Conforme explicado anteriormente, Ducrot estava determinado a se opor à concepção tradicional de sentido (DUCROT, 1988, p. 49). Para uma melhor compreensão, vejamos o seguinte: Ducrot explica que, tradicionalmente, estabelecem-se três tipos de indicações para o enunciado, a saber:
i. Objetivas – que consistem em uma representação da realidade; ii. Subjetivas – que indicam a atitude do locutor perante a realidade;
iii. Intersubjetivas – que se referem às relações do locutor com as pessoas a quem se dirige.
Com o objetivo de exemplificar essas três indicações, e posteriormente criticá-las, Ducrot (1988, p. 50) apresenta o seguinte enunciado: Pedro é inteligente. Em se tratando dos aspectos, o objetivo é descrever Pedro, o subjetivo nos direciona para uma suposta admiração do locutor por Pedro, e o intersubjetivo acontece porque o enunciado permite que o locutor chame o interlocutor a confiar em Pedro, por exemplo. Segundo Ducrot (1988), tradicionalmente, o aspecto objetivo é chamado de denotação e os outros dois aspectos (subjetivo e intersubjetivo), de conotação. E essa, segundo o autor, é a concepção tradicional de sentido que o próprio autor se propõe a modificar, acabando com essa separação entre denotação e conotação. Assim, Ducrot reorganiza as indicações de sentido de um enunciado defendendo a ideia de que não há neutralidade ao se representar a realidade e, portanto, não há condições de existência para os aspectos ditos objetivos. Nessa teoria, esses aspectos passam a não existir. Ducrot unifica, então, os aspectos subjetivo e intersubjetivo e passa a chamá-los de função argumentativa ou valor argumentativo dos enunciados. Antes de seguirmos com a definição do valor argumentativo, vale aqui, a título de complementação, citarmos Nascimento:
A palavra sentido, em Ducrot (1988, p. 52) significa ao mesmo tempo, significação e direção: “La palabra sentido significa por lo menos dos cosas. Por una parte significación y por otra dirección, em inglés meaning y
sentido, própria das línguas românicas, é muito significativa, pois indica que o sentido de uma palavra é, ao mesmo tempo, uma orientação no discurso: essa é a ideia que ele pretende expressar com a noção de valor argumentativo. (2012a, p. 54).
Tal valor argumentativo dos enunciados corresponde à orientação dada pela palavra ao discurso e determina as possibilidades ou impossibilidades de continuação determinadas pelo seu uso. Por isso, Ducrot e seus colaboradores chamaram a sua teoria de Teoria da Argumentação na Língua, pois, para eles, o valor argumentativo da parole origina-se na langue21, ou seja, a língua determina para o que o discurso é argumentativamente usado. O
valor argumentativo dos segmentos do discurso também depende dos enunciadores, que são os pontos de vista argumentativamente orientados. Logo, dizer que o ponto de vista de um enunciador „E‟ tem uma orientação argumentativa significa que ele (o ponto de vista) está representado como sendo capaz de justificar uma determinada conclusão ou de fazer com que essa conclusão seja aceitável.
Para Ducrot, “a representação de pontos de vista argumentativamente orientados é determinada pela estrutura linguística dos segmentos do discurso, independentemente da informação que estes segmentos trazem” (2009, p. 49, tradução nossa)22
. Vejamos o célebre caso do discurso com dois segmentos citado por Ducrot:
- „A, então C‟. A poderia ser Faz bom tempo e C, Vamos passear23
. Suponhamos outra situação:
- „C, haja vista que (ou porque) A’: Vamos passear, haja vista que faz bom tempo. No exemplo anterior, A representa um enunciador que atribui o adjetivo “bom” ao substantivo “tempo” e que considera essa qualidade do tempo como uma boa razão para passear. Nesse caso, mostram-se segmentos nos quais a conclusão é completamente explícita.
Entretanto, de acordo com Ducrot (2009), há também segmentos nos quais o valor argumentativo pode ser atribuído sem que a conclusão seja explicitamente estabelecida. Vejamos o exemplo dado por Ducrot (2009, p. 50): suponhamos que um locutor convide um interlocutor para ir assistir a um filme no cinema, e o interlocutor responda: Eu já vi esse filme. Temos aqui um segmento no qual a resposta do interlocutor está sendo orientada para
21
O próprio Ducrot faz o uso dos termos amplamente utilizados por Saussure, pois a leitura do capítulo que trata do valor linguístico, do Curso de Linguística Geral, segundo ele, o instigou a iniciar as pesquisas linguísticas que conhecemos atualmente como Semântica Argumentativa (BARBISAN, Leci Borges. Semântica Argumentativa. In: BASSO. Renato; FERRAREZI JUNIOR, Celso (Orgs.). Semânticas, semântica: uma introdução. São Paulo: Contexto, 2013, p. 19-30).
22
[…] the representation of argumentatively oriented points of view is determined by the linguistic structure of discourse segments, irrespective of the information which those segments provide.
23
Exemplos tirados de DUCROT, Oswald. Polifonia y Argumentación: Conferencias del Seminario Teoría de la Argumentación y Análisis del Discurso. Cali, Universidad del Valle, 1988.
uma recusa ao convite do locutor. Portanto, para Ducrot, a resposta Eu já vi esse filme pode significar (ou pode orientar para) Não vale a pena nós assistirmos a esse filme juntos. Então, é possível que, em alguns casos, tenhamos segmentos que, mesmo que a conclusão não esteja aparente, eles são argumentativamente orientados.
Toda essa discussão acerca do valor argumentativo de um enunciado se justifica para mostrar que os encadeamentos argumentativos possíveis dentro do discurso estão intrinsecamente ligados à estrutura linguística dos enunciados e são determinados pelo ato de argumentar. Conforme Ascombre e Ducrot,
[...] o processo discursivo que chamamos de argumentação e que consiste em encadear enunciados-argumentos e enunciados-conclusões tem ele mesmo como anterior um ato de argumentar sobre o qual se apoia. Como todos os atos ilocutórios, se realiza no e por um enunciado único. (1997, p. 168 apud CABRAL, 2010, p. 44).
Assim sendo, podemos afirmar que “todo enunciado é objeto de um ato de argumentar que faz parte do seu sentido”24.
Na sequência, é importante que explanemos o estudo de um fenômeno proposto por Ducrot, com o intuito de adicionar reflexões à TAL: a polifonia. Ressaltamos que os estudos polifônicos de Ducrot são complementados com a teoria dos topoi argumentativos, haja vista que esta teoria busca mostrar que o responsável pelas possíveis (e diferentes) conclusões de um mesmo enunciado é convocado pela própria língua, ou seja, a teoria dos topoi, em linhas gerais, procura descrever a argumentação a partir dos enunciadores, procurando identificar o caráter argumentativo dos diferentes pontos de vista que se apresentam no enunciado25
. Logo, informamos que o objetivo da próxima subseção é apresentar os conceitos principais desenvolvidos por Ducrot em seus estudos polifônicos dos enunciados.