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2.2. Türkiye'de Mülki İdare Sisteminin Tarihsel Gelişimi

3.1.2. Avrupa Birliği’ne Üyelik Süreci

3.1.2.2. Yerellik İlkesi ve Yerelleşme

A construção de um hospital em Natal, como vimos, já era uma necessidade sentida nos idos de 1840, quando os presidentes de província sofriam com as epidemias constantes que assolavam o estado, reclamando da precariedade da assistência médica, que contava com parcos recursos. Finalmente, em 1855, o governo de Bernardo Pereira Passos resolveu edificar o nosso primeiro hospital, onde foi o Quartel da Polícia Militar, na antiga Rua da Salgadeira. Compulsando a legislação estadual do império e as informações dos Relatórios e Falas de Presidentes de Província, não encontramos qualquer referência direta ou preocupação mais técnica visível com relação ao espaço onde seria construída a instituição nosocomial do Hospital da Caridade. Não temos nem sequer uma planta detalhada da construção, mas apenas a descrição do quadro de funcionários100, seus provimentos, hierarquia e aspectos financeiros e administrativos, fornecidos pelos próprios Relatórios e Falas dos mandatários provinciais e os jornais impressos, mormente A República e O Diário do Natal.

99

WEBER, Beatriz Teixeira. As artes de curar: Medicina, Relig ião, Magia e Positivismo na República Rio-Grandense (1889-1928), p.44.

100 Segundo o relatório do presidente Olinto Meira, todos os funcionários do Hospital de Caridade eram

praças de polícia e receb iam soldo pelas novas funções, com exceção da enfermeira, do servente e do méd ico do Partido Público. O nú mero de funcionários do hospital e suas funções variaram ao longo dos anos em que o HC esteve em atividade. No jornal A República de 26 de janeiro de 1891, encontramos a citação do Decreto n.86 de 27 de dezemb ro de 1890, que, no seu art.2º, §4º, discrimina as despesas do Estado com relação ao Hospital de Caridade, mencionando um quadro de funcionários maior do que aquele da década de 1860, co mportando os seguintes empregados: amanuense e seu ajudante, enfermeiro e ajudante de enfermeiro, enfermeira e ajudante de enfermagem, Cozinheira e ajudante de cozinha e dois serventes. Em 3 de dezembro de 1908, o mes mo jornal publicou a Lei n.268, de 1º de dezemb ro de 1908, que “fixa a despeza e orça a receita do Estado para o anno financeiro de 1909”. No seu Art.1º, §9º, o pessoal do Hospital de Caridade aparece com outra disposição, compondo -se agora de Director, Amanuense, Almo xarife, En fermeiro-mó r, dois enfermeiros e duas enfermeiras, cinco serventes, cozinheiro e ajudante de cozinha.

Tabela 1-Funcionários do Hospital de Caridade

Função Rendimentos

Administrador 300:000 rs (anual)

Amanuense 10:00 rs (mensal)

Cozinheira 640 rs (diária)

Enfermeira Sem soldo

Servente Sem soldo

Médico do Partido Público Sem soldo

Fonte: Relatório apresentado pelo presidente Olinto Meira à Assembleia Leg islativa do

Rio Grande do Norte, em sessão de 1863, p. 74.

Devemos deixar claro que não estamos falando aqui do hospital moderno, com suas instalações providas de médicos especializados, dotado de alta tecnologia e tendo sua arquitetura determinada pela ciência médica, configuração que só veio a existir a partir da década de 1970, com a primeira portaria legislando sobre a arquitetura hospitalar.

No século XIX, os hospitais eram espaços construídos sem muita preocupação com as necessidades dos pacientes nem com as teorias médicas correntes: eram lugares de repouso, convalescimento, de abrigo oferecido aos mais pobres, administrados normalmente por instituições religiosas, com fins muito mais caritativos que terapêuticos. Na experiência luso-brasileira, predominou a assistencia social voltada para a pobreza, buscando retirar das ruas todos aqueles que compunham a massa de excluídos da sociedade, como órfãos, prisioneiros, doentes, prostitutas, loucos, entre outros, perspectiva baseada nas diretrizes religiosas da Santa Casa da Misericórdia, que ditava os rumos tanto da assistência médica quanto social. Essas regras que norteavam as atividades da instituição eram conhecidas como as 14 obras da Misericórdia, divididas entre sete obras espirituais: ensinar aos ignorantes, dar bom conselho a quem pede, castigar com caridade, consolar os tristes, perdoar a quem errou, sofrer injúrias com paciência e pedir a Deus pelos vivos e mortos; e sete obras corporais: redimir cativos e visitar presos, curar doentes, cobrir os nus, dar de comer aos que têm fome, dar de beber aos que têm sede, abrigar os peregrinos e pobres e enterrar os finados.101

101 SANGLA R, Gisele. Entre os salões e o laboratório: Guilherme Guin le, a saúde e a ciência no Rio de

Esse “Inferno de Dante”, como nos descreveu o médico Onofre Lopes, fora fechado em 1906, por Augusto Tavares de Lyra, e um novo edifício já era preparado para receber os novos pacientes. Tratava-se da casa de veraneio do governador Alberto Maranhão, comprada por ele para a construção do novo hospital. Segundo Tarcísio de Medeiros102, em artigo comemorativo do cinquentenário do referido estabelecimento hospitalar, publicado em A República, a reforma da “mansão”, iniciada em 1905, estava a cargo do senhor Teodósio Paiva, Diretor do Almoxarifado Gera l do Estado, tendo Pio Barreto como empreiteiro, para a construção de sala de operações, e Cândido Henrique de Medeiros, avô do articulista, na direção geral das obras, já que este possuía experiência adquirida no serviço da Santa Casa, em Recife. Em 12 de setembro de 1909, inaugurava-se finalmente o novo estabelecimento hospitalar do Estado.

Em princípio, a compra da casa por Alberto Maranhão coloca a questão do “espaço” para a construção do hospital em segundo plano, como fruto de um gesto político particular, voluntarista, circunstancial, sem o qual não haveria possibilidade de construir um outro edifício. Assim, o espaço seria concebido, de forma simplificadora, como mera superfície sobre a qual se dão os acontecimentos, morto, fixo, atemporal, estático, espaço esvaziado de sentido, de significados humanos. Configura aquilo que a geógrafa norte-americana Doreen Massey chamou de concepção tradicional de espaço, visto como “fenômeno de superfície”, “algo a ser atravessado” ou “ grande extensão através da qual viajamos”.103

A localização espacial do Hospital de Caridade Juvino Barreto era singular: repousava sobre um Monte, região altaneira da cidade, e situado nas proximidades da Praia de Areia Preta, beira-mar bastante conhecida pela elite natalense da época:

Acompanhou [Januário Cicco] todas as etapas da reforma da casa de veraneio de Petrópolis, caminhando pelas dunas, para observar os serviços e modificar o que achasse conveniente.104

Era uma região de dunas! A casa de campo de Alberto Maranhão era de “veraneio”, isto é, o governador e a sua família iam passar o verão lá, descansando, respirando “ar puro”, longe do mefítico ambiente urbano da Ribeira, local de trabalho e

102 MEDEIROS, Tarcísio de. Ontem, Hospital do Monte, hoje Hospital “Miguel Couto”. REVISTA do

Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 1959, vol. 53, p.34 -35.

103

MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.p.37.

comércio. Em 14 de outubro de 1905, o Diário do Natal publica, sob o título de Dia a dia: Pobre Rio Grande do Norte IV, um artigo que comenta sobre as vantagens do vento marinho para a saúde da população:

Na arte de arranjar benemerência, ninguém melhor maneja a política que o senador Pedro Velho, e nessa especialidade fazem justiça todos, inclusive os seus mais intimo engossadores. Promovem o bem público e... inventam uma cidade nova. A idéia é bella e se lhe reconhece o que seja de genial. A nossa cidade, além de velha feia, comprimia já a população em bairros apertados e mal servidos da higyene da natureza. Precisava a população natalense de respirar o ar saturado dos alcalóides marinhos de que é portadora a viação que vem das praias do Morcego e Areia Preta.105

Ou seja: os novos bairros da cidade, Tirol e Petrópolis, surgidos do plano de expansão urbana chamado de Cidade Nova, tinham a vantagem, em relação à insalubre Ribeira, de receber “o ar saturado de alcalóides marinhos”, tido como importante fator gerador de saúde. Em 1908, a praia de Areia Preta tornou-se uma estação balneária, sendo recebida pelas elites da época com muito entusiasmo. Em 1912, a Ferro Carril estendeu sua linha de bonde elétrico para o balneário, funcionando aos domingos e feriados.106 A praia de Areia Preta veio a tornar-se importante espaço de lazer e divertimento, partindo da Ribeira, passando pelo Monte Petrópolis e dirigindo-se à beira-mar.107

Em fins do século XIX, toda essa extensa faixa de terra ainda não fora efetivamente incorporada ao espaço urbano de Natal. A Cidade Alta terminava no sítio Cucuí, no lado direito da rua Ulisses Caldas, terreno pertencente à viúva do dr. Carneiro; do lado esquerdo, havia o antigo palacete do juiz federal Manuel Porfírio de Oliveira Santos, adquirido pelas irmãs Dorotéas e onde foi instalado, em 22 de fevereiro de 1902, o Colégio da Imaculada Conceição pelo bispo diocesano da Paraíba Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques.108 Esta última era uma larga zona coberta de matos e morros, aonde os poucos habitantes da região, abrindo picadas pelo caminho, iam a cavalo pescar ou caçar aos domingos. Era um recanto habitado por pescadores. Na época do chefe político Pedro Velho, os governadores, que costumavam passear a

105 Dia a d ia: Pobre Rio Grande do Norte IV. Diário do Natal, Natal, 14 de out.1905. 106

MARINHO, Márcia. Natal também civiliza-se: sociabilidade, lazer e esporte na Belle Époque natalense. Natal: EDUFRN, 2011.p.59-60.

107

ARRAIS, Raimundo; ANDRADE, Alenuska; Marinho, Márcia. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930, p.110.

108 MIRANDA, João Maurício Fernandes de. Evolução urbana de natal em 400 anos. Natal: [sem

cavalo naquela área, já utilizavam a toponímia de Cidade Nova para identificar a região.109

Em 30 de dezembro de 1901, o intendente Joaquim Manuel Teixeira de Moura criou, pela Resolução n. 55, o terceiro bairro da cidade, a Cidade Nova. Recebendo 400$000, o funcionário Jeremias Pinheiro da Câmara demarcou as avenidas projetadas, desapropriando ou vendendo as casas e choupanas dos moradores daqueles terrenos. As novas propriedades seriam ocupadas agora pela elite natalense, que passou a construir suas residências nessas terras e a identificá-las com diferentes títulos, como Pretoria, Vila Cincinato, Solidão, Cavadonga, Senegal, Chácara de Cascudo, Betânia, Dinamarca e Sítio de Chico Coelho. Na época, chamava-se de Monte, Belmonte ou Belo Monte quase todo o atual bairro de Petrópolis, que, em sua parte norte, pertencia ao Sítio do Jacob, na zona limítrofe com a Ribeira, onde havia a Lagoa de Jacob, propriedade onde o governador Alberto Maranhão tinha sua casa de veraneio, futuro espaço do HCJB. Em 25 de fevereiro de 1908, a Intendência, através da Resolução n.118, nominou de Petrópolis a região do antigo Monte.110

A partir desse momento, o que era uma zona distante e pouco valorizada, transformou-se aos poucos em área nobre da cidade do Natal, que se expandia cada vez mais para o norte. O espaço da Praia de Areia Preta, até então visitada somente por pescadores e moradores da região, tornou-se lugar oficial para os banhos de mar conforme determinava a Resolução Nº 115 da Intendencia Municipal, de 1908. Tratava-se de uma longa faixa de terra que fechava o perímetro da cidade pelo sul até a subida do morro do Moxila, sendo praia de pescadores pelo menos até 1920, quando os ranchos começaram a ser vendidos e outras casas construídas para passar o verão. Em 1915, os bondes elétricos já cumpriam essa rota da Ribeira à praia de Areia Preta, integrando a Cidade Alta ao bairro da Ribeira.111

A transformação da Praia de Areia Preta em estação balneária deveu-se fundamentalmente à iniciativa das elites natalenses, que desejavam criar um novo espaço de sociabilidade para as suas famílias. Nesse empreendimento de caráter privado, que visava ampliar os espaços de lazer até então existentes, não podemos deixar de observar a participação de um médico nessa ação, notadamente o Inspetor de

109 CASCUDO, Câmara. História da cidade do Natal, p.435-436. 110 Ibid., p.436-437.

Saúde Pública do Rio Grande do Norte, o Dr. Calistrato Carrilho, o mesmo que estaria à frente da direção do HCJB nos seus primeiros anos de vida. Essa iniciativa privada dirigida por um importante médico da capital foi ressaltada pelo jornal A República, em matéria de 8 de fevereiro de 1908, que comentava a criação da estação balneária em Areia Preta:

Sabemos que um grupo de cavalheiros da nossa melhor sociedade organizou uma modesta empresa, sob a direção do ilustre clínico dr. Calistrato, destinada a preencher uma lacuna sensível de nosso meio social como o estabelecimento de uma praia de banhos, no lugar denominado “Areia Preta”, na qual encontrarão famílias que precisarem de banho de mar uma residência confortável e alegre com fácil transporte até a cidade e um serviço regular de salvamento para os banhistas.112

Como se percebe, o espaço onde o HCJB fora edificado inseria-se em importante zona de expansão imobiliária da cidade, além de situar-se, segundo o discurso higienista, em zona de confluência dos ventos marinhos vindos da faixa litorânea, considerados pela ciência médica como elemento de caráter terapêutico. Por isso, as referências ao monte e a praia não podem ser consideradas vazias aqui. Considerando os conhecimentos médicos de Januário Cicco, formado na tradição da medicina tropicalista baiana, preocupada fundamentalmente com os fenômenos epidemiológicos, acreditamos na clara intencionalidade da escolha do local da construção do hospital, que ganha novos significados à luz das teorias médicas da época.

A ascensão da beira-mar como espaço de ocupação humana mais ou menos permanente, da praia com refúgio, diversão ou terapia é uma construção moderna recente, que se situa, no caso europeu, entre os séculos XVIII e XIX. O historiador das sensibilidades, Alain Corbin, trabalhou o tema no seu livro O território do vazio: a praia e o imaginário ocidental. O autor mostra que essa “nova harmonia do corpo e do mar” está intimamente ligada ao discurso médico consagrado às virtudes da água fria do mar e às vantagens do contato com as ondas e da vilegiatura costeira.113

Assim, a partir da obra de Robert Burton (1621), História da melancolia, o mar passa a ser incluído como elemento terapêutico contra o spleen. A cidade, com seus

112 A REPÚBLICA. Emp resa balnear, Natal, 08 fev. 1908. 113

CORBIN, Alain. O território do vazio: a praia e o imaginário ocidental. São Paulo: Co mpanhia das Letras, 1989.p.69.

maus ares e sujeiras, corrompe a saúde dos seus habitantes, como proclamaria Richard Smollet:

O autor de Roderick Random [Smollet] junta num feixe os elementos da diatribe. Proclama sua indignação contra a poluição do ar da capital e da água do Tâmisa pela poeira, fumaça, imundícies. O ajuntamento da multidão pútrida nos salões de baile ou nos estabelecimentos balneários de Bath o revolta. O tema dos excrementos, onipresente em sua obra, reforça a denúncia da corrupção dos gostos citadinos [...]. Na cidade, produz-se uma inversão dos critérios de apreciação, triunfa a perversão dos alimentos viciosos ou adulterados, desenvolvem-se maus cheiros que passam a ser tolerados. A mobilidade social e o luxo ostentatório constituem outros tantos signos do suicídio coletivo que devasta a cidade.114

Smollet era adepto da hidroterapia, do banho frio, costumando me rgulhar nas costas francesas e italianas. As doenças da alma, como a ansiedade, a histeria, a ninfomania, as paixões de modo geral, teriam no banho de mar seu melhor tratamento. O mar, dizia Sydenham, famoso médico inglês, repunha a energia vital, o tônus muscular, sendo perfeito para o doente crônico. São exatamente essas teses médicas que mobilizaram a emergência dos balneários, praias que se acreditavam possuir virtudes terapêuticas: John Speed dizia que “o banho de mar não é somente um banho frio, é um banho medicinal”.115

O banho de mar, portanto, nasce de um projeto terapêutico, após a metade do século XVIII e avança no século XIX sem muitas modificações. As idéias da climatologia neo-hipocrática vieram reforçar também as virtudes da água do mar, acrescentando a importância dos cuidados com o solo e, sobretudo com o ar, observações retomadas de Hipócrates, em seu texto Ares, águas, lugares:

Quem quer que se dedique à medicina, deve estudar os seguintes assuntos. Em primeiro lugar, deve considerar o efeito de cada uma das estações do ano e as diferenças entre elas. Depois, deve estudar os ventos, quentes ou frios, tanto os que ocorrem em todo o país, como os que são peculiares a uma região. Finalmente, o efeito da água sobre a saúde não deve ser esquecido.116

Investia-se assim nas chamadas praias salubres, aquelas que possuíam os requisitos médicos adequados ao banho de mar: salinidade, extensão das ondas, facilidade para o trajeto do veículo, possibilidades de marcha e equitação, presença de

114

Ibid., p.72.

115 Ibid., p.77.

116 Apud SCLIAR, Moacyr. Cenas médicas: uma introdução à história da medicina. Porto Alegre: Artes e

falésias ou dunas etc. A descoberta do oxigênio por Lavoisier, em 1783, relevou o papel do ar no tratamento das doenças pulmonares, como a insidiosa tísica, favorecendo o valor de respirar bem e, com isso, as virtudes da praia.117

Essa intensa valorização européia do banho de mar como instrumento terapêutico também podia ser acompanhada nas páginas da imprensa local do Rio Grande do Norte. Em 28 de outubro de 1912, o articulista Carlos D. Fernandes publicou extensa matéria no jornal A República, intitulada “Banhos de mar”118, comentando as inúmeras vantagens que a proximidade com o mar oferecia à saúde da população litorânea. O autor do artigo inicia seu texto dizendo que tomara contato, enquanto vasculhava a biblioteca pessoal do intelectual Henrique Castriciano, com um livro do escritor francês Chistovam Hufelaud, chamado A arte de prolongar a vida. Nessa obra, encontrou importantes argumentos sobre a importância terapêutica dos banhos de mar, tema sobre o qual já fora incumbido pelo jornal de dissertar. Segundo Carlos Fernandes, seu artigo objetivava ministrar conselhos de “medicina natural” aos norte-rio- grandenses da época “que tendes a immensa ventura de viver à beira-mar e balneário, por uma disbordante prodigalidade dos vossos destinos”.

No artigo, o articulista elogiava os ‘tipos humanos’ existentes no Estado, vinculando teorias raciais correntes com determinismos de natureza geográfica:

Noto na vossa multidão de homens uma honrosissima media de typos normaes, sem degenerados congênitos ou innatos, o que não é a regra geral do nosso ubérrimo e vastíssimo paiz. Não tendes essa miseranda população de idiotas, cretinos, imbecis e tarados...119

Embora não comportasse tantos ‘degenerados’ como o restante do país, ele não entendia, contudo, o porquê de a população apresentar-se abaixo das expectativas da ciência eugênica dominante:

...mas não sois fortes e bellos como vos cumpre pela vossa situação geográfica e excelencia do vosso clima.// E não me retruqueis que não é vossa culpa desse ingente delicto muito mais funesto e grave que a maioria dos enumerados em o nosso CODIGO PENAL. Vós tendes, numa situação especialíssima de esthethica e topographia, os elementos primórdios e irrecusáveis da saúde, da força e da belleza humanas: o mar, o céo azul e o ar puro e tépido.// Deverieis ser um

117 CORBIN, A. Op. cit., p.81-84.

118 A REPÚBLICA. Banhos de mar, Natal, 28 out. 1912. 119 Ibid.

povo de gigantes, sem dimensões macromelicas mas com o typo franzino, esbelto, lépido e pulchro dos nossos irmãos japonezes.120

A responsabilidade pela situação de ‘degenerescência da raça’ estaria nos maus hábitos cultivados pela própria população:

E a que deveis esses recrimináveis atrasos da vossa perfeição?//Ao infame habito de dormir muito e de portas fechadas; a ausência de regime dietético; á ignorância da gymnastica e sobretudo á irreverente ausência do mar, que é o berço comum de todos nós.121

Carlos Fernandes argumentava, então, que a população norte-rio-grandense possuía à sua disposição uma importante topografia médica, que tinha como principal fator de saúde a proximidade com o mar. Aquilo que as viagens marítimas proporcionavam aos seus passageiros, como a atmosfera marinha saturada de iodo, cloro, sódio, bromo e outros elementos salutares, o habitante do litoral poderia obter com um simples passeio à beira-mar a qualquer hora do dia e da noite ou com os chamados “banhos secos”. Na descrição dos benefícios do banho de mar, o articulista ressaltou, no contato com as águas, o sol e a areia da praia, os efeitos de bem-estar