2.2. Türkiye'de Mülki İdare Sisteminin Tarihsel Gelişimi
2.2.1. Osmanlı İmparatorluğu Döneminde Mülki İdare Sistemi
2.2.1.2. Osmanlı İmparatorluğu’nda Klasik Sonrası (Erken Modern) Dönemde
No mundo clássico, a existência de hospitais era algo raro, escasso. Na Grécia de Péricles, os doentes costumavam procurar os santuários na busca da cura religiosa, hábito descartado pelos médicos hipocráticos, que encaravam as enfermidades como resultado de desequilíbrios orgânicos e, portanto, naturais. As primeiras
27 Deus grego da medicina. A lenda grega afirma que, após a morte de sua mãe, Asclépio foi enviado ao
centauro Quíron, que iniciou-lhe na arte de curar. Devido aos seus grandes poderes, Zeus fulminou -lhe com u m raio, temendo que ele tornasse os homens imortais. Diversos templos e santuários foram construídos em sua homenagem, sendo o mais famoso o de Ep idauro.
28 PORTER, Roy. Das tripas coração: uma breve história da medicina. Rio de Janeiro: Record,
instalações hospitalares apareceram na Roma imperial, normalmente destinados a escravos e soldados.29
Na Idade Média, a Igreja assumiu a tarefa de cuidar dos enfermos. O primeiro deles foi fundado em Roma por volta do ano 400 d.C. Na França, o nome genérico dado às instituições hospitalares era de Hôtel-Dieu, sendo o primeiro o de Lyon, de 542 d.C. e o mais famoso o de Paris, fundado no século VII por são Landry, bispo da cidade, e chegando a ter 1200 leitos, dos quais seiscentos individuais, ficando nos outros de três a cinco pacientes por leito. As seis camas destinadas a crianças recebiam duzentos pequenos pacientes (As camas eram maiores que as atuais, podendo comportar esse número de pacientes).30 Alguns desses modelos caritativo-assintenciais de hospital funcionavam como verdadeiras escolas médicas, como o Mosteiro de Monte Cassino, fundado em 529 d.C. Aí, guardavam-se muitos manuscritos médicos que serviram de manuais para os centros de estudo, como o hospital de Salerno, fundado pelos beneditinos no fim do século VII e que se tornou o primeiro núcleo da famosa escola que dominaria os estudos médicos no século XIV.31
Eram hospitais administrados por ordens religiosas. A medicina grega fora albergada nos mosteiros e traduzida por médicos árabes e judeus. Os mo nges tratavam dos doentes e seu principal objetivo era a caridade. Vigorava, portanto, uma visão religiosa da enfermidade, vista como provação ou pecado. Os leprosos, por exemplo, tinham de ser afastados da sociedade, e tinham de usar uma matraca que anunc iasse sua presença, para que os sãos pudessem deles se afastar. Nesses hospitais, não era possível tocar o corpo do morto, ficando vedado o estudo da anatomia; e também a prática cirúrgica fora interditada, pois a Igreja concebia o sangue como manifestação de impureza. A fé era o grande instrumento de cura.32
Embora o conhecimento médico não ainda não conhecesse a especialização, característica de nossa época, alguns hospitais eram criados para certas doenças ou situações de emergência. Assim, os leprosos possuíam asilos especiais, onde eram confinados à força. Em 1225, havia dezenove mil desses leprosários espalhados pela Europa! Com a peste bubônica, os leprosários foram transformados em hospitais para
29 Ibid., p.166.
30 SCLIAR, Moacyr. A paixão transformada: história da medicina na literatura. São Paulo: Co mpanhia
das Letras, 1996.p.29.
31 SA LLES, Pedro. História da medicina no Brasil, p.59. 32 SCLIA R, M.Op. cit., p.29.
isolamento de casos, os chamados lazaretos de quarentena, nome dado em homenagem a seu santo padroeiro, São Lázaro. A primeira foi construída em Ragusa, moderna Dubrovinik, em 1377, surgindo em Veneza a partir de 1423.33
O principal desenvolvimento dos séculos XVI a XVIII se deu no sentido da aproximação entre as instituições hospitalares e o Estado, primeiro passo rumo à sua laicização. Na França revolucionária, com seu forte anticlericalismo, o Hôtel-Dieu passou a ser administrado por leigos, abrigando e confinando órfãos, mendigos, vagabundos, prostitutas, ladrões, loucos e doentes, com atendimento de algumas necessidades básicas. Não havia critérios claros de segregação entre os internos.34
Também eram construídos como forma de prestígio do estado, como o Allgemeine Krankenhaus (hospital geral) de Viena, com seus 2000 leitos, reconstruído em 1784 pelo imperador José II; o Charité de Berlim, reconstruído por Frederico, o Grande e o Hospital Obutchov, construído por Catarina, a grande, em São Petersburgo. Esse modelo do hospital geral se espalhou por toda a Europa e também a América do Norte, como o Hospital de Nova York (1771) e o Hospital Geral de Massachusetts (1811). No começo do século XX, a América possuía mais de 4000 hospitais!35
Outra novidade do século XVIII foi o impulso dado ao hospício, manicômio, asilo de loucos ou hospital psiquiátrico, que recolhiam os doentes mentais a uma instituição bem projetada e com caráter marcadamente terapêutico. Na verdade, essas instituições disciplinares foram usadas não apenas como medidas terapêuticas contra a loucura, mas funcionavam também para encerrar “pessoas inconvenientes”. As instituições nosocomiais tornaram-se cada vez maiores e mais abarrotadas de pacientes. Antes do processo de desinstitucionalização da década de 1960, 500.000 pessoas viram- se enjauladas nos hospitais psiquiátricos norte-americanos, e cerca de 150.000 no Reino Unido.36
Na Europa, a assistência hospitalar ministrada por religiosos, com função de auxílio material e voltada para a salvação da alma, era a realidade dominante:
Antes do século XVIII, o hospital era uma instituição essencialmente de assistência aos pobres. Instituição de assistência, como também de
33 PORTER, R.Op. cit., p.167. 34 Ibid., p.168.
35 Ibid., p.169. 36 Ibid., p.172.
separação e exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo, quanto para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que deve ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos cuidados e o último sacramento.37
Cumprindo essa função social de acolhimento ou abrigo e religiosa de salvação, o lugar do médico na instituição era de pequena relevância:
O médico era chamado para os mais doentes entre os doentes, era mais uma garantia, uma justificação, do que uma ação real. A visita médica era um ritual feito de modo irregular, em princípio uma vez por dia, para centenas de doentes. O médico estava, além disso, sob a dependência administrativa do pessoal religioso, que podia inclusive despedi-lo.38
Mesmo com as reformas hospitalares do oitocentos, que passaram a privilegiar a necessidade da limpeza e do ar puro, contra as emanações miasmáticas mortíferas, o espaço hospitalar manteve suas características básicas no século XIX: sua administração era da responsabilidade de organizações religiosas; não havia clara diferenciação nosológica entre os pacientes, funcionando mesmo como um grande depósito humano; as finalidades não eram propriamente terapêuticas, mas de fornecimento de abrigo, alimento e consolo espiritual; continuavam sendo instituições voltadas para os pobres, pois os ricos optavam por se tratar em casa; e a permanência do alto índice de mortalidade, provocado principalmente pelos casos de infecção, que se disseminavam como rastilho de pólvora.39
A medicalização do hospital veio com as novas teorias sobre a doença como entidade ontológica, localizável no corpo enfermo. Além disso, o espaço hospitalar passou a ser lugar de conhecimento (particularmente o necrotério), onde os estudantes das faculdades de medicina, como parte de sua grade curricular, podiam acompanhar in situ a doença agindo nos pacientes enquanto entrevistavam o enfermo, anotando seus sintomas e discutindo com seus colegas e professores. Os trabalhos de Florence Nightingale, após a Guerra da Criméia (1853-1856), no campo da enfermagem, ajudaram sobremaneira a melhorar a formação das enfermeiras, que passaram então a
37 FOUCAULT, Michel. O nascimento do hospital. In:______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro:
Graal, 1979.p.101.
38 Ibid., p.109.
freqüentar escolas de enfermagem, que enfatizavam a higiene, o ar puro, a disciplina rigorosa e o espírito corporativo como elementos indispensáveis à atuação da profissional da enfermagem.40