Retornando aos resultados da Pesquisa de Percepção Pública da Ciência, temos ainda que considerar que é grande a porcentagem de brasileiros (35,2%) que concordam com a frase “ o mundo da ciência não pode ser compreendido pelas pessoas comuns ”, e que entre os quatro países pesquisados, a maior taxa dos que acham que “os cientistas sempre usam uma linguagem complicada e de difícil compreensão” é nossa (35,8% dos
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entrevistados). E, também é interessante colocar, que são por volta de 30% os que acham que os jornais e revistas não divulgam satisfatoriamente as descobertas científicas e tecnológicas, sendo que a maioria destes justificam a insatisfação pela incompreensão da matéria. No entanto, quando se afirma que “ a maioria das pessoas é capaz de entender o conhecimento científico se ele for bem explicado ”, apenas 6% discordam totalmente e 10% discorda em parte.
Estes dados nos indicam que a divulgação científica não está sendo feita de maneira suficientemente clara, que a linguagem utilizada não é adequada para um grande número de pessoas e precisa ser modificada. Conhecer e utilizar diferentes formas de trocar informações infelizmente ainda é um grande desafio para a sociedade e, em especial, para a educação, mesmo na era da informática e de todos os recursos disponíveis.
A Ciência, e , especialmente a Química, possui uma linguagem hermética e esotérica(CHASSOT, 2003a) que tem origem na antiga associação desta ciência com a alquimia, com as ciências ocultas; e com a forte influência repressora que essas práticas desencadearam por parte da Igreja. Esta linguagem distante do público em geral, envolve conceitos abstratos que não estão diretamente ligados ao dia a dia do aluno: átomo, molécula, íon, elétron, ligação química, mol, etc. Outras palavras utilizadas nas aulas de química, como solução, propriedade, partícula e equilíbrio, possuem significados
totalmente diferentes daqueles empregados no dia a dia. Assim, nem sempre o que o professor fala é compreendido e a linguagem ao invés de ser um fator de inclusão, acaba sendo um fator de exclusão social. Chassot defende a idéia de que para ampliarmos as possibilidades de acesso à Ciência, “devemos deixar de lado o esoterismo e migrar para o exoterismo” .3
De acordo com VYGOTSKY(1991), que estudou as relações entre a linguagem e o pensamento, a linguagem é de fundamental importância na elaboração conceitual, e , consequentemente, para a compreensão de um
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conceito. Para ele, o papel da linguagem não é meramente o de comunicar idéias , mas também o de agente de abstração e generalização.
Nesta perspectiva, a linguagem não faz só o papel de instrumento da elaboração conceitual, ou mediadora entre o sujeito (aluno) e o conceito, como normalmente a concebemos. Ela assume um papel mais amplo, integrante da elaboração conceitual.
Além disso, a linguagem não é uma via de mão única e nem possui significado estável; pois, se assim fosse, teríamos um ensino tradicional do tipo professor-transmissor e aluno-receptor de conhecimento.
As palavras são formações dinâmicas e seu significado evolui, elas admitem a pluralidade de sentido. Para que a linguagem cumpra o seu papel, mais uma vez faz-se necessária a interação entre os sujeitos do processo ensino-aprendizagem, ou seja, os alunos devem ser ouvidos, suas concepções devem ser confrontadas e reorganizadas. É fundamental que o professor explicite os significados das palavras que utiliza em suas aulas e que essas aulas sejam local de debate e discussões, para que haja atribuição de significados e construção de conhecimentos por parte do aluno.
E quanto aos meios de comunicação, os que não forem direcionados a um público específico e especializado, como por exemplo, os jornais de grande circulação, deveriam tentar explicar de maneira simplificada, como se faz com as crianças, cada termo não usual ao cidadão comum, que mesmo tendo o ensino médio completo não entende (porque não vivenciou e esqueceu) e/ou não tem tempo para ler tudo, e então, dá preferência ao que lhe parece ser uma leitura mais agradável ( como o caderno de esportes, por exemplo ).
Na medida do possível, todos os professores, de ciências ou não, tanto de escolas particulares como públicas, deveriam introduzir o hábito de leitura e discussão de artigos de jornais ou revistas desde o ensino fundamental. O baixo nível de conhecimento científico da população é um alerta para que sejam desenvolvidos projetos e estratégias de comunicação social,
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começando pela sala de aula. Atualmente, muitas escolas da rede estadual tem recebido jornais diários e revistas semanais ou quinzenais. Mas, e o professor, tem tempo para lê-los ? Como faz para disponibilizar cópias para os alunos ? Há também na tv muitos programas de cunho científico que ainda fazem sucesso entre crianças e adolescentes, e que não estão disponíveis nas escolas. Por que não disponibilizar, por exemplo, para cada unidade escolar os vídeos do “Mundo de Beckham” ou montar um projeto brasileiro similar? Este é o tipo de estratégia, que motiva, desperta o interesse e, se for bem trabalhada, permite que o aluno aprenda por curiosidade e por prazer. Nas cidades onde não há museu de ciências, por que não repassar verbas para que, pelo menos uma vez por ano, a escola possa contratar transporte e levar uma ou mais turmas?
Normalmente, esta última questão é resolvida através de parcerias com prefeituras que cedem ônibus, e universidades que dispõem de verbas de projetos.
No próximo capítulo veremos com maior profundidade uma proposta de modificação curricular que leva em conta os aspectos sociais relacionados ao desenvolvimento científico e tecnológico através de abordagens interdisciplinares- o movimento CTS.
“É inegável a contribuição que a ciência e a tecnologia trouxeram nos últimos anos.
Porém, apesar desta constatação, não podemos confiar excessivamente nelas, tornando-nos cegos pelo conforto que nos proporcionam cotidianamente seus
aparatos e dispositivos técnicos.
Isso pode resultar perigoso porque, nesta anestesia que o deslumbramento da modernidade tecnológica nos oferece, podemos nos esquecer que a ciência e a
tecnologia incorporam questões sociais, éticas e políticas. ”
Bazzo, W.A.