İKİNCİ OTURUM Açılma Saati: 15.03
A) KANUN TASARI VE TEKLİFLERİ
De Plácido e Silva243 caracteriza tolerância como condescendência ou suportabilidade.244 Particularmente não gostamos do termo tolerância religiosa, pois, mais parece que a religião alheia não é respeitada, mas sim suportada, e esse não é o objetivo de um Estado laico e, muito menos deve ser a atitude de seus membros.
Tolerância245 parece muito mais um sentimento de que a pessoa, não possuindo alternativa, irá respeitar o próximo, por enquanto, quase que uma manifestação latente de um
243 Tolerância. Do latim tolerantia (atuar), em significação jurídica significa a condescendência, a liberalidade, a
permissão, em virtude do que se consente a prática de um ato, ou o aproveitamento de alguma coisa, sem que
semelhante concessão importe em se atribuir ao favorecido, ou tolerado, a aquisição de um direito.
Por essa razão, os atos de tolerância indicam-se os que são aturados, suportados, sofridos; mas que não implicam na intenção de alterar um estado sobre as coisas, ou mesmo sobre os fatos, em que recaem os mesmos atos.
Dicionário Jurídico Conciso. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 702.
244 Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2730. Tolerância. 1. Ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência. 2. Qualidade ou condição de tolerante; 3. Tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas.
245 Luiz Paulo Rouanet afirma que o conceito de tolerância surgiu no século XVI: “Dificilmente pode-se falar do surgimento da noção de tolerância antes do século XVI. O que houve até então foi o confronto entre visões de mundo conflitantes ou mesmo opostas, umas procurando impor-se às outras. O mais próximo que temos de um comportamento tolerante por parte dos governantes, por paradoxal que seja, é o Império Romano. Este, mesmo impondo seu domínio em grande parte do mundo antigo, aceitava as leis e as crenças locais. Nesse caso, portanto, a tolerância estava claramente a serviço da dominação”. ROUANET, Luiz Paulo. Paz, justiça e tolerância no mundo
sentimento de preconceito religioso e descontentamento que, a qualquer momento, poderá vir à tona.
João Mauricio Adeodato246: “Note-se que a palavra tolerância não é entendida aqui apenas como “tolerar”, em seu uso vulgar, mais fiel ao sentido primitivo de “suportar”algo desagradável. Significa, ao revés, a aceitação e o apoio recíproco a pessoas, opiniões e atitudes oriundas de visões de mundo diferentes e não redutíveis umas às outras, principalmente religiões, ideologias e outros sistemas de orientação normativos. Diferentes e não redutíveis umas às outras significa dizer: potencialmente conflituosas”.247
Jean Delumeau explica: “A palavra “tolerância”, que não consta do Edito de Nantes, teve uma história atormentada. De início, ela assumiu um significado negativo. No Dictionaire de
l’Académie de 1694, a tolerância é definida como a “indulgência para com o que não se pode
impedir”. Mas, em sentido contrário, a Encyclopédie qualifica-a de “virtude”. Em nossos dias, ela se tornou base essencial das democracias atuais, isto é, o respeito pelas opiniões do próximo, quando ele não procura fazê-las triunfar pela força ou pela astúcia”.248
Josias Jacintho de Souza conceitua: “Tolerância não pode ser sinonimizada com aceitação. John Locke defendia a tolerância com base no princípio grego da indiferença, ou seja, para tolerar não se faz necessário aceitar como legítima ou verdadeira a crença alheia, basta
246 A visão humanista que vem da Renascença para a modernidade em muito cooperou para o desenvolvimento da tolerância enquanto nova idéia. Isso porque não havia mais uma interpretação oficial, unificada pelo catolicismo. Já que cada um pode falar com Deus diretamente, o conteúdo do direito intrinsecamente justo vai depender do intérprete, mesmo que não se tenha consciência disso.
Daí a frase de Nietzsche, na qual a palavra para suportar, agüentar, aturar (aushalten) já vem plena do sentido de tolerância: “E porque os seres humanos em conjunto deram ouvidos a essas doutrinas [ontológicas, pretensamente verdadeiras] com demasiado zelo e ao longo de séculos inteiros, algo daquela superstição, de que vão muito mal, acabou passando efetivamente para eles: de tal modo que agora estão prontos e dispostos [até] demais a suspirar e não encontrar mais nada na vida, e a fazer uns para os outros caras consternadas, como se fosse de fato bem difícil
tolerar”(aushalten). ADEODATO, João Maurício. A retórica constitucional (sobre tolerância, direitos humanos e
outros fundamentos éticos do direito positivo). 2 Ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 122.
247 ADEODATO, João Maurício. A retórica constitucional (sobre tolerância, direitos humanos e outros
fundamentos éticos do direito positivo). 2 Ed. São Paulo: Saraiva, 2010, págs. 117 e 118.
simplesmente tolerar os diferentes cultos. E na esfera da tolerância o Estado deve ser o mediador dos eventuais conflitos, e não o instigador”.249
Essa noção de tolerância religiosa denota certa irritabilidade iminente que qualquer mínimo movimento pode resultar em alguma calamidade. E, de fato, é o que acontece no mais das vezes.
O liame entre a tolerância e a intolerância é muito fino. Mesmo o Brasil, um País sem tradição de conflitos religiosos registra o grave caso da Guerra de Canudos, marcado pela intolerância religiosa do Estado e de uma Religião contra um líder espiritual (Antonio Conselheiro).
Sobre (in)tolerância religiosa, temos sua exemplificação fiel nos dizeres de Voltaire ao relatar os detalhes da morte de Jean Calas250.
249 SOUZA, Josias Jacintho de. Separação entre Religião e Estado no Brasil: Utopia Constitucional? Tese de Doutorado na área de concentração de Direito, Estado e Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2009, p. 269.
250 O assassínio de Calas, cometido em Toulouse com o gládio da justiça, a 9 de março de 1762, é um dos mais singuladores acontecimentos que merecem a atenção de nossa época e da posteridade. (...) Tratava-se, nesse estranho caso, de religião, de suicídio, de parricídio; tratava-se de saber se um pai e uma mãe haviam estrangulado seu filho para agradar a Deus, se um irmão havia estrangulado seu irmão, se um amigo havia estrangulado seu amigo, e se os juízes deviam ser censurados por terem feito morrer no suplício da roda um pai inocente, ou por haverem poupado uma mãe, um irmão, um amigo culpados.
Jean Calas, de 68 anos de idade, exercia a profissão de negociante em Toulouse há mais de quarenta anos e era reconhecido por todos que com ele viveram como um bom pai. Era protestante, assim como sua mulher e todos os seus filhos, com exceção de um, que havia abjurado a heresia e a quem o pai concedia uma pequena pensão. Jean Calas parecia tão afastado desse absurdo fanatismo que rompe todos os vínculos da sociedade, que aprovou a conversão de seu filho Louis e mantinha em sua casa, há trinta anos, uma dedicada empregada católica que ajudara a criar todos os seus filhos.
Um dos filhos de Jean, chamado Marc-Antoine, era um homem de letras: diziam-no um espírito inquieto, sombrio e violento. Esse jovem, não conseguindo nem entrar no comércio, ao qual não se ajustava, nem ser aceito como advogado, porque exigiam certificados de catolicismo que ele não pôde obter, decidiu acabar com sua vida e fez pressentir esse propósito a um de seus amigos; firmou-se em sua resolução através da leitura de tudo o que até então se escrevera sobre suicídio.
Certa vez, enfim, tendo perdido seu dinheiro no jogo, decidiu naquele mesmo dia executar seu propósito. Um amigo seu e da família, chamado Lavaisse, jovem de 19 anos, conhecido pela candura e delicadeza de seus hábitos, filho de um advogado célebre de Toulouse, havia chegado de Bordéus na véspera; casualmente jantou na casa dos Calas. O Pai, a mãe, Marc-Antoine, o filho mais velho, e Pierre, o segundo, jantaram juntos. Após o jantar retiraram-se para uma pequena sala. Marc-Antoine desapareceu; enfim, quando o jovem Lavaisse quis partir, Pierre Calas e ele, tendo descido a escada, encontraram no térreo, junto à loja, Marc-Antoine de camisolão, enforcado numa porta, e sua roupa dobrada sobre o balcão; seu camisolão estava em perfeito estado; os cabelos continuavam bem penteados; não havia no corpo nenhum ferimento, nenhum machucado.
O caso retratado por Voltaire ilustra como que a linha fina que separa a tolerância da intolerância pode se romper ao menor fibrilar de ima incitação popular fundada em fatos inverossímeis.
E com as mesmas preocupações acerca da tolerância religiosa se manifesta Bobbio: “O motivo pelo qual me ocupo das razões da tolerância no primeiro sentido é que o problema histórico da tolerância, tal como foi posto na Europa durante o período das guerras de religião, e sucessivamente pelos movimentos heréticos e depois pelos filósofos, como Locke e Voltaire, o problema tratado nas histórias da tolerância ( como a mais famosa, a de Joseph Lecler, em dois volumes, 1954), é o problema relativo exclusivamente à possibilidade de convivência de confissões religiosas diversas, problema nascido na época em que ocorre a ruptura do universo religioso cristão”.251
Como vimos, a (in)tolerância é muito presente na realidade do ser humano e, mesmo muito tempo antes de se pensar em proteção aos direitos humanos o indivíduo já sofria com (...) Enquanto cumpriam esse dever, enquanto o pai e a mãe estavam aos soluços e em lágrimas, o povo de Toulouse junta-se em torno da casa. Esse povo é supersticioso e violento; vê como monstros seus irmãos que não são da mesma religião que ele. (...)
Algum fanático da populança gritou que Jean Calas havia enforcado seu próprio filho Marc-Antoine. Esse grito, repetido, logo se tornou unânime; outros acrescentaram que o morto pretendia fazer abjuração no dia seguinte; que sua família e o jovem Lavaisse o haviam estrangulado por ódio contra a religião católica. Um momento depois, ninguém duvidava mais; toda a cidade foi persuadida de que é um imperativo religioso entre os protestantes que um pai e uma mãe devem assassinar seu filho tão logo ele queira converter-se. (...)
Ao infeliz que atentara contra si, só faltava mesmo a canonização. Todo o mundo o via como um santo; alguns o invocavam, outros iam rezar junto ao seu túmulo, outros pediam-lhe milagres, outros relatavam os que havia feito. (...) Treze juízes reuniram-se diariamente para concluir o processo. Não tinham, não podiam ter nenhuma prova contra a família; mas a religião enganada fazia às vezes de prova. Seis juízes persistiram por muito tempo em condenar Jean Calas, seu filho e Lavaisse ao suplício da roda, e a mulher de Jean Calas à fogueira. (...)
O motivo da sentença era tão inconcebível quanto o resto. Os juízes favoráveis ao suplício de Jean Calas persuadiram os outros de que esse velho fraco não poderia resistir aos tormentos e de que confessaria, sob os golpes do carrasco, seu crime e o de seus cúmplices. Ficaram perplexos, quando o velho, ao morrer na roda, clamou a Deus em testemunho de sua inocência e conjurou-o a perdoar seus juízes.
Estes foram obrigados a pronunciar uma segunda sentença, contraditória com a primeira, ordenando a soltura da mãe, de seu filho Pierre, do Jovem Lavaisse e da empregada. Mas, tendo um dos conselheiros notado que essa sentença desmentia a outra, que elas se condenavam mutuamente e que, como os acusados estiveram juntos no momento do suposto parricídio, a ordem de soltura dos sobreviventes provava cabalmente a inocência do pai de família executado, decidiram então banir Pierre Calas, seu filho. (...)
Pierre Calas, ao sair da cidade, encontrou um abade convertedor que o fez voltar a Toulouse; encerraram-no num convento de dominicanos e lá foi constrangido a cumprir todas as funções da catolicidade. Era em parte o que queriam, era o preço do sangue de seu pai; e a religião, que acreditaram vingar, parecia satisfeita. (...) É, portanto, do interesse do gênero humano examinar se a religião deve ser caridosa ou bárbara. VOLTAIRE. Trad. de Paulo Neves.
Tratado sobre a tolerância: a propósito da morte de Jean Calas. São Paulo: Martins Fontes, 2000, págs. 3 a 13.
perseguições religiosas, como a inquisição, e várias tentativas de se suplantar o direito alheio a exercer a própria crença.
E, se as religiões, como vimos, têm fundamentos distintos, mas todas defendem serem as conhecedoras dos segredos ocultos que envolvem a revelação e, conseqüente, adoração ao divino, o correto seria uma harmonia entre as relações religiosas das diferentes crenças.
Sobre o assunto se manifesta Clemildo Anacleto da Silva252: “As várias tentativas de unir os grupos religiosos em prol de algo significativo para a humanidade muitas vezes não têm tido muito sucesso. Assim, sendo, essa atividade realizada em comum acordo pelos grupos, é vista como uma grande incoerência, uma vez que as religiões não se entendem para realizar e promover a paz, não poderia se entender para realizar a violência. Nestes últimos tempos podemos verificar que a religião pode funcionar tanto para a promoção da paz quanto para a promoção da violência”.253
O problema é que as próprias crenças acirram essa adoração ao ponto de incutir no pensamento do fiel que este deve defender a sua religião a todo e qualquer custo e que apenas esta possui a palavra de Deus, uma forma mascarada de intolerância, isto é, ao valorizar a própria religião o líder deprecia as demais e os fiéis, nessa toada tendem a discriminar, agredir e a agir irracionalmente contra aquilo que não conhecem e não são instigados a ter contato.
Neste aspecto não raro o fiel se transforma em um intolerante e professa aos demais os males que as outras religiões representam.
Se for analisada esta conduta sobre a ótica das religiões ocidentais teremos a intolerância religiosa e outras conseqüências similares. Contudo, o mesmo comportamento se tomado pelas
252 Chama atenção o fato de a religião servir como ponto unificador e instrumento de disseminação da violência. Por muito tempo o mundo vem assistindo às divergências entre judeus e palestinos. No caso da passeata gay, líderes religiosos (cristãos, muçulmanos e judeus) se uniram para combater o evento. Daí, conclui-se que os líderes religiosos concordam em caminharem juntos quando têm algo em comum. Nesse Caso, um inimigo em comum. SILVA, Clemildo Anacleto da & RIBEIRO, Mario Bueno. Intolerância Religiosa e Direitos Humanos
Mapeamentos de Intolerância. Porto Alegre: Editora Universitária Metodista, 2007, p. 43.
253 SILVA, Clemildo Anacleto da & RIBEIRO, Mario Bueno. Intolerância Religiosa e Direitos Humanos
religiões orientais ainda podem sofre uma clara influência do fundamentalismo religioso e, nessa questão, a intolerância se converte e atentados e, possivelmente, em algo ainda pior: o terrorismo.