Em consonância aos objetivos desta investigação, a construção do corpus de pesquisa (BAUER; GASKELL, 2000) se deu eminentemente mediante a entrevista individual semi-estruturada e a entrevista coletiva, através do grupo focal. Acreditamos que a utilização desses instrumentos permitiria o acesso mais efetivo a informações relevantes ao problema investigado, oriundos tanto de interações grupais como de interações diádicas.
Toda pesquisa com estrevistas é um processo social, uma interação ou um empreendimento cooperativo, em que as palavras são o meio principal de troca.
Não é apenas um processo de informação de mão única passando de um (o entrevistado) para outro (o entrevistador). Ao contrário, ela é uma interação, uma troca de idéias e de significados, em que várias realidades e percepções são exploradas e desenvolvidas. Com respeito a isso, tanto o(s) entrevistado(s) como o entrevistador estão, de maneiras diferentes, envolvidos na produção de conhecimento. Quando nós lidamos com sentidos e sentimentos sobre o mundo e sobre os acontecimentos, existem diferentes realidades possíveis, dependendo da situação e da natureza da interação. Deste modo, a entrevista é uma tarefa comum, uma partilha e uma negociação de realidades. (idem, p. 74)
Nessa perspectiva, a opção pela entrevista individual objetivou acompanhar mais de perto o enredamento entre o sentido (significado pessoal) e o significado (sentido coletivo, compartilhado) (GÓIS, 2005), presentes no discurso dos sujeitos, acerca da sua percepção e compreensão sobre sua própria atuação junto às comunidades, com vistas à consecução dos objetivos do programa “Esporte na Comunidade”. Acreditamos propiciar, desse modo, a captação da expressão de nuanças do movimento da identidade dos participantes diante de possíveis afetações afetivo-emocionais e crítico-dialógicas ao longo das situações e espaços de atuação comunitária, em meio às quais buscaremos identificar e analisar elementos que sugiram indícios relativos ao desenvolvimento de práxis libertadora.
Neste caso, a entrevista individual possuiu uma semi-estrutura flexível, que orientava a conversação com os participantes, na qual um roteiro de temas geradores e questões relevantes fora elaborado a priori e lançado ao longo da interação. Isto propiciava uma abertura para o surgimento de elaborações por parte dos entrevistados que poderiam, a princípio, não ter sido previstas pelo investigador, mas que ganhariam relevância no momento da interpretação do corpus, como efetivamente ocorreu com alguns conteúdos.
Já com relação à entrevista coletiva, optamos pelo método do grupo focal, mas em uma perspectiva que consideramos diferenciada. Esta peculiaridade encontramos na concepção de grupo focal que nos é oferecida por Bauer e Gaskell (2000), na qual se destacam os processos sócio-interativos entre os participantes, a dinâmica grupal, a geração dos sentidos e significados pela interação ativa entre os participantes, e destes com o entrevistador, a partir de questões trazidas.
No grupo focal, o entrevistador, muitas vezes chamado de moderador, é o catalisador [ou facilitador, para nós] da interação social (comunicação) entre os
participantes. O objetivo do grupo focal é estimular os participantes a falar e a reagir àquilo que outras pessoas no grupo dizem. É uma interação social mais autêntica do que a entrevista em profundidade, um exemplo da unidade social mínima em operação e, como tal, os sentidos e representações que emergem são mais influenciados pela natureza social da interação do grupo em vez de se fundamentarem na perspectiva individual, como no caso da entrevista em profundidade. (p. 75)
Tal concepção sobre o grupo focal encontra eco junto a nosso marco teórico, especialmente diante da perspectiva freiriana de construção do conhecimento, emergindo a partir de processos dialógico-comunicativos entre sujeitos cognoscentes diante do mundo representado em objetos cognoscíveis (FREIRE, 2002). Como ferramenta que buscava implementar e operacionalizar processos sócio-psicológicos de aprendizagem, Paulo Freire (1969) nos legou o círculo de cultura, que em muitos aspectos se aproxima da concepção acima trazida de grupo focal. No momento da realização da entrevista, tal aproximação se deu ainda com mais evidência.
O círculo de cultura, como instrumento para a construção de informações em uma situação grupal, reflete um exercício de consistência teórico-metodológica interna a esta investigação. O círculo de cultura, metodologia criada e amplamente desenvolvida inicialmente por Paulo Freire (1969, 1980), propicia não só a construção do corpus da pesquisa, mas principalmente a problematização das percepções dos participantes e do contexto sobre o qual as lançam.
Possui um formato metodológico que fomenta a interação social intensa entre os participantes, marcada pela abertura e respeito às diferenças, pelo confronto de idéias, pela síntese de novos esquemas de compreensão, pela cooperação e solidariedade, pela leitura coletiva e crítica da realidade vivida, e pela práxis (que estimula a indissociabilidade entre ação-refexão-ação). Dispostos em círculo, em uma ambiência de segurança, confiança e respeito ao diverso, os participantes contam com a facilitação de um agente moderador (um facilitador) para dialogarem em torno de temas geradores (contidos em palavras, expressões, imagens, músicas e outros), processo mediante o qual realizam a análise e a leitura de sua realidade compartilhada. O facilitador favorece o encontro entre os entendimentos e a mútua compreensão, bem como a problematização de percepções e pontos de vista, tendo um papel ativo e crítico no grupo. Com isso, se busca sistematizar
os saberes oriundos da experiência vivida de cada participante e do grupo, de modo inclusivo, criativo e sintonizado com seu cotidiano (PORTO DE OLIVEIRA, 2003).
Cabe ressaltar que em ambas as conversações, tanto individuais como a coletiva, foram guiadas por temas delimitados a partir dos objetivos específicos, com base no referencial teórico, sendo inseridos seguindo o fluxo da interação, sem necessidade prévia de seguir uma ordem predeterminada, por valorizar o desenrolar fluido das elaborações, o que é próprio dos processos interativos. Os roteiros que reúnem tais temas, e que orientaram as entrevistas, encontram-se no Apêndice D e E deste trabalho.
Assim, foram realizadas duas entrevistas individuais, com dois professores do programa “Esporte na Comunidade”. As entrevistas tiveram uma duração média de 85 minutos, tendo sido realizadas em locais onde foram resguardadas as condições adequadas para sua realização (segurança, privacidade, significativo isolamento acústico, ausência de interrupções).
Os professores entrevistados atenderam prontamente ao convite para participação da pesquisa, que foi feito pessoalmente, e também via correio eletrônico, cujo conteúdo da mensagem trazia mais informações sobre a pesquisa, como sua natureza, relevância, objeto, objetivos e síntese de suas etapas.
O desenvolvimento das entrevistas aconteceu em clima de confiança e significativa abertura por parte dos entrevistados, o que foi estimulado e cuidado ao longo de seu processo de condução. Apenas os primeiros instantes, especialmente da primeira entrevista, foram marcados por alguns laivos de ansiedade. O pesquisador, atravessado pelo entusiasmo em estar efetivamente adentrando com mais profundidade o campo, vivificado e corporificado na pessoa do professor de Educação Física; este sujeito, por sua vez, relativamente tenso por estar, muito provavelmente pela primeira vez, atuando como informante, como gerador e catalisador de percepções sobre sua prática e experiências vividas em dados para uma pesquisa científica.
Contudo, o vínculo que se estabeleceu dirimiu progressivamente tais amenas expressões de ansiedade, que foi dando lugar a entusiasmo, autenticidade e vivacidade no ato de evocar todo um conjunto de traços e dinâmicas constituintes do campo. Nossa espontaneidade também abriu espaço para que a irreverência tivesse algum lugar na interação, em momentos ao longo da entrevista, o que acreditamos ter favorecido seu desenrolar da entrevista, ainda que se tenha mantido a austeridade necessária ao processo.
As mesmas observações se aplicam à segunda entrevista, que chamou a atenção pela grande fluência verbal do entrevistado, que rendeu mais de 90 minutos de conversação, praticamente ininterruptos. Diferentemente do primeiro entrevistado, mais objetivo, direto e conciso em suas falas, o segundo professor entrevistado não só se expressava muito, como também sobre muitas coisas, abrindo várias unidades de sentido nas unidades de contexto, que denominamos de trechos. Ainda assim, não foi significativa a ocorrência de dispersão, em ambas as entrevistas.
Com relação à realização do grupo focal, cujo material gerado compôs o
corpus dessa pesquisa, contamos com a participação de nove crianças, sendo que oito
delas participaram desde o seu início, e mais uma no último quarto da entrevista. A média de idade do grupo foi de aproximadamente 10 anos; a criança mais jovem tinha 8 anos e a de idade mais avançada, 14.
A descrição mais detalhada do processo das entrevistas, tanto as individuais como o grupo focal, pode ser obtida nos Apêndices A, B e C do presente trabalho.