2. ZAMAN SERİSİ ANALİZİ
2.2. Zaman Serisinin Özellikleri
Não há registros escritos que apresentem o samba-rock e sua história. É curioso imaginar que uma dança apreciada e dançada por milhares de paulistanos, há mais de quarenta anos, seja desconhecida na própria cidade e também no Brasil. Investigar a história do samba-rock revela-se uma oportunidade para descobrir traços da cultura paulistana ainda não conhecidos pela maioria das pessoas. O objetivo aqui é o de apresentá-lo como uma manifestação da cultura popular urbana da cidade. Para acompanhar seu surgimento, e a sua consolidação, é importante frisar que não se fará um retorno ao passado tal e qual, pois se sabe que isto é impossível pela própria dinâmica do tempo.para o resumo
Nesta dissertação, o acesso à história do samba-rock propõe-se através de relatos orais de quem faz parte deste universo cultural. Isso não quer dizer que as informações coletadas por este método de investigação estejam preservadas e intactas. Só se fala do passado com a interferência do presente,
sabemos do passado pela sua ressonância na atualidade (Brito, 2002:57). As informações não permanecem intactas no tempo: expandem-se continuamente no mundo, replicando-se sempre que as condições do meio forem favoráve is à sua atividade interativa. E o estoque de informações acumulado no ambiente, ao longo do tempo, altera-se constantemente por conta das novas estruturas que emergem da auto-organização de todo o sistema, e dos erros de cópia gerados nas replicações sucessivas. Compreender a configuração cultural atual é compreender que o que está aí permaneceu no tempo sob diferentes designs devido à sua plasticidade, que permitiu acordos adaptativos com o ambiente (outras estruturas), os quais, por sua vez, mostraram-se eficientes como estratégia de continuação dos nexos de sentido entre os sistemas envolvidos ( Brito, 2002: 58).
Os registros históricos do samba-rock estão no universo da memória coletiva. Os relatos orais são os arquivos disponíveis para o acesso à sua história.
Segundo Katz (2005), o presente expandido é do fluxo de informações
entre corpo e ambiente (...).
Um corpo que samba hoje, requebra diferente do samba dançado há quarenta anos, quando as relações entre carnaval e televisão não eram como agora, nem tampouco o contato entre morro e cidade. Com isso, a própria noção de como era o samba e o corpo que sambava há quarenta anos também se modifica, uma vez que é com olhar de hoje que os lembramos. As informações vão encostando e transformando, tanto a si mesmas (o passo do samba no caso), quanto o ambiente (o corpo que dança esse passo), quanto a própria idéia de samba, tanto a de hoje quanto a do passado. São conexões que não obedecem à seqüência temporal linear do relógio, pois se dão em rede, em todas as direções. Olhamos o passado a partir do que se sucedeu no tempo depois dele. É com o futuro que se lê o passado (Katz, conferência no Centre Nacional de lá Danse, Paris, out/2005).
São Paulo reúne um mosaico de pessoas e lugares, nela não há uma cultura mas, sim, um caleidoscópio de culturas, responsável por uma contínua transformação do contexto cultural da cidade, complexo e profundamente hibridado. Portanto, não se quer aqui conferir qualquer tipo de essencialidade ou originalidade ao fenômeno samba-rock. Muito pelo contrário, o que se deseja atribuir a essa dança é o modo peculiar como ela se apropriou do diferente para continuar existindo.
(...) novamente, há que se ressaltar que quando se fala em cultura brasileira, fala-se também em dominação e resistência. É o primeiro passo para não se esperar que a dança brasileira porte algo de ‘original’ que expresse a autenticidade das suas raízes. Ou alguém espera que a dança francesa carregue o can can como uma matriz que habilite a ser identificada como francesa? (Katz, conferência no Centre National de la Danse, Paris, out/2005).
Quando se fala em dominação e resistência, fala-se em colonização. Segundo (Barbero 1997), é preciso estar atento para evitar o equívoco comum, atribuindo à cultura colonizada apenas duas opções independentes de contágio: a resistência ou a dominação. É preciso estar atento à trama, ou seja, às idas e vindas da relação entre a cultura popular, a hegemonia e a
cotidianidade, impedindo assim um raciocínio simplificador, que apresenta a dominação ou a resistência como ações praticadas ou pelo colonizador (dominação) ou pelo colonizado (resistência).
Quer dizer que frente a toda tendência culturalista, o valor do popular não reside em sua autenticidade ou em sua beleza, mas sim em sua representatividade sociocultural, em sua capacidade de materializar e de expressar o modo de viver e pensar das classes subalternas, as formas como sobrevivem e as estratégias através das quais filtram, reorganizam, o que vem da cultura hegemônica, e o integram e fundem com o que vem de sua memória histórica ( Barbero, 1997: 105).
Estas questões ajudam a entender como o samba-rock se constituiu, visto que musicalmente o rock & roll se proliferou enormemente pela cultura brasileira e foi aqui não só assimilado, mas também reestruturado. Isso aconteceu na música e também na dança. O músico Jorge Benjor fez samba com guitarra elétrica. Muito antes, Valdir Calmon fez um novo arranjo para a música Rock Around The Clock, colocando uma percussão de samba com pandeiro e chocalho.
Os dançarinos anônimos de São Paulo sambaram o rockability para dar nascimento ao samba-rock.
O nome samba-rock, na verdade, só apareceu nos anos 70. Antes disso, as pessoas usavam a expressão ‘rock’ para classificar esta dança. O convite para dançá-la se dava da seguinte maneira: - ‘vamos dançar um rock?
Segundo relato de Toni Hits (2005)23 um conhecido dj do universo do
samba-rock e também um colecionador e comerciante de discos, afirma que no início havia uma distinção clara na maneira de se dançar o rock e o samba, mas com o tempo, isso foi mudando.
Quando o rock and roll estourou, a partir de 1954, se espalhou pelo mundo. No Brasil (1954/1955), se dançava rock. As músicas chegavam aqui através de discos. O que aconteceu com a gente, nessa história toda: antigamente, rock era rock, samba era samba. Dançava-se dois e dois, caidinho e gafieira. O rock and roll dançava-se trançando os braços. O negro24 de São Paulo, quando criou o samba-rock, foi por causa da música25. Há uma música que define tudo isso: ‘Rock around the clock’, do Bill Haley, só que tocada em samba. Em 1958, Valdir Calmon fez esse arranjo. No dia que tocou essa música pela primeira vez, o pessoal ficou confuso, não sabia se dançava rock, se dançava samba. Então, partiram para dançar rock, só que com outro jeito. Eles criaram um swing nos pés. Eles trançavam os braços como no rock, só que no pé havia um swing diferente (Hits, 2005: em anexo).
Toni Hits foi um dos primeiros organizadores de bailes black26 em São Paulo. Na década de 70, os bailes eram divididos em baile branco e baile
black. O baile branco era freqüentado por pessoas da elite, que dançavam ao som de orquestras, o que encarecia o preço do ingresso. No baile black, as músicas eram tocadas em toca-discos (de vinil), o preço era acessível a seu público (pessoas de baixo poder aquisitivo) e as músicas eram bem variadas.
Toni Hits promoveu seu primeiro baile black em 1972, na Sociedade Amigos de Santa Catarina, no bairro do Jabaquara. Em 1980, numa churrascaria no centro da cidade de São Paulo chamada Grenn Express, teve, juntamente com Marcos Grenn, a idéia de promover um baile black que atraiu centenas de pessoas. O lugar ficou tão famoso que passou a ser usado exclusivamente para festas de samba rock e, até hoje, continua promovendo seus bailes black.
24 . Etnicamente negros, mas mestiços culturalmente. Se a cultura brasileira é mestiça, convém esclarecer que
ao se identificar certas autorias coletivas, como a dança e a música do samba-rock, não se pode essencializá- las.
25 Nesta dissertação a música é entendida de forma diferente: ela contribui para o surgimento do samba-rock,
mas não foi exclusivamente para o fenômeno, visto que a dança também colaborou de forma ativa para esta mestiçagem.
26 Baile black é uma festa organizada por equipes compostas por djs e organizadores. Da-se também o nome
Segundo o professor de dança Inácio Loiola de Souza Júnior, mais conhecido no mundo do samba-rock como “Moskito”, nas décadas de 70 e 80, o ritmo atingiu seu auge nos bailes black da periferia, que tinham como trilha sonora as músicas do cantor e compositor Jorge Benjor(Nota de rodapé p/
o benjor, procurar no site) (naquela época, o cantor tinha outro nome:
Jorge Ben). Moskito esclarece que a cidade de São Paulo foi onde o samba- rock nasceu e também relaciona os elementos com os quais essa dança se hibridou.O samba-rock, como forma de dança, sofreu influência27 do rockabily dos anos 50 e 60, só que com movimentos mais suaves, sem passos aéreos, porém com muitos giros, tanto do cavalheiro quanto da dama. O samba-rock, nesta reedição do movimento, está deixando seu caráter de música e dança de periferia e atingindo um público cada vez maior, chegando aos salões da moda (Moskito, 2005: em anexo).