava armado com uma faca de cozinha retirada do mesmo palhabote, e com essa arma ameaçava todos marinheiros portugueses que se aproximavam. Um dos guardas de serviço se aproximou pelo lado esquerdo de João Vianna e desferiu uma pancada com um pedaço de pau, o que fez com que largasse a faca, que caiu no mar. Outros asilados estariam portando navalhas de barbear como armas cortantes, e outra faca, da cozinha da Affonso

d’Albuquerque, e uma machadinha, também teriam sido usadas na ocasião. Mais tarde, o

mesmo Pedro Tavares voltou a ser chamado e acrescentou que a dita embarcação não tinha nenhuma bandeira hasteada que lhe designasse a nacionalidade. Adiante voltamos à questão da bandeira em seguida.

O segundo depoimento foi do grumete Antônio,427 que estava no porão do palhabote

descarregando carvão quando escutou barulhos e gritos de “sobe a cima, sobe a cima”. Ao subir, reconheceu o primeiro tenente brasileiro Adolpho Victor Paulino, de 30 anos, que teria sido o primeiro asilado a pular, depois seguido por outros. Antônio tentou persegui-lo, mas outro guarda português já o havia colocado no chão. Nesse momento, Antônio avistou o brasileiro João Vianna com uma faca de cozinha ameaçando uma série de guardas que !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

427

Antônio, 1o grumete 2547 de matrícula e 162 da 9a companhia do corpo de marinheiros da armada portuguesa. Analfabeto.

tentavam desarmá-lo. Antônio se armou com um pedaço de pau e desferiu um golpe no ombro esquerdo de João Vianna, que derrubou a faca no mar. Antônio disse que sua atitude foi no sentido de proteger colegas e camaradas. Também afirmou ter avistado um brasileiro, de nome Ferreira (José Ferreira Marques, brasileiro, civil, empregado do comércio, 21 anos), tentando cortar as espias que atracavam o palhabote à Affonso d’Albuquerque.

O carpinteiro português José Luiz foi o terceiro português a depor.428 Ele estava dentro

da Affonso d’Albuquerque dividindo uma carne do seu rancho, quando ouviu barulhos e muita gente saltando do navio. Nesse momento, José Luiz viu um dos asilados, o qual ele não lembrava o nome, carregando uma faca dentro da Affonso d’Albuquerque. O carpinteiro correu em sua direção e conseguiu desarmá-lo. Em seguida, viu o oficial imediato da corveta (Hypacio Frederico de Brion) dentro do palhabote e resolveu ajudá-lo, caso fosse necessário. Depois que ele entrou na goleta, ainda escutou a voz do imediato e do comandante da corveta gritando para não bater em ninguém. Também disse ter reconhecido o brasileiro João Vianna com uma faca ameaçando todos e gritando que “com a faca era para doze”.

O quarto depoimento foi do grumete João d’Oliveira Camillo.429 Ele estava de serviço

na descarga de carvão dentro da Pepito Donato, quando ouviu uma algazarra e viu asilados a bordo do palhabote armados com facas e uma navalha de barbear. O asilado que portava a navalha, Paula Barros (Anibal de Paula Barros, segundo tenente, 24 anos), estava cortando as espias que atracavam a goleta ao navio e não respondeu às intimações para largar a navalha. Assim, João d’Oliveira Camillo pegou um pedaço de pau e desferiu um golpe em Paula Barros, fazendo-o arremessar a navalha para o mar. Mais tarde, o grumete escutou o oficial imediato do navio e o comandante gritarem para não baterem em mais ninguém.

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428

José Luiz, carpinteiro de segunda classe, n. 248 de matrícula e 11 da 16a companhia do corpo de marinheiros da armada de Portugal.

429

João d’Oliveira Camillo, 1o grumete n. 3733(8) de matrícula e 269 da 2a companhia do corpo de marinheiros d’armada de Portugal.

Figura 22 – USS Pueblo tomando carvão de uma barcaça durante a Primeira Guerra Mundial. No detalhe, a proximidade que a embarcação ficava do navio para descarregar o carvão

Fonte: Disponível em: <http://freepages.military.rootsweb.ancestry.com/~cac unithistories/USS_Pueblo_WWI.html>. Acesso em: 12 nov. 2013.

O grumete português Antônio da Silva Lourinho foi o quinto português a ser escutado.430 Ele disse que estava de guarda na Affonso d’Albuquerque com a missão de não

deixar ninguém pular para o palhabote que descarregava carvão. Contudo, ao ver alguns

asilados saltando no palhabote resolveu saltar também. Deu ordem de prisão para Plácido de

Meyrelles (civil, 23 anos), que não obedeceu, e ainda fez um corte na camiseta do grumete. Segundo Antônio da Silva Lourinho, o asilado portava uma navalha e dizia que “era para mais de sete marinheiros”. Em seguida, o grumete acertou um chute que derrubou Meyrelles, quando conseguiu desarmá-lo.

Para reconstituir aquele episódio depuseram quatro brasileiros. O primeiro a ser escutado foi o empregado do comércio João Vianna, de 24 anos. Ele disse que aproveitou uma distração da guarda portuguesa e pulou para o palhabote às 9h da manhã. Ao entrar nesta embarcação foi ameaçado com uma das pás que estava sendo usada para abastecimento de carvão. Assim, correu para frente e foi impedido de avançar mais, voltou para trás e outros guardas o cercavam, avançou para frente e depois retrocedeu. Nesse momento, João Vianna passou pela cozinha da goleta onde encontrou uma faca pequena. Usou a faca para se proteger e avisou que faria uso dela caso fosse atacado. Um dos guardas de serviço jogou-lhe um !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

430

Antônio da Silva Lourinho, 1o grumete n. 3538 de matrícula e 89 da 13a companhia do corpo de marinheiros d’armada de Portugal. Analfabeto.

banco na mão que estava com a faca quebrando-a e, ao mesmo tempo, outro guarda (grumete Antônio) o alvejou com um pedaço de pau no ombro esquerdo, deixando-o muito magoado, mas não chegou a quebrar nenhum osso.

O segundo brasileiro a depor foi José Ferreira Marques, empregado do comércio de 21 anos. Ele viu alguns camaradas pulando para o palhabote que carregava carvão e os seguiu. Ao entrar na goleta recebeu a intimação do oficial imediato do navio (capitão tenente Hypacio Frederico de Brion) e se rendeu. Assim como ele, o primeiro tenente José Augusto Vinhaes e o tenente da Guarda Nacional Antônio Francisco Valentim também se renderam e não sofreram maus tratos de nenhuma espécie.

O segundo tenente comissário da marinha brasileira, Anibal de Paula Barros, 24 anos, foi o terceiro a ser ouvido. Em seu depoimento, ele relatou que, ao ver alguns companheiros saltarem para o palhabote, os seguiu e também pulou. Assim que entrou na Pepito Dontato se dirigiu para proa com a intenção de cortar as espias que atracavam a embarcação ao navio. Disse ter obtido êxito no seu intuito ao fazer uso de uma velha e enferrujada navalha de barbear. Em seguida, foi agredido por mais de um praça da marinha portuguesa, que não conseguiu identificar. Anibal de Paula Ramos ainda comentou que tudo aconteceu sem combinação prévia, embora houvesse entre alguns asilados a ideia ou o desejo de o fazerem.

O último a ser escutado foi o empregado de comércio Plácido de Meyrelles, de 23 anos de idade. Este revelou a combinação feita entre ele, João Vianna e o tenente da Guarda Nacional, Antônio Francisco Valentim, de 37 anos, para fugir da Affonso d’Albuquerque na primeira oportunidade que aparecesse. A chance surgiu quando um palhabote estava atracado à corveta descarregando carvão. Os três saltaram para bordo da lancha; ao ver um de seus companheiros ser agredido (Anibal de Paula Barros), tentou defender a si e seu amigo. Para tanto, fez uso de um pedaço de pau, mas logo caiu e foi recolhido de volta para o navio. Ao longo de todo depoimento, Plácido de Meyrelles negou ter usado qualquer tipo de navalha e disse não ter visto se o palhabote tinha algum tipo de bandeira hasteada.

Mais uma vez, a questão da bandeira da Pepito Donato foi levantada: afinal, havia ou não uma bandeira da Argentina hasteada neste palhabote no momento da tentativa de fuga? Mesmo que a resposta a essa pergunta fosse afirmativa, a presença da bandeira teria impedido a fuga? Acreditamos que não pelo grau de insatisfação dos asilados. De qualquer forma, o interessante é perceber como os discursos se constituem tendo como base a questão da bandeira e a soberania nacional.

A doutrina do direito internacional da época mostra que os navios de guerras possuem o caráter extraterritorial, por isso estão “isentos” da jurisdição local. (FREITAS, 1884;

BELLO, 1886; MOORE, 1892). Essas “fortalezas flutuantes” são consideradas parte do território a que pertencem. (FIORI apud FERRÃO, 1894). Porém, nenhum jurisconsulto negaria que todas as embarcações mercantes que estivessem dentro das águas territoriais de sua própria nação estariam sob essa jurisdição. Neste caso, a embarcação Pepito Donato, uma lancha da companhia de Nicolás Mihanovich, com ou sem bandeira hasteada, estava sob a jurisdição das leis argentinas.

Em tese, a partir do momento em que os brasileiros pisaram no palhabote argentino, eles estariam protegidos sob a soberania da Argentina. Ao mesmo tempo, quando a guarnição portuguesa pisou na embarcação para trazer os asilados à força de volta para Affonso

d’Albuquerque, eles invadiram o território argentino e afrontaram a soberania daquele país.

Não foi à toa, portanto, que os marinheiros portugueses Bernardo de Mello Castro Moreira e Pedro Tavares afirmaram em seu relatório e depoimento, respectivamente, que não havia nenhuma bandeira hasteada na Pepito Donato. Esta foi a primeira argumentação portuguesa neste caso. Como não havia bandeira, durante algum momento houve dúvida sob qual jurisdição estava aquela embarcação. O próprio corpo de delito feito pelo capitão tenente Hypacio Frederico de Brion, ao colher o depoimento do asilado brasileiro Plácido de Meyrelles, destacou que “mais disse que não viu se o palhabote tinha alguma bandeira içada”. (SÁ, 1894, vol. III, p. 321). Ou seja, astutamente, o oficial português conseguiu um depoimento, de um dos próprios asilados que tentaram escapar, para validar esta argumentação de que não havia pavilhão algum arvorado.

Mesmo com essa declaração de Plácido de Meyrelles, os asilados brasileiros publicaram dois manifestos que salientavam exatamente a existência de uma bandeira argentina no palhabote – e o próprio Meyrelles assinou os dois manifestos. Esta foi a maneira encontrada pelos indivíduos da Affonso d’Albuquerque para buscar apoio do governo argentino: instigar uma reclamação diplomática desse país pelo desrespeito a sua soberania.

O primeiro manifesto foi dirigido ao presidente da República da Argentina. O texto salientava que refugiados políticos foram tratados como “galés que se conduz agrilhoados em transportes de guerra á presídios no ultramar”. De acordo com esse documento, as cenas de horror ocorridas a bordo da Affonso d’Albuquerque, continuadas no “convés de uma pequena galheta que arvorava a gloriosa bandeira da Argentina!” eram tão extraordinárias que beiravam o inverossímil. A todos impressionava que toda aquela violência aconteceu “a luz do dia ao finalizar o século XIX”. Os indivíduos que assinavam o protesto diziam que foram feridos, contundidos, espancados e arrastados por baionetas caladas para bordo da navio

português, mesmo estando “já em aguas e território argentinos [...] quando em altas vozes se declaravam sob a proteção do brioso e hospitaleiro povo argentino!!”.

O segundo manifesto foi encaminhado ao redator do La Prensa, de Buenos Aires, com o objetivo de sensibilizar a população sobre a condição dos asilados e o seu direito de desembarcar. Os dois manifestos são muitos parecidos em termos de conteúdo, embora tenham distintas qualidades na forma. Todos indivíduos que assinaram este segundo documento “protestaram contra tão inaudita violencia, declarando que estavam em aguas territoriais argentinas, onde mesmo com sacrificio de suas vidas, vinham procurar abrigo e proteção.”431

A busca de “abrigo em território argentino” também foi a justificativa que o capitão tenente Joaquim Franco utilizou para comunicar a Saldanha da Gama aquela tentativa de fuga malograda. Mesmo que ambos ficassem em corvetas distintas, Affonso d’Albuquerque e

Mindello respectivamente, e as comunicações entre as duas embarcações estivessem

proibidas, Franco conseguiu enviar para Saldanha da Gama um ofício com detalhes do episódio. O relato de Joaquim Franco sobre o incidente ocorrido “em um navio argentino e em aguas argentinas” é rico em detalhes sobre as agressões que os portugueses cometeram contra os brasileiros, estimulados pelos gritos do segundo tenente Bernardo de Mello Castro Moreira, que orientava os seus marinheiros a meter “o terçado n’esta canalha”. O documento também chamou a atenção para as violências que aconteceram dentro da Affonso

d’Albuquerque, entre os marinheiros da guarnição e os brasileiros que procuravam as bordas

do navio lusitano “para protestar contra tão inopinada quão surprehendente aggressão, de que estavam sendo victimas aquelles que procuravam abrigo, amparo e liberdade em territorio e aguas argentinas”. Segundo Joaquim Franco, a violência era tamanha que “eu mesmo, sr. Almirante, apesar dos meus cabellos brancos, tambem fui victima de uma coronhada.”432

Por um lado, os portugueses sustentavam que não haviam desrespeitado a soberania nacional argentina pois, como a Pepito Donato não possuía nenhuma bandeira hasteada, não !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

431

Manifesto da fuga encaminhada ao presidente da República Argentina. 11.04.1894. Manifesto da fuga encaminhado ao redator do La Prensa. 11.04.1894. Ambos documentos estão disponíveis em: AHC/Caja 558 Bis/Legaciones y Consulados de America – Brasil, Bolivia e Colombia – 1894/Carpeta 8. Chama a atenção que os dois manifestos foram assinados por 16 indivíduos, embora o corpo de delito nomeie a participação de apenas sete brasileiros: primeiro tenentes José Augusto Vinhaes e Adolpho Victor Paulino; tenente da Guarda Nacional Antônio Francisco Valentim; segundo tenente Anibal de Paula Barros; civis empregados do comércio Plácido Meireles; João C. Vianna; José Ferreira Marques. Os demais indivíduos que assinam os dois manifestos são: Primeiro tenente Gentil Augusto de Paiva Meira; segundo tenentes Arthur Thompson; Francisco Marques de Lemos Bastos; Manuel do Souto; aspirante Frederico de Lemos Villar; alferes do Exército Ismael Oscar Baltazar da Silveira; estudante Joaquim Moreira Guimaraes; soldados voluntários Miguel Russel; Francisco Guilherme Araujo.

432

Ofício de Joaquim Franco para Saldanha da Gama. 14.04.1894. Disponível em: SÁ, 1894, vol. III, p. 342- 344; ABRANCHES, 1914, p. 187-189.

tinham como determinar com exatidão a nacionalidade daquela embarcação. Mais tarde,