2.2. TEMA
2.2.1. Yozlaşma
No decorrer da história diferentes sentidos vêm sendo atribuídos à paisagem litorânea.
A literatura dos séculos XIV e XV é rica nas descrições de viagens às ilhas paradisíacas, povoadas de imagens e mitos interpretados a partir do entendimento que se tinha dos textos bíblicos. Durante esse período, a faixa litorânea era como uma fronteira, entre dois mundos distintos: o conhecido e o desconhecido, o definido e o indefinido. O mar que era visto como um grande abismo surgido após o dilúvio, indomável, inacabado e desordenado. O oposto da imagem do paraíso, que era um lugar seguro, calmo, sem tempestades, uma eterna primavera. No paraíso não existia o mar (CORBIN, 1989).
Essas eram algumas das impressões ligadas diretamente ao mar, que povoavam o imaginário coletivo. No século XVI, com a descoberta do novo mundo, surge um novo continente e com ele, novos signos, no qual novos conceitos em relação ao mar começam a surgir, principalmente na literatura dos viajantes, mais ainda com imagens aterrorizantes (COELHO, 1998).
Somente com as descobertas científicas, proporcionadas pelo iluminismo, com a difusão da indústria, da construção de espaços da cidade e diante de uma lógica racionalizada dos espaços é que as ideias que tomavam a natureza, inclusive o mar, como arredia ao humano, modificam-se e a transformam em uma aliada da evolução humana em busca do progresso. É inclusive, a partir desse novo olhar que surgem as motivações para as viagens nas quais os turistas, desejavam percorrer as mais belas paisagens naturais. Essas paisagens se tornaram um espetáculo a ser vivido e um aprendizado do mundo moderno, constituindo práticas, que buscava por meio da natureza, o aprendizado e a contemplação (CORBIN, 1989).
Mesmo com os novos sentidos que a natureza adquire em fins do século XVII e durante todo o século XVIII, as lembranças literárias provenientes do universo mental europeu, até meados dos Setecentos, não foram transformadas de forma
total e imediata pela intervenção da ciência em percepções positivas. A natureza foi considerada, mesmo pela ciência, um fator determinante a evolução física e material do ser humano. Sendo responsabilizada pelos progressos e atrasos da civilização e ainda vista como a maior responsável pelo caráter e valores humanos. Aspectos considerados negativos e positivos no comportamento e valores humanos eram relacionados à natureza em que os indivíduos encontravam-se.
Nessa lógica científica estava submersa a cidade de Natal, no início do século XX, isolada e atrasada por estar em volta de uma natureza determinante. Sua posição geográfica era considerada desfavorecida por uma natureza exuberante, rodeada por uma cadeia de dunas, tabuleiros de areia e rios. Segundo o pensamento dos jovens bacharéis, estudiosos do local, em acordo com a filosofia europeia, seriam os elementos naturais os grandes responsáveis pela paisagem monótona da cidade, pela apatia, preguiça e ócio que assolava os moradores da capital incentivando o seu atraso enquanto capital do estado. A prosperidade da capital, desejada principalmente pela elite local, era barrada pela força imperiosa da natureza que rodeava a cidade. Para vencer esse infortúnio era necessário vencer o isolamento imposto pela natureza. Só dessa forma, Natal caminharia ao progresso (ARRAIS, 2006).
A praia, um dos exemplos mais marcantes da paisagem natural em Natal, ainda no início do século XX, era um depósito de lixo, um esgoto. Foi hábito no Brasil, nos períodos anteriores, usar as águas do oceano como receptáculo de dejetos domésticos, sendo o mar transformado em sinônimo de sujeira ( MARINHO, 2008). As dunas, paisagem também representativa da cidade, foram descritas, por um dos grandes intelectuais locais, Manoel Dantas (1867-1924), como um perigo iminente pronto a desencadear um eventual desmoronamento das suas areias. Natal estaria fadada a viver para sempre sob essa ameaça, se não se redimisse em seus valores e caminhasse ao ritmo do progresso e da civilização (LIMA 2010).
Nas primeiras décadas do século XX, iniciou-se um processo de redefinição no olhar que a elite e os intelectuais natalense tinham em relação à natureza. Essa mudança, além de não ter sido de uma hora para a outra, não ocorreu de maneira uniforme. Foi um processo decorrente de outros, como da modernização e industrialização que chegando na cidade deixou a vida mais dinâmica, da nova lógica de consumo, do desenvolvimento dos meios de transporte,
das ideias de higiene e saúde que se propagavam. Tais fatores contribuíram, de forma decisiva, para um novo olhar em relação à natureza, principalmente ao litoral.
Outro fator que também contribuiu para a aceitação do mar como espaço positivo de ser partilhado e vivido, foi a literatura médica que passou a indicar esse espaço como terapia adequada para certos tipos de mazelas. Esse conceito vai sendo, então, assimilado. Partilhando dessa filosofia, Dr. Calistrato, médico natalense, fundou a primeira estação balneária de Natal, localizada na praia de Areia Preta. Foi recebida com muito entusiasmo pela elite, que ao absorver as novas ideias reordenou os usos da praia por meio de normas e condutas, tais como; comportamento civilizado e vestuário adequado. Práticas e usos que não eram possíveis a todas as classes, fazendo com que o espaço fosse inicialmente ocupado pela elite da cidade (ARRAIS; ANDRADE; MARINHO, 2008).
A natureza sobre a qual estava assentada a capital ganha novos sentidos. Seus benefícios, com destaque para o mar, aos poucos materializam-se no ideário dos natalenses. Como exemplo pode-se ressaltar a campanha publicitária do Café Petrópolis, no jornal A Republica, do dia 13 de fevereiro de 1924, que para atrair seus clientes, apresenta o ambiente como o ponto mais saudável de Natal, pelos ares recebidos devido à proximidade com o oceano. Os saberes médicos são, estrategicamente, destacados para promover e comercializar o ambiente. As transformações, e a ânsia pelo progresso vão moldando os espaços da cidade. Um dos marcos que aponta o incentivo do banho de mar para população de Natal se dá após o prolongamento dos trilhos dos bondes da companhia Ferro Carril até a praia de Areia Preta. Esse é um momento que inicia a construção de um novo sentido compartilhado pela coletividade nas praias de Natal (MARINHO, 2008).
As novas práticas em relação ao uso da praia que iniciam sendo adotadas por um privilegiado grupo frequentador, a elite da cidade, servem de parâmetro para os outros menos abastados. Suas posturas são entendidas como dignas, civilizadas e próprias. Esses hábitos ganham visibilidade e segundo Corbin (1989), o desejo de imitar-lhes, de adquirir status, além das indicações fizeram com que outros grupos começassem a reproduzir e a materializar essas práticas, buscando as praias para o banho de mar. As praias da capital, habitadas anteriormente apenas por pescadores, foram invadidas por casas de veraneio de políticos, industriais, funcionários públicos e comerciantes locais. Várias transformações aconteceram, porém, as maiores ocorridas no espaço urbano da cidade, encontram-se após a
segunda guerra mundial e atrelam-se as ideias que colocam o turismo como uma indústria que propícia o crescimento econômico local, uma força motriz que atrelada à natureza local, levaria a capital ao progresso econômico almejado.