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3.4. İPTAL DAVASI

3.4.4. Yetkili ve Görevli Mahkeme

A ampliação da entrada de setores das camadas populares na escola forçou o Estado a atuar em prol da garantia do acesso a materiais didáticos para esta parcela de estudantes. Nesse contexto, o fornecimento de livros didáticos para estudantes carentes bem como o incentivo e regulamentação do mercado editorial continuaram sendo discutidos no âmbito do Ministério da Educação, do Congresso Nacional e pela sociedade civil. No plano internacional a UNESCO, também orientava que cada país deveria garantir auxílio aos alunos carentes ofertando livros gratuitamente ou, quando isso não fosse possível, reduzindo os custos. (FILGUEIRAS, 2013c). Uma das primeiras medidas do novo governo, duas semanas após o golpe de estado, foi a revogação do Decreto nº 53.583 com a edição do Decreto nº 53.887, em 14 de abril de 1964. Nesse resguardava-se o mercado de livros didáticos para a iniciativa privada e a CNME passaria a atuar de modo suplementar.

Cabe ressaltar que, na década de 1960, o mercado editorial sofreu algumas mudanças. Chegava ao fim a era em que livros tinham numerosas e sucessivas edições. Algumas obras chegavam a ser utilizadas por 40 ou 50 anos nas salas de aula. O tempo de utilização de uma mesma obra nas salas de aula foi sendo reduzido gradativamente e na década de 1970, já não ultrapassa cinco ou seis anos (SOARES, 1996, p. 56). Entretanto, se o tempo

que forem selecionados para as diferentes disciplinas e séries. (BRASIL, Decreto nº 53.583, de 21 de fevereiro de 1964).

de vida dos livros didáticos diminuiu, eles passaram a ser consumíveis (BATISTA, 2002, p. 555) e se tornaram ainda produtos mais atraentes para a indústria do livro, à medida que, a reposição tornava-se constante retroalimentando o ciclo de produção e consumo.

Cabe ressaltar que outros aspectos, além do mercadológico estão ligados à utilização de livros consumíveis. A possibilidade de registrar marcas no material estabelecem outras formas de uso do livro. Escrever, colorir, responder, marcar trechos, anotar dúvidas, enfim, estabelecem-se outras formas de interação entre o leitor e o livro. Além disso, as proposições de atividades, muito comuns em livros didáticos podem ser ampliadas haja vista que os autores pressupõem que os estudantes podem responder por escrito no próprio material.

Após o golpe militar de 1964, a política de subsídio ou patrocínio estatal da produção de livros didáticos foi ampliada e estabeleceu-se um forte controle sobre o conteúdo destes materiais. Em 1965, foi assinado o acordo entre o MEC e a agência americana United States Agency for International Development (USAID), com o intuito de reformular o currículo e os métodos de ensino universitário. Em 1966, sobre influência da orientação estadunidense, criou-se a Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático (COLTED), por meio do Decreto nº 59.355, de 4 de outubro de 1966. A COLTED tinha por função incentivar, orientar, coordenar e executar as atividades do MEC relacionadas com a produção, a edição, a melhoria da qualidade e a distribuição de livros técnicos e de livros didáticos em todo o território nacional (OLIVEIRA, 1984).

Freitag et al. (1993) afirmam que a COLTED tinha por objetivo disponibilizar 51 milhões de livros aproximadamente para estudantes brasileiros no período de três anos. Além disso, continuam os autores, propunha um programa de desenvolvimento que incluiria a instalação de bibliotecas e um curso de treinamento de instrutores e professores dividido em várias etapas. Cabe ressaltar que a indústria de livros didáticos tinha uma representação direta no órgão por meio da participação do Presidente do Sindicato Nacional dos Editores.

A USAID também se fazia representar por meio da participação de Miss Alice Palmer e Sr. Campbell nas reuniões do colegiado. Essa presença era um

dos meios para o gerenciamento das atividades da Aliança para o Progresso realizada pela USAID (MUNAKATA, 2006, p. 77)116. A política de compra e distribuição de livros da COLTED garantiu um mercado razoavelmente estável para essas editoras, contudo, a Comissão exigiu, por meio das avaliações dos livros didáticos, a melhoria da qualidade dos manuais (FILGUEIRAS, 2013a, p. 13).

Participar de um convênio com a COLTED era extremamente vantajoso para a indústria do livro. Atendidas as exigências do programa, a compensação era garantida com a compra de todo estoque da produção. (OLIVEIRA, 1984; MUNAKATA, 1997). Cabe registrar que a COLTED também foi extinta em 1971 devido às irregularidades, o chamado “escândalo COLTED”, nas quais o órgão foi envolvido com sérios indícios de corrupção. (OLIVEIRA, 1984; WITZEL, 2002).

Após sua extinção, tiveram início os processos de co-edição entre Estado e iniciativa privada, o que expandiu ainda mais o mercado privado de didáticos. (FILGUEIRAS, 2013c). Assumindo na prática as responsabilidades da COLTED, o Instituto Nacional do Livro (INL) passou a executar o Programa do Livro Didático, composto de Programa do Livro Didático-Ensino Fundamental (PLIDEF), Programa do Livro Didático-Ensino Médio (PLIDEM), Programa do Livro Didático-Ensino Superior (PLIDES), Programa do Livro Didático-Ensino Supletivo (PLIDESU) e Programa do Livro Didático-Ensino de Computação (PLIDECOM). (MUNAKATA, 1997).

Além da COLTED, nos primeiros anos da ditadura militar, por meio da Lei nº 5.327, de 2 de outubro de 1967, criou-se a Fundação Nacional do Material Escolar para qual foi transferido todo acervo da Campanha Nacional de Material de Ensino. Para Filgueiras, a FENAME era

uma reorientação estabelecida pelo MEC durante o regime militar para uma política criada durante os anos de 1950. Contudo, a sua criação evidenciava as marcas da

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A Aliança para o Progresso criada pelos Estados Unidos em 1961 durante a Guerra Fria. Além de ampliar a influência política e econômica sobre a região, visava acelerar o desenvolvimento econômico mediante a colaboração financeira e técnica na América Latina (MUNAKATA, 2006, p. 77).

ditadura militar, como a substituição da diretora executiva

Heloísa Araujo117 por Humberto Grande. (2013c, p. 323).

Conforme o artigo 5º do Decreto nº 62.411, de 15 de março de 1968, a instituição deveria produzir diversos materiais escolares e didáticos. Dentre eles, cadernos escolares e blocos de papel diversos; cadernos de exercícios; peças, coleções e aparelhos para o estudo das diversas disciplinas dos currículos escolares; guias metodológicos e manuais sobre matérias ou disciplinas consideradas de maior interesse; dicionários, atlas, enciclopédias e outras obras de consulta; material para o ensino audiovisual de disciplinas de cursos de grau elementar, médio e superior; material em geral, de uso frequente por alunos e professores.

Segundo balanço do MEC, até 1971, a FENAME havia produzido 11 milhões de obras didáticas e 200 milhões de objetos escolares. Entretanto, os livros didáticos de uso cotidiano dos estudantes não foram foco do órgão. Esse mercado, ao que tudo indica, foi reservado para indústria editorial. A despeito dessa suposta reserva de mercado para a indústria do livro, a publicação de materiais didáticos pelo governo federal por meio da FENAME gerou contestações por parte das editoras privadas. Em fins de 1969, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a Câmara Brasileira do Livro (CBL) solicitaram uma definição do governo quanto a sua política para o livro didático e a produção das editoras privadas. (FILGUEIRAS, 2013c)

Ao longo dos anos 1970, a FENAME adquiriu cada vez mais centralidade como órgão de publicação do MEC. Em 1975, assumiu a produção e distribuição de material didático para regiões consideradas isoladas no entorno da rodovia transamazônica, Pará, Amazonas e Rondônia. A partir de 1976, assumiu as tarefas do Instituto Nacional do Livro. Assim tornou-se também responsável, além da produção dos livros didáticos e obras de consulta para os alunos carentes, pela execução do Programa do Livro Didático (PLD) e pelo processo de co-edição com as editoras privadas,

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Heloisa Araújo havia conduzido desde 1961 a CNME, quando deixou o cargo de Inspetora de Ensino Secundário do MEC. A sua defesa em prol da ampliação da área de atuação da CNME, culminando com o decreto do governo Jango determinando a distribuição gratuita ou a preço de custo dos livros didáticos aos estudantes brasileiros, foi significativa.

batizado pelo governo de Programa de Colaboração Financeira para Edição de Livros118.

A partir de dados recolhidos de edições da Revista Educação, publicada pelo MEC durante a década de 1970, Filgueiras (2013a, p. 12) afirma que, em 1977, por meio do PLD, a Fename publicou 102 módulos de ensino, com tiragem de mais um milhão de unidades para estudos supletivos de 1º grau. Em 1978, cerca de 20 milhões de livros didáticos no âmbito do PLINDEF para aproximadamente sete milhões de alunos carentes. Em 1979, diversos materiais como, por exemplo, Folhetos de Mecânica 1, Mecânica 2,

Eletromagnetismo e Eletricidade, destinados ao ensino de Física no 2º grau.

Em 1982, a FENAME encerra suas atividades. Uma das últimas medidas adotadas foi uma parceria com a CBL e o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO) para construção de normas que garantissem a qualidade dos livros didáticos e sua utilização por pelo menos cinco anos (FILGUEIRAS, 2013c, p. 332). Os postos de distribuição da FENAME foram fechados no começo de 1982, segundo matérias veiculadas em O Estado de São Paulo por pressão do Snel e da CBL (OESP, 16 fev. 1982, p. 14; 17 fev. 1982, p. 13 apud FILGUEIRAS, 2013c, p. 332).

Durante o período ditatorial brasileiro, as políticas públicas ligadas aos livros didáticos assumiram um caráter de políticas sociais ao levaram em conta a redução do preço de mercado, a facilitação do acesso de estudantes mais carentes a esses recursos e, ao mesmo tempo, garantiam o atendimento aos interesses da indústria editorial. Mas, ao que tudo indica, todo esse mecanismo já não atendia plenamente aos interesses da indústria do livro no começo da década de 1980.

Além disso, entre os últimos anos do regime militar e o começo da chamada Nova República, os movimentos sociais, as organizações de professores como a Associação Nacional dos Professores de História (ANPUH) exigiam mudanças políticas e sociais que passavam também pela educação. O movimento pelo fim dos Estudos Sociais e pela renovação do ensino de

História produzira um contexto no qual os livros didáticos, que também são expressões de seu tempo, de certo foram se reconfigurando.