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1.7. Tanımlar

1.7.3. Boş Zaman Engel Düzeyleri:

No trecho abaixo, Allan explicita mais uma iniciativa de inserção, que toma como base a expressão para a comunidade de sua postura dialógica diante da realidade pessoal e familiar.

Fui tentando visitar as pessoas de uma forma assim... Que elas notassem que eu num tava ali como um metido, mas que eu tava ali, que eu queria ser amigo, que eu queria saber a história delas, que queria conversar... Vinham e desabafavam:

uma mãe contava a história de um filho que tá com dezessete anos, já é drogado, já trabalha no tráfico, entendeu... Outra vinha e dizia que o marido batia nela... Aí começou, tá entendendo? (Allan, Trecho 07)

Aqui, o professor, como agente externo à comunidade, em suas primeiras incursões, parece demonstrar seu interesse em construir uma relação diferenciada, pautada na confiança, no respeito e na abertura para acolher as experiências a serem compartilhadas pelos moradores e suas famílias, via de regra dramas pessoais que refletem dramas coletivos vividos pela comunidade (GÓIS, 1994, 2005). O teor e a intensidade (nível de significância) das interações e dos conteúdos compartilhados entre o professor e a comunidade, verificadas tanto no trecho em tela como no decorrer do discurso do professor, sinalizam para uma efetivação dessa relação, com aceitação e investimento por parte da comunidade.

Ainda sobre a relação entre o diálogo e a inserção comunitária, o professor Carlos destaca a conquista do reconhecimento, junto a moradores da comunidade que não participam do núcleo de esporte e lazer, do espaço que foi aberto e garantido por ele junto à comunidade para a realização de suas atividades como professor.

Teve um dia que... Teve uma... Teve uma semana que nós tivemos... Uma semana de recesso... E a gente passou uma semana sem chegar na comunidade, e na semana seguinte quando eu cheguei lá tinha algumas pessoas da comunidade, que eram até ex-alunos, que: “ah, mas o professor não tá vindo mais não”. “Não, realmente semana passada devido a isso, isso, isso, isso não teve”. Foi até que um reconheceu: “realmente esse horário é do professor aqui, e sempre tá aqui, vamo sair da quadra”, aí pegou a bola e saiu. (Carlos, Trecho 98)

Mas sempre na questão do diálogo, de mostrar pra eles... Não a importância... A importância eles reconhecem, não se mostra a importância, mas se mostra a construção daquele horário... Né... (Carlos, Trecho 99)

Mais uma vez, notamos elementos que indicam uma postura dialógica, dessa vez no trato com o processo de confrontação com os moradores não-participantes do núcleo para a resolução do impasse ocorrido. O professor fez a opção por não utilizar o comumente chamado “argumento de autoridade” – autoridade que inclusive já lhe teria sido, em tese, outorgada pela comunidade, haja vista que já vinha há muito tempo realizando atividades nos mesmos horários e locais –, não assumindo, assim, uma postura autoritária. Do contrário, abriu espaço para que os próprios moradores percebessem o processo de construção dos horários, formação de turmas, discussão e pactuação com a comunidade, o que lhe daria o direito, assim, de usar e ocupar a quadra em horários fixos

para uma certa turma de crianças e jovens moradores da comunidade. Como o próprio professor coloca, “mostrando”, e não convencendo sobre importância ou impondo alguma medida a ser acatada.

Tal postura de Carlos também é relatada pelas crianças durante o grupo focal, quando apontam para a forma como o professor tratava os adolescentes e jovens que também utilizavam a quadra, onde desenvolvia as atividades de esporte e lazer pelo programa. Retratam em suas falas essa construção de consideração junto a esses moradores, ao que parece marcada por uma relação de respeito, como podemos perceber no trecho a seguir: “Eles não respeitavam o professor, agora o professor falou com eles, agora respeita. Espera o professor acabar a atividade pra depois jogar” (Grupo focal, Trecho 101).

Essa atitude do professor ganha dimensão dialógica na medida em que: a) busca se apresentar ao grupo de jovens moradores que estão usufruindo da quadra na praça, dirigindo-se a eles e lhes consultando, considerando seu direito de usufruir do espaço público comunitário; b) indica assertivamente o desejo de iniciar naquele momento e naquele mesmo espaço suas atividades rotineiras, relativas ao programa, ação respaldada por sua vinculação com a comunidade. É o que observamos no trecho que segue, pelas palavras das crianças do grupo focal: “Ele pergunta [o professor]: ‘ei pessoal que horas que vocês vão terminar [o racha] aí, que eu tenho que começar a atividade’... Espera a boa vontade do pessoal sair” (Grupo focal, Trecho 99).

Aqui, destacamos como emblemática dessa situação de interação entre professor e comunidade a expressão “esperar pela boa vontade do pessoal”, colocada no grupo focal, referindo-se à postura de espera do professor de uma contra-atitude a ser assumida por parte da comunidade, representada por adolescentes do “racha”. Entendemos que tal espera do professor nada tem de passiva ou permissiva. Pelo contrário, associamos com uma intencionalidade metodológica, ainda que assistemática, de caráter facilitador da relação de construção de respeito, vinculação e fomento à autonomia e responsabilidade junto à comunidade, processo em que o professor espera de forma presente, crítica e atenta

a tomada de posição e de atitude, ato fruto da tomada de consciência por parte de indivíduos frente à situação conflitiva vivenciada no momento.

Podemos inferir, então, que a opção por uma postura dialógica por parte dos professores, quando de seus primeiros momentos de inserção na realidade comunitária, teve relevância bastante significativa para sua entrada na comunidade, para a realização das primeiras iniciativas de vinculação afetivo-social, bem como para a criação de condições básicas ao desenvolvimento e sustentação do trabalho. Além disso, podemos acrescentar que, em decorrência de interações marcadamente dialógicas, a vinculação com os professores desenvolveu-se de forma diferenciada, uma vez que ambos os professores parecem ocupar lugar de referência junto à comunidade, mas sem o viés autoritário, revelando proximidade, respeito, consideração, interesse e abertura à realidade pessoal e coletiva com que se defrontam.