Outro processo que acontece através da construção de narrativas é a geração de “direcionalidade entre os eventos”. Antes de serem integrados em uma história, os eventos permanecem separados e sem ordem, sendo a narrativa responsável por organizar a experiência temporal e ordenar a experiência no tempo. “Narrativa é uma forma de discurso que liga eventos no tempo, podendo mostrar a dimensão temporal da existência humana e representar a subjetiva experiência do tempo” (ANGUS; MCLEOD, 2004 p. 368). A reorganização da experiência, portanto, se refere à capacidade que a construção de histórias tem de “estruturar os eventos de maneira tal que eles se movam de forma ordenada rumo a um fim determinado” (GERGEN; GERGEN, 2001, p.164). É a partir de uma sequencia temporal, que as narrativas dão inteligibilidade às emoções e identidades, estabelecendo sequencias com um sentido de continuidade. Essa integração das ações no tempo traz consistência aos eventos (CABRUJA; ÍÑIGUEZ; VÁZQUEZ, 2000).
O termo “reorganização da experiência” pode parecer incongruente com a proposta pós-moderna da Psicologia Narrativa, por trazer implícita a ideia de que uma ordem deve ser estabelecida para a experiência. Porém, autores como Crossley (2000) defendem que não se pode negligenciar o sentido cotidiano de ordem e coerência do self. Para a autora, é justamente quando essa ordem é rompida, que se percebe o papel das narrativas na fabricação de nova ordem, coerência e unidade do eu. No caso de experiências traumáticas, essa ordem rotineira é suspensa e é preciso restabelecê-la por meio de outras narrativas. Como já vimos, Crossley (2000) justifica a importância da
narrativa após a ocorrência de eventos traumáticos como uma forma de reestabelecer certo nível de segurança ontológica e conexão com a vida.
A ação humana seria, então, configurada numa ordem temporal através da narrativa, permitindo que os eventos da vida se agrupem numa trama unificada, coerente e significativa. Do mesmo modo, “nossa fenomenologia contemporânea reconhece que a narratividade é o que marca, organiza e esclarece a experiência temporal; e que todo processo histórico é reconhecido como tal na medida em que pode ser recontado” (KEARNEY, 2012, p. 413). A narrativa teria o papel de produzir a experiência humana do tempo, já que é através da estrutura narrativa de começo, meio e fim (embora não necessariamente linear), que o tempo enquanto uma sequência de momentos pode ser expresso. Em resumo, “o tempo torna-se tempo humano na medida em que está articulado de modo narrativo; em compensação, a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal” (RICOEUR, 1994, p. 15). Tempo, narrativa e existência humana estão, assim, intimamente ligados:
Toda existência humana é uma vida em busca de uma narrativa. Isto, não apenas porque ela se empenha em descobrir um padrão com o qual lidar com a experiência do caos e da confusão, mas, também, porque cada vida humana é quase sempre implicitamente uma história. Nossa própria finitude nos constitui enquanto seres que, em resumo, nascem no começo e morrem no final. E isso dá a nossas vidas uma estrutura temporal que busca algum tipo de significação em termos de referências ao passado (memória) e ao futuro (projeção). (KEARNEY, 2012, p. 412)
Na terapia, podemos perceber a função organizadora da construção narrativa na história de Zilma, por exemplo. A entrevistada relata que a terapia foi importante para ordenar sua vida, organizar pensamentos e experiências. Sobre suas sessões, ela comenta: “eu falei pra ela uma coisa, a mesma coisa ela fala só que de modo diferente e vai me explicando. Aí é como se eu tivesse que encaixar cada coisinha no seu lugar. Aí eu fico observando ela falando, eu vou tentando encaixar aquelas coisas no lugar certo”. Em outro trecho da entrevista, Zilma comenta “cada pensamento meu, quando eu vim pra cá tava com a cabeça enorme, tava tudo misturado, hoje tá tudo indo pros seus cantinhos, pro seu lugar.” É através do diálogo com a terapeuta que ela vai “encaixando cada coisa em seu lugar”, ou seja, organizado pensamentos que estavam bagunçados e dando forma a uma nova rotina. Além disso, o exercício da carta para o filho, que se aproxima da conversação de remembrança “facilita a atividade de dar sentido à existência da pessoa e atingir um sentido de coerência por meio do
“ordenamento” da vida” (WHITE, 2012 p. 154). André, assim como Zilma, usa uma metáfora de encaixe, referindo-se a terapia como um quebra-cabeça. Em um quebra- cabeça, as partes separadas não fazem sentido. Da mesma forma, a trama narrativa, não é um conjunto de eventos independentes, mas depende do sentido que é dado à sequência significativa desses eventos no tempo. “Uma história é feita de eventos, e o enredo (mythos) é a mediação entre os eventos e a história (...) a ação de toda pessoa pode ser lida como parte de uma história em desdobramento” (KEARNEY, 2012, p. 413). O enredo de uma história é o que liga os eventos no tempo, dando inteligibilidade à experiência e possibilitando que a narrativa seja o princípio organizador da ação humana, como propõe Sarbin (1986). Em concordância com este pensamento, Crossley (2000) acredita que:
Tudo que é experienciado pelos seres humanos se faz significativo, inteligível e interpretado em relação com a primeira dimensão da “atividade”, que incorpora tanto o “tempo” como a “sequencia”. Para definir e interpretar “o que” exatamente aconteceu em uma ocasião particular, a sequencia dos eventos é extremamente importante (tradução nossa) (CROSSLEY, 2000, p. 531).
Para interpretar os eventos é preciso levar em conta além da temporalidade e sequência, as relações e conexões entre os fatos. A narrativa reúne todas essas características, e por esse motivo favorece a reorganização da experiência. Contar uma história, portanto, é colocar os eventos em uma ordem de forma que eles façam sentido um em relação ao outro, ou seja, conectá-los em uma sequência temporal. Quando falamos em contar histórias, estamos nos referindo a:
numerar, ordenar os rastros que conservam o que se viu. E é essa ordenação a que constitui o tempo da história. Mas essa ordenação se concebe basicamente como cálculo, como prestar contas, como "conferir as contas" daquilo que ocorreu. (LARROSA, 1994, p. 65)
Desta forma, uma terapia que prioriza o ato de contar histórias, está consequentemente propiciando uma organização do vivido. White e Epston (1993), por exemplo, ressaltam a importância dada à dimensão de tempo no trabalho de reconstrução narrativa feito em terapia. Segundo Grandesso (2008), Michael White se inspirou nas ideias do antropólogo Gregory Bateson, que considerava uma informação como consequência da percepção de uma diferença. Uma diferença só é percebida, no entanto, se distribuirmos os eventos em uma linha temporal. Uma história acontece ao
longo do tempo, com começo, meio e fim, sendo justamente essa sucessão de eventos ao longo do tempo, que torna possível a mudança.
(...) la temporalidad es una dimensión crítica en el modo narrativo de pensamiento, pues en éste los relatos existen en virtud del desarrollo de los acontecimientos a través del tiempo. Esta secuencia lineal de los eventos en el tiempo es necesaria para que se pueda dar un relato «con sentido». Las historias tienen un principio y un final, y entre estos dos puntos transcurre el tiempo. Esta definición transitoria muestra inmediatamente la función relacional de la trama entre uno o más eventos y la historia. Una narración está constituida por eventos en la medida en que la trama convierte los eventos en una historia. La trama, por tanto, nos sitúa en la encrucijada entre temporalidad y narratividad (Ricoeur, 1980, pág. 171) (WHITE; EPSTON, 1993, p. 92)
Nesta passagem, vemos novamente a importância do enredo (trama) na ligação sequencial dos eventos para a formação de uma história. Sendo o enredo, também, a forma do tempo se fazer humano, ao permitir que a história transcorra de um começo até um final. Diferentes formas de dispor os mesmos eventos geram diferentes tramas, assim como o estabelecimento de diferentes relações de conexão e causalidade entre os eventos podem mudar todo o sentido de uma história. Daí decorre que o processo de ressignificação, discutido anteriormente, está intimamente ligado ao que estamos aqui chamando de reorganização da experiência. A ressignificação se dá, também, à medida que a pessoa passa a ordenar sua experiência no tempo, juntando fragmentos em uma ordem temporal. Não podemos, portanto, falar de organização de eventos no tempo sem falar de ressignificação, pois os dois processos se atravessam na transformação terapêutica.
Para Grandesso (2000), a grande mudança que ocorre nos clientes é a compreensão de que os significados dependem dos contextos, desta forma, seus comportamentos devem ser flexíveis e não mais estruturados de acordo com uma maneira rígida de ser. Na terapia, as pessoas:
não só experienciam suas vidas como multi-historiadas, mas claramente adquirem mais recursos narrativos. É no contexto de ganhar mais recursos narrativos que as pessoas tornam-se capazes de dar significado a uma gama de experiências que permaneceriam negligenciadas (WHITE, 2004, p. 34).
Essas experiências negligenciadas são aquelas que não conseguiram ser integradas na trama narrativa. É preciso que haja uma nova organização da experiência para que esses eventos ganhem um espaço na história já estruturada. Eduardo, por
exemplo, acredita que cada pessoa tem suas próprias verdades, e muitas vezes existem verdades que nós não queremos aceitar. A terapia seria o espaço onde essas verdades são aceitas através do processo de narração. Gonçalves (1998) comenta sobre integração e aceitação de partes das historia que anteriormente foram negligenciadas:
Os indivíduos ignoram ou evitam narrativas fundamentais da sua vida porque são incapazes de dar coerência à sua experiência ou ainda pela dificuldade de integrarem certas experiências na trama narrativa da vida (GONÇALVES, p.140).
A integração e reorganização desses pedaços que antes não cabiam na trama narrativa da vida permite um processo de ressignificação, já que “a linguagem é produtiva, traz ordem e significado às nossas vidas e ao nosso mundo” (ANDERSON, 2011, p.4). Concluímos, portanto, que:
se a subjetividade humana está temporalmente constituída, a consciência de si estará estruturada no tempo da vida. O sujeito se constitui para si mesmo em seu próprio transcorrer temporal. Mas o tempo da vida, o tempo que articula a subjetividade não é apenas um tempo linear e abstrato, uma sucessão na qual as coisas se sucedem umas depois das outras. O tempo da consciência de si é a articulação em uma dimensão temporal daquilo que o indivíduo é para si mesmo. E essa articulação temporal é de natureza essencialmente narrativa. O tempo se converte em tempo humano ao organizar-se narrativamente. O eu se constitui temporalmente para si mesmo na unidade de uma história. Por isso, o tempo no qual se constitui a subjetividade é tempo narrado. É contando histórias, nossas próprias histórias, o que nos acontece e o sentido que damos ao que nos acontece, que nos damos a nós próprios uma identidade no tempo (LARROSA, 1994, p. 66).