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A Semiótica de Peirce está muito além de uma simples ferramenta analítica; ela tem uma forte base filosófica que a transforma em uma séria teoria científica; o que fazemos aqui é enquadrá-la em forma de metodologia. De acordo com Santaella (2008), o que justifica tal aplicação é a possibilidade de mapeamento de cognições presentes, passadas e futuras, por meio das categorias definidas.

Voltando à base da teoria Semiótica, percebemos que Peirce chama a atenção para uma teoria correlata. A Fenomenologia, segundo Santaella (2008), é uma quase ciência que investiga o modo como apreendemos qualquer coisa que aparece à nossa mente. Fornece fundação para as ciências normativas, que estudam ideias, valores e normas (são elas: a Estética, a Ética e a Lógica ou Semiótica).

Elas não se confundem com as ciências práticas, visto que são todas disciplinas abstratas e gerais, como já foi citado. Sua relação com a semiótica é apresentar categorias formais e universais dos modos como os fenômenos são apresentados à mente.

A Estética está na base da Ética, e sob ambas está a Semiótica. A Estética estuda o que é objetivamente admirável sem qualquer razão antes disto e a Ética é a ciência da razão e da conduta, recebendo da Estética os seus princípios elementares. Igualmente aproveitando os princípios elementares provenientes das duas anteriores, encontramos a Semiótica, como a teoria dos signos e do pensamento deliberado.

Seguindo a apresentação de Santaella (2008) sobre a lógica na obra de Peirce, temos que ele chegou à conclusão de que o pensamento não pode se desenvolver apenas por símbolos, nem mesmo as equações matemáticas são desenvolvidas puramente por símbolos; portanto, para seu completo desempenho, ele necessita de outras formas de signos. A Semiótica não se limita às leis do pensamento e às condições de verdade; antes disto, ela deve se dedicar às condições gerais dos signos.

Subdividida em três ramos, a Gramática Especulativa, a Lógica Crítica e a Metodêutica ou Retórica Especulativa compõem a Semiótica. De modo que, de acordo com Santaella (2008), é na teoria proveniente da Gramática Especulativa que podemos amparar

nossos estudos, já que é neste ramo da Semiótica que encontramos definições rigorosas do signo e da forma que eles atuam no cotidiano, além de abordar as várias gradações que existem entre o verbal e o não verbal, chegando ao limite do quase-signo.

A Gramática Especulativa engloba três aspectos – a significação, a objetivação e a interpretação, pois os signos apresentam natureza triádica. O que permite, mesmo em meio a sua grande abstração, encontrar elementos que auxiliem na descrição, análise e avaliação do objeto empírico, habilitando, segundo Santaella (2008), à compreensão de que os signos se referem, as informações que transmitem, seu agrupamento em sistemas, como são produzidos e utilizados, além da identificação dos tipos de efeitos que são capazes de produzir no receptor em potencial.

Aplicaremos para fenômeno a definição, encontrada em Santaella (2008), de que seja qualquer coisa que apareça à mente, de qualquer modo ou sentido, podendo ser externa ou interna/visceral; é a análise das experiências do cotidiano, que se encontra em aberto para todos os sujeitos e a qualquer momento. Em Peirce (1999), a Fenomenologia desenvolvida pelo próprio autor tem por objetivo iluminar as categorias mais simples e gerais, porque não dizer elementares, de cada fenômeno, levantando características fundamentais de todos os fenômenos provenientes de todas as experiências.

Com esse intuito, devemos desenvolver três faculdades para a implementação desta tarefa. A primeira é a capacidade contemplativa, observando o que temos diante dos nossos olhos, despidos de qualquer julgamento. A segunda é desenvolver a capacidade de diferenciação e discriminação proveniente da observação. E a terceira é a capacidade de generalizar em classes ou categorias gerais o que foi observado.

Segundo Santaella (2003), em 14 de maio de 1867, Peirce publicou um artigo denominado Sobre uma nova lista de categorias, no qual constavam suas três categorias universais, e não mais que isso, de elementos formais presentes em todos os tipos de fenômenos que aparecem à mente humana. Em um nível de generalização máxima, eles foram nomeados de: primeiridade, secundidade e terceiridade.

O conceito de primeiridade se apresenta, em Peirce (1999), como sendo uma consciência imediata, “assim como é”. Como a pura qualidade de ser e sentir, sendo uma impressão, indivisível e não analisável. É a qualidade da consciência em sua imediaticidade. Deste modo, a primeira coisa que nos aparece à mente já é caracterizada como uma tradução, uma “finíssima película de mediação entre nós e os fenômenos” (SANTAELLA, 2003, p. 46).

Mesmo que de forma muito delicada, a primeiridade já representa uma mediação do estar no mundo, entre os indivíduos e os fenômenos. Os sentimentos são classificados como quase-signos, uma forma incipiente e indeterminada de qualificação das coisas. Aparece em tudo que está relacionado ao acaso, possibilidade, qualidade, sentimento, originalidade, liberdade e mônada (primeiro elemento, individual).

A secundidade abarca a dimensão real da vivência cotidiana, por estarmos vivos, existindo e significando, o que quer dizer que estamos reagindo aos acontecimentos inerentes ao mundo. Existir é considerado neste ponto, por Peirce (1999), como um estado de constante reação aos fatos externos contrários as nossas vontades, ocupando um tempo e um lugar no espaço.

Como já vimos, um fenômeno apresenta uma qualidade, que é apenas uma parte de sua composição. Para existir, uma qualidade precisa estar encarnada em uma matéria, e a capacidade de existir, corporificada em uma matéria, é considerada secundidade. Deste modo, qualquer sensação já busca a secundidade, visto que, ao vivenciarmos um sentimento, somos impelidos a uma reação específica. Segundo Santaella (2003), está ligada às ideias de dependência, determinação, ação e reação, aqui e agora, conflito, surpresa, dúvida e dualidade.

A autora ainda alega que a terceiridade é o que aproxima um primeiro e um segundo da síntese intelectual, diz respeito à generalidade, continuidade, crescimento, inteligência. Para Peirce (1999), a forma mais simples de terceiridade pode ser representada pelo signo em sua natureza triádica. Correspondendo ao pensamento em signos, pelo qual representamos e interpretamos o mundo. Desta forma, uma mente consciente ao se deparar com qualquer tipo de fenômeno produz signos como forma de compreensão desta coisa, um pensamento como mediação entre nós e os fenômenos. Interpomos, assim, uma camada interpretativa entre a mente consciente e as coisas do mundo.

Em resumo, compreender e/ou interpretar é traduzir um pensamento em outro, em um movimento contínuo. Estando o signo em uma relação triádica, sua ação pode ser bilateral, em que de um lado representa o seu objeto, algo exterior a ele (movimento que tende à regressão); e, por outro lado, dirige-se a algum indivíduo, que o interpretará em outro signo (movimento que tende ao infinito). Nesta apresentação fenomenológica, está a raiz para a semiótica, pois na terceiridade encontramos o signo genuíno (triádico), assim como na secundidade e na primeiridade encontramos os quase-signos da linguagem e da consciência.

Retornando ao signo, objeto e interpretante, pontuamos que Peirce foi muito cuidadoso com a sua terminologia, a qual dava muita importância, sendo um claro apelo ao correto uso dos termos e uma explicação de como usá-los, como determina o próprio Peirce (1999), no capítulo A Ética da Terminologia. Signo, objeto e interpretante não são usados neste trabalho em um uso vernacular do senso comum; os termos são técnicos, precisamente definidos, como sugere Santaella (2004).

Partindo dos termos desenvolvidos por Peirce (1999), apresentamos o triângulo semiótico, onde encontramos nos vértices: um signo, um objeto e um interpretante. A separação dos termos em vértices do triângulo é somente didática; na prática os três aparecem juntos, em profunda articulação. Os três são signos, segundo Santaella (2004); a diferença entre eles é o papel que cada um assumiu em certa conjuntura.

Figura 1: Triângulo semiótico de C. S. Peirce.

O signo, de acordo com Santaella (2008), pode ser qualquer coisa, de qualquer espécie, que represente, por sua vez, uma outra coisa chamada de objeto do signo, produzindo um efeito interpretativo em uma mente real. O objeto do signo também pode ser qualquer coisa, de qualquer espécie; ele só está na posição de objeto porque é representado pelo signo. Logo, a posição lógica na tríade sígnica depende da posição que cada um ocupa no processo representativo. O efeito interpretativo (interpretante), por conseguinte, depende diretamente do modo como o objeto é representado pelo signo.

Sintetizando a ideia para uma melhor compreensão, com o suporte teórico de Peirce (1999), entendemos o signo como algo que se apresenta à mente, ligando aquilo que o signo indica, se refere ou representa (seu objeto), ao efeito que o signo irá provocar em um possível intérprete (interpretante).

Se qualquer coisa pode ser um signo, surge a seguinte indagação: o que é preciso para caracterizá-lo como tal? Para Peirce (1999), as propriedades formais necessárias à caracterização de alguma coisa como signo são três: a qualidade, a existência e seu caráter de lei. Desta forma, “pela qualidade, tudo pode ser signo; pela existência, tudo é signo; e pela lei, tudo deve ser signo. É por isso que tudo pode ser signo, sem deixar de ter outras propriedades” (SANTAELLA, 2008, p. 12). Encontramos, assim, o fundamento do signo.

As três principais tricotomias que serão apresentadas aqui, segundo Santaella (2004), foram as que mais receberam atenção por parte de Peirce, dentre as dezenas estipuladas pelo autor, tendo por base o signo, o objeto e o interpretante.

A primeira tríade advém do fundamento do signo, que seria o signo em si mesmo. Para Peirce (1999), uma qualidade quando funciona como signo é considerada um quali-signo. Já os sin-signos estão relacionados à sua característica de existência singular (sin), por ocupar um lugar no tempo e no espaço.

Ainda de acordo com o autor, observamos que os legi-signos, por sua vez, caracterizam-se quando algo apresenta uma propriedade de lei, fazendo que o singular se conforme em uma ordem de generalidades. Conforme apresentado por Santaella (2008), podemos notar que mesmo em casos de dominância, entre essas três categorias sempre há um aparecimento e uma operação em conjunto.

Levamos em consideração a relação do signo com seu fundamento, pois esta relação é quem vai determinar a forma como o signo irá representar seu objeto; em um dado aspecto, se referindo a um tipo de ideia, como afirma Peirce (1999). Santaella (2008), por sua vez, mostra que, quando o fundamento de um signo é um quali-signo, sua relação com o objeto será um ícone. Se for predominante o seu caráter de existência, sua relação com o objeto será um índice. E, por fim, no caso das leis, ele será um símbolo. Delineando, assim, a segunda tricotomia.

Em Peirce (1999), um ícone se manifesta na medida em que apresenta uma semelhança com alguma coisa e é empregado como seu signo, podendo ser uma qualidade, um existente ou uma lei, se manifestando como ícones de outras coisas pelas suas qualidades e semelhanças. Já o índice envolve em sua origem uma certa medida de ícone, se referindo ao objeto e sendo ao mesmo tempo afetado por ele. Para o autor, os símbolos são um conjunto de ideias gerais convencionadas pelos homens, envolvendo em sua origem um caráter de índice, de modo que ele seja interpretado como sendo referente a um dado objeto.

Observamos que a próxima tricotomia é a mediação de um segundo (objeto) e um terceiro (interpretante). Para alcançarmos essa divisão, seguindo as indicações de Santaella (2004), como poderíamos ter certeza ou segurança do que o signo transmite ao seu interpretante em relação ao objeto? Por meio do aprofundamento no texto, deduzimos que é pela sensata construção das tricotomias anteriores e pelas dominâncias apresentadas entre elas.

De modo que encontramos três níveis interpretantes provenientes da relação citada acima. São eles: rema, dicente e argumento. O signo pode ser enquadrado como um rema quando sua principal característica for uma “possibilidade qualitativa” (PEIRCE, 1999, p. 53). Desta forma, eles são encontrados principalmente nos ícones, pois não vão além de uma hipótese interpretativa.

O dicente, ainda segundo o autor, se apresenta como o contrário do rema, sendo sua principal característica uma existência real, conferível, equivalendo ao interpretante de signos indiciais. Por fim, Peirce (1999) afirma que o argumento é um signo de lei em sua relação com o interpretante, tendo como correspondente os textos persuasivos, que evidenciam a suposta verdade de uma conclusão.

O signo é incompleto em relação ao objeto que ele representa. Desta forma, segundo Santaella (2004), a ligação entre o signo e o objeto se dá por meio de algum aspecto ou qualidade. Isso demonstra que, se o signo recobrisse todos os aspectos do objeto, ele igualmente seria o objeto; o signo, por não poder se igualar ao objeto, está sempre em falta com ele.

Por meio das mediações dos signos é que temos acesso à realidade e ao lugar lógico dos objetos. Sendo apresentado por Santaella (2004), essa mesma realidade impulsiona a geração e disseminação dos signos. A apreensão do objeto se divide entre o objeto dinâmico e o objeto imediato. O objeto imediato é assim denominado, uma vez que só podemos ter acesso ao objeto dinâmico por meio dele, apresentando a sua função mediadora, em que os signos colocam os sujeitos em contato com o que é chamado de realidade.

O objeto dinâmico é considerado o recorte feito pelo signo de seu objeto. Por exemplo, em uma fotografia apreendemos uma parte do ambiente, sendo este recorte o objeto dinâmico. A forma pela qual o signo representa, indica e/ou se assemelha é o objeto imediato.

Em síntese, Santaella (2008) pontua que o objeto imediato de um ícone só se relaciona com o objeto dinâmico por evocação ou sugestão. O objeto imediato do índice indica o seu objeto dinâmico, e o objeto imediato de um símbolo representa o seu objeto dinâmico.

O interpretante é o terceiro elemento da tríade de um signo, ele é um efeito interpretativo que pode ser produzido por um signo em uma mente real ou potencial, demonstrando a sua independência, quase autossuficiência em relação à existência dele. Desta forma, como o signo mantém uma relação dual com o seu objeto, ele mantém uma relação triádica com o seu interpretante, sendo no processo interpretativo que a relação dual do objeto se completa. Seguindo a já abordada fenomenologia de Peirce, encontramos três passos para a realização do percurso interpretativo.

O primeiro deles é o interpretante imediato, que, segundo Santaella (2008), diz respeito a um interpretante interno ao signo, tratando-se do potencial interpretativo disponibilizado pelo signo, de sua interpretabilidade em um nível abstrato, ou seja, antes de encontrar uma mente real que o efetive.

O segundo nível é o do interpretante dinâmico, que se refere ao que é efetivamente produzido no intérprete, este efeito é singular e pertence a uma dimensão psicológica do interpretante. Santaella (2008) pontua a sua subdivisão em mais três níveis: o interpretante emocional, o energético e o lógico.

O emocional diz respeito às qualidades dos sentimentos, são provocados com mais intensidade pelos ícones e, entretanto, são sempre encontrados em quaisquer interpretações, mesmo que de forma inconsciente. O energético corresponde a uma ação física ou mental, exigindo por parte do intérprete um desgaste de sua energia (de qualquer espécie); os índices tendem a produzir este tipo de interpretante com mais intensidade.

E, por fim, o interpretante lógico, em que o signo é interpretado por uma regra ou lógica internalizada, relacionando-se assim as interpretações dos símbolos. Desta forma, o símbolo é considerado como tal somente pelas relações associativas estabelecidas pelo interpretante. Santaella (2008) afirma que somente os símbolos são genuinamente triádicos, em que eles não podem significar sem as regras previamente estabelecidas pela sociedade.

Todas as formas de interpretantes juntas levam a geração de um novo signo, como vemos abaixo:

O Signo e a explicação em conjunto formam um outro Signo, e dado que a explicação que, em conjunto com o já ampliado Signo, formará um Signo ainda mais amplo, e procedendo da mesma forma deveremos ou deveríamos chegar a um Signo de si mesmo contendo sua própria explicação e todas as suas partes significantes (PEIRCE, 1999, p. 47).

O interpretante final nada mais é que o resultado final no caso de o interpretante dinâmico ser levado ao seu limite último. Caso que não se aplica à realidade, não sendo

possível de ser realizado por uma única mente consciente; ele é um limite pensável, mas nunca atingível. Representa a coletividade e o pensamento em grupo.

Santaella (2008) demonstra que por meio destes elementos lógicos, racionais, sensoriais e emocionais, presentes no processo interpretativo, ocorre uma análise semiótica mais rica.