Com as inovações trazidas por leis esparsas nos últimos anos e a partir de 2003, o velho Código de Processo Penal sofreu profundas alterações especialmente quanto ao procedimento judicial a ser adotado no curso do devido processo legal.
Se em outros tempos o interrogatório do réu era, obrigatoriamente, o primeiro ato que se seguia ao recebimento da denúncia, hoje foi colocado como último ato processual da instrução no processo comum .
Recebida a denúncia, citado o acusado para apresentar sua resposta à acusação, proferida decisão judicial a respeito do teor dessa resposta (uma espécie de defesa preliminar, assemelhada à contestação do processo cível), mantido o primeiro recebimento da denúncia, o juiz designa data para a audiência de instrução e julgamento. Nessa audiência devem ser ouvidas, necessariamente nessa ordem, (i) as pessoas arroladas na denúncia (ou na queixa-crime se for o caso); (ii) as testemunhas arroladas pela defesa; (iii) peritos, por exemplo, podem ser ouvidos nessa mesma audiência para esclarecimento de laudos existentes nos autos; (iv) só depois de ter sido concluída a produção dessas provas orais é que o réu será interrogado. Esse é o procedimento adotado, inclusive, na fase do "judicium accusationis" destinada à formação da culpa nos feitos da competência do tribunal do júri91.
A Lei Federal nº 9.099 de 26 de setembro de 1995 já havia adotado esse mesmo procedimento, reservando o interrogatório para momento posterior à ouvida das testemunhas (artigo 81, "caput").
Ao colocar o interrogatório nessa ordem processual, é fora de dúvida que o legislador pretendeu dar maior valor e maior valia ao princípio constitucional da
144.731, ambos originários de São Paulo, julgamentos ocorridos em abril e maio de 2008. http://stj.jus.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area. Consulta feita em 26‐07‐2011.
ampla defesa. Ou seja, a nova legislação processual veio garantir a toda pessoa acusada da prática de infração penal o direito de ser interrogada somente depois de essa pessoa e seu defensor conhecerem o inteiro teor das provas até então produzidas, o que pode favorecer o aparelhamento da defesa ante os termos da acusação posta na denúncia. Antes dessa reforma processual, de certa forma a defesa estava em desvantagem com relação à acusação, no mínimo porque vítima e testemunhas arroladas na denúncia poderiam ser inquiridas especialmente a respeito da versão exculpatória dada no interrogatório judicial (em muitas situações, para desmentir possíveis escusas dadas pelo réu ao ser interrogado).
Não se pretende sustentar que, nos dias atuais, o interrogatório seja o ato processual mais importante para a defesa. Conquanto seja, de fato, momento de alta relevância para a defesa, sabe-se que nem sempre o teor do interrogatório é levado na devida conta pelos juízes, que normalmente mais se apegam à prova testemunhal para formação do seu convencimento.
Se a versão exculpatória dada pelo réu de viva voz encontrar eco na versão trazida pelos depoimentos das testemunhas arroladas, geralmente será acolhida pelo juiz; mas, em havendo divergência, no dia a dia forense parece que, em regra, aos depoimentos testemunhais se empresta maior valor (apenas nos casos em que tenha havido confissão judicial é que o teor do interrogatório costuma ser aceito incondicionalmente).
Daí resulta a importância da presença do advogado ao ato do interrogatório, presença hoje obrigatória por força do que vem disposto no artigo 185 do Código de Processo Penal, com a redação dada pela Lei Federal nº 10.792, de 1º de dezembro de 200392.
É importante notar-se que a lei processual é expressa ao definir como indispensável a presença do "defensor do acusado, constituído ou nomeado", o que significa que não basta a presença de qualquer advogado (como nos velhos tempos em que a presença de curador era requisito essencial para o interrogatório do réu menor de vinte e um anos de idade); exige-se a presença do defensor. Daí se conclui que esse defensor necessariamente deverá ser previamente intimado
92 Código de Processo Penal: "Artigo 185. O acusado que comparecer perante a autoridade judiciária, no
curso do processo penal, será qualificado e interrogado na presença de seu defensor, constituído ou nomeado".
da data marcada para a realização do interrogatório (intimação que se faz pela imprensa oficial, em se tratando de defensor constituído; e mediante intimação pessoal, se se tratar de defensor dativo, ou seja, nomeado pelo juiz), embora nos dias atuais, considerando-se que o interrogatório deve ser feito durante a audiência de instrução de julgamento, o defensor terá sido necessariamente intimado da designação dessa audiência (e, portanto, do interrogatório).
Pode ocorrer, entretanto, que o ato do interrogatório seja feito em data diferente daquela em que tenha sido realizada a audiência de instrução e julgamento, sendo por isso necessária e indispensável a prévia intimação do defensor para a regularidade desse ato processual (do que é exemplo peculiar o caso de o processo ter corrido à revelia e o acusado venha a se apresentar para ser interrogado depois do encerramento da instrução; ou no caso de o réu não comparecer à audiência realizada, com a concordância das partes, sem a presença dele, por se encontrar preso em comarca diversa daquela por onde corre o processo, programando-se o interrogatório para data posterior a fim de ser realizado eventualmente por meio de carta precatória ou por meio de videoconferência, se vier a ser o caso).
Torna-se indiscutível que essa exigência da lei processual decorre de preceito constitucional inserido no artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal de 1988, assegurando aos acusados em geral "o contraditório e ampla defesa, com
os meios e recursos a ela inerentes". Ou seja, não só fica preservada a lisura do
ato do interrogatório judicial com o aval do defensor ali presente, como também se garante o exercício mais amplo da defesa e do contraditório, especialmente lembrando-se que ao defensor se permite formular perguntas ao seu constituinte (ou assistido) para esclarecer possíveis dúvidas, obviamente no interesse do melhor aparelhamento da defesa93.
93 Código de Processo Penal: "Art. 188. Após proceder ao interrogatório, o juiz indagará das partes se
restou algum fato para ser esclarecido, formulando as perguntas correspondentes se o entender pertinente e relevante".