Goode e Hatt (1968) apresentam ciência como um modo de abordagem do mundo empírico, e a acumulação sistemática dos resultados dessa abordagem compõe o conhecimento científico. Fatos, conceitos e relações ordenadas formam teorias cujo objetivo é descrever, compreender e, finalmente, prever, como forma de controle, o mundo material.
Para esses autores, a capacidade de abstração do pesquisador em isolar fatos e conceituar as relações entre eles de forma a expor um fenômeno, imerso num emaranhado de relações no contexto real, representa a diferença entre o conhecimento científico e outras formas de conhecimento como popular, filosófico ou religioso.
Para Lakatos e Marconi (2001), conhecimento científico pode ser entendido como a tentativa racional de evidenciar fatos correlacionados de modo a gerar entendimento de fenômenos reais.
Trujillo2 (1974, in LAKATOS e MARCONI, 2001: pág. 80) define ciência como “ ... todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido a verificação”.
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Esse autor caracteriza o conhecimento científico como real, contingente, sistemático, verificável, falível e aproximadamente exato. É real porque trata de manifestações do mundo real. É contingente na medida em que as suas proposições ou hipóteses são verdadeiras ou falsas mediante resultados de experiência e não apenas por meio de exercícios de razão. É sistemático, pois é acumulado de forma ordenada e lógica, num sistema de idéias ou teorias. É verificável, pois hipóteses que não sejam passíveis de comprovação não integram o corpo do conhecimento científico. Falível e aproximadamente exato, pois, sendo um processo contínuo, está sujeito a ser descartado ou substituído por novas proposições.
Comprovar uma teoria ou refutá-la é contribuir para o enriquecimento do acervo de conhecimento. Para Kuhn (1975), desenvolver estudos que comprovam e ampliam teorias existentes faz parte da criação de ciência normal. Esta é necessária até o ponto em que as refutações se acumulam e novas teorias imergem para responder ao que as anteriores não mais abarcavam. O surgimento de novas teorias, que rompem com o conjunto anterior, Kuhn chama de ciência extraordinária.
Para Popper (1978), o conhecimento é sempre cumulativo e sempre revolucionário. Uma vez que novas descobertas devem ser capazes de desmentir as suas predecessoras, então elas surgem acumulando o conhecimento existente, mas evidenciando pontos conflitantes, pontos de revolução e avanço.
Em grandes saltos ou em avanço contínuo, sempre que se efetua uma pesquisa por meio de uma abordagem científica, reforça-se, refuta-se e eventualmente gera-se nova teoria contribuindo para a construção do conhecimento científico.
Lakatos e Marconi (2001) caracterizam também ciência quanto ao objetivo, cuja preocupação é distinguir a característica comum ou as leis gerais que regem determinados eventos; quanto à função, que é a de aperfeiçoar a relação do homem com o seu mundo por meio da acumulação de conhecimentos; e, finalmente, quanto ao objeto, subdividido em material (que define aquilo que se pretende estudar, analisar, interpretar ou verificar) e formal (que define o enfoque especial que uma pesquisa coloca num objeto material o qual pode ser estudado por diversas perspectivas, por diversos ramos de ciência).
Subjacente á noção de atividades racionais dirigidas ao sistemático conhecimento do mundo, está a noção de paradigma ou o sistema de básico de crenças ou maneiras de ver o mundo.
Positivismo, pós-positivismo, teoria critica e construtivismo são apresentados como os principais paradigmas à luz dos quais é, atualmente, feita a ciência. Tais paradigmas assentam-se em três pilares: ontológico, epistemológico e metodológico (GUBA; LINCOLN, cap. 6 in DENZIN, 1994):
Ontológico – Quais são a forma e natureza da realidade e o que há para saber e conhecer dela?
Epistemológico – Qual é a relação entre o observador e o observado?
Metodológico – Como é que o pesquisador vai à procura do que quer conhecer e como é que ele constrói o conhecimento?
A presente pesquisa é desenvolvida no paradigma pós-positivista, isto é, a realidade pode ser compreendida ainda que de uma forma imperfeita e sujeita a criticas e correções, o observador não interfere no objeto e procura atuar com objetividade mas reconhece que pode haver influências, a metodologia vai desde a experimentação, manipulação, validação e refutação de hipóteses, recorre a métodos quantitativos e qualitativos (quadro 14).
De acordo com esses autores, as implicações práticas na pesquisa, decorrentes da adoção do paradigma pós-positivista, são:
• Objetivo da pesquisa: explicação, predição e controle.
• Natureza do conhecimento: hipóteses com leis ou fatos prováveis. • Acumulação de conhecimento: adição de leis, fatos, relações.
• Critérios de validação e qualidade: rigor, confiabilidade, objetividade e validade interna e externa.
• Papel dos valores: excluídos, não influenciam. • Ética na pesquisa: extrínseca.
• Treino: técnicas quantitativas e qualitativas, teorias substantivas.
Quadro 14: Crenças Básicas dos Paradigmas Alternativos
Ontologia Epistemologia Metodologia
Positivismo Realismo ingênuo realidade “real” captada Dualista, objectivista resultados verdadeiros Experimental/ manipuladora:verificação de hipóteses, métodos quantitativos Pós-positivismo Realismo crítico, apreensão imperfeita Dualista, objectivista modificada resultados provavelmente verdadeiros Experimental/ manipuladora:verificação e falsificação de hipóteses, métodos quantitativos e qualitativos
Teoria Crítica Realismo histórico, cristalização Transacional, subjectivista, valores permeiam o conhecimento Dialógica, dialética Construtivismo Relativismo, realidades construídas específica e localmente Idem mas as descobertas são “criadas” Hermenêutica, dialética
Fonte: Adaptado de GUBA ; LINCOLN (cap. 6 in DENZIN, N. 1994) Nossa tradução.
Em resumo, em um posicionamento pós-positivista, a presente pesquisa pretende contribuir para a acumulação e expansão de conhecimento científico, tendo como objeto material o estudo de relacionamentos entre organizações, com enfoque de teoria de redes e estratégia de operações, procurando descrever e conhecer melhor as características comuns a esse fenômeno, de forma a facilitar a sua utilização.
Para que a pesquisa seja válida e verdadeira, porém, é necessário um conjunto de atividades sistemáticas e racionais a que chamamos método (LAKATOS ; MARCONI, 2001) e que é descrito a seguir.