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A modalização epistêmica diz respeito à noção de certeza ou de verdade presente no conteúdo do enunciado. Castilho e Castilho (2002) classificam tal modalização em três tipos: asseverativa, quase-asseverativa e delimitadora. A primeira indica que o falante considera o conteúdo da proposição como algo certo ou verdadeiro, que pode ser apresentado como uma afirmação ou negação, sem deixar margens para dúvidas. O segundo tipo, a epistêmica quase- asseverativa, indica que o falante considera o conteúdo da proposição como sendo próximo à verdade, isto é, como algo incerto. Já o modalizador delimitador estabelece os limites dentro dos quais se deve encarar o conteúdo da proposição.

De acordo com Palmer (2001), a modalização epistêmica revela uma atitude do falante sobre o valor de verdade em relação as condições do estado factual da proposição. Diferente da classificação estabelecida por Castilho e Castilho (2002), o autor define outras categorias para especificar esse tipo de modalização: a especulativa, a dedutiva e a supositiva, as quais permitem três tipos de julgamento. A especulativa é aquela que expressa uma incerteza (Carlos pode estar em sua casa), semelhante ao que ocorre com a epistêmica quase asseverativa. A dedutiva indica uma inferência sobre evidências observáveis do locutor (Carlos deve estar em sua casa), e outro tipo, a supositiva, revela uma inferência sobre algo que geralmente se sabe ou conhece (Carlos estará em sua casa).

Lyons (1977, p. 797), por sua vez, divide a modalidade epistêmica em dois tipos: objetiva e subjetiva. A modalidade objetiva seria quando há um comprometimento do falante com a factualidade da proposição (Está chovendo em São Paulo). Já a modalidade subjetiva é aquela em que se verificam declarações das opiniões, ou inferências do falante sobre o fato descrito (Deve estar chovendo em São Paulo).

Para Nascimento e Silva (2012), que partilham da mesma definição de modalidade epistêmica apresentada por Castilho e Castilho (2002), essa modalização se divide em três subclasses: asseverativa, quase-asseverativa e habilitativa.

A epistêmica asseverativa ocorre quando o falante considera o conteúdo da proposição como verdadeiro ou certo. Esse tipo de atitude produz um alto grau de comprometimento do falante com relação ao dito. O exemplo que segue ilustra o funcionamento desse modalizador:

Exemplo 4

É certo que Júlia chegará este final de semana.

No exemplo 4, é possível verificar que o locutor expressa sua total certeza com relação ao dito, ao utilizar a expressão “É certo que”. Através dessa expressão, o locutor assegura que “Júlia chegará este final de semana”, ao apresentar esse enunciado com algo certo de acontecer ou como uma verdade; com isso, o locutor se responsabiliza totalmente pelo dito.

Ao expressar a noção de certeza, fica claro que o locutor apresenta o conhecimento que possui sobre o conteúdo do enunciado, pois, se o locutor é capaz de fazer essa afirmação, é porque sabe que Júlia realmente virá e por isso faz uso da expressão modalizadora.

Convém assinalar que, alguns dos modalizadores epistêmicos asseverativos citados por Castilho e Castilho (2002) são:

a) afirmativos: realmente, evidentemente, verdadeiramente, certo, claro, sem dúvida, inegavelmente, obviamente, inegavelmente, incontestavelmente;

b) negativos: de forma alguma, de jeito nenhum.

Com relação à modalização epistêmica quase-asseverativa, Nascimento e Silva (2012), baseados em Castilho e Castilho (2002), assinalam que esta ocorre quando o falante apresenta o conteúdo do enunciado como quase certo, isto é, como uma hipótese que precisa de confirmação. Essa atitude impede que o falante se responsabilize pelo valor de verdade do enunciado.

O exemplo 5 demonstra esse tipo de ocorrência: Exemplo 5

Possivelmente haverá expediente no sábado.

Percebe-se, através do exemplo 5, que o conteúdo do enunciado é apresentado pelo falante como uma crença, pois fica explícito que o falante acredita que haverá expediente no sábado e, por isso, não o apresenta como uma certeza. Nesse sentido, ao utilizar o modalizador “possivelmente”, o locutor afasta-se de qualquer responsabilidade pelo valor de verdade do dito, uma vez que o apresenta como uma possibilidade, ou uma possível verdade.

Nascimento e Silva (2012) explicam que os modalizadores epistêmicos quase- asseverativos funcionam no discurso como uma estratégia argumentativo-pragmática

permitindo que o falante diga algo ao seu interlocutor, isentando-se de responsabilidades pelo dito, conforme exposto no exemplo.

Castilho e Castilho (2002) asseguram que apresentar o conteúdo da proposição como uma possibilidade provoca uma atenuação do conteúdo da proposição, devido ao baixo grau de adesão do falante em relação ao dito. Segundo esses últimos, são exemplos de modalizadores quase-asseverativos os seguintes elementos linguísticos: talvez, assim possivelmente, provavelmente, eventualmente.

O último tipo de modalização adotado por Nascimento e Silva (2012), a epistêmica habilitativa, ocorre quando o falante expressa que algo ou alguém possui capacidade para realizar alguma coisa e assim o faz porque tem conhecimento a esse respeito. Para Nascimento e Silva (2012), o caráter epistêmico dessa modalidade se justifica, uma vez que só se pode expressar que algo ou alguém está capacitado para realizar determinada coisa, quando se tem conhecimento a esse respeito. E diferente da epistêmica asseverativa ou quase- asseverativa, o que se observa aqui não é apenas a expressão de uma certeza ou dúvida, mas um tipo de conhecimento mais específico que se possui sobre a capacidade de algo ou alguém executar ou exercer algo, o que dá condições do locutor realizar tal afirmação.

O exemplo 6 demonstra o funcionamento desse modalizador: Exemplo 6

Pedro pode realizar o concurso, ele estudou bastante.

O verbo “poder”, no exemplo 6, é utilizado para revelar um conhecimento do falante a respeito da capacidade de Pedro realizar o concurso. É possível perceber que, se o locutor expressa essa capacidade de “Pedro”, é porque tem conhecimento a esse respeito, o que fica expresso no próprio sentido do enunciado.

Neves (2010) chega a citar esse tipo de modalidade, denominando-a de modalidade disposicional ou habilitativa, como sendo aquela que está relacionada à disposição, habilitação ou capacitação. Contudo, a referida autora afirma que tal modalidade está mais associada à possibilidade deôntica.

É importante assinalar que, esse tipo de modalização não é tratado por Castilho e Castilho (2002). Esses últimos incluem no grupo das epistêmicas a modalização delimitadora. No entanto, como adotaremos na análise dos dados a classificação de Nascimento e Silva, convém apresentarmos a modalização delimitadora separadamente, mais adiante.