Na sociedade contemporânea são cada vez mais comuns as pessoas em crise com a própria fé, desiludidas com seu culto a ponto de pararem de freqüentá-los ou relegar a religião a um segundo plano. Muitos chegam a duvidar da própria religião, da verdade e dos dogmas impostos pelas Igrejas.
Marcos Simas194 também culpa a mídia por essa evasão: “Muita gente entra e sai decepcionada das igrejas diariamente. Mesmo sem nenhuma estatística confiável para isso, as razoes para a evasão são muitas: desapontamento com erros da liderança, desentendimentos com outros membros e frustração com doutrinas rígidas demais são algumas delas. Contudo, nada anda afastando mais as pessoas das igrejas do que a ênfase exagerada nas questões materiais. Denominações que exploram seus fiéis, pastores que vinculam as bênçãos de Deus e ofertas financeiras e promessas de fé não cumpridas costumam serem as principais alegações de quem se afasta da comunhão”.195
Em tempos em que as pessoas desistem dos cultos, o que não significa abandonar a crença, pode representar também uma busca por uma nova religião, ou até um retiro para refletir sobre o que lhe faz feliz.196 E, mesmo a conversão do muçulmano para o cristianismo é possível, porém com conseqüências.197
194 Marcos Simas é Editor da Revista Cristianismo Hoje.
195 REVISTA CRISTIANISMO HOJE nº 19. Decepcionados com a Igreja, p. 5.
196 David Irwin: “Após serem expostos à Bíblia e a testemunhos de cristãos, um crescente número de muçulmanos tem expressado o desejo de seguir a Cristo. Estão descobrindo que Cristo, sozinho, preenche o vazio de seus corações e os conduz a relacionar-se com Deus como Pai celestial e amoroso. Infelizmente, a Igreja nem sempre está pronta para recebê-los e alimentá-los. O medo de conversões por falsos motivos, a perseguição aberta e as
Luís Kirchner demonstra sua insatisfação: “Hoje em dia, com nossa sociedade de objetos descartáveis, existem pessoas que trocam de religião da mesma maneira que freqüentam restaurantes diferentes. O “pulo do sapo” criou uma mentalidade de que o importante da religião é que eu me sinta bem. Não preciso me preocupar com ensinamentos e dogmas”.198
Nesse sentido, quando um indivíduo está em desarmonia com sua crença ou com sua fé, é papel da religião fazer a reconexão, o que os autores denominam de religare199, ou seja, o religamento com o divino, nesse sentido, Eduardo Rosa: “Dizer que há uma diferença entre religião, espiritualidade e espiritualidade cristã já virou lugar comum. Mas é sempre conveniente estabelecer os limites entre elas. A religião resulta sempre de um caldo de crenças, convicções, definições e marcos concretos capazes de definir com certa precisão quem são os de dentro e os de fora. Religião e cultura estão intrincadas de tal maneira que, em muitos casos, não se sabe onde começa uma e termina outra. Conquanto sua etimologia – a origem é o termo latino religare – proponha a conexão, o religamento com o divino, a religião nem sempre pode ser considerada um ponto de contato com Deus”.200
Por isso, de uma maneira geral, as religiões não fazem objeções ao religamento, isto é, quando uma pessoa decide mudar sua visão religiosa, pois, se o individuo simpatizou mais com crença diversa, ou era um cético e aderiu a alguma religião, ainda assim é melhor ter esse fiel em outro culto do que perdê-lo para a falta de fé ou a ausência de crença, porque nesse movimento de hostilidades são razões pelas quais as igrejas cristãs não têm acolhido com boas-vindas os muçulmanos recém- convertidos. Contudo, em muitas áreas, o Espírito Santo está renovando a Igreja e fazendo com que muitas congregações se tornem amigas e vitais desses novos crentes. Os muçulmanos são facilmente atraídos por essa vitalidade espiritual”. IRWIN, David K. Trad. Degmar Ribas. O que os cristãos precisam saber sobre os
muçulmanos. 4 Ed. CPAD, 2003, p. 21.
197 A conversão ao cristianismo tem conseqüências muito graves para a maioria dos muçulmanos. Em uma sociedade islâmica, não existe separação entre Igreja e Estado. Em outras palavras, a lei do Alcorão é a regra para todos. Converter-se é considerado um ato de traição. Portanto, quando um muçulmano se torna cristão, ele sabe que poderá ser ameaçado de morte. Os cristãos precisam obrigatoriedade estar conscientes do preço que muitos muçulmanos pagam por identificar-se com Jesus Cristo a filiar-se à Igreja. IRWIN, David K. Trad. Degmar Ribas. O que os
cristãos precisam saber sobre os muçulmanos. 4 Ed. CPAD, 2003, p. 22.
198 KIRCHNER, Luís. Religião Quem pode me explicar?Aparecida: Editora Santuário, 2008, p. 9.
199 No decorrer da evolução, diferentes povos e etnias cultuaram variadas entidades. Civilizações inteiras foram construídas com base na devoção e, em nome da crença, foram (e ainda são) talhados costumes, deflagradas guerras, preservados mitos e rituais. Ao longo dos séculos, bilhões de vidas têm orbitado em torno da religião, no sentido original da palavra, do latim ligar novamente, religar – resgatar o vínculo do indivíduo com o “todo”. REVISTA GRANDES TEMAS MENTE E CÉREBRO nº 1. Fé O lugar da divindade no cérebro, p. 3.
mudança nada impede que o próprio migrante volte uma vez mais a sua antiga religião através de outro religare.
É preciso levar em conta também a influência cultural e histórica dos países para compreender um pouco melhor a questão da religião e, também das trocas de religiões por parte dos fiéis e, nesse contexto, temos também as colonizações.
As colonizações foram responsáveis por impor uma religião aos nativos e muitos migraram e mudaram suas convicções em virtudes dos colonos.
A Índia representa bem esse fenômeno de colonização que culmina com a diversificação religiosa, afinal, por decorrência direta da colonização o sul daquele País é predominantemente cristão, ao passo que o norte tem em sua maioria os adeptos da religião hindu.
O próprio Brasil pode ser considerado o maior País católico existente em decorrência direta da colonização dos portugueses e, em especial, das cruzadas com as missões de cristianizar a maior quantidade possível de nativos.
Da mesma forma temos os Estados Unidos com uma forte influência da Igreja Batista e dos ideários fiéis ao protestantismo que caracterizam e predominam na Inglaterra, País que colonizou os americanos.
E não se pode confundir a influência religiosa, por conta da colonização, com a adoção de uma religião de forma oficial. Como já vimos, países como o Brasil, Estados Unidos, França, Portugal e Espanha são exemplos de alguns países considerados laicos, isto é, que possuem uma neutralidade religiosa.
As pessoas crêem na profetização da religião, contudo, muitas perguntas seguem sem respostas: de onde viemos? Qual o nosso propósito? Por que meu filho morreu antes do que eu? Por que uma criança tem uma doença incurável? Por que não alcanço a felicidade? São apenas alguns dos por quês que as pessoas indagam os líderes religiosos, porém, existe uma dupla
complexidade: tanto a resposta quanto a própria pergunta. A Religião ao não conseguir explicar o inexplicável pode levar o fiel à descrença, ou pior, a um ceticismo em relação à própria fé profetizada pela religião.
Essa relação da religião com as perguntas fundamentais, acerca da existência humana e do próprio universo é que devemos analisar mais detidamente.
Ademais, apesar da religião e, principalmente os lideres religiosos considerarem que a solução para as mazelas humanas é a adoção de uma religião ou de uma crença não existe nenhuma obrigatoriedade por parte do ser humano em se filiar ou simpatizar com esta ou aquela religião e, quiçá, acreditar na presença de uma força superior, um ente personificado denominado de Deus.
Em especial entre os cientistas é mais fácil notar o ceticismo em relação a presença de um ser considerado como superior ou ainda, como uma força cósmica que move o ser humano.
Entre aqueles que não acreditam na figura de Deus temos os ateus e os agnósticos e os céticos.
Não acreditar em Deus não significa ser descrente ou não simpatizante de uma religião, porém, importante será, também, a tolerância para com aqueles que não comungam com a idéia de que Deus existe. E nem que tudo é vontade do criador, ou ainda, que existe um criador.