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Eduardo é um menino tímido, de poucas palavras. O segundo de uma fratria de cinco filhos. Parece ter uma relação de cumplicidade forte com os irmãos, cumplicidade que pode ser percebida, inclusive, por ter optado em trancar a faculdade, para que sua irmã mais velha continuasse estudando.

No papel de educação dos filhos, Eduardo relata que o pai era sempre mais tranquilo e, apesar de sua breve escolaridade, sempre incentivava os filhos a estudarem. Eduardo diz que

“... era muito apegado a meu pai, né.” Porém, é a figura da mãe que é citada como responsável

pelas escolhas dos estabelecimentos escolares, participação de reuniões, verificação da aprendizagem e rendimento dos filhos. Morando em um bairro de vulnerabilidade social, a mãe de Eduardo optou por não matriculá-lo na escola da vizinhança, mas sim em uma escola considerada de melhor ensino, localizada em uma região mais centralizada de Itabira e de boa reputação na cidade. Essa estratégia foi feita com os demais filhos também, mesmo que isso custasse um aumento das despesas familiares, em decorrência do gasto com o transporte escolar. Assim, mesmo com dificuldades financeiras e ainda possuindo um conhecimento escolar difuso acerca da realidade das escolas próximas a sua residência, a mãe de Eduardo escolhe o estabelecimento escolar dos filhos, fugindo assim dos problemas como violência,

escola de baixa qualidade (que parece reconhecer na sua vizinhança) e, ao perceber a dificuldade na escola do filho, ensina-o em casa, tentando sanar os problemas na alfabetização de Eduardo. É uma mãe, portanto, protagonista da trajetória escolar do filho.

Sua mãe, até a morte do pai, ficava em casa, responsabilizando-se pelas tarefas domésticas. Essa disponibilidade para as tarefas domésticas parece ter favorecido a criação de uma rotina disciplinada entre os filhos: ir à escola, fazer os deveres de casa e ajudar nos afazeres domésticos. Após a realização dessas atividades, os filhos estavam livres para brincar na rua, com os vizinhos. Embora essa rotina diária, Eduardo relata que seus pais não eram muito exigentes e que ele e seus irmãos não gostavam muito de estudar: “Na verdade, a gente nunca estudou muito assim. A gente ia mais na escola, fazia a tarefa e depois ficava brincando, na

rua” (Entrevista de Eduardo). A presença de práticas culturais mais legítimas, como ir ao

cinema, teatro e ler não faziam parte da rotina de Eduardo e de sua família. Nos momentos de lazer, costumava brincar na rua com os vizinhos e irmãos.

A timidez de Eduardo é descrita desde os primeiros anos da escola, em que ao se matricular em uma escola distante geograficamente e socialmente de seu bairro de origem, demonstra ter dificuldades de se integrar ao novo grupo:

Então, lá na minha vizinhança eu tinha muitos amigos. Porque a gente foi criada em um bairro em que ... não tinha muita condição, ai a gente ficava muito na rua, e facilita a amizade. Mas, na escola, não tinha tanto, assim tinham uns cinco, seis mais próximos, mas o resto era bem superficial mesmo” (Entrevista de Eduardo).

Mesmo Eduardo não reconhecendo, podemos supor que no primeiro ano de escola, essa dificuldade de integração é potencializada pela dificuldade em aprender a ler e a escrever. Superar essa dificuldade de aprendizagem e se destacar como um bom aluno, teria sido uma forma encontrada por Eduardo para minimizar o distanciamento social, econômico e cultural que sentia em relação aos seus colegas de escola? Nosso entrevistado afirma que a sua melhoria de desempenho na escola foi progressiva, avançando a cada ano, em contrapartida Eduardo não relata uma maior facilidade de se relacionar, nem um aprofundamento das relações com os colegas de escola. Ter condições de acompanhar o desenvolvimento da turma pode ter sido uma estratégia interiorizada por Eduardo, para se sentir parte daquele grupo, ainda que isso não se refletisse em um aprofundamento das relações afetivas.

Talvez seja razoável defendermos a proposição de que Eduardo cria uma relação de autodefesa no que se refere ao universo escolar: precisa se empenhar para ser um bom aluno, acompanhando o desenvolvimento cognitivo da turma, entretanto, ao mesmo tempo, reconhece

que esse novo espaço não lhe é familiar, por isso seu pouco esforço em fazer amizades e não se importar em não participar de momentos importantes de socialização, como ir a uma excursão da escola ou uma festinha de amigos: “Eu nunca fui de conversar assim com todo mundo. Mas, eu não conseguia fazer amizade, com muita gente não. Mas, com um ou dois, eu sempre conversava. Com muita gente, só superficialmente. Amizade mesmo eram poucos (...) Pela

dificuldade de, pela timidez, de não conseguir me aproximar, algumas vezes” (Entrevista de

Eduardo). Quando é perguntado se a situação financeira da família o impedia de realizar determinadas atividades, Eduardo responde: “Queria sair, mas às vezes não dava. Ah excursão,

todo mundo ia, às vezes a gente não ia. Mas, normal” (Entrevista de Eduardo).

Para Eduardo, são os vizinhos no bairro seus amigos mais próximos, é com eles que mantêm uma relação de companheirismo mais profunda. Sendo assim, podemos supor que a superação das dificuldades de aprendizagem na escola pode ter sido um mecanismo encontrado por ele para se aproximar, ao menos em termos de aprendizagem, de seus colegas cuja origem social e econômica lhe eram distantes, mas, ao mesmo tempo, com eles não busca manter uma relação mais afetiva.

Entretanto, se é com os colegas do bairro que Eduardo desenvolve relações de afeto e companheirismo mais profundas, é com eles que joga videogame, futebol, sai aos fins de semana, atualmente, essa relação parece estar marcada, por um distanciamento cultural. Todos esses colegas pararam de estudar no Ensino Médio para trabalhar. Assim, a dificuldade de se encontrar e realizar as atividades de que gosta com os amigos de infância, talvez não decorra apenas da falta de tempo, conforme é relatado por Eduardo, mas podemos levantar como hipótese também que o modo de vida, a progressão de Eduardo nos estudos e, consequentemente, a sua inserção em outro universo cultural, são fatores imperceptíveis para nosso entrevistado, mas que minoram a relação original de companheirismo. Ao mesmo tempo, porém, não nos parece claro que Eduardo esteja integrado socialmente ao ensino superior. Na graduação, as relações com os colegas da faculdade também nos parecem ser superficiais.

Desde os primeiros anos da escola, Eduardo apresenta um gosto pela Matemática. Conforme descrito, sua melhora no desempenho escolar é progressiva, apresentou problemas para aprender a ler e a escrever na primeira série do Ensino Fundamental, ano a ano seu desempenho melhorou, chegando no Ensino Médio com bom desempenho em todos conteúdos, mas com destaque para as disciplinas da área de exatas. Além do gosto pela Matemática, podemos localizar o despertar de seu interesse para a área de Engenharia, na realização de

cursos de Aprendizagem pelo Senai, a partir do segundo ano do Ensino Médio. O primeiro curso de Aprendizagem realizado foi em Elétrica e depois em Mecânica Diesel.

Após a conclusão do segundo curso de Aprendizagem, Eduardo foi aprovado em Engenharia de Produção, na Universidade Federal de Viçosa. Entretanto, por restrições financeiras, não chegou a concluir o primeiro período. Retornou à casa da mãe, em Itabira, já decidido que iria entrar na UNIFEI. Antes de reingressar na faculdade, como forma de aproveitar o tempo que ficaria ocioso até o reingresso no ensino superior, fez mais dois cursos de Aprendizagem: um de Caldeiraria e outro de Eletricidade Predial, o que contribuiu para optar pela graduação em Engenharia Elétrica. Realizou também, um curso popular, ofertado por servidores e alunos da UNIFEI Itabira, preparatório para o ENEM.

Apesar dessa trajetória marcada por sucessos parciais, Eduardo afirma, várias vezes, que não tinha vontade de fazer o ensino superior, teria sido sua passagem pelo mercado de trabalho um fator decisivo para mudar de opinião:

Olha, eu não queria fazer muito faculdade não. Mas, os professores sempre me incentivaram a fazer, essas coisas. Só que eu fiz esses cursos e comecei a trabalhar, trabalhar na (nome da empresa) ai eu falei: “Não, acho que vou estudar mesmo porque é melhor.” Você trabalha muito, mas muito mesmo e você recebe pouco. Ai foi, ai vou fazer faculdade (Entrevista de Eduardo).

Sendo assim, a frustração com o mundo do trabalho parece ter sido fator importante na opção de Eduardo para o ingresso no ensino superior. Além desse fato, podemos elencar o papel da mãe em inculcar nos filhos disposições para a disciplina e vontade de superação da condição financeira precária da família, como igualmente importante para a longevidade escolar dos três

filhos mais velhos: “Ah, você tem que estudar [...] Você vai querer ter a mesma condição que a gente teve, essa dificuldade.” (Fala de Eduardo acerca do incentivo da mãe para a continuidade

dos estudos do filho no ensino superior).

Como dito, igualmente importante para a escolha do ensino superior parece ter siso a realização dos cursos de aprendizagem no Senai. Esses cursos contribuíram para mostrar a Eduardo diferentes perspectivas de cursos profissionalizantes e permitiram-no optar pela graduação em Engenharia Elétrica.

Assim, somados a uma educação que inculcou nos filhos disposições para a disciplina, superação da condição de vida e dos problemas (logo após a morte do pai, a mãe, apesar do sofrimento dos filhos, consola-os e fala “que a vida deve continuar”), a um papel atuante da mãe na escolha dos estabelecimentos escolares, à frustração de Eduardo com o mundo do

pública na cidade em que mora a família de Eduardo, são fatores que têm permitido seu ingresso e permanência no ensino superior. Convém relembramos que a permanência de Eduardo após seu primeiro ingresso em uma universidade pública foi fracassada por dificuldades financeiras, sendo assim, nos parece importante esse processo de expansão e interiorização dos campis universitários como forma de facilitar o acesso e a permanência no ensino superior.