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2.3. CÜMLENİN ÖGELERİ / Gäp Böläkläri

2.3.5. Zarf / Hal, räviş

Como Reidy é levado a projetar o Conjunto Habitacional Pefeito Mendes de Morais, em Benfica, conhecido (ono Pedregulho, um exemplo de habitação social?

Margareth da Silva Pereira .

A partir do final dos anos 20, a dimensão da arquite­ tura deixa de ser individuai e passa a ter como o seu foco de atenção a sociedade e a cidade. Seja por conta da multiplicação das favelas, seja por conta de novas epidemias - não se sabia controlar doenças como a tuberculose, por exemplo - a habita­ ção de caráter social passou a ser tema de discussão em todo o mundo No Brasil, isso resultou no primeiro grande congresso de habitação, realizado em São Paulo em 1 93 1 . Enquanto no Rio as favelas iam crescendo devagar, em São Paulo houve uma grande explosão demográfica, e o problema tornou-se evidente de uma forma mais rápida. Mas é só no pós-guerra, com a redemocra­

tização, que o tema ressurge, e aí dentro da estrutura do poder público do Distrilo Federal, com a criação do Departamento de Habitação Popular, vinculado à Secretaria de Viação e Obras Públicas; sua direção é entregue a Carmen Portinha. Ao mesmo tempo, cria-se o Departamento de Urbanismo, na mesma Secre­ taria, e o Reidy assume sua direção; aí sim, esses dois campos ganham força.

Em matéria de planejamento urbano, em 45 já se pensava que ele tinha que ser integrado. Antes de assumir o Departamento de Habitação Popular, a Carmen Portinho foi a Londres, onde passou um bom tempo estudando a polftica de construção de new towns, como eram chamadas na Inglaterra. Essas " novas cidades" eram planejadas para, estrategicamente, distribuir a população pelo território, de modo a não inchar ainda mais algumas metrópoles, em detrimento de outras áreas_ Para não criar desequilíbrios regionais que prejudicassem a produção econômica.

Quando Reidy afirma, dez anos mais tarde, que com a construção de Brasilia interiorizava-se a capital mas não se estava integrando a noção de planejamento territorial - isso só veio a acontecer mais tarde - ele estava reclamando exatamente disso: não se tratava apenas de transladar a capital de um ponto para outro; era preciso um plano integrado de desenvolvimento e de distribuição populacional pelo território.

Plantas o Pedregulho:

Planta geral do projeto. lanta dq jardim

Plana dJ escola, corte transersal

e

fachadas laterais e

principal

Alguns afirmam que o Pedregulho é mais um monumento do que um projeto. Do ponto de vista arquitetônico, era considerado avançado, audacioso, mas não ocorria a ninguém erguer 500 Pedregulhos para resolver o problema habitacional de todos os que necessitavam de um teto.

Considero que os arquitetos devem ser cobrados por seus gestos; a arquitetura tem que voltar a ser uma discussão pública. Agora, temos que levar em conta sua com­ plexidade e seus tempos. Com certeza, para o Reidy e a equipe do Departamento de Habitação Popular, o Pedregulho possuía um efeito-demonstração, que já havia sido per-

• o sonho utópico: Roidy o os modernos

cebido e foi salientado primeiro pela própria Carmen Portinha, logo após o momento em que ele concebeu o projeto. Lúcio Costa também faz referência a esse aspecto "simbó­ lico'; retórico, do Pedregulho num depoimento à época da construção em que saiu em defesa da obra, vista como um "luxo" tendo em vista suas caracteristicas para uma po­ pulação modesta. Na realidade, o Pedregulho não foi pensado como experiência isolada; dois anos depois, em 1 948, 1 949, Reidy já estava começando a pensar a Gávea, que ficou incompleta, e no ano seguinte, a Catacumba, a favela que existia no morro da Cata­ cumba, na lagoa Rodrigo de Freitas. Disto tudo, foi realizado um único conjunto, o Pedregulho, que demorou um escândalo de tempo para ser erguido: uns falam em nove anos, outros falam em doze. Um escândalo I

t

por isso que ficou a impressão de que aquilo

é só um monumento. Foi a própria Carmen Portinha quem acabou por advogar o efeito­ demonstração, quando percebeu que poderia compensar a demora em sua construção

com o impacto internacional causado pela obra. O Pedregulho foi admirado por revistas

alemãs - os alemães tinham longa tradição em construção de casas para operários - e nos Estados Unidos, onde a Carmen foi pessoalmente fazer conferências sobre a concep­ ção da habrtação popular do DHP sob sua direção e que integrava equipamentos sócio­

culturais, educativos e recreativos de forma muito firme e inovadora. Não se tratava apenas de construir conjuntos multifamiliares ou até mesmo casas individuais: era uma forma mais completa de pensar a forma de morar.

Se às vezes o arquiteto precisa de tempo para amadurecer uma idéia, pode-se considerar que o Reidy já tinha amadurecido idéias sobre algumas situações urbanas e estava conceb€ndo o Pedregulho como um protótipo reprodutível, tanto que imaginou o projeto da Gávea e a construção de um outro na Catacumba para os próprios moradores da favela, ao invés da simples remoção. Construiu o Pedregulho a duras penas, a Gávea ficou pela metade, e a Catacumba não saiu do papel.

A partir daí, o que acontece com o Reidy? Até mais ou menos 1948, ele está

apenas como arquiteto que planeja, posiÇão que nunca abandonou, mas, daí em diante, ele começa a ter uma ação polltica, a participar de fóruns, a participar da Fundação da Casa Popular, porque percebe que precisa constituir uma mentalidade mais ampla, para poder dar suporte a seus próprios projetos. Nabil Bonduki, de quem já falamos aqui, é

pesquisador de São Paulo e participou do governo de Luiza Erundina . 1 1 Ele vem ten­ tando recuperar esta história toda. En seu livro, As origens da habitação social no Brasil,

estuda a ação do poder público nessas áreas, inclusive no Rio.1 Z

O Pedregulho foi construido para os funcionários da prefeitura que moravam nas proximidades. A política dos Institutos de Aposentadoria e Pensões, os IAPs, também se envolveu com habitação e, naqueles anos, se construiu muita coisa. Mas não se che­ gou a construir sequer um terço do parque imobiliário consolidado; ficaram exemplos esparsos, gestos perdidos.

No filme Central do Brasil, há cenas filmadas no Pedregulho, que está totalmente degradado, espacial e socialmente. Será se o limite do sonho moder­

no? Tds iriam morar em prédios como aquele, mas a realidade contrariou a utopia?

Esta é uma das grandes dificuldades dos nossos tempos. A utopia, como já nos alertava Morus, é uma instáncia critica, aberta; mas insistimos em realizá-Ia em pedra e cal, fechá-Ia, fixá-Ia num ícone, numa imagem.

11 Luiza Erundina, entio no P, foi prefeita de sao Paulo entre 1 989 e 1993

Margareth da Silva Pereira .

Sou professora da cadeira que foi ocupada pelo Reidy - Planos de cidade - e fico muito aflita com a crítica atual, pós-moderna, que feliznente começa a ser nenos primária em relação à avaliação dessas questões e dessas nossas experiências locais. De fato, de um lado, existe una crítica à forna utópica de pensar a sociedade e a política das vanguardas modernas, vinda predominantemente da Europa. Essa crítica, me parece, se confunde tambén, no caso europeu, con una segunda questão: a política habita­ cional implementada nos subúrbios das grandes cidades no pós-guerra e um excessivo zoneamento das atividades urbanas. Lá eles construíram, em seis, sete anos, um terço do parque imobiliário. Ergueram, muito rapidamente, grandes conjuntos habitacionais, mas construíram em massa. Por outro lado, esses conjuntos foram em alguns casos pensados de forma associada a pólos funcionalmente bem planejados de comércios e serviços mas que, evidentemente, não seriam capazes de reconstruir a experiência social que estava implícita na construção das cidades em um processo longo. Assim, na Europa, a crítica à arquitetura moderna toma forma levando em conta sobretudo estes diferentes aspectos: a questão ideológica, mas tanbém a questáo tipológica, espacial, associada à gestão do crescimento demográfico e à cultura de massa. Ora, no Brasil, a crítica ao modo de pensar utópico é mais do que pertinente, não só por questões recentes, mas tendo en vista que ele se entranha profundamente em nossa cultura, inclusive urbanística, como mostramos em nossa tese de doutorado; a segunda parte do problema - a da política habitacional, a sociedade de massa - precisaria ser pensada de outra forma. Entre nós, não se fez nada parecido com o período europeu da "reconstrução" no sentido da oferta habitacional. Nossa política em relação à urbanização das favelas, à densificação de centros urbanos, à ofeta de habitação de forma diferenciada, para vários orçamentos, para diversas camadas sociais é ainda muito tímida. É preciso fazer muito mais, isto sem falar no resto . . . Mas justamente estes não são problemas de arquitetura . . .

Mas produzimos Brasília, uma cidade-símbolo da arquitetura moderna, que se tornou também alvo da crítica.

A crítica a Brasília teve a mesma parte de utopia que se fazia presente em mui­ tos dos urbanistas modernos. Repetiu, até certo ponto, o mesmo vício de achar que a ar­ quitetura seria capaz de, por si só, criar uma nova história, um novo homem, uma nova mentalidade. O tempo das cidades, vistas náo como matéria inerte de tijolos e concreto mas como constelações de nós e de fluxos de relações humanas, é muito mais longo. A crítica ao pensamento utópico ganhou visibilidade internacional com Brasília até porque era uma cidade nova, num país novo, cheio de projetos. Mas, o alvo principal e mais generalizado nos anos 60 foi menos a questão do pensamento utópico - que realmente foi posto a nu só com a queda do muro de Berlim, com o fim da URSS - do que os grandes conjuntos habitacionais, de baixíssima qualidade tanto do ponto de vista plástico como da possibilidade de diálogo com situações geográficas, climáticas e sociais diferenciadas e o fenômeno da "suburbanização".

Reidy foi por três vezes diretor do Depatamento de Urbanismo, alternando com Oliveira Reis. Saía o arquiteto e entrava o engenheiro?

• o sonho utópico: Reidy e 05 modernos

Não é tão simples. Já, à época, percebe-se múltiplas formas de pensar a cidade moderna. Evidentemente, o Reidy e o Oliveira Reis não fazem parte do mesmo grupo, em relação às visões de arquitetura. Mas o fato é que não havia um consenso sobre como deveria ser esse Rio moderno. Além disso, existe também a instabilidade administrativa: prefeitos substituídos a toda hora.

t

de se perguntar como foi possivel manter funcionando ° Departamento de Urbanismo, tendo em vista a oscilação entre visões diferentes de urbanismo e de arquitetura. Mas o Oliveira Reis também tinha um lado moderno. Como funcionárIO da prefeitura, possuía a visão administrativa de que nem tudo é cristalino. Além do mais, tinha a visão da necessidade de planejamento urbano, tal cono o Reidy.

Reidy deu o máximo de si na busca de um diálogQ