BÖLÜM II: ALANYAZIN VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.2. İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.2.2. Yurt Dışında Yapılan Araştırmalar
BOURDIEU incluiu a análise sobre o direito dentro de sua teoria dos campos e capitais, bem como se utiliza da teoria do habitus para explicar a ocupação dos cargos jurídicos, as características e aspirações dos operadores do direito.598
Especificamente sobre esta seara discursiva, em “Para uma
sociologia do campo jurídico”599 aborda BOURDIEU os diversos campos constituidores da sociedade: o político, o econômico, o artístico, e o escolar. Notadamente, entretanto, mister ser relevado que a preocupação com o direito na obra de Pierre BOURDIEU tem uma posição marginal, ou mesmo tributária, já que poucas são as referências específicas que o faz a esse campo.
Nessa toada, o exame feito se dá internamente, preocupando-se com a conexão entre a organização das profissões jurídicas e a estrutura da racionalidade formal do campo que, segundo ele, explicaria a constatável resistência às mudanças dos parâmetros e paradigmas jurídicos, por vezes observável no seio da comunidade jurídica.
BOURDIEU deixa claro que sua investigação não pretende frisar as insuficiências do campo jurídico num sentido externo, não abrangendo a função social do direito como instrumento de análise, nesse sentido, sua visão será uma visão interna, a partir das pressões de mudança e das insuficiências internas do campo jurídico.600
Dessa maneira, a questão é alocada na criação e acumulação de capital jurídico, e no campo jurídico há de falar-se sobre “agentes em luta”, constituindo um “espaço de jogo”, com o estabelecimento de competidores da doxa e da heterodoxia (divisão esta que remete à luta entre sábios e profanos) entre aqueles que detêm conhecimento jurídico e capacidade postulatória e dos que não detém, mas necessitam de tal saber. A luta também se dá entre as várias concepções de interpretação do direito, por
598 Id ibidem
599 In: MADEIRA, ob. cit. 600 Id ibidem
exemplo, entre práxis e teoria, entre direito público e privado. A luta no direito - por assim dizer - é figurada entre juízes, advogados, promotores de justiça e os chamados doutrinadores.
Na nossa perspectiva de trabalho, a Justiça Social, abrimos um pequeno parênteses para singelas colocações. Primeiro, há de se falar - na esteira dos parágrafos retro – sobre a luta sobre a questão distributiva, cujo papel central de atuação é constitucionalmente outorgado ao “campo jurídico”, sendo deveras relevante anotar que tida a Justiça Social fora de destaque, seja por desconhecimento real do termo, seja por interesses diversos na manutenção do status quo, pode haver a implicação negativa ou comprometimento da efetivação e exigibilidade social dos Direitos Sociais601.
Ainda nessa linha crítica, há de falar-se com BOURDIEU sobre o direito, que o interesse do campo jurídico não estaria na eficiência jurídica ou na justiça social, mas sim na crença no formalismo do direito602. A “illusio”, ilusão do campo jurídico
vem juntamente com o reconhecimento tácito dos valores que se encontram em disputa no jogo e o domínio de suas regras pelos detentores do poder, de forma a se prostar como obstáculo à justiça social. 603
Ademais, sobre o conceito de habitus dizemos estar diretamente envolvido com o de campo jurídico, pois os operadores do direito tendem a reproduzi-lo em suas ações, pensamentos, percepções. Como os operadores jurídicos vêm de classe dominante, tenderiam a reproduzir sua visão de mundo em suas ações jurídicas, seja em
601
Na via “positiva”, de concretização dos direitos fundamentais sociais, temos por base a obra: NUNES JUNIOR, Vidal Serrano. “A Cidadania Social na Constituição de 1988 – Estratégias de Positivação e Exigibilidade Judicial dos Direitos Sociais”.São Paulo. Verbatim, 2009
602 Conforme trecho seguinte, que preferimos manter no original em língua espanhola, para não alterar o
sentido semântico do texto: “Al interior del propio campo jurídico existe una división del trabajo que se determina mediante la rivalidad estructuralmente reglada entre los agentes y las instituciones comprometidos en ese campo, fuera de toda concertación consciente, que constituye paradójicamente la verdadera base de um sistema de normas y de practicas que parecen fundadas a priori en la equidad de sus principios, la coherencia de sus formulaciones y el rigor de su aplicación y que, al aparecer así como participante a la vez de la lógica positiva de la ciencia y de la lógica normativa de la moral”. In: BOURDIEU, Pierre; TEUBNER, Gunter. La fuerza del derecho. Bogotá: Ed. Uniandes, 2000, p. 162.
603 MADEIRA, Lígia Mori. “O direito nas teorias sociológicas de Pierre Bourdieu e Niklas Luhman.”.
sentenças, em recursos, em petições etc, mantendo a estrutura fundante do poder, condicionada então pela à legitimação “jurídica”, esta, própria dos advogados, promotores, juízes, quiçá, forçosamente, de associações e dos partidos políticos.
Nesta trilha, o formalismo jurídico seria a base pela qual os agentes e as instituições jurídicas construiriam o monopólio do uso do direito, e assim, de aplicação do mesmo, sendo acertada a afirmação de que a legitimação das decisões dar-se-ia na crença(estruturalmente suposta) em sua neutralidade, universalidade e justiça. Assim, todo o formalismo jurídico implica na acumulação de capital simbólico jurídico, elemento conformador e imprescindível para a manutenção do poder pela doxa – opinião comum - dentro do campo jurídico.604
A codificação do direito serviria como mecanismo de estabilidade do sistema, e como forma de evitar situações potencialmente perigosas para o campo jurídico, permitindo a estabilidade no interior do campo e sua apresentação como autônomo e necessário à sociedade. Ademais, segundo BOURDIEU605, as regras que aparecem como neutras, necessárias à administração da justiça contribuem para que o campo permaneça estável quanto às distribuições de poder em seu interior.
Dessa forma, fala-se que a divisão de trabalho mediante uma espécie de rivalidade entre os agentes e as instituições estatais figurantes no campo – ministério público, advocacia, magistratura, defensorias etc -, constituiria a real base de um sistema que, a priori, parece fundado – quase que “camuflado” - numa eqüidade de princípios, na lógica positiva da ciência e na lógica normativa da moral. Nesse campo, diz-se acerca de agentes em luta por/para dizer o direito606:
604 “Na realidade, o conteúdo prático da lei que se revela na sentença é a culminação da uma luta simbólica
entre profissionais dotados de competências técnicas e sociais desiguais; por isso, são desigualmente capazes de pôr em uso os recursos jurídicos disponíveis mediante a exploração de regras possíveis e igualmente desiguais, ao invéz de utilizar esses recursos de forma eficaz, é dizer, como armas simbólicas, para fazer triunfar sua causa.” Tradução livre nossa de trecho contido em: BOURDIEU, Pierre; TEUBNER, Gunter. “La fuerza del derecho”. Bogotá: Ed. Uniandes, 2000, p. 161-163
605 MADEIRA, Lígia Mori. “O direito nas teorias sociológicas de Pierre Bourdieu e Niklas Luhman.”.
Direito & Justiça, Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 19-39, junho 2007, p. 26-30
“É este antagonismo em que se encontra também nas origens de uma luta
simbólica permanente na qual se enfrentam definições diferentes do trabalho jurídico como interpretações autorizadas dos textos canônicos. As diferentes categorias de intérpretes autorizados tendem sempre a se distribuir em dois ólos extremos. De um lado, a interpretação que visa a elaboração puramente teórica da doutrina, monopólio dos professores que têm a seu cargo o ensino, sob uma forma normalizada e formalizada, das regras em vigor. Por outro, a interpretacão que visa a valorização prática dos casos particulares, privilégio dos juízes que levam a cabo os atos de jurisprudência e que podem assim, ao menos em alguns casos, contribuir também à construção jurídica.” 607
Há de se falar na existência de uma interpenetração entre os diversos campos, de forma que o campo jurídico estaria “contaminado” por conteúdos políticos, éticos, mas que, apesar disso, apareceria - para o senso comum-, como uma forma neutra e universalizante, resultante da própria construção da racionalidade. Segundo essa mesma idéia, haveria uma correspondência de poder no interior do campo jurídico e entre a posição dos agentes e das instituições no espaço social, resultando assim numa univocidade, por assim dizer, da origem do poder, inter-manifestada “intra-campos”.
Portanto, nota-se uma relação entre o campo jurídico com os demais campos, havendo proximidade de interesses e afinidades dos “habitus”, podendo ser aludida a similitude acerca das formações familiares e escolares, que favoreceria a semelhança das visões de mundo, refletindo o comprometimento do campo jurídico com os valores e interesses dos dominantes.
Ainda nessa toada, o “sistema de decisão judicial” repeliria as posições extremas que não se encontram na finalidade da manutenção do status quo, que,
607 Tradução livre nossa de trecho constante de: BOURDIEU, Pierre; TEUBNER, Gunter. “La fuerza del
na visão bourdiana, buscaria o direito legalista liberal. Nessa ótica crítica, BOURDIEU afirma que as categorias de pensamento dos juristas seriam os instrumentos perfeitos para manter a distribuição de poder do campo e, mais, dele para com a própria sociedade.
"O direito consagra a ordem estabelecida ao consagrar uma visão desta ordem que é uma visão de Estado, garantida pelo Estado."608
Assim, seria o direito, para BOURDIEU609, uma forma de violência simbólica, campo onde práticas de violência e dominação podem ser legitimadas, enquanto convenientes e necessárias à ideologia dominante.
Acerca do capital jurídico, ter-se-ia uma mescla de capital econômico e social, que pode tomar a forma de capital simbólico em algumas ocasiões. Nesse sentido, a utilização do formalismo e da codificação serviriam para defender a utilização de um método próprio – postuladamente neutro-, capaz de dar uma solução justa ao caso concreto, utilizando-se de princípios universais e universalizáveis, idôneos.610
Ao que nos serve de base teórica às considerações posteriores, notadamente acerca da inclusão social, note-se que a proposta de BOURDIEU pode servir – ao menos não o é de todo estranha – à análise da inclusão social, de forma que, arriscamos, ter-se-á a Justiça Social, ou doutra maneira, observar-se-á o objetivo distributivista quando incluído o cidadão, p.ex. no campo educacional - ante um paradigma de mínimo vital constitucional -, e proporcionando “(...)o dever de respeito à incolumidade física, psíquica
e social (entendida aqui como a liberdade para se autodeterminar e para, junto com os demais, participar da autodeterminação da comunidade na qual integra).”611, bem como respeitando “(...)a exigência de prestações do Estado que afiancem os pressupostos
608 Tradução livre nossa de trecho constante de: BOURDIEU, Pierre; TEUBNER, Gunter. La fuerza del
derecho. Bogotá: Ed. Uniandes, 2000, p. 197.
609 MADEIRA, Lígia Mori. “O direito nas teorias sociológicas de Pierre Bourdieu e Niklas Luhman.”.
Direito & Justiça, Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 19-39, junho 2007, p. 31-33
610 Id ibidem
611 NUNES JUNIOR, Vidal Serrano. “A Cidadania Social na Constituição de 1988 – Estratégias de
materiais mínimos para a preservação da vida e a inclusão na sociedade(...)”612, corroborando assim à finalística constitucional de positivação dos direitos sociais, alicerçada na exigibilidade judicial dos Direitos Sociais.