4.3.3.1 Dados da coerência local - grupos clínicos
Os grupos C, CCL e DA apresentaram diferença significativa no quesito coerência local, quando comparados através do teste ANOVA unifatorial (F (13,263); p<0,001). Tais grupos mostraram um declínio gradativo no percentual nas médias obtidas, C (67,46+16,99), CCL (52,31+16,92), DA (38,77+ 22,72), sendo maiores no grupo C, intermediárias no grupo com CCL e inferiores no grupo com DA. Na análise de comparações múltiplas, o teste Tukey HSD mostrou que o grupo C se diferenciou significativamente dos grupos CCL (C> CCL;
p<0,001) e DA (C>DA; p<0,001). As diferenças entre o grupo CCL e DA não foram
significativas (CCL>DA; p=0,119), apesar de o grupo com CCL ter obtido média superior à média do grupo com DA. Os resultados da análise de coerência local mostraram, portanto, que esta análise permite diferenciar grupos clínicos com CCL e DA de idosos saudáveis com baixa escolaridade.
Desse modo, atinente aos escores obtidos na análise de coerência local, corroboramos parcialmente a nossa hipótese 5 (haverá diferença estatisticamente significativa entre os grupos DA, CCL e controle, atinente aos escores de coerência local, bem como de coerência global, que serão mais baixos nos grupos clínicos (adaptado de Laine et al., 1998 e de Drummond et al., 2015)). O motivo deve-se às diferenças que ocorreram entre os grupos CCL e C, bem como DA e C, mas não entre CCL e DA. Abaixo, a Tabela 17 ilustra os resultados das comparações entre os grupos.
Tabela 17: Comparação entre o desempenho dos grupos com CCL e DA, em relação ao grupo C, na análise de
coerência local
COERÊNCIA LOCAL – HISTÓRIA DO CACHORRINHO
C CCL DA N M % (DP) N M % (DP) N M% (DP) Comparações p COERÊNCIA LOCAL 34 67,46 (16,99) 15 52,31 (16,92) 15 38,77 (22,72) C>CCL C>DA CCL>DA <0,001*1 0,027*2 <0,001*2 0,119
Legenda: C= Controle; CCL=Comprometimento Cognitivo Leve; DA= doença de Alzheimer; Nota: *p≤0,05 é considerado significante; ¹ (ANOVA); ² Análise post-hoc teste de Tukey HSD;
Para aferir os escores de coerência local, levamos em consideração as relações de causa e consequência, comparações, exemplificações, contrastes e explicações (VAN DIJK, 2010). O grupo com DA não estabeleceu relações de causa e consequência, nem comparações e autocorreções, tampouco exemplificações. A maior ocorrência foi de explicações e contrastes, como mostram os respectivos exemplos: “quando eu era criança... assim também
morava ali no Passo da Areia” e “ele se desculpa... mas ela não deixa o cachorro”. O grupo
com CCL também estabeleceu mais relações de contraste e explicação, mas fez uso de autocorreções e relacionou causa e consequência, conforme os exemplos: “querem dar no
cachorro ou... prender o cachorro dentro da casa... não aí é um armário” e “alguma coisa ele fez...a mulher tá xingando a criança”. O grupo controle estabeleceu todos os tipos de
relação atinente ao conteúdo do texto, sem incluir comparações e exemplificações, e teve quantidade significativa de acertos ao ser comparado com os demais grupos (p<0,001). Exemplificações e comparações não apareceram nas narrativas dos três grupos, sendo possível inferir que o instrumento não é favorável a relações deste tipo.
Como erro de coerência local, consideramos problemas com referentes e incompletude da ideia (adaptado de Andreetta et al., 2012). Os idosos com DA, CCL e controles apresentaram dificuldades em ambos os aspectos. Problemas com referentes incluiram referentes faltantes ou ambíguos. Por exemplo: “era um garoto...encontrou um...cachorrinho
de rua...e aí ela...ele foi...levou ele”. Falta de referentes no discurso de pessoas com DA já foi
reportado em Obler e Gjerlow (1999) e Carlomagno et al. (2005). Incompletude de ideias foi percebida quando o participante introduziu uma ideia e abruptamente trocou-a por outra, sem completar a primeira. Por exemplo: “não sei o que que o guri tem na mão...não sei...não sei se bem...bem...deve ser... humm...tá...hum aqui talvez seje a mãe...”. Dificuldades neste
desse modo, influenciados pelas relações estabelecidas entre as proposições, bem como pelos erros com referentes e incompletude de ideias.
A coerência local tem sido amplamente investigada nos estudos que tratam de processamento do discurso, nas mais variadas patologias. No que tange aos aspectos metodológicos, as evidências mostram que, dependendo do estímulo utilizado, o desempenho dos participantes pode alterar-se. Na DA, estudos que utilizaram entrevista semidirigida (DIJKSTRA et al., 2002, 2004; LAINE et al., 1998; GLOSSER, DESER, 1991) e estudos que utilizaram instrumentos com figuras, isto é, com pista (BRANDÃO, 2005; LIMA et al., 2014; De LIRA, 2014) apresentaram diferenças entre o desempenho dos grupos.
Por meio de entrevista semidirigida, tarefas de discurso autobiográfico têm mostrado a coerência local mais preservada do que em outros tipos de tarefas (BRANDÃO, 2005; LIMA et al., 2014). Glosser e Deser (1991) e Dijkstra et al. (2004), assim como Brandão (2005) e Lima et al. (2014), não encontraram diferença entre os idosos com DA leve e o grupo controle. No estudo de Laine et al. (1998), apesar de o grupo com DA ter gravidade moderada, também não foi encontrada diferença entre os grupos. Dijkstra e colegas (2002) encontraram diferença entre o desempenho de idosos com DA moderada e severa. Os resultados dos estudos apresentados, de modo geral, mostram que a habilidade com a coerência local pode estar preservada na DA inicial, e até mesmo na fase moderada, em caso de a tarefa envolver entrevista semidirigida e abranger a memória autobiográfica. A memória autobiográfica é tida como preservada nas fases iniciais da doença, observando-se um declínio maior de evento recentes, e, posteriormente, remotos do indivíduo (DALLA BARBA, RIEU, 2001).
Já as tarefas com figuras se mostram mais sensíveis à análise de coerência local, uma vez que não envolvem a memória autobiográfica (BRANDÃO, 2005; LIMA et al., 2014). Considerando o estímulo pictórico, nossos resultados com DA são consistentes com os de Brandão (2005) e Lima et al., (2014), que encontraram diferença entre o desempenho de idosos com DA em relação a controles, mas diferem dos de De Lira (2014). Os resultados do presente estudo contrariam a ideia de que há uma preservação da habilidade com a coerência local nas fases iniciais da DA e vêm ao encontro do estudo de Brandão (2005), o qual mostra que o declínio na coerência local está atrelado ao tipo de tarefa. Brandão (2005) comparou o desempenho de idosos com DA na narração da história do Chapeuzinho Vermelho e na narração de uma história autobiográfica referente ao dia do casamento, e verificou que os idosos com DA não diferiram dos controles no desempenho com coerência local na tarefa autobiográfica, porém diferiram na tarefa com figuras. Apesar de o nosso estímulo pictórico
ter sido diferente do estímulo utilizado nos estudos de Brandão (2005) e Lima et al. (2014), os resultados afinaram-se, demonstrando que a medida de coerência local com apoio em figuras pode ser um marcador discursivo eficiente para diferenciar idosos com DA de idosos saudáveis.
Os resultados encontrados no presente estudo, no entanto, diferem dos encontrados por De Lira (2014), embora tenhamos utilizado o mesmo instrumento. Em ambos os estudos houve diferenças entre a quantidade de participantes, escolaridade e idade. A quantidade dos participantes foi menor (n=10) no estudo de De Lira (2014) e a escolaridade dos participantes com DA foi mais baixa (m=4,3) no nosso estudo. O critério de seleção de participantes não foi o mesmo, pois no nosso estudo a escolaridade mínima foi de 2 anos de ensino formal, o que ocasionou uma média de escolaridade menor do que em De Lira (2014), que atribuiu escolaridade mínima de 4 anos. Pequenas diferenças entre as médias de escolaridade dos idosos já podem influenciar positiva ou negativamente no seu desempenho linguístico (JUNCOS-RABADÁN et al., 2005). Essa diferença de desempenho é mais evidente, caso os idosos tenham alguma doença neurodegnerativa, como é o caso da doença de Alzheimer (WHALLEY et al., 2004). A escolaridade, juntamente com outros aspectos como idade e número de participantes, desse modo, pode ter sido um possível motivador para as diferenças encontradas.
Atinente à coerência local no CCL, nossos resultados afinaram-se com Drummond et al. (2015). Os pesquisadores encontraram diferenças entre o grupo controle e o grupo de idosos com CCL, porém não constataram diferenças entre os grupos com CCL e DA, pois ambos os grupos se portaram de forma semelhante. Tais resultados vêm ao encontro dos nossos achados e dos aspectos discutidos aqui. Pessoas com CCL ora mostram desempenho semelhante ao do grupo controle, ora ao grupo com DA (DRUMMOND et al., 2015; ALBERT et al., 2011).
O comprometimento dos grupos clínicos com a coerência local mostrou dificuldades no microplanejamento da narrativa oral, mais especificamente nas relações de significado entre as proposições da história (VAN DIJK, 1978, 2010). Os resultados obtidos, assim, confirmam a hipótese de que análise de coerência local seja um importante marcador linguístico, bem como o estímulo pictórico seja um instrumento promissor na diferenciação de idosos saudáveis de idosos com CCL e DA.
4.3.3.2 Dados da coerência local - grupos saudáveis variável escolaridade
A variável escolaridade no envelhecimento sadio mostrou-se um aspecto importante a ser considerado na análise de coerência local, uma vez que o teste t Student revelou diferença significativa (t (63) = 3,919; p<0,001), AE (84,96+19,01), C (67,46+16,99) entre os grupos. Assim, referente à análise de coerência local, nossa hipótese 8 foi corroborada, pois houve diferença estatisticamente significativa entre o desempenho dos grupos. A Tabela 18, abaixo ilustra os resultados obtidos.
Tabela 18: Comparação entre o desempenho do grupo com AE, em relação ao grupo C, na análise da coerência
local
COERÊNCIA LOCAL – HISTÓRIA DO CACHORRINHO
AE C
N M % (DP) N M % (DP) Comparações p
COERÊNCIA LOCAL
31 84,96 (19,01) 34 67,46 (16,99) AE > C <0,001*1
Legenda: AE= alta escolaridade; C= comparativo de baixa escolaridade; Nota: *p≤0,05 é considerado significante; ¹(teste t Student);
O grupo de idosos com AE, assim como os demais grupos C, CCL e DA, não fez uso de comparações e exemplificações, corroborando a suposição inicial de que o estimulo possa não ser favorável a este tipo de ocorrência. O grupo AE, porém, estabeleceu mais relações de causa e consequência, contrastes, explicações e autocorreções do que o grupo comparativo. Exemplos: (causa e consequência: “a mãe abre a porta do guarda roupa e descobre o
cachorro ali dentro”), (contraste: “não diz... mas ele pensa o que que vai fazer com o cachorro...”), (explicação: “Joãozinho passou por um cachorrinho... que estava acompanhando um senhor...”) e (autocorreção: ”desculpa isso aqui não é um amigo...é a mãe né?”). Quanto aos erros, o grupo com AE diferenciou-se do grupo controle nos dois quesitos
observados: problemas com referentes (p=0,003) e incompletude da ideia (p=0,009) (adaptado de Andreetta et al., 2012). Comparado ao grupo AE, o grupo C teve dificuldades com os referentes e produziu proposições incompletas, demonstrando problemas no estabelecimento de relações de causa e consequência, contrastes, explicações e autocorreções.
A literatura dispõe de poucos estudos que abordem a relação discurso e escolaridade no envelhecimento, especialmente no que tange à coerência local. Entre as variáveis
escolaridade e idade, o foco tem sido a idade. Marini e colegas (2005) verificaram que idosos com alta escolaridade têm pior desempenho na coerência local do que adultos muito jovens (25-39 anos) e desempenho semelhante a adultos mais velhos (40-59 anos). A habilidade de narrar, segundo aos autores, piora com a idade. Já Marini e Urgesi (2012) verificaram desempenho inalterado dos idosos na coerência local; e Beaudreau e colegas (2006) também não encontraram diferença significativa entre o desempenho de idosos e adultos jovens na produção discursiva. Nos três estudos abordados, a escolaridade média dos participantes foi superior a 13 anos.
Idosos que possuem reservas cognitivas, como a alta escolaridade, por exemplo, podem manter seu desempenho cognitivo por mais tempo, comparando-se ao desempenho de adultos com menor escolaridade. Segundo Whalley et al. (2004), o envelhecimento pode sofrer influência positiva de inúmeros aspectos, como atividade profissional, inteligência e escolaridade, os quais são importantes componentes das reservas cognitivas adquiridas ao longo da vida. A reserva cognitiva refere-se a diferenças individuais no desempenho de tarefas, o que permite melhor desempenho de algumas pessoas em relação a outras. A hipótese de reserva cognitiva (HRC) sustenta a promessa de que ela pode retardar o declínio cognitivo (STERN, 2012).
Nossos resultados mostraram que idosos com alta escolaridade tiveram desempenho superior ao de idosos com baixa escolaridade, em relação à coerência local da narrativa. Os idosos com AE pareceram estabelecer um microplano on line à narrativa, criando proposições relacionadas aos subtópicos (VAN DIJK, 2010). Diante do exposto, a HCR foi, portanto, corroborada.