No grupo C houve maior concentração de participantes (55,7%) na classificação NHI, ou seja, houve maior ocorrência de narrativas homogêneas incompletas, pois alguns dos participantes do grupo criaram textos que não apresentaram todos os elementos da superestrutura narrativa (SN). Em menor número (23,6%), foram as ocorrências de textos classificados como NHC, que contemplaram todos os aspectos necessários à SN, conforme Adam (1987, 2008). Alguns textos (11,72%) foram classificados como NHDN+, mesclando sequências narrativas com sequências descritivas, mas com predomínio da narrativa. Não houve casos de criação de textos predominantemente descritivos, tampouco de fuga completa ao tópico. Apenas 8,8% dos textos do grupo C apresentaram características de texto heterogêneo com inserção de outra sequência não pertinente ao tópico (NH+I). Em geral, os textos classificados como NH+I mesclaram narração e descrição de aspectos não relevantes à proposta, ou narração e presença de estratégias como repetições e circunlóquios.
Ao contrário do grupo C, o grupo de idosos com DA produziu diversos textos classificados como NH+I (26,7%). Este grupo DA inseriu descrições que não foram pertinentes à proposta da narrativa, detendo-se na descrição do cenário e não avançando nos acontecimentos da história, o que configurou uma narrativa não predominante. Em alguns momentos, o grupo inseriu trechos narrativos de experiência pessoal e quando avançou nos acontecimentos da história não a finalizou (NHI) (26,7%). Em (13,3%) dos casos houve fuga ao tema. E 13,3% dos textos foram oriundos de outro tipo textual que não o narrativo, em tais casos a ocorrência foi de textos descritivos, como mostra o exemplo abaixo:
“um guri com um cachorrinho... esse aqui é outro guri e o cachorrinho tava atrás... esse aqui é um cachorro - - eu acho - -.... este aqui é um gurizinho também tá dando atenção - - não sei o que - -... na boca do cachorro... - - não sei o que que é - -... esse aqui... esse aqui é um homem que tá ali parado... - - pra mim é um homem --... esse aqui é um::... é um guria::...
esse aqui::... é uma senhora... este aqui é um guri com o cachorrinho... pra trás... este aqui... é:: outro... outro guri pelo jeito... ali é um... um gato um cachorro e aqui o guri...”
Este exemplo mostra uma variedade de descrições das personagens, muitas delas imprecisas, pois há confusão quanto à quantidade de personagens. O participante identifica o protagonista como “guri” e “outro guri”, e não sabe bem se é um gato ou cachorro que participa da história. Há ainda vários comentários pessoais no texto.
Ainda no grupo com DA, em (13,3%) dos textos, os participantes iniciaram uma narrativa relacionada ao estímulo (NHDN-), mas logo em seguida inseriram elementos não pertinentes, fazendo rodeios. O grupo com DA, como um todo, ou não concluiu a narrativa, ou inseriu inúmeras descrições, fazendo uso de estratégias22 como circunlóquios, entre outras. Enquanto o grupo com DA fez uso de inúmeras descrições para realizar a tarefa, algumas vezes pouco relacionadas ao estímulo, o grupo com CCL concentrou-se mais na classificação NHDN- (49,6%), em que parece haver a tentativa de narrar os fatos, mas com alguns desvios da proposta. Os participantes, em geral, iniciaram a narrativa, incluíram descrições, mas acabaram se dispersando do tópico, não identificando o conflito e nem o desfecho da história (não necessariamente nesta ordem), como pode ser visto no exemplo que segue:
“o menino tá pela rua - - eu acho né - - ... achou um cachorrinho - - não? - - e esse cachorrinho ele tá passeando num consultório né... - - não sei né - - entrou... aqui é umas portas - - não é?... não sei o que é - - ...é um consultório ... será?- -... e o cachorrinho tá vem indo junto... aqui ele tá botando o dedo no... na boca cachorrinho... aqui o cachorro está sozinho... uma senhora tá abrindo uma porta e o gurizinho tá com o cachorro falando com uma senhora... - - não sei se é a mãe dele...né.. - - aqui tá os dois também... em cima de uma casinha né ... e a senhora conversando”
No exemplo, o participante inicia a história, identificando o cenário (a rua, a personagem principal, o cachorro). Há presença de alguns verbos de ação e locuções verbais no gerúndio (que indicam uma ação incompleta do sujeito ou prolongada), típicos do tipo textual narrativo. Há igualmente verbos de ligação no texto, utilizados para localizar as personagens no espaço, típicos do tipo textual descritivo. O participante, ao tentar relatar os fatos, introduz comentários pessoais, como “não sei”. Ao longo da produção oral, ele se
22 Maiores detalhes sobre as estratégias comunicativas utilizadas pelo grupo com DA serão apresentados na
utiliza de expressões com tom interrogativo como “né?”, “será?” “não é?”, parece que no intuito de obter algum retorno do examinador sobre seu desempenho. Quanto à adequação do conteúdo ao estímulo, parece que o participante se desvia deste como na parte em que ele trata “do consultório”, demonstrando, desse modo, dificuldades de planejamento.
Do grupo com CCL, 6,7% concluíram a história, 20,0% criaram uma narrativa homogênea incompleta, 6,7% inseriram trechos não relacionados ao estímulo, 6,7% fugiram ao tema e 13,3% criaram textos predominantemente descritivos. Assim, quanto ao tipo textual, tanto o grupo de idosos com CCL como o grupo com DA mostraram perfil heterogêneo de construção das narrativas, em relação ao grupo C, conforme mostra a Tabela 15.
A hipótese 4 (considerando uma análise qualitativa, os grupos CCL e DA construirão uma sequência narrativa mais heterogênea do que homogênea, em relação ao grupo controle) foi, assim, corroborada. Os grupos com CCL e DA produziram textos, alternarnando entre sequências homogêneas e heterogêneas, com predomínio das sequências heterogêneas, as quais envolvem diversidade de tipos textuais. Diferentemente, o grupo C oscilou menos, criando textos mais homogêneos e do tipo narrativo.
Tabela 15: Comparação entre o desempenho dos grupos com CCL e DA, em relação ao grupo C, na análise
qualitativa de tipo textual – História do Cachorrinho
TIPO TEXTUAL – HISTÓRIA DO CACHORRINHO
C CCL DA N % N % N % 1) NHC 8 23,6 1 6,7 0 0 2) NHA 0 0 0 0 0 0 3) NHI 19 55,7 3 20,0 4 26,7 4) NHDN+ 4 11,72 0 0 0 0 5) NDHN- 0 0 7 49,6 3 20,0 6) NH+I 3 8,8 1 6,7 4 26,7 7) NFP 0 0 1 6,7 2 13,3 8) OS 0 0 2 13,3 2 13,3 Total 34 100 15 100 15 100
Legenda: C= Controle; CCL=Comprometimento Cognitivo Leve; DA= doença de Alzheimer; NHC = Narrativa homogênea coordenada; NHA = Narrativa homogênea alternada; NHI = Narrativa homogênea incompleta; NHDN+ = Narrativa heterogênea dominante (narração +
outra sequência pertinente ao tópico); NHDN- = Narrativa heterogênea dominante (narração + outra sequência não pertinente ao tópico);
NH+I = Narrativa heterogênea com inserção (narração + outra sequência não pertinente ao tópico); NFP = Narrativa que foge à proposta; OS = Outra sequência que não a narrativa
Os grupos clínicos não tiveram seus textos classificados como NHA, isto é, quando eles evoluíram na sequência narrativa, seguiram a ordem sequencial das cenas, pois a organização da história, mesmo que incompleta, se deu conforme a ordem canônica (início, meio e fim). O mesmo ocorreu quando eles realizaram descrições das figuras em vez de
narrativas. Iniciar a história pelo meio ou fim, ou descrever as figuras começando pelo meio, por exemplo, não foi característica desses grupos. Embora os idosos tenham sido avisados de que a sequência das figuras estava organizada na ordem correta, e de elas estarem acessíveis ao participante ao longo da tarefa, eles poderiam escolher contar a história, ou mesmo descrevê-la, de acordo com a ordem que eles quisessem. Isso mostra uma sequencialidade, de certo modo, preservada no CCL e DA. As dificuldades apresentadas, assim, não parecem ser oriundas da ordem sequencial do estímulo, pois, mais do que dificuldades com a estrutura, elas parecem refletir déficits no conteúdo. Nas seções subsequentes abordaremos tal questão.
A classificação de TT, segundo Adam (1987), mostrou-se importante na complementação da análise da estrutura narrativa (ADAM, 1987, 2008). Através da análise de TT, foi possível obter-se um panorama geral quanto ao tipo de texto produzido pelos grupos, bem como verificar características e aspectos qualitativos que os diferenciaram.
Alguns autores igualmente investigaram o TT na DA e no CCL, considerando narrativas baseadas em uma sequência de figuras. Cardebat, Démonet e Doyon (1993) verificaram dificuldades dos idosos com DA em estabelecer relação entre as figuras, pois eles tenderam a focar nos detalhes contidos no estímulo. Concordamos com os autores, pois no presente estudo, o grupo com DA também demonstrou maior fixação nos detalhes, o que ajuda a explicar a quantidade de descrições realizadas por eles. Houve dificuldade ainda em associar que uma mesma personagem poderia estar envolvida em diferentes ações. Chapman e colegas (1995) verificaram que idosos com DA criaram narrativas parciais, mais fragmentadas, ou fizeram descrição das figuras, assim como ocorreu nos nosso achados. Drummond et al. (2015) também mostraram uma produção expressiva de textos descritivos na DA.
Já no CCL, o estudo de Drummond aponta para uma predominância de discurso narrativo, sendo que 45% dos indivíduos com CCL amnéstico produziram uma narrativa incompleta. No presente estudo, os idosos com CCL também produziram narrativas incompletas, algumas com narrações que fugiam ao esperado. Mesmo assim, parece que o grupo com CCL demonstrou melhor desempenho em narrar os fatos do que o grupo com DA, em que predominou a descrição. O comprometimento linguístico apresentado pelo grupo com CCL pode estar relacionado ao fato de este grupo ter déficits amnésticos, equiparando-se ao desempenho do grupo com DA.