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II. 2 “Turan” Kitabı

II. 5. Yusuf Akçura (1879–1935)

Como já mencionado, vários autores compartilham da hipótese de que a gramaticalização é unidirecional, ou seja, um processo universal, que só pode desenvolver-se da esquerda para a direita: do mais concreto para o mais abstrato, do mais referencial para o mais subjetivo. Nessa perspectiva, Heine, Claudi e Hünnemeyer (1991b) reconhecem o

princípio da unidirecionalidade ao sustentar que as estruturas “menos gramaticais” podem tornar-se “mais gramaticais”, porém não o contrário.

Segundo Shyldkrot (1995), embora o processo tenha o caráter unidirecional, é impossível predizer o percurso inteiro de mudança que uma unidade lingüística pode sofrer, ou seja, apesar da unidirecionalidade, é difícil afirmar com certeza se uma unidade qualquer seguirá um percurso gramatical definido. Do mesmo modo, Hopper e Traugott (1993, p.95) declaram que não há nada determinístico entre gramaticalização e unidirecionalidade, uma vez que as mudanças não têm de acontecer e, mesmo quando se iniciam, não precisam necessariamente atingir o mais alto grau de gramaticalização, passar por todos os estágios do

cline.

Sobre a noção de cline, os autores ressalvam que ele não deve ser entendido como um contínuo rigoroso, com percursos de mudança predeterminados, mas deve ser concebido como um caminho em que certas propriedades gramaticais se unem em torno de construções com semelhanças familiares. Além disso, pelo fato de existir sempre um período de sobreposição entre a forma antiga e a nova, ou entre a função dos morfemas, o cline não deve ser compreendido como uma linha em que tudo está em seqüência. Heine et al. (1991a) usam o termo “chaining”38 (cadeia) para enfatizar a não-linearidade das relações de um cline.

Apesar da impossibilidade de prever em que casos a gramaticalização ocorrerá, uma série de hipóteses podem ser formuladas com relação às mudanças que se produzem no curso do processo. Por exemplo, pode-se admitir que, quando uma unidade que designa espaço se gramaticaliza, ela se desenvolverá em uma direção que indica tempo; e se ela continua gramaticalizando-se, tende a se transformar em unidade mais gramatical, que exprime causa ou concessão. Contudo, isso não quer dizer, de acordo com Shyldkrot, que todos os termos que possuem a noção espacial terminam necessariamente por marcar tempo,

nem que todos aqueles que exprimem tempo se desenvolverão em conectores de causa ou concessão. Isso permite supor, porém, que o contrário não deva ocorrer, ou seja, um termo que indica concessão não deverá ser a fonte de uma palavra que marca a noção temporal.

De acordo com Hopper e Traugott (1993), alguns contra-exemplos da hipótese da unidirecionalidade existem, mas a sua relativa baixa freqüência corrobora a noção da direção prototípica da gramaticalização. Além disso, até hoje não há evidências de que itens gramaticais surgem completos, ou seja, podem ser inovados sem uma história lexical anterior, no passado remoto.

Os caminhos múltiplos que uma mesma forma pode seguir também costumam ser citados como contra-exemplos para a unidirecionalidade. No entanto, embora a unidirecionalidade se refira à direção única lexical > gramatical, não quer dizer que exista uma única trajetória para cada item lexical, haja vista que um mesmo item lexical pode dar origem a vários itens gramaticais. O processo de mudança lingüística em que um único elemento desenvolve diversas funções gramaticais em diferentes construções é denominado por Craig (1991) de poligramaticalização39. Hopper e Traugott (1993) destacam que o desenvolvimento por tais caminhos múltiplos não anula as regras da unidirecionalidade, pois as últimas formas continuam sendo mais gramaticais (abstratas, reduzidas, generalizadas) que as primeiras.

Uma posição mais crítica a respeito da unidirecionalidade na gramaticalização é de Castilho (1997a, 1997b, 2003). Segundo o seu ponto de vista, sustentar que a gramaticalização é um fenômeno unidirecional é admitir que a linguagem tem um caráter linear e estático, passível de representação através de uma linha com pontos discretos e deriváveis entre si. Desse modo, ele reconhece um forte conflito entre a linearidade da proposta e a dinamicidade do fenômeno de mudança lingüística. Castilho (2003) ressalta que,

39 O termo poligramaticalização é usado para descrever o fenômeno pelo qual um único morfema é a fonte para

múltiplas cadeias de gramaticalização, que podem desenvolver-se em domínios funcionais distintos da mesma língua (CRAIG, 1991, p.455-6).

pelo fato de a gramaticalização ser um processo de criatividade lingüística, ela demanda uma teoria capaz de representar e de explicar o dinamismo natural das línguas.

Conforme o autor, não se deve estabelecer uma seqüenciação unidirecional entre os sistemas e suas propriedades. Em seu conjunto, eles integram a competência comunicativa dos falantes, que operam ao mesmo tempo diferentes capacidades mentais, não hierarquizáveis, nem lineares. Em outras palavras, os itens gramaticalizados podem aparecer simultaneamente e qualquer item contextualizado preserva, ao mesmo tempo, suas propriedades sintáticas, discursivas e semânticas, sem que seja preciso estabelecer uma correlação de precedência genética entre eles.

Essa crítica de Castilho (2003), todavia, está assentada na própria advertência que Hopper e Traugott (1993) fazem com relação à proposta da única direção – cline não é um contínuo rigoroso – e na ênfase de Heine et al. (1991a) à não-linearidade das relações.

Desse modo, tendo em vista as duas propostas de direção da gramaticalização: a

unidirecionalidade e a multidirecionalidade, proposta por Castilho (2002), a questão que se coloca é se os estágios pelos quais um item passa, no processo de mudança, são sucessivos ou

simultâneos. Embora a relevância da proposta de Castilho não seja desconsiderada, o presente trabalho compartilha da primeira hipótese, uma vez que segue a concepção clássica de gramaticalização, que prevê caminhos unidirecionais de itens menos gramaticais para itens mais gramaticais.

Esses breves apontamentos finalizam-se com a seguinte declaração de Gonçalves (2003), que apresenta uma abordagem metafórica a respeito da direção da gramaticalização:

... a unidirecionalidade seria o bisturi que recorta um tipo específico de mudança, a que promove o rebaixamento de categoria de um elemento, rumo a uma estrutura mais gramatical, e nunca o contrário. (GONÇALVES, 2003, p.31)