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A maioria dos países desenvolvidos admite a videoconferência para realização de audiências criminais. Admitem e adotam esse sistema, dentre outros, os Estados Unidos da América do Norte, Canadá, Austrália, Índia, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Chile, Portugal, Áustria, por exemplo108.

Nos Estados Unidos, legislação processual de 1983, com a finalidade de evitar constrangimento para vítimas de agressões e crimes violentos ao se verem frente a frente com o acusado e, por outro lado, para preservar a integridade física de certos acusados, já admitia a possibilidade de colheita de prova testemunhal e realização de interrogatórios por meio do sistema então conhecido como "video-

      

106  Tudo indica que o legislador aí empregou o termo "ordem pública" porque já estava inserido no art. 312 

do  Código  de  Processo  Penal  nos  casos  de  prisão  preventiva,  acrescentando,  todavia,  o  adjetivo  "gravíssima".  Mas,  desde  longa data  não há  unanimidade  na  doutrina  e  nas  decisões  dos  Tribunais  a  respeito do melhor conceito de ordem pública, expressão que tem merecido críticas de vários autores  exatamente porque se trata de conceito aberto que deveria ser evitado no âmbito processual penal. A  respeito  do  tema,  cf.  MORAES,  Maurício  Zanoide  de.  Presunção  de  inocência  no  processo  penal  brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Lumen Juris, 2010  p. 317 e RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio  de Janeiro: Ed. Lumen Juris, 2010, p. 578. 

107  SILVA, Marco Antonio Marques da e FREITAS, Jayme Walmer de. Código de Processo Penal Comentado. 

São Paulo: Ed. Saraiva, 2012. p. 312. 

108  BARROS,  Marco  Antonio  de;  e  ROMÃO,  César  Eduardo  Lavoura.  Internet  e  Videoconferência  no 

Processo Penal, Revista CEJ, Brasília, 2006, nº 32, p. 116‐125, "apud" SAMPAIO, Sérgio Humberto de  Quadros, em Audiência Virtual, Ed. Impetus, Niteroi/RJ, 2011, p. 4. 

link", seja na esfera federal, seja na esfera estadual. Tanto a legislação federal

como a legislação de vários Estados da Federação americana preveem e permitem o emprego da videoconferência em processos criminais. O Código de Processo Criminal de Mississippi, por exemplo, dispõe de forma expressa: "Quando não for requerido pelo Tribunal o comparecimento físico e pessoal do acusado, estando este em custódia ou prisão, poderá ele comparecer virtualmente por meio de televisão de circuito fechado do lugar de custódia ou prisão, contanto que tais instalações de televisão prevejam modos de comunicação auditivo-visual entre o Tribunal e o lugar de custódia ou prisão e que seja feito um registro de tais procedimentos" 109.

O Canadá adotou sistema semelhante e, depois de alterações legislativas na esfera processual penal, em julho de 1996 o Tribunal Federal procedeu a liberação de recursos financeiros para que cortes distritais usassem o sistema de videoconferência para a tomada de depoimentos de acusados da prática de crimes. Nos dias atuais, trinta e quatro cortes distritais têm utilizado esse sistema em processos criminais110 .

Também na Austrália há legislação específica permitindo o uso de videoconferência em audiências mediante requerimento do interessado, inclusive para ouvida de sentenciados e acusados em geral.

A Convenção da União Europeia referente a assistência judicial em matéria penal, de 29, de maio de 2000, como explica Juan Carlos Ortiz Pradillo, previu a possibilidade de realização de audiências por meio de videoconferência para depoimentos de testemunhas e peritos e, inclusive, para interrogatório de acusados que se encontrem em território de outro Estado membro, quando não seja conveniente ou não seja possível que essas pessoas a ser ouvidas compareçam pessoalmente ao lugar de origem do respectivo processo111.

Aliás, tratados e convenções internacionais, com apoio da Organização das Nações Unidas - ONU, têm adotado e incentivado o uso da videoconferência por Estados democráticos, podendo ser citadas a "Convenção de Palermo" (combate ao crime organizado) e a "Convenção de Mérida" (combate à

      

109 FIOREZE, Juliana. Videoconferência no Processo Penal Brasileiro. Interrogatório On‐line. Curitiba: Ed. 

Juruá, 2009, p. 375. 

110  FIOREZE, Juliana. Ob. cit. p. 380. 

111 PRADILLO,  Juan  Carlos  Ortiz.  El  uso  de  la  videoconferencia  en  proceso  penal  español,  em  Revista 

corrupção), de 2003, além do "Tratado de Roma" que criou o "Tribunal Penal

Internacional".

Iguais meios eletrônicos são adotados na França a partir de leis editadas em 2001 e 2002, com a reforma do Código de Processo Penal Francês para permitir que determinadas pessoas possam ser ouvidas à distância, com emprego de tecnologia adequada, como também se permite que o acusado possa ser interrogado dessa forma112, como está previsto no Art. 706-71 daquele Código113 .

A partir de 2003 o Reino Unido passou a admitir que, em matéria criminal, pessoas prestassem depoimento por meio de videoconferência, adotando a Lei Geral de Cooperação Internacional em Matéria Criminal, o que se estendeu à Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia. Efetivamente, em dezembro de 2007 a Corte de Justiça de Hartlepool (nordeste da Inglaterra) interrogou casal de acusados por esse sistema114.

Em Portugal, o sistema de videoconferência é normalmente adotado em ações cíveis especialmente para ouvida à distância de partes e testemunhas acaso residentes fora da sede do juízo por onde corre o processo (nesses casos a videoconferência substitui a nossa carta precatória o que, convenhamos, se revela menos oneroso e muito mais célere). Na esfera processual penal, inicialmente a Lei portuguesa nº 93, de 4 de julho de 1999, veio disciplinar o uso da teleconferência como forma de proteção de testemunhas:

Quando sua vida, integridade física ou psíquica, liberdade ou bens patrimoniais de valor consideravelmente elevado sejam postos em perigo por causa do seu contributo para a prova dos factos que constituem objecto do processo (...) tratando-se da produção de prova de crime que deva ser julgado pelo tribunal colectivo ou pelo júri.

Em Portugal permite-se o uso desse mesmo sistema nos casos de violência doméstica e, em geral, para proteção de vítimas e testemunhas. Quanto às vítimas, esse sistema de videoconferência é previsto como forma de eficiente

      

112  PRADILLO, Juan Carlos Ortiz. Ob. cit. p. 180. 

113 "Quando for necessário, à investigação ou à instrução, o depoimento ou o interrogatório de uma pessoa, 

assim como a acareação entre várias pessoas, poderão ser efetuados em vários pontos do território da  República  que  se  encontrarem  conectados  por  meios  de  telecomunicação  que  garantam  a  confidencialidade  da  transmissão"  (FIOREZE,  Juliana.  Videoconferência  no  Processo  Penal  Brasileiro.  Interrogatório On‐line. Curitiba: Ed. Juruá, 2009, p. 391).  

proteção de menores vítimas de abusos sexuais. Para essas finalidades, nos dias atuais todos os tribunais portugueses dispõem dos necessários meios técnicos para realização de videoconferências e gravação em áudio da prova produzida. Recentemente, no que ficou conhecido em Portugal como o "Escândalo da Casa Pia", em rumoroso processo em caso de pedofilia (abusos sexuais contra menores acolhidos na "Casa Pia"), vítimas foram ouvidas à distância, por esse meio, assim evitando-se o constrangimento de prestarem declarações na presença física dos acusados115.

Na Alemanha, a videoconferência e outros métodos de reprodução de som e imagem foram utilizados por tribunais mesmo quando não havia legislação específica autorizando o emprego desse sistema tecnológico, o que ficou conhecido como "Mainzer Modell" por não estar previsto legalmente116. A permissão legislativa só veio em 1998, para permitir que em determinadas situações, para preservar-se a pessoa da vítima e testemunhas, especialmente crianças vítimas de atentados sexuais, sejam tomadas as declarações através de métodos de reprodução de som e imagem, sem que vítimas e testemunhas tenham contato visual com o acusado.

Bernd Freitag, advogado alemão, explica que a videoconferência é usada na Alemanha basicamente para proteção de testemunhas e vítimas no curso da instrução processual:

A testemunha não deve ficar com o acusado em uma sala. O juiz que preside o processo ouve-a pessoalmente ou à distância através do sinal de áudio e vídeo. O Código de Processo Penal permite a gravação de depoimentos de testemunhas e a instrução também pode ser gravada em vídeo para ser usada no julgamento. Usa-se a videoconferência que, todavia, exige requisitos técnicos do tribunal e dos especialistas que operam o sistema. A legislação alemã aplicável é a seguinte: Direito Processual Civil - § 128a; Código de Processo Penal § 58a (referente a gravação); Código de Processo Penal Alemao § 247 (referente a videoconferência)117. (Tradução livre)

      

115  FIOREZE, Juliana. Ob. cit. p. 393. 

116 PRADILLO,  Juan  Carlos  Ortiz.  El  uso  de  la  videoconferencia  en  proceso  penal  español,  em  Revista 

Brasileira de Ciências Criminais", São Paulo, 2007, vol. 67, p. 180. 

117  Im Strafprozess wird die Videokonferenz zum Schutz von Zeugen genutzt. Der Zeuge muss sich nicht mit 

dem  Angeklagten  in  einem  Raum  aufhalten.  Er  wird  entweder  durch  den  Vorsitzenden  Richter  im  Zeugenzimmer  direkt  oder  indirekt  über  die  Videoübertragung  vernommen.  Die  StPO  lässt  auch  die  Aufzeichnung von Zeugenaussagen zu, die Aussage wird einmal auf Video aufgezeichnet und dann in der  Hauptverhandlung  vorgeführt.  Der  Gesetzgeber  spricht  bei  der  Videokonferenz  von  Bild‐  und  Tonübertragung.  Die  Videokonferenz  benötigt  die  technischen  Voraussetzungen  im  Gerichtsgebäude 

Em território europeu, a Itália foi o país pioneiro em regulamentar o emprego de videoconferência no processo penal, o que lá foi utilizado pela primeira vez em 1992, com permissão legislativa editada depois de atentados cometidos por mafiosos contra os magistrados Giovanni Falcone e Paolo Borsalino. Em 1998, nova lei regulamentou a utilização desse sistema no processo penal italiano de forma pormenorizada. E lei aprovada em 2001, ratificando Convenção entre Itália e Suíça completando termos da Convenção Europeia de assistência judicial em matéria penal, introduziu no Código de Processo Penal Italiano o uso da videoconferência com países estrangeiros com base em acordos internacionais, inclusive para interrogatório de acusados que, estando no estrangeiro, não possam ser transferidos para a Itália, condicionando, todavia, a realização do interrogatório dessa forma, ao consentimento do acusado e desde que este tenha um defensor ao seu lado118.

O emprego da videoconferência é permitido na Espanha nos termos de lei editada em 24 de outubro de 2003, que veio regulamentar de modo exaustivo a aplicação desse sistema tecnológico no processo penal. No que interessa ao tema deste trabalho, durante a fase de instrução criminal, o juiz espanhol, de ofício ou a pedido da parte, pode determinar que a audiência se realize por meio desse sistema ou outro similar para interrogatório do acusado e para ouvida de testemunhas e peritos, seja por razões de conveniência, segurança ou de interesse público, a critério do juiz119. Ou seja, considerando motivos de ordem

pública e segurança geral, o magistrado espanhol pode determinar que o acusado seja inquirido por meio do sistema de videoconferência.

Também a Convenção contra o Crime Organizado Transnacional, denominada “Convenção de Palermo”, introduzida no ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 5015 de 12 (doze) de março de 2004, prevê o uso dessa tecnologia em seus artigo 18, item 18, e artigo 24, item 2, b120. Além do Tratado de

       und bei den Beteiligten. (Tradução livre). http://www.meinrechtsportal.de/16397.html Link consultado  em: 25‐08‐2012.   118   PRADILLO, Juan Carlos Ortiz. Ob. cit. p. 179‐180  119   Ob. cit. p. 182.  120 

“Art.  18  :  Os  Estados  Partes  prestarão  reciprocamente  toda  a  assistência  judiciária  possível  nas  investigações, nos  processos  e  em  outros atos  judiciais  relativos  às  infrações  previstas  pela  presente  Convenção,  nos  termos  do  Artigo  3,  e  prestarão  reciprocamente  uma  assistência  similar  quando  o 

Roma que introduziu o Tribunal Penal Internacional e prevê o uso da videoconferência em seu art. 69, nº 2.

A tendência mundial do emprego da videoconferência em processos judiciais revela-se quando se nota que países reconhecidamente marcados pela fidelidade ao Estado de Direito, onde a democracia vige de forma estável ao longo dos anos sem mínimo risco de algum possível abalo, adotam o emprego da videoconferência em processos cíveis e criminais, especialmente para produção de prova pessoal, colhendo-se, à distância, declarações e depoimentos por meio desse sistema. Seria de difícil intelecção admitir-se como válida a alegação de que a prova produzida por esse meio violaria direitos fundamentais da pessoa.

A tendência mundial orienta-se no sentido do emprego da videoconferência de forma cada vez mais efetiva e mais ampla, na busca da celeridade no andamento de ações judiciais, ao lado da economia de gastos públicos e privados e da economia de tempo a ser dependido pelos particulares chamados a depor, sem se esquecer da necessidade de garantia da segurança das pessoas em geral.

A respeito desse tema, segue abaixo interessante comentário a respeito do uso da videoconferência em território austríaco nos dias atuais (com tradução livre):        Estado Parte requerente tiver motivos razoáveis para suspeitar de que a infração a que se referem as  alíneas a) ou b) do parágrafo 1 do Artigo 3 é de caráter transnacional, inclusive quando as vítimas, as  testemunhas, o produto, os instrumentos ou os elementos de prova destas infrações se encontrem no  Estado Parte requerido e nelas esteja implicado um grupo criminoso organizado. [...] item 18: Se for  possível  e  em  conformidade com  os  princípios  fundamentais  do direito  interno,  quando uma  pessoa  que se encontre no território de um Estado Parte deva ser ouvida como testemunha ou como perito  pelas autoridades judiciais de outro Estado Parte, o primeiro Estado Parte poderá, a pedido do outro,  autorizar a sua audição por videoconferência, se não for possível ou desejável que a pessoa compareça  no território do Estado Parte requerente. Os Estados Partes poderão acordar em que a audição seja  conduzida por uma autoridade judicial do Estado Parte requerente e que a ela assista uma autoridade  judicial  do  Estado  Parte  requerido.”  E  “art.  24,  item  2,  b:  2.  Sem  prejuízo  dos  direitos  do  arguido,  incluindo o direito a um julgamento regular, as medidas referidas no parágrafo 1 do presente Artigo  poderão  incluir,  entre  outras:  [...]  Estabelecer  normas  em  matéria  de  prova  que  permitam  às  testemunhas depor de forma a garantir a sua segurança, nomeadamente autorizando‐as a depor com  recurso  a  meios  técnicos  de  comunicação,  como  ligações  de  vídeo  ou  outros  meios  adequados.”  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004‐2006/2004/decreto/d5015.htm  Acessado  em  10‐07‐ 2012. 

Depois de um teste no ano de 1990, no âmbito do processo penal em Innsbruck foi feita a tomada de depoimentos de testemunhas que residiam nos EUA e pelo seu sucesso, desde então foi levada em consideração a ideia de utilizar a videoconferência para os processo penais, cuja ideia consagrou-se em lei no ano 2000. A possibilidade de pessoas presas serem apresentadas ao juiz dentro de 48 horas a partir da data da prisão passou a ser admitida para ser substituída por videoconferência com o juiz, ao invés de exigir-se a locomoção física de uma comarca para outra para atender a trâmites processuais. Constatou-se economia de tempo e redução relevante de custos com essa operação. Para se ter uma ideia, em apenas 11 (onze) instalações de videoconferência em estabelecimentos prisionais austríacos, houve uma considerável economia anual da ordem de 100.000 (cem mil) euros. Como consequência, passou-se a aplicar a videoconferência em depoimentos de testemunhas e em interrogatórios, substituindo-se a carta rogatória e a carta precatória, para que a pessoa interrogada e a testemunha inquirida possam ser diretamente questionadas através da videoconferência pelo próprio juiz que preside o processo, sem desrespeito algum às garantias, tanto do processo civil, como do processo penal, assim observando- se o princípio do imediatismo. Testemunhas se mostram mais dispostas a colaborar com o processo por esse meio eletrônico, inclusive por causa do conforto de não precisarem se deslocar de suas casas para o tribunal, economizando com isso seu tempo, além da significativa economia feita com taxas e escoltas. Através disso, um menor tempo na resolução dos processos será alcançado, podendo atender às exigências legais em período mais curto. Esclarecimentos de peritos e intérpretes por meio de vídeoconferência também são possíveis, com a mesma economia de custos. Além disso, videoconferências são realizadas com tribunais estrangeiros, o que aumenta o potencial da instrução probatória, com economia de gastos em viagens aéreas e até mesmo em termos de notificação de testemunhas para comparecimento em audiências. Os equipamentos de videoconferência usados no Judiciário caracterizam-se por apresentarem excelentes qualidades de imagem e som, sendo necessário, no entanto, que uma equipe técnica especializada e qualificada no assunto seja consultada. A aceitação de videoconferências é alta e isso reflete no número crescente de vídeoconferências em realização. Assim, no ano de 2011, mais de 2000 conferências em vídeo foram realizadas. A tecnologia de videoconferência tornou-se indispensável na justiça austríaca. ("A Justiça e a videoconferência - uma história de sucesso. 2012. Ministério da Justiça,Viena. (Ministério da Justiça, Viena. A Justiça e a videoconferência – uma história de sucesso.Tradução livre)121.

      

121 Die Jutiz und die Videokonferenz ‐ eine Erfolgsgeschichte. 2012. Bundesministerium für Justiz, Wien. A 

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Benzer Belgeler