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Em traços gerais, e parafraseando Kuperty-Tsur (1997), poder-se-á afirmar que o principal traço definitório das memórias reside na combinação entre o discurso histórico (history) e o discurso pessoal (life history); recorre-se, assim, à narração histórica, mas foca-se a representação do autor como protagonista. A articulação entre estes dois aspetos leva Rocha (2006, 627) a considerar que “a expressão ‘memorialismo’designa um conjunto de textos atinentes a uma determinada prática de literatura do eu, em que se joga a correlação de forças privado/público com manifesta prevalência do segundo termo”38 e concluindo que o traço que distingue este género de outros de carácter autobiográfico é o “peso que a exterioridade detém nesses relatos”. A autora destaca, assim, a questão da historicidade do autor, que articula com a dialética privado/público.

Um dos traços que permitem caracterizar o género, distinguindo-o, por ex., da autobiografia, prende-se justamente com o peso que a exterioridade detém nesses relatos. Sem anular a representação do privado e do íntimo, o memorialista assume- se como actor da História e dá-nos o seu testemunho do tempo e do espaço em que

viveu.

Rocha 2006, 627

Na perspetiva de Rocha, uma das características do género memórias relaciona- se, precisamente, com a indagação de um sujeito acerca do papel por si desempenhado na História, a relação entre referencialidade e representação – na medida em que,

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Contrariamente ao que é defendido nos estudos autobiográficos desenvolvidos na área da literatura, não se considerará neste trabalho o autorretrato como género textual. Como refere Beaujour, o autorretrato não apresenta qualquer horizonte de expectativa, por não obedecer a nenhum modelo pré- existente (“Chaque autoportrait s’écrit comme s’il était unique en son genre”, Beaujour 1980, 8); também Baudouin (2010, 128) põe em causa a conceção de autorretrato como género: “Il est une reconstruction du geste critique et non pas une autorépresentation du genre de texte partagée par les auteurs.” Com efeito, o autorretrato encontra-se mais próximo da noção de tipo de texto (tipo de texto

descritivo) do que de género de texto.

38

Seguindo a tradição dos dicionários de literatura (Soveral [1960]1973; Morão 1997), a autora opta preferencialmente pela etiqueta memorialismo, preterindo a de memórias.

67 “sendo da esfera do público, os factos que sustentam o relato são passíveis de verificação” e o papel desempenhado pela memória, ou seja, a

[…] recriação selectiva do passado cujos pormenores se foram apagando por força da inexorável amnésia que ao longo da vida vai filtrando as recordações, ou que pelo contrário se fixaram como marcos ou nós obsessivos de um percurso vital […].

Rocha 2006, 628

É com base nesta indisponibilidade de recuperar o passado na sua totalidade que a autora justifica a necessidade que o memorialista tem de articular a veracidade histórica, o rigor documental e a objetividade com a memória criadora.

A importância da recriação seletiva do passado é tal que Rocha (1992, 38) defende que “a compreensão do género memorialístico deve atender mais ao estrato semântico do que ao técnico-compositivo”, concluindo que a especificidade semântica é um elemento determinante para a distinção entre as memórias e a autobiografia, ao contrário das opções técnico-compositivas (com destaque para os desvios temporais, flash-backs, antecipações, associações entre episódios pertencentes a diferentes tempos), semelhantes nestes dois géneros. Também Paula Morão estabelece uma definição de memorialismo com base em critérios de ordem temática e enunciativa, constatando que

Em sentido restrito, o memorialismo define-se como um género em que alguém narra a sua história integrada na do seu tempo, contando não só acontecimentos de natureza privada e individual (como o faz autobiografia) como outros, de que o protagonista e narrador foi agente, co-agente ou testemunha.

Morão 1997, 315

De acordo com Morão, as memórias são estruturadas com base na exercitação da memória, facto que se repercute quer ao nível do tema (seleção de eventos e/ou períodos), quer ao nível da enunciação: devido ao esforço de ordenação, a narração é feita de forma “predominantemente cronológica, organizando o que se narra em painéis temporais” (Morão 1997, 315), recorrendo ao sumário como técnica compositiva. Massaud Moisés destaca ainda o facto de a narração estar subordinada à “apreensão de experiências julgadas relevantes por parte do autor, não apenas como testemunho de uma existência marcada por episódios pitorescos e incomuns, mas também das impressões que os outros lhe deixaram na memória” (Moisés 2004, 280).

68 Para além de identificar as coordenadas deste género literário, Morão debruça-se ainda sobre o contexto de produção atinente às obras memorialistas escritas durante o período do Romantismo português. Segundo a autora, neste período literário, os textos memorialísticos foram escritos por indivíduos da vida pública, versando sobretudo temas históricos (com destaque para o liberalismo), com uma vertente predominantemente informativa (testemunho) e sem pretensões literárias. Bastante elucidativo nesse sentido é o registo, por parte de alguns autores memorialistas do século XIX, dos objetivos por que se pautam as suas memórias:

Quadro 14 – Objetivos da produção de textos memorialistas no século XIX (Morão 1997)

Obra Objetivo do produtor textual

Conde do Lavradio, Memórias do Conde do

Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal

(escritas em 1850)

• “defender a minha memória”

• “começar a recordar-me da minha vida passada e reunir os apontamentos”

Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato,

Memórias de Francisco Miguel Trigoso de Aragão Morato, começadas a escrever por ele mesmo em princípios de Janeiro de 1824 e terminadas em 15 de Julho de 1835

• “trazer à lembrança os diversos

acontencimentos que tenho presenciado e em que fui parte, para ter diante dos olhos o bem ou o mal que fiz e para assim me poder conhecer a mim mesmo”

Simão José da Luz Soriano, Revelações da minha vida e memórias de alguns factos e homens meus contemporâneos (publicadas em 1860)

• Defender-se de “acusações que com tanta semrazão se me fizeram”

• “sem pseudónimo apresentar-me ao público como autor da minha própria biografia”

João Brandão, Apontamentos da vida de João Brandão, por ele escritos nas prisões do Limoeiro, envolvendo a História da Beira desde 1834

(publicadas em 1870)

• “refutar as infundadas arguições e as torpes calúnias” de que se acha vítima

Contar a história “dos acontecimentos de que a Beira tem sido teatro, durante as pertinazes lutas civis”

Síntese elaborada com base em Morão 1997, 315-319

Ao refletir sobre os principais propósitos de quem escreve textos memorialísticos no período literário do Romantismo, a autora conclui que são dois os objetivos essenciais que orientam a escrita deste género textual: “As memórias, como mostram estes textos, são portanto lugar de reposição da verdade, palco do entrosamento da vida dos indivíduos com a das circunstâncias históricas do seu tempo” (Morão 1997, 317).

A mesma posição é sustentada pelo historiador Ventura (2008), ao referir que a produção de textos memorialísticos em Portugal foi particularmente abundante nos

69 séculos XIX e XX, tendo sido motivada, sobretudo, pelo impulso de autojustificação (e.g. memórias produzidas no período de 1910, em que se deu a mudança de regime) e pela necessidade de escrever um depoimento pessoal sobre acontecimentos históricos experienciados (e.g. lutas políticas da primeira metade de Oitocentos, campanhas coloniais do final do mesmo século, primeira Grande Guerra Mundial). Como refere o mesmo autor, as memórias são escritas por “diferentes” pessoas: escritores, juristas, políticos, diplomatas, militares, eclesiásticos…

Retomando a questão das relações entre géneros e atividades, poderá concluir-se que as memórias são, de facto, um género produzido em diversas atividades (literária, jurídica, diplomática, militar, eclesiástica) atividades essas que, por sua vez, condicionam o género ao nível do conteúdo temático verbalizado. Nesse sentido, Ventura não hesita em, considerando determinado período histórico, classificar os textos memorialísticos com base em critérios temáticos (as memórias produzidas no âmbito da Liga dos Combatentes são agrupadas “quanto ao teatro de operações, considerando as memórias referentes à guerra na Europa e à guerra em África, Angola e Moçambique” (Ventura 2008, 33).