Da literatura até agora apresentada, já podem ser notadas várias coincidências de elementos, variáveis ou parâmetros que caracterizam as relações de colaboração desenvolvidas em redes de suprimentos.
De acordo com o trabalho desenvolvido por Pigatto e Alcántara (2003), listamos no quadro 10 os elementos ou parâmetros mais freqüentes e, como muitos dos vocábulos se referem ao mesmo conceito, agrupamo-los e atribuímos as definições que mais se adequam, recorrendo, na maioria doscasos, a Slack e Lewis (2003), Maloni e Benton (2000), Dyer, Kale e Singh (2000), Crotts e Turner (1999) e Dywer, Schurr e Oh (1987). Múltiplos pontos contacto Aprendizado conjunto Partilha sucesso Expectativas de longo prazo Resolução conjunta de problemas Coordenação conjunta de atividades Confiança Proximidade do relacionamento Bens dedicados Atitudes Ações Transparência de Informação Poucos relacionamentos
Quadro 10: Parâmetros mais Usados na Literatura de Relacionamentos em Redes de Suprimento Agrupados em Torno dos Principais Elementos de Caracterização
Elementos de
Caracterização Parâmetros Definições dos Elementos
Estratégia de Colaboração cooperação envolvimento proximidade força respeito reciprocidade mutualismo ganha-ganha solidariedade justiça liderança
Crença de que através de relacionamentos fortes e próximos, baseados na reciprocidade e solidariedade, serão alcançadas mais vantagens, para os direta e indiretamente envolvidos, do que em transações oportunistas.
Comunicação Informação abertura acessibilidade transparência clareza honestidade expectativas
Passagem de informação com o nível máximo de honestidade e transparência permitido. A comunicação é imprescindível para o desenvolvimento e manutenção dos relacionamentos por ser veículo de expectativas e estar presente em todas as ações desenvolvidas pelos atores.
Confiança
atração reputação credibilidade segurança
Crença de que o outro parceiro atuará sempre em benefício mútuo dentro do espírito da colaboração. Provém num primeiro momento da atração, reputação e credibilidade sendo reforçada pela comunicação até a percepção de segurança ser superior à dos riscos.
Interação multidisciplinari- dade disponibilidade adaptabilidade competências coordenação sincronização formalidade informalidade valores e cultura
Processo formal e informal de troca e adaptação, entre pessoas das organizações envolvidas, com máxima disponibilidade e multidisciplinaridade, com vista á coordenação e sincronização de competências.
Comprometi- mento responsabilidade longo prazo continuidade maturidade consistência persistência motivação
Crença de que um relacionamento vale o esforço e o empenho necessários á sua duração acreditando que a continuidade e a maturidade são necessárias para extrair todo o potencial sucesso dos relacionamentos. Resulta e impacta do conjunto de atitudes e ações compostas por todos os elementos apresentados no quadro.
Poder
influencia controle barganha autonomia
Capacidade que cada um dos atores tem de conduzir os processos de negociação e exercer influencia nas decisões.
Quadro 10 (cont.): Parâmetros mais Usados na Literatura de Relacionamentos em Redes de Suprimento Agrupados em Torno dos Principais Elementos de Caracterização
Elementos de
Caracterização Parâmetros Definições dos Elementos
Poder
influencia controle barganha autonomia
Capacidade que cada um dos autores tem de conduzir os processos de negociação e exercer influencia nas decisões.
Conflito
flexibilidade legalidade contratos normas
Incompatibilidades de interesses entre os parceiros que surgem no decorrer das negociações. O que se espera é que os parceiros sejam capazes de negociar soluções usando de flexibilidade e sem ter que fazer uso de clausulas legais. A resolução de conflitos contribui para fortalecer todos os elementos até aqui tratados e potencializar conhecimento.
Aprendizado
conhecimento sinergia inovação
Processo de troca de conhecimentos efetuado através do uso de sinergias na interação, negociação e resolução de conflitos que resulta num novo conhecimento.
Interdepen- dência investimento bens dedicados estruturas risco
Grau de indispensabilidade ou insubstituabilidade que um parceiro atinge em relação ao outro a partir da operacionalização dos acordos, através dos investimentos tangíveis e intangíveis aplicados no relacionamento.
Sucesso monitoração métricas resultados retornos objetivos satisfação
Obtenção dos resultados esperados face aos objetivos acordados. A monitoração de indicadores de resultados deve ser partilhada e o sucesso conhecido por todos por forma a incentivar e recompensar o espírito de colaboração do relacionamento, aumentar a confiança e o comprometimento, realimentando o processo.
Fonte: Elaborado pela autora com base na revisão bibliográfica citada.
A identificação de 10 elementos caracterizadores de relacionamentos e os parâmetros que compõem cada um deles remetem a uma ordem de acontecimentos como as sugeridas por Dywer, Schurr e Oh (1987) e Dyer, Kale e Singh (2001).
Para identificar a linha crítica de desenvolvimento de relacionamentos, usamos a Técnica de Análise Funcional de Sistemas – FAST (CSILLAG, 1995), cujos procedimentos serão detalhados na secção 4.3.3. Dessa análise resulta um diagrama (esquema 8) que nos permite visualizar as inter-relações entre os vários elementos, de forma ordenada.
Partindo do principal objetivo, do topo para baixo é colocada a pergunta “como?” e de baixo para cima, a pergunta “por quê?”. Por exemplo: como posso adquirir confiança? Estabelecendo comunicação com transparência e exposição de expectativas. Para que estabeleço comunicação com transparência e exponho expectativas? Para adquirir confiança.
O processo inicia-se com a elaboração de uma estratégia de colaboração, em que o papel de liderança é considerado importante para a sua disseminação e boa implementação. O primeiro passo é identificar atores da rede atrativos, com boa reputação e credibilidade para estabelecer parcerias de colaboração.
Na segunda fase do processo, dá-se a seleção e inicia-se o fluxo de comunicação. Nesse momento é necessário que, com o máximo de transparência, se exponham as reais expectativas dos atores em relação ao relacionamento. Essa é a primeira contribuição para o estabelecimento de confiança entre os atores. É necessário que se instale a confiança para que haja cada vez mais interação, isto é, se expandam os processos de troca, formais e informais, entre atores, com vista ao alinhamento das competências com que cada um pode contribuir. Essa interação testa e desenvolve a capacidade de adaptação dos atores. À medida que os atores vão contribuindo para a formação de um modelo de relacionamento de colaboração, vai- se gerando comprometimento entre eles. A formação desse modelo, que ditará as regras do relacionamento, é também a arena de negociações em que cada ator tentará influenciar em favor das suas preferências. A habilidade de resolver eventuais conflitos que surjam nessa fase é crucial para a passagem à fase seguinte.
Esquema 8: Diagrama FAST de Desenvolvimento e Manutenção de Relacionamentos
Fonte: Desenvolvido pela autora com base na literatura citada. Nota: As fases sugeridas por Dwyer; Shurr; Oh(1987) e Dyer; Kale; Singh (2001) estão separadas pelo tracejado.
Da resolução de conflitos surgem aprendizado e conhecimento que podem induzir a novos processos. É o momento de investir recursos com o fim de criar a estrutura necessária à implementação do modelo de relacionamento negociado. São assumidos riscos e é estabelecida a interdependência. Os atores devem apresentar o máximo de flexibilidade para acomodar inovações e contornar dificuldades no momento de operacionalizar o relacionamento de colaboração.
Com o relacionamento em curso, é necessário saber qual a sua contribuição para os atores e para a rede. Para reconhecer o sucesso é necessário que os resultados sejam não só medidos e avaliados mas também disponibilizados para continuar o ciclo de incentivo à estratégia de colaboração, aprendizado e melhoria.
O objetivo final da gestão de relacionamentos de colaboração em redes, como vimos nas seções anteriores, é alcançar o máximo de sucesso dos atores, lembrando que são empresas, de tal forma que esse sucesso se reflita e contribua para o benefício de toda a rede, no princípio ganha-ganha.
No capítulo 4 descreveremos com mais detalhes os princípios do diagrama FAST e como o aproveitamos para desenvolver o roteiro de entrevista.