“A estrutura biopática do caráter humano é, como tem sido, a fossilização do processo autoritário da história. É a reprodução biofísica da supressão em massa” (REICH, 1946/1970, p. 322).
Quando se examina a questão de possíveis mudanças nas escolas, uma das primeiras dificuldades surge do fato de que o senso comum vê a instituição escolar como um produto finalizado, pronto. Não se muda o que é perene. Para que a transformação da educação formal se torne uma possibilidade real é preciso recuperar a noção de sua historicidade.
Segundo Faria Filho, retomar a relação entre a realidade escolar e o seu contexto, seu tempo e seu espaço torna-se uma necessidade na busca por “uma desnaturalização da própria instituição escolar”. Dessa maneira pode-se observá-la não mais como “uma instituição estática e acabada” (2004, p. 152), mas como um fenômeno em constante processo.
As escolas, como hoje as conhecemos e concebemos, começam a se constituir a partir do século XVI, quando as condições sócio-históricas demandam a composição de um espaço educacional específico isolado, com um sistema de graduação em níveis e com um corpo profissional de educadores (JULIA, 2001). Essas características irão determinar um tipo de instituição que até então não havia sido experimentado em nenhum outro momento, em nenhuma outra cultura.
A escola moderna1 nasce como um local privilegiado para a educação de jovens e crianças, que cada vez mais cedo ingressam em suas fileiras com o objetivo de que adquiram
1 Em todo este capítulo, e nos próximos, se fará algumas generalizações em relação à escola, sem
prejuízo da diversidade que pode ser observada em cada escola em particular. O que aqui se busca são alguns princípios funcionais comuns que permitam compreender a ocorrência, bastante generalizada nas escolas de hoje, no Brasil, de algumas formas específicas da educação escolar.
um repertório básico de conhecimentos e condutas consideradas imprescindíveis para viver em sociedade.
Ela surge com pretensões de universalidade. É um imperativo para todos, sem distinção de idade, classe, etnia ou gênero. Crianças cada vez mais novas serão recrutadas e aí mantidas até a maturidade. Esse processo de generalização não é imediato. A própria noção de universalidade vai sendo ampliada com o correr dos séculos, estendendo-se cada vez mais, juntamente com a noção de cidadania.
Durante muito tempo a tarefa educacional será dividida com a família e a sociedade em torno. Levará mais de quatro séculos até que a escola possa assumir um papel bastante significativo na educação de crianças desde a mais tenra idade até a formação da personalidade do adulto. No entanto, já nos primeiros projetos educacionais da Modernidade a extensão do alcance da escola é desejada e anunciada pelos mais diversos pensadores.
A graduação em níveis, embora herdada de modelos anteriores como o romano, vai atingir uma complexidade até então impensada. Já a profissionalização do educador e com ela a criação de um grupo de especialistas distinto dedicado à formação escolar é um fenômeno só ponderável no contexto do desenvolvimento da sociedade burguesa e da divisão funcional que a caracteriza. Com a criação de um corpo profissional surge uma especialização teórica que levará a uma grande produção no âmbito da pedagogia e ao surgimento da didática propriamente dita (JULIA, 2001).
Muitas tendências e necessidades vão entrar em cena para moldar a escola que conhecemos hoje. Esse desenvolvimento, como não poderia deixar de ser, se dá em paralelo com o da civilização ocidental contemporânea assim como com o da estrutura biofísica típica do homem moderno. Trata-se de um movimento em direção à ordem, à higiene e à estética (BAUMAN, 1998), na construção de uma cultura extremamente competente do ponto de vista técnico – daí sua arrogância –, ao mesmo tempo em que problemática no campo da ética.
A forma como a escola é edificada nesse período responde às necessidades ligadas ao plano estrutural econômico do capitalismo que aí se desenvolve, ao discurso que se gera nesse contexto, isto é, à ideologia vigente e aos aspectos culturais e práticos da construção de um espaço específico para a educação. A eficiência desse projeto se torna patente no sucesso de sua constituição. A força positiva da instituição escolar moderna não pode ser de forma nenhuma negligenciada. Não fosse a sua eficácia seria impossível o estabelecimento de um
modelo tão completo e estável, mesmo quando por força de um conservadorismo ele se mostre inadequado para acompanhar as mudanças inerentes ao próprio processo histórico.
O aspecto inconsciente, ligado à estrutura biofísica encouraçada do homem médio na Modernidade, e sua influência na gênese do modelo escolar não pode ser esquecido, uma vez que nem sempre estará em conformidade com o discurso e os aspectos conscientes das propostas pedagógicas aí engendradas.
Há uma relação muito forte entre o caráter comum desse período e a forma que a escola assumirá. Não se está dizendo com isto que a escola se constitui como um encouraçamento. A couraça é um fenômeno do universo mental-corporal individual e responde a leis psíquicas, somáticas e biofísicas, enquanto que a escola é uma instituição social e funciona de acordo com outras regras e princípios concernentes ao campo das inter- relações humanas. Entretanto, couraça e conservadorismo da forma escolar formam de fato uma identidade funcional, advindas ambas da incapacidade do homem encouraçado de suportar o movimento vivo nas crianças e adolescentes, ou mesmo em adultos que não passaram como eles por um mesmo processo civilizatório. Assim, deve-se ter em mente que, embora em níveis diferentes, uma e outro se correspondem e influenciam.
O exame de algumas das tendências presentes na constituição da forma escolar permitirá perceber a relação de reciprocidade entre a escola moderna e a bio-estrutura encouraçada típica desse período.