II- HUSUSİ HÜKÜMLERİN SAKLI KALMASI:
2. ZARURİ SEBEPLER YÜZÜNDEN:
Relativamente ao primeiro aspeto, relembre-se que, de acordo com a perspetiva do ISD, o contexto de produção (Bronckart 1997) e o contexto de circulação e de receção (Gonçalves & Miranda 2007), podem ser analisados em dois planos distintos: o plano do comportamento verbal (referente ao lugar e ao momento de produção, bem como ao produtor e ao recetor textuais) e o plano da interação comunicativa (relativo à posição social do produtor e do recetor textuais e ao objetivo da interação).
Texto Memórias da Minha Vida (MMV), de João Azenha
Como já foi referido, MMV é um texto autobiográfico inédito, produzido por João Manuel Azenha aos 76/77 anos de idade, em Santa Susana (Sintra), entre 2006 e 2007. As coordenadas temporais da situação de produção são explicitadas no início do texto, através de uma nota introdutória com valor paratextual (“Comecei a escrever estas minhas Memórias com setenta e seis anos”), sendo que, no segmento textual [35], o autor faz uma referência explícita ao momento da produção textual: “Até onze de Novembro de dois mil e sete, data em que estou a escrever este artigo [...]”.
Quanto ao espaço da situação de produção, este coincide com as coordenadas espaciais verbalizadas no texto. Tal pode ser comprovado em expressões como “Com oito anos vim morar para Santa Suzana.” (MMV[2]) ou “Em mil novecentos e setenta e seis, em pouco tempo já tinha uma freguesia razoável de padeiras aqui da zona” (MMV[31]). Para além disso, o autor identifica-se por meio de uma informação de carácter peritextual (“Por: JOÃO MANUEL AZENHA”) e, em termos linguísticos,
111 marca a sua presença enquanto agente responsável (ou, em casos excepcionais, enquanto testemunha) pelos processos verbalizados em todos os segmentos textuais. O autor fez exame da 3.ª classe em 1942 (MMV [3]), tendo feito a 4.ª classe já em adulto, à noite, momento em que concluiu o percurso de escolarização (Ent. 0:23-0:48). A sua relação com a leitura e com a escrita, no entanto, não se restringe à infância. Em termos de escrita, o autor afirma ter escrito peças de teatro, “cegadas”, várias poesias (que foram compiladas mais tarde no livro Poesia e Cantilenas), um livro sobre os mecanismos que compõem os moinhos, o romance O Filho do Lenhador e um livro sobre a sua terra (Ent. 5:01-10:27).64 Atualmente, a relação do autor com a escrita restringe-se à reformulação de textos no computador (Ent. 1:20-1:32)65. Os hábitos de receção textual passam pela (re)leitura dos livros que escreveu e da Bíblia (Ent. 3:30- 4:02) e pela audição de com textos radiofónicos e televisivos, pertencentes aos géneros noticiário e relato de futebol (Ent. 1:32-2:11).
Neste texto, ao contrário do que acontece com a instância emissora, a referência explícita à instância recetora é bastante diminuta; de facto, há apenas uma alusão ao recetor textual: Eu que gostava tanto de ouvir o Sr. Padre D. dizer o terço na Rádio Renascença, imaginem qual foi a minha surpresa, quando num Domingo o vi a celebrar a Missa na Capela de Santa Susana. (MMV [16]). Note-se, no entanto, que a forma vocês (subentendida em imaginem) poderá ser aí revestida de valor deítico, mas refletir apenas o estilo coloquial da escrita e/ou ter um valor genérico; se assim for, poder-se-á considerar que não há referências explícitas ao destinatário concreto/real do texto. Os dados epitextuais disponíveis mostram, no entanto, que o autor tem como destinatários potenciais de MMV os membros da comunidade local.
Finalmente, ainda que não haja informações explícitas no texto MMV que permitam identificar e caracterizar o objetivo sócio-subjetivo de produção textual, pode inferir-se a partir do conteúdo temático verbalizado que o autor pretende, sem pretensões literárias, dar a conhecer/preservar o seu percurso existencial, enraizado no contexto rural da sua aldeia portuguesa (Santa Susana, Sintra), entre 1930 e 2007. Repare-se que os objetivos que subjazem à produção de MMV (dar a conhecer um
64
Estes dados encontram-se explicitamente apresentados em MMV [32] (Anexo 1). Os livros Poesia e Cantilenas, O Filho do lenhador e A Minha História… encontram-se publicados em edições de autor,
tendo como público-alvo a comunidade local; os restantes textos permanecem inéditos.
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O texto MMV tem sido alvo de sucessivas reformulações, levadas a cabo quer por João Azenha, quer pelos seus filhos; a versão utilizada para análise na presente investigação é a versão original (não reformulada).
112 percurso existencial tido como exemplar) mantêm afinidades com os objetivos dos textos memorialistas produzidos no século XIX (cf. Quadro 15).66
Com base no respetivo contexto de produção, circulação e receção-interpretação, é legítimo concluir que este texto se encontra circunscrito à atividade familiar.
Texto As Pequenas Memórias, de José Saramago
No plano do comportamento verbal, as características do contexto de produção do texto PM são bastante semelhantes às de MMV – o texto foi publicado em 2007, ano em que Saramago completou 84 anos; para além disso, há uma relação se identificação entre o produtor textual e agente responsável (ou testemunha) pelos processos verbalizados em todos os segmentos textuais. Verifica-se, ainda, a quase ausência do destinatário textual; a excepção a essa ausência verifica-se, apenas, no segmento [55]: “Que não se surpreenda o leitor com a eufemística expressão, dar de corpo.” – sendo que, também aqui, o valor deítico parece ser preterido ao valor genérico (a que não será alheia a pretensão de um efeito retórico). O momento e o espaço de produção físicos apresentam, no entanto, características diferentes nestes dois textos: se o texto MMV foi escrito em dois anos, o texto PM foi escrito durante um período temporal mais abrangente (segundo Saramago, o processo de escrita demorou “Vinte anos. Com larguíssimos intervalos” – Pub/17.11.2006).
As fontes documentais epitextuais apresentam dados que permitem caracterizar com algum rigor o contexto sócio-subjetivo de produção, circulação e receção- interpretação da obra. Em termos de interação comunicativa, tal como acontece em PM, também em PM parece ser evidente a necessidade que o produtor textual tem de dar a conhecer o seu percurso vital, bem como a relação de proximidade entre produtor e recetor textual. Segundo o produtor textual, os objetivos que presidiram à escrita das suas memórias prendem-se com a necessidade de preservar/tornar pública a memória da infância (Pub/27.10.2006, JN/15.03.2006, JL/30.08.2006, JN/9.11.2006, Vis/09.11.2006a, Époc/13.11.2006), de homenagear os seus pais e avós (JMad/08.02.2007) e de construir a identidade pessoal (JL/8.11.2006) e de se
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Isto demonstra que as memórias são um género textual com um elevado grau de perdurabilidade; demonstra ainda que a intencionalidade comunicativa, em particular, e que as características sócio- subjetivas de produção e de receção-interpretação, em geral, poderão constituir uma previsibilidade de ordem extralinguística que estabelece a identidade do género memórias.
113 autoconhecer (JN/15.03.2006, JL/08.11.2006, CM/09.11.2006, Sáb/1.02.2007), bem como com a vontade de deixar o testemunho sobre um contexto histórico-social da sua infância (JL/08.11.2006, Sab/01.02.2007).
Apesar de João Azenha e José Saramago apresentarem um percurso de vida indiscutivelmente diferente, em termos profissionais e culturais, há, no entanto, alguns aspetos que unem os textos por eles produzidos, ao nível do plano da interação comunicativa. Assim, ambos os produtores textuais são detentores de um certo grau de autoridade conquistada, que lhes advém quer do muito tempo já vivido (que se traduz em experiência de vida), quer do facto de terem adquirido um lugar social relevante no contexto social em que se movimentam – o primeiro, pelo empenhamento social, cultural e religioso que lhe são reconhecidos na comunidade local (Ent. 5:01-10:27); o segundo, por ser estimado enquanto escritor (prémio Nobel da Literatura) e enquanto pessoa (JNeg/24.11.2006) (CM/09.11.2006). Daqui se conclui que o papel social do sujeito produtor se relaciona com o seu estatuto de “escritor” (Prémio Nobel da Literatura) e de “pessoa”. Tendo em conta que esta afirmação de Saramago é proferida numa entrevista sobre a obra PM, podem antever-se aqui em causa dois sistemas de atividades distintos – um literário, relacionado com a identidade literária; outro de carácter pessoal/familiar, relacionado com a identidade pessoal. De facto, como se verá adiante, as PM refletem a articulação destas duas práticas sociais – com manifesto predomínio da primeira. Ainda que outras atividades possam estar subjacentes à sua produção, este texto está inequivocamente inscrito no âmbito da atividade literária.
1.2. Arquitexto
No que diz respeito ao arquitexto, relembre-se que, numa perspetiva voloshinoviana, o ISD entende os géneros de texto como formatos comunicativos elaborados, sustentados e transformados pelas práticas sociais – sendo que “cada prática social dispõe, em cada época, de forma mais ou menos maleável, de um conjunto de formas comunicativas […] – que, no dizer de Bronckart, se apresentam aos utentes da língua sob a forma de nebulosa” (Coutinho & Jorge 2012, 145-146). Tais modelos constituem o intertexto e podem ser encarados como instrumentos prontos a serem utilizados pelos produtores textuais, de acordo quer com a sua capacidade textual e genológica individual, quer com a prática coletiva em que a ação de linguagem situada é produzida.
114 Ambos os textos em análise adotam o mesmo modelo textual – as memórias. Com efeito, embora não haja elementos peritextuais que etiquetiquem explicitamente os textos como memórias, há elementos textuais que, advindos da metalinguagem natural usada nos textos, permitem concluir que se trata de textos memorialísticos67. A comprová-lo está o facto de ambos os títulos integrarem o nome “memórias” (no plural); para além disso, na nota introdutória de MMV o produto da escrita é classificado como memórias (“Comecei a escrever estas minhas Memórias com setenta e seis anos”) e na epígrafe de PM (“Deixa-te levar pela criança que foste – O Livro dos Conselhos”68
) remete-se implicitamente para o ato de evocação da infância. Embora possa argumentar-se que o conceito de memórias se aplica, nestes casos, ao tema da escrita e não a uma classificação de tipo genológico, relembre-se que o principal critério que determina o a constituição de campos genológicos autobiográficos é, exatamente, a tematicidade – o tema da autorrepresentação, associado à atitude de evocação é, como se viu em I.2.4.2.1., um traço distintivo do género memórias. A este propósito, Seixo (2006) considera que as PM são, efetivamente, memórias, referindo que, nesta obra, se verifica “o entendimento do eu como objeto de reflexão e não apenas ponto de vista”. A autora acrescenta ainda que
O memorialismo parte do eu, mas enquanto postura narrativa de quem dá a ver as coisas e sabe que se arrisca a ser comprovado, ou não, no que conta; o memorialismo não se ocupa do eu para o narrar como objecto privilegiado, caso em que resvala para a autobiografia, e por isso alcança a sua integração reflectida na comunidade e, nesse sentido, ultrapassa a subjectividade para traçar lugares e tempos que valem por interesse próprio, enquanto modos de vida idos que são raízes e alimento da sociedade actual.
Seixo 2006, 10
O grau de consciência metagenológica evidenciado em J. Azenha e J. Saramago é manifestamente diverso. Em entrevista, J. Azenha demonstra não ter consciência metagenológica relativamente às memórias69. Por seu turno, em entrevistas à imprensa Saramago classifica a sua obra como memórias, sendo que essa classificação em alguns casos se rege ora por um critério genológico (JNegW/24.11.2006) ora pela articulação
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Assume-se aqui a perspetiva de autores como Beacco (1991), reassumida em Coutinho (2003) ou Coutinho (2011), que encaram os géneros textuais como formatos pré-teóricos, cuja designação é consequência não da reflexão teórica, mas da “metalinguagem natural” usada empiricamente, em ações de linguagem situadas.
68
O livro é ficcional – de acordo com a imprensa, o livro PM tem “uma epígrafe, citação de um livro inventado, O Livro dos Conselhos: ‘Deixa-te levar pela criança que foste’ “ (JL/15.03.06).
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O mesmo não se passa em relação a outros géneros autobiográficos – com efeito, o autor revela consciência metagenológica em relação às cegadas e aos textos poéticos, ao nível de questões
115 de aspetos de ordem genológica, temática e psicológico-discursiva (JL/30.08.2006, JL/08.11.2006); noutras situações, o autor opõe o seu texto singular à noção de autobiografia completa (Vis/09.11.2006a) ou autobiografia até ao minuto antes (Pub/17.11.2006), chegando a classificá-lo como pequeníssima autobiografia (ibidem) ou como autobiografia diferente (JN/15.03.2006). Relativamente à forma como Saramago encara a noção de autobiografia, valerá a pena destacar uma asserção do autor: “tudo é autobiografia, pois a vida de cada um de nós é contada em tudo quanto fazemos e dizemos” (JN/15.03.2006). Parecem estar aqui em causa duas questões já equacionadas na Parte I: por um lado, o facto de a autobiografia ora ser encarada como género textual, ora como modo transversal a múltiplos géneros (e de, nesse caso, surgir associada à noção de campo genológico autobiográfico); por outro lado, ao ser encarada como género, o facto de a autobiografia se opor às memórias em termos de totalidade/fechamento (as memórias podem referir-se a um período particular da vida, por exemplo, a infância, enquanto a autobiografia foca a vida completa, numa perspetiva englobante). Relativamente à asserção de Saramago, poderá estar aqui em causa ainda um terceiro aspeto, relacionado com a identidade narrativa e com a construção (textual) do conhecimento. Inscrito no espaço e no tempo, através do seu agir comunicativo autobiográfico, o ser humano constrói e dá a conhecer a sua identidade pessoal.
A indefinição/oscilação genológica que perpassa nas asserções de Saramago está presente também nas fontes epitextuais de âmbito jornalístico70. Nelas o texto de J. Saramago tende a ser classificado pelos jornalistas de acordo com três critérios distintos:
seguindo o critério genológico/temático, é designado como autobiografia (CM/15.03.2006, JN/15.03.2006, NM/16.11.2006, Pub/17.11.2006, Met/17.11.2006), género autobiográfico (JN/15.03.2006), memórias (JL/08.11.2006, JNegW/24.11.2006, JMad/11.01.2007) e biografia (JN/16.11.2006), havendo ainda um artigo em que o texto é duplamente etiquetado como autobiografia e memórias (Vis/09.11.2006a);
conforme o critério do agrupamento de géneros/campo genológico, o texto é etiquetado com recurso a perífrases como obra autobiográfica70
A mesma oscilação está presente em ensaios académicos, produzidos na área da literatura (e.g. Arnaut
116 (PJ/17.11.2006), álbum de recordações (Exp/18.11.2006), livro de recordações (Sol/8.12.2006a);
obedecendo a um critério de ordem psicológico-discursiva, identifica-se o texto como livro de/das memórias (CM/09.11.2006; JN/17.11.2006) ou omite-se a referência ao género e/ou ao campo genológico, referindo-se apenas a operação discursiva (de forma literal ou metafórica): evocar (JN/09.11.2006, Pub/17.11.2006a), relatar/relato (Sol/18.11.2006,Sol/8.12.2006), recordar (DN/17.11.2006, Pub/17.11.2006,
JMad/11.01.2007, TV7/17.1.2007), narrar (JMad/8.2.2007), falar das suas memórias (Sab/1.2.2007) e desvendar os tempos (TV7/17.1.2007).
Os diferentes critérios que presidem à classificação do texto PM parecem confirmar a tese de que os géneros textuais se agrupam, como refere Bronckart (1997), num reservatório social, sob a forma de nebulosa sem fronteiras completamente definidas. A coevolução de géneros num mesmo campo genológico implica que os vários formatos de texto se imbriquem, contaminem, confundam. A classificação de um texto por parte de um produtor ou de um recetor textual resulta da sua capacidade metagenológica, que não deixa de ser influenciada pelo contacto anterior com exemplares de género – mais ou menos puros, mais ou menos contaminados por outros, mais ou menos híbridos, de forma mais ou menos consciente.
No que concerne à forma como são classificados na atividade jornalística, saliente-se ainda que os textos nem sempre são etiquetados com base no género ou no campo genológico; por vezes, são referidos pela operação psicológico-discursiva que neles domina (na perspetiva do recetor textual). Nesse sentido, as operações discursivas que os jornalistas associam ao texto de Saramago são essencialmente duas: o relato de factos passados (expressa através dos verbos relatar/narrar) e a evocação (transmitida pelos verbos recordar/evocar). Como se verá adiante, essas são, de facto, operações discursivas que, operando em dois níveis distintos, constituem um dos parâmetros centrais do género memórias.
Face ao exposto, é legítimo concluir que as memórias são um género textual condicionado pela articulação entre aspetos de ordem gnosiológica e aspetos de ordem praxiológica: depois de textualizadas, as memórias refletem, através de operações
117 mentais de evocação, a verbalização de acontecimentos passados e a construção textual do conhecimento (associada à necessidade de preservar a memória da infância, enraizada num determinado contexto histórico-social e à atitude de construir verbalmente a identidade pessoal).
118
2. Dimensão temático-estrutural
Embora se considere que uma das dimensões inerentes a qualquer texto/género é, precisamente, a dimensão temática, a noção de tema não pode considerar-se completamente estabilizada, sobretudo se encarada numa perspetiva teórico- metodológica (isto é, em articulação com a noção de análise temática). Nesse sentido, valerá a pena sintetizar a forma como este conceito tem sido perspetivado por alguns dos quadros teóricos e/ou autores:
no âmbito da Perspetiva Funcional da Frase71
, a noção de tema é apresentada em correlação com a noção de rema e integra-se numa abordagem que se centra no grau de informatividade e na dinâmica comunicativa intrafrásica; nesta perspetiva, o tema surge como noção aplicável ao nível frásico e relaciona-se com o valor informacional dos enunciados (trata-se do elemento base/fundação, que se assume como ponto de partida para o desenvolvimento posterior da progressão temática). Daneš (1994, 199), por exemplo, considera que o conteúdo de um enunciado se divide em duas partes: “its basis or point of departure (theme) and its core (rheme)”; o tema corresponderá ao início da frase, sendo-lhe inerente um baixo grau de dinamismo comunicativo, ao passo que o rema coincidirá com o final da frase, cabendo-lhe um maior grau de dinamismo comunicativo;
também norteado por uma postura estruturalista, mas seguindo uma abordagem que, apesar do carácter cognitivista, tem conta a influência do social, van Dijk (1980) considera o tema (ou tópico) não como um fenómeno apenso à frase, mas como um propriedade do todo; conforme este autor, o tema relaciona-se com estruturas globais de ordem semântica, relacionadas com o conteúdo da informação – as macroestruturas semânticas de um texto72; tais
71
A noção de tema/rema surgiu no âmbito da Escola de Praga, no final da década de 1920, a partir dos estudos de Mathesius, tendo sido retomada pelo chamado Segundo Círculo de Praga (por autores como Firbas ou Daneš), com a questão da progressão temática e da dinâmica comunicativa. A noção
foi posteriormente desenvolvida, nomeadamente por Combettes (1983), que considera que os aspetos temáticos (associados à repetição e à progressão) ocorrem não ao nível intrafásico, mas ao nível do contexto linguístico; para o autor, a progressão temática pode ser feita de três formas: progressão de tema linear, progressão de tema constante e progressão de temas derivados (com base num
hipertema, inferido ou expresso).
72
“We say that macrostructures characterize the higher or more abstract levels of semantic information and information processing […] the first function of macrostructures is to organize complex (micro)- information […] At this point we may mention the second major function of macrostructures, the
119 macroestruturas permitem, por um lado, reduzir a informação de um texto (por meio de operações de apagamento ou seleção de informação) ou, por outro lado, substituí-la (através de operações de generalização e de construção); no âmbito de uma semântica estrutural, Greimas (1966) apresenta o conceito de
isotopia, definindo-o como um feixe de categorias semânticas redundantes, isto é, como a repetição de classemas (semas/unidades mínimas da significação recorrentes na cadeia discursiva), aplicável apenas ao plano do conteúdo; posteriormente, Rastier (1972) amplifica o conceito, tornando-o extensivo ao plano da expressão. A isotopia é, ainda hoje, encarada como um fenómeno que ocorre em dois planos, o discursivo e o das relações sémicas paradigmáticas (in absentia), relacionando-se, neste segundo caso, com “correlações originadas e organizadas por factores antropológicos, lógicos e/ou socioculturais e que funciona como ‘horizontes de expectativas’, como ‘programas’ de produção e receção de tipos de textos possíveis” (Aguiar e Silva [1967]1996, 648)73;
finalmente, no quadro do ISD (Bronckart 1997), é apresentado o conceito de conteúdo temático ou referente), que se entende de duas formas distintas: por um lado consiste no conjunto de informações explicitamente apresentadas no texto; por outro refere-se aos conhecimentos armazenados e organizados na memória antes da ação de linguagem, variando consoante a experiência de vida e o desenvolvimento do agente.
As perspetivas referidas permitem perspetivar a questão temática de acordo com binómios distintos:
ao nível do domínio/nível de atuação – atuação de ordem local ou de ordem global (ao nível do texto);
reduction of complex information. […] This process of derivation may involve the construction of new meaning (i.e., meaning that is not a property of the individual constitutive parts). Hence, as their crucial function, macrostructures allow additional ways of comprehension for complex information.” (van Dijk 1980, 12-14).
73
Embora reconheça a “elevada capacidade operatória” da noção de isotopia, Aguiar e Silva não deixa
de problematizar aquele conceito. Para o autor, “torna-se extremamente aleatório discriminar os semas dos sememas e lexemas que significam os fenómenos, os valores importantes de uma cultura, de uma mundividência, de uma experiência vital, de uma filosofia, de uma ideologia (Aguiar e Silva [1967]1996, 648); para além disso, a análise sémica apoia-se no “universo cerrado, relativamente