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As paisagens das fotografias de cartões-postais44 revelam formas

direcionadas de percepção do fotógrafo em relação ao mundo que o circunda inter- relacionadas a um mercado editorial. Estão ligadas principalmente aos usos que os postais mantêm em nossa sociedade. São usos que englobam o “âmbito comercial, artístico, científico e promocional”. Estratos ligados a uma estratégia de mercado editorial (KOSSOY, 2009, p. 64-65).

O declínio da fase de ouro, desse prático meio de comunicação, coincide com o período entre guerras, com o esgotamento de certas esperanças, o reordenamento dos grandes paradigmas unificadores, as conformações de novos sentidos e a inserção de novos e mais práticos meios de comunicação. Nesse aspecto o uso do cartão-postal se direcionou aos colecionadores, a algumas correspondências e ao turista que deseja ver e transmitir aos outros a paisagem valorizada e sublimada em seus aspectos monumentais do local que visitou. O público que aspira outras visualidades no cartão-postal, além da paisagem, após o período descrito, é periférico e restrito, está concentrado em grande parte nos colecionadores (VASQUEZ, 2002).

Nesse contexto, há uma modificação nas sensibilidades e nas relações sociais, que afetaram e transformaram o público consumidor e, consequentemente, houve uma mudança de sentido na relação com essas imagens. Desta afirmação reside nossa principal questão: Quais os elementos ideológicos que motivaram e materializaram a construção de paisagens, interligados a lógica moderna, que circulavam em cartões-postais oferecendo a cidade aos diferentes olhares?

Qualquer que seja o assunto estabelecido pela fotografia que tem como suporte o cartão-postal, documentará a representação de um quadro social, capaz de ser captado temporal e espacialmente. O econômico faz o esboço dessas visualidades, embora haja outros filtros revezando-se por meio das possibilidades e contradições. Pois toda a imagem fotográfica “representa o testemunho de uma criação. Por outro lado ela representará sempre a criação de um testemunho” (KOSSOY, 2003, p.50). Com isso, tem-se que as imagens fotográficas são metades de um inteiro; testemunho e criação. Ao passo que toda fotografia é um testemunho

44 Diante das diferentes formas que se tem hoje em dia de recepção do cartão-postal, como os

cartões-postais virtuais e os cartões em DVD, vale ressaltar que nos atemos a dissertar sobre o cartão-postal portador de uma imagem fotográfica em sua forma e recepção clássica.

da criação, porém, sem deixar de ser um testemunho da sensibilidade de quem a elabora.

Então, não há como imaginar o fotógrafo com uma atuação neutra, já que a sua performance procede da representação social formada por diversos fragmentos articulados em um sistema narrativo-interpretativo que segundo Kossoy (2003, p. 49) extrapola à condição iconográfica por participar de um espaço racionalmente arquitetado, intencional, orientado pelo preenchimento harmonioso e selecionado do campo:

Em conexão com as mais diversificadas fontes que informam sobre o passado, têm-se maiores elementos para compreender a atitude dos personagens estáticos e mudos e dos cenários parados no tempo, assim como as possíveis pistas que esclareçam quanto a atuação do próprio fotógrafo que registrou seus temas segundo uma determinada intenção. Conjugando essas informações ao conhecimento do contexto econômico, político e social, dos costumes, do ideário estético refletido nas manifestações artísticas, literárias e culturais da época retratada, haverá condições de recuperar micro-histórias implícitas nos conteúdos das imagens e, assim, reviver o assunto registrado no plano do imaginário (KOSSOY, 2003, p. 117).

Como analisa Boris Kossoy (2009, p. 63-71), podemos entender que na constituição e disseminação da imagem fotográfica em um cartão-postal há antes de qualquer coisa os condicionamentos históricos e contextuais que perpassam e codificam o olhar do fotógrafo. Sendo o fotógrafo conotativamente o emissor da paisagem imagética, produções que relatam a história visual de uma sociedade, documentam espaços importantes, lugares de passagem e estilos de vida. Logo, não há imagem fotográfica sem a percepção da linguagem, sem um universo de intencionalidades e reflexões que raramente são inocentes.

Tem-se na fotografia um quadro dual no qual a dimensão imagética mostra-se como mapa que se alimenta pelo e para o domínio social. Para significar as tramas que acompanham uma imagem fotográfica é preciso problematizá-la por meio de seus elementos, perceber seus artefatos45, as articulações, as ideias e as formações discursivas que essa imagem reproduz. Mais do que isso, entendê-la como um sistema de representação cultural, sociopolítico e econômico, orientada de específicas ideologias e interesses.

45 De acordo com Ulpiano Meneses, o artefato é indissociável do seu lugar social e das técnicas de

produção, circulação e consumo. Na iconosfera, a leitura fotográfica deve ser associada a diferentes práticas sociais. Exemplo: Um cartão-postal, mesmo portando a fotografia é um outro artefato, com uma diferente forma de circulação e leitura. Para um maior entendimento ler: MENESES, (2003a. p. 11-36.)

Nesse universo inter-relacionável, observamos que o fotógrafo é um operador que constrói os significados por meio das práticas cotidianas, através do seu olhar ao mesmo tempo coletivo e individual. O que faz com que a fotografia se constitua em uma representação cultural e em fragmentos da organização social com sentidos reais e estéticos (MARTINS, 2009). De maneira que o entendimento e a (re)construção dos seus significados resulta na compreensão que se dá nas paisagens dos cartões-postais.

Desse modo, o trabalho desenvolvido por Jaeci Emerenciano Galvão, elaborou uma narrativa visual da cidade. As projeções e perspectivas visuais paisagísticas de suas imagens nos cartões-postais cruzam os anos de 1940 a 1980 e inscrevem esses espaços na memória coletiva. Este momento é o período em que Jaeci Emerenciano construiu sua mais vasta obra, o que lhe deu relevante destaque como o fotógrafo da localidade. Desenvolveu uma série de fotografias que ilustraram a maioria dos cartões-postais da cidade. Concomitantemente, a atuação de Jaeci como fotógrafo, está relacionada ao período que compreende desde a Segunda Guerra Mundial até o chamado “boom turístico”, ocorrido na década de 1980, na cidade de Natal.

Os cartões-postais, de Jaeci, revelam uma paisagem, em seu ponto máximo de referência. A atuação profissional do fotógrafo está inclusa no período inicial das articulações sociopolíticas para a construção de uma cidade turística. Desse modo, na medida em que as fotografias dos postais de Jaeci Galvão privilegiam a temática cultural, que revela a representação da cidade de Natal, em processo de transformação acelerada, nos dá a possibilidade de desvelar as camadas de significados que integram a absorção da paisagem simbólica que codifica a cidade.

Esta é a primeira investigação sistemática sobre um dos seguimentos da obra fotográfica de Jaeci Galvão, os cartões-postais e para isso foi fundamental considerarmos a finalidade dessa produção simbólica e estética, vinculada ao circuito empresarial do turismo, que nesse contexto cria um repertório imagético para atração do “turista”. O desejo de adaptar a cidade para a atividade foi sendo intensificado de acordo com a tendência do governo federal de incentivar as políticas de fomentação do turismo.

As políticas do setor turístico em Natal basearam-se principalmente, na valorização litorânea, direcionados ao segmento de sol e mar. As implementações

que, a partir de 1980, favoreceram a cidade despontar como destinos turísticos foram sendo construídas por meio de discursos e ações. Entre essas ações estão as visualidades das paisagens da cidade, destacadas por Jaeci, que colaboraram no processo de conformação da cidade para o turismo.

Antes da análise dos cartões-postais, objeto dessa pesquisa, procuramos resgatar os elementos que marcaram a história de Natal, desde a origem desse meio de comunicação. Observamos que as espacialidades produzidas e reveladas nas fontes imagéticas, no início do século XX, indicavam o desejo de ser aprovado pelo outro. O olhar do outro deveria ser de aprovação, pois esse outro servia de referência para o que estava sendo construído.

Os cartões-postais levavam uma mensagem unificadora dos espaços, com sentido educador; ou seja, a paisagem deveria ser vista, assimilada e de alguma maneira reproduzida. Em Natal, as primeiras produções fotográficas de Jaeci, ainda encenam esses conceitos formadores. Destaca a cidade, seu crescimento urbano, os novos edifícios, ruas e avenidas. Apresenta a natureza servindo e sendo reorganizada pela técnica humana, ao mesmo tempo em que, destaca as paisagens que delineiam a natureza em torno de uma estética romântica, como veremos mais adiante.

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