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Os resultados das análises da coerência global revelaram diferença significativa entre os grupos C, CCL e DA (ANOVA unifatorial, F (12,447); p<0,001), C (46,03+16,94), CCL (24,80+22,82), DA (18,94+21,80). O teste Tukey HSD na comparação múltipla revelou que tal diferença se dá entre os grupos C e CCL (C>CCL; p=0,003), bem como C e DA (C>DA;

p<0,001). Já os grupos CCL e DA, embora possuam diferenças nas médias, sendo mais altas

no grupo com CCL (CCL>DA; p=0,692), não evidenciaram uma diferença significativa. Assim como na análise de coerência local, e pelo mesmo motivo de não haver diferença entre os grupos clínicos, na análise de coerência global, corroboramos parcialmente a nossa hipótese 5 (haverá diferença estatisticamente significativa entre os grupos DA, CCL e controle, atinente aos escores de coerência local, bem como de coerência global, que serão mais baixos nos grupos clínicos (adaptado de Laine et al., 1998 e de Drummond et al., 2015)). A Tabela 19 ilustra o desempenho dos grupos no quesito coerência global.

Tabela 19: Comparação entre o desempenho dos grupos com CCL e DA, em relação ao grupo C, na análise de

coerência global

COERÊNCIA GLOBAL – HISTÓRIA DO CACHORRINHO

C CCL DA N M % (DP) N M % (DP) N M% (DP) Comparações p COERÊNCIA GLOBAL 34 46,03 (16,94) 15 24,80 (22,82) 15 18,94 (21,80) C>CCL C>DA CCL>DA <0,001*1 0,003*2 <0,001*2 0,692

Legenda: C= Controle; CCL=Comprometimento Cognitivo Leve; DA= doença de Alzheimer; Nota: *p≤0,05 é considerado significante; ¹ (ANOVA); ² Análise post-hoc teste de Tukey HSD;

Os resultados obtidos, através das comparações entre os grupos C, CCL e DA na análise e coerência global, sugerem que este seja um tipo de análise relevante, tanto para discriminar idosos saudáveis de idosos com CCL, como para discriminar idosos saudáveis de idosos com DA com baixa escolaridade. Diferentes estudos corroboram esta afirmação, os quais seguem abaixo.

Consoante à relação entre idosos com DA e idosos saudáveis, nossos resultados são consistentes com os achados de Glosser e Deser (1991), Ska e Guénard (1993), Laine et al. (1998), Dijkstra et al. (2002, 2004), Brandão (2005), Brandão et al. (2013), Lima et al. (2014) e Drummond et al. (2015). Em todos os estudos citados, assim como no presente estudo, a coerência global da narrativa mostrou-se mais prejudicada em idosos com DA do que em idosos saudáveis. Brandão et al. (2013), por meio de entrevista semidirigida, identificaram prejuízos com a coerência global da narrativa na fase inicial e moderada da DA. Dificuldades em estabelecer um macroplano textual podem explicar esse comprometimento. Glosser e Deser (1991), Laine et al. (1998) e Dijkstra et al. (2002, 2004) também fizeram uso de

entrevista semidirigida. Glosser e Deser (1991) verificaram que as dificuldades do grupo com DA devem-se a prejuízos na seleção e organização das informações; já Laine e colegas (1998) relacionaram o déficit dos participantes ao comprometimento semântico; enquanto Dijkstra et al. (2002, 2004) associaram os prejuízos aos déficits de memória, sem especificar o tipo, o que tornaria o discurso mais incoerente.

Alguns pesquisadores utilizaram instrumento pictórico para produção oral da narrativa, quais sejam, Brandão (2005), Lima et al. (2014) e Drummond et al. (2015). Nos dois primeiros estudos, os déficits linguísticos foram associados aos demais déficits cognitivos. Já no terceiro estudo, as dificuldades com a coerência global foram associadas aos componentes executivos e semântico-pragmáticos da linguagem. Além dos demais componentes cognitivos, que atuam para que a produção da narrativa seja efetivada, dificuldades na criação de um macroplano, que contemple a macroestrutura do texto, podem auxiliar na explicação dos déficits de coerência global evidenciados nas produções textuais dos idosos com DA (VAN DIJK, 2010; BRANDÃO, 2005). Nossos achados corroboram este pressuposto.

Entretanto, os resultados encontrados no presente estudo, concernente à análise de coerência global, diferem dos de De Lira (2014), uma vez que a autora não encontrou diferença entre o grupo com DA e o grupo controle. Conforme relatado na seção que tratou de coerência local, ambos os estudos apresentaram diferenças na escolaridade dos participantes, podendo ser essa uma possível causa das diferenças de desempenho dos idosos (JUNCOS- RABADÁN et al., 2005). Outro aspecto que pode ter influenciado no desempenho dos grupos foi o aspecto metodológico. No presente estudo, as macroproposições da história tiveram como parâmetro de análise a criação de um texto base. Este texto foi criado, compilado e posteriormente julgado por juízes especialistas da área de psicolinguística, fonoaudiologia e lógica. As macroproposições da história foram baseadas no modelo de superestrutura de Adam (1987, 2008), que divide a narrativa em situação inicial, nó desencadeador, re-ação ou avaliação, desenlace e situação final. Já De Lira (2014) utilizou como parâmetro as macroproposições reportadas no estudo Cardebat, Démonet e Doyon (1993), realizado com idosos canadenses. As macroproposições foram traduzidas do original em inglês, tendo por base o modelo de superestrutura de Kintsch e Van Dijk (1980), o qual divide a narrativa em cenário, complicação e resolução.

Diferentemente dos estudos com DA, que estão em maior número, os estudos sobre produção de texto no CCL são mais raros. Segundo Taler e Phillips (2008), a produção de linguagem espontânea é prejudicada no CCL, indicando que tal dificuldade já pode

apresentar-se em estágios anteriores à DA. Em complemento ao estudo de Taler e Phillips (2008), nosso estudo mostra que a produção linguística baseada em figuras, isto é, com apoio de pistas, também já é prejudicada no CCL.

Fleming e Harris (2008), assim como nós, verificaram diferenças entre o desempenho dos idosos com CCL e controles, no que concerne à qualidade das produções orais. Em ambos os estudos, foram controladas as variáveis idade e escolaridade, porém no estudo de Fleming e Harris (2008), ao contrário do nosso, a média de escolaridade dos idosos com CCL foi alta (m= 16,13 anos de ensino formal). Os autores verificaram que a maior diferença entre os grupos foi na qualidade das informações globais reportadas, as quais fugiam à proposta, que era a de narrar e descrever as atividades associadas à preparação de uma viagem a Nova Iork. Os idosos apresentaram dificuldades de recuperação das informações, dificuldades essas que não apareceram no Teste de Boston, mas que ficaram evidentes na produção discursiva. De acordo com os autores, déficits de planejamento, resolução de problemas e prejuízos na organização do texto foram os maiores agravantes para o desempenho dos idosos com CCL. No presente estudo, o grupo com CCL igualmente refletiu dificuldades de planejamento e de organização das ideias relacionadas ao tópico, o que demonstra comprometimento com o macroplano textual (VAN DIJK, 2010). Quando os sujeitos apresentam déficits com a formulação de um macroplano para a produção do texto, a tendência é haver fugas e prejuízo na organização das ideias. O grupo com CCL, assim como o grupo com DA, utilizou-se bastante de descrição e relatou elementos secundários à coerência global, não evoluindo na sequência da narração da história.

Quanto à comparação entre o desempenho discursivo de idosos com CCL e DA, Tsantali e Tsolaki (2013) conseguiram diferenciar os grupos CCL e DA por meio da atividade de produção escrita. Os grupos tinham média superior a nove anos de escolaridade. No nosso estudo, considerando a atividade de produção oral de narrativa, não conseguimos fazer tal distinção. Optamos por uma tarefa que fosse mais acessível à condição educacional (m= 3,87) dos nossos participantes com CCL, pois a oralidade está muito mais presente no cotidiano dos idosos com baixa escolaridade do que a escrita.

No quesito coerência global da narrativa, nosso estudo não confirmou os achados de Drummond e colegas (2015), em que houve desempenho semelhante entre o grupo com CCL e o grupo controle, e desempenho diferente entre os grupos com CCL e DA. Os autores associaram tal desempenho do grupo com CCL a pouca necessidade de uso da ME (aspecto investigado por outros estudos e tido como deficitário no CCL) e a um adequado funcionamento da MT. Interpretamos que os resultados foram divergentes do estudo citado

por diferentes motivos. Inicialmente, é importante pontuar que Drummond e colegas (2015) não realizaram testes para verificar as condições de ME e MT dos participantes e confirmar os achados de estudos prévios. O estímulo utilizado em ambos os estudos foi diferente, o que pode ter influenciado no desempenho dos grupos investigados. A escolaridade dos grupos também foi outro grande diferencial entre os estudos. No presente estudo, realizamos testes neuropsicológicos para aferir as condições de ME e MT23 dos grupos com CCL e DA. Verificamos que o grupo com CCL teve comprometimento tanto na MT como na ME, com maior ênfase na ME. De acordo com Van Dijk (2010), a produção de um texto envolve a base textual na memória, bem como a ativação do modelo situacional, localizado na memória episódica, que contém a representação do texto. Este modelo envolve a escolha lexical e a estrutura sintática das frases. É possível que as dificuldades com a ME dos grupos com CCL e DA, do nosso estudo, tenham impactado na criação de uma representação mental do texto e influenciado no desempenho dos grupos.

Não encontramos estudos nacionais ou internacionais, para fins de comparação, que tenham investigado o desempenho de idosos com CCL com baixa escolaridade, no que concerne à produção oral de narrativas, mais especificamente à análise de coerência global. Tampouco encontramos estudos com ênfase no impacto da variável escolaridade (baixa e alta) no desempenho discursivo de idosos com CCL. O que encontramos foram estudos com outras amostras populacionais com lesão cerebral, os quais mostram a coerência global bastante prejudicada em relação a grupos controle, corroborando, assim, nossos achados com CCL e DA. É o caso de estudos com afasia (WRIGHT, CAPILOUTO, 2012; ANDREATTA et al., 2012) e Marini et al. (2011a) antes de intervenção terapêutica. Estudo com lesão cerebral sem ocorrência de afasia (ROGALSKI et al., 2010; MARINI et al., 2011 b), estudo com pessoas esquizofrênicas (MARINI et al., 2008), com lesão de hemisfério direito (MARINI, 2012) e com demência por Corpos de Lewy (ASH et al., 2011) igualmente corroboram nossos achados. A análise de coerência global mostrou-se, portanto, um importante marcador na diferenciação de desempenho dos grupos CCL e DA, em relação ao grupo controle.