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No sistema inquisitório que orienta o inquérito policial, o indivíduo suspeito da prática de infração penal é colocado na posição de objeto de investigação e embora lhe seja permitido optar pelo silêncio para não se autoincriminar, não pode, todavia, contestar a orientação dada pela autoridade policial ou produzir livremente algum tipo de prova em sua própria defesa; não podendo, inclusive, interferir na colheita das provas no curso do inquérito (admite-se, simplesmente, que o indiciado proponha a produção de certa prova, cujo deferimento, todavia, fica a critério da autoridade policial).

Durante o inquérito não há formalmente acusação e apenas investigação com o objetivo de amealhar comprovação da existência e da prática de fato típico;

      

86  TRISTÃO, Adalto Dias. O Interrogatório como meio de Defesa. Rio de Janeiro: Ed. Lumen Juris, 2009, p. 

69. 

87  SOARES, Guido Fernando Silva. Common Law ‐ Introdução ao Direito nos EUA. São Paulo: Ed. Revista 

eventual acusação será deduzida em Juízo e só então estarão asseguradas as garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa.

Diferentemente, no sistema acusatório, característico do devido processo legal, o indivíduo a quem se imputa a prática de infração penal não é mais objeto do processo e, sim, verdadeiro sujeito processual, ou sujeito da relação processual integrada pelo "actum trium personarum".

Sujeito de direitos, independentemente da gravidade do crime imputado, mesmo nas situações hediondas e repugnantes o indivíduo colocado na posição de acusado tem o direito inalienável de ser tratado com dignidade e com respeito por todos quantos interfiram diretamente no andamento do processo, seja o juiz de direito, seja o promotor de justiça, sejam os servidores judiciais. É questão elementar a garantia de o réu ser tratado como cidadão, e, pois, preservada a sua dignidade como pessoa humana (mesmo que esse mesmo réu não tenha agido dessa forma com relação a determinada vítima).

As normas constitucionais que firmam essa garantia e obrigam o tratamento digno a todos os acusados, com possível orientação cristã no seu nascedouro, vinculam-se também ao princípio constitucional da presunção de inocência, também conhecido como princípio da não-culpabilidade antes do trânsito em julgado de decisão condenatória.

Em tempos remotos era comum sustentar-se que a importância do interrogatório estava em que o juiz podia, nessa oportunidade, conhecer melhor a personalidade do acusado e ser influenciado subjetivamente pelo que fosse dito por ele. Por outras palavras, dizia-se que a impressão causada durante o interrogatório poderia servir para que o juiz fundamentasse a sentença.

Não se nega a importância desse contato pessoal e direto entre o acusado e o juiz que irá proferir a sentença condenatória ou absolutória; a impressão causada no magistrado a partir desse contato processual pode, realmente, em variados casos, servir para formação da íntima convicção do prolator da sentença, mesmo porque, relembre-se, "o juiz que presidiu a instrução deverá proferir a

sentença" (artigo 398, § 2º, CPP).

Entretanto, não parece legítimo que o juiz possa fundamentar sua decisão com base em motivação meramente subjetiva, sendo inviável que a sentença venha apoiada apenas na impressão pessoal do julgador. O livre arbítrio judicial não poderia ir a tanto, sob pena de subversão da ordem processual que é

orientada, nos limites do devido processo legal, para que a sentença, fundamentadamente, demonstre as razões de fato e de direito determinantes da condenação ou da absolvição.

Não se imagina que uma decisão judicial, de forma singela, invoque motivos de ordem subjetiva para base de sua fundamentação: as razões de fato dizem respeito diretamente com o teor da prova produzida no caso concreto, o que afasta qualquer subjetivismo; e as razões de direito estão ligadas à atuação da lei ao mesmo caso concreto, o que pressupõe seu caráter objetivo.

Ou seja, no devido processo legal há pouco espaço para o subjetivismo do julgador, embora se reconheça que o interrogatório permite ao juiz o conhecimento da personalidade do acusado, inclusive verificando suas possíveis reações ao transmitir sua versão a respeito do fato imputado, às vezes tendenciosamente.

Aqui cabe a advertência feita por François Rigaux:

A ideia às vezes avançada de que a intuição do juiz basta para tudo, tanto para escolher a regra aplicável como para avaliar os fatos e adaptar-lhes o dispositivo, deve ser resolutamente combatida. Sob sua variante mais perversa, essa doutrina apresenta a motivação do julgamento como um raciocínio fictício que lançaria um véu de legalidade sobre uma decisão cuja única fonte seria a consciência, o senso da justiça ou a equidade do magistrado88.

É forçoso considerar-se, todavia, que esse entendimento pode comportar ao menos uma exceção, presente nos feitos da competência do tribunal do júri.

Se nos casos da competência do juiz singular o subjetivismo não pode ser usado para fundamentar decisão judicial quanto ao mérito da ação penal (ou, pelo menos, a fundamentação da decisão judicial não pode invocar esse subjetivismo como única fonte de condenação ou absolvição), no julgamento de crimes contra a vida nada impede que a decisão dos jurados seja orientada por puro subjetivismo. Isso pela singela razão de que o juiz togado, por exigência constitucional, está obrigado a fundamentar suas decisões e a fundamentação deve sempre ser expressa e escrita de forma lógica e compreensível; diferentemente, a decisão dos jurados não vem apoiada em fundamentação alguma, porque, como juízes leigos, gozam do privilégio, também determinado por norma constitucional que garante a

      

soberania dos veredictos, de proferir decisões apenas expondo a resposta às indagações que lhes sejam feitas e de forma rigorosamente reservada e secreta.

Nesse quadro processual, garantido por preceito constitucional, o interrogatório feito em plenário do júri ganha maior importância do que aquele feito no curso dos processos da competência do juiz singular.

Não se pode ignorar que nas sessões de julgamento pelo júri o interrogatório é feito para conhecimento dos jurados, aos quais o seu teor é endereçado para ser conhecido e ponderado no íntimo de suas consciências, pelo que a forma de o acusado expressar-se perante seus julgadores ali reunidos é que servirá inevitavelmente para base da decisão soberana do Conselho de Sentença. Acaso emocionalmente envolvidos com o drama descrito pelo acusado de crime contra a vida, os jurados poderão absolvê-lo mesmo que a lógica das provas indique na direção contrária.

Por outro lado, deve-se considerar que os julgamentos pelo júri são orientados por formalidades processuais específicas que devem ser observadas com maior rigor do que nos demais processos.

Quis o legislador ordinário, com apoio constitucional, que nos casos de crimes contra a vida o julgamento do acusado obedecesse a maior rigor processual e essas formalidades devem ser rigorosamente cumpridas nas sessões de julgamento.

Em razão disso, a escolha pelo interrogatório por videoconferência em sessões do Tribunal do Júri deve ser feita até com maiores cuidados do que nos processos da competência do juiz singular. Dentre esses cuidados, a concordância das partes, especialmente da defesa revela-se, se não indispensável, ao menos cautelarmente recomendável. Havendo eventual discordância, o magistrado decidirá de acordo com seu livre convencimento, à luz no que, nos dias atuais, vem expresso no artigo 185, parágrafo 2º, do Código de Processo Penal, com a redação que lhe foi dada pela Lei Federal nº 11.900/2009.

Diga-se, de passagem, que atualmente se permite que o réu, mesmo estando preso, se recuse a comparecer para acompanhar seu próprio julgamento pelo Tribunal do Júri, desde que, para tal finalidade, ele e seu defensor

encaminhem petição ao juiz de direito89, caso em que não será realizado o ato do

interrogatório em plenário por iniciativa da própria defesa, por isso inexistente alguma irregularidade para viciar o processo (situação como essa ocorreu recentemente em julgamento no Primeiro Tribunal do Júri da Comarca de São Paulo, sendo réu conhecido integrante do Primeiro Comando da Capital - PCC que se encontrava preso em presídio de segurança máxima localizado no interior do Estado, em cidade muito distante da Capital).

A partir da edição da Lei 11.689, de 09 de junho de 2008, que alterou o Código de Processo Penal, julgamentos pelo Tribunal do Júri podem ser realizados mesmo sem a presença física do acusado. Antes disso, a abertura da Sessão de Julgamento estava condicionada à presença do réu, mesmo que ele se encontrasse em liberdade; não se admitia, em hipótese alguma, julgamento sem o comparecimento do acusado.

Nos dias atuais, porém, essa exigência não mais existe, permitindo-se o julgamento à revelia e até mesmo por recusa formal de comparecimento pessoal, como foi mencionado acima.

Hoje, sem se esquecer que, obviamente, acusado e seu defensor devem ser intimados da data marcada para o julgamento, ao acusado se permite optar pela ausência e mesmo estando preso, se ele e seu defensor se manifestarem de forma expressa que o réu não deseja ser trazido sob escolta para essa finalidade, essa manifestação de vontade deve ser respeitada pelo juiz. Por outras palavras, o réu não pode ser compelido a, contra sua vontade, participar de seu próprio julgamento pelo júri, que seguirá regularmente com o trabalho do advogado constituído ou nomeado defensor.

Nem sempre, porém, a opção pela ausência será a melhor estratégia de defesa. Muitas vezes é inegável que o ato do interrogatório tem grande força na formação do convencimento dos jurados. Como esses juízes leigos decidem com base apenas em sua convicção pessoal, de acordo com o que for ditado por suas consciências e como suas decisões são cercadas de total sigilo, não se pode negar que a forma como os fatos venham a ser expostos pelo acusado para conhecimento dos jurados pode se constituir em grande trunfo para a defesa.

      

89   Código  de  Processo  Penal:  "Art.  457, §  2º  Se  o  acusado  preso  não  for  conduzido,  o  julgamento  será 

adiado  para  o  primeiro  dia  desimpedido  da  mesma  reunião,  salvo  se  houver  pedido  de  dispensa  de  comparecimento subscrito por ele e seu defensor". 

Apesar de ter optado pelo não comparecimento, o réu poderá ser interrogado pelo sistema de videoconferência, sem prejuízo algum para o aparelhamento de sua defesa, ficando a critério de seu defensor, nessa hipótese, a escolha dessa opção, em harmonia com a vontade de seu constituinte (ou de seu assistido, se o defensor for dativo).

Não se deve esquecer que a reforma processual de 2008 modificou sensivelmente a ordem em que as pessoas devem ser ouvidas perante os jurados. Atualmente, o interrogatório do acusado é o último ato probatório da sessão de julgamento pelo júri e nem sempre será admissível que o interrogatório seja feito por meio de videoconferência.

Por isso, para que o interrogatório seja feito dessa forma, presume-se, para cabal garantia do devido processo legal, que ao acusado que se encontre preso se permita, no mínimo, acompanhar por transmissão direta em vídeo o desenrolar dos trabalhos, para especialmente conhecer o que tenha sido declarado por testemunhas (e eventualmente por vítimas).

Em razão das peculiaridades que cercam o julgamento pelo júri, o interrogatório do preso pelo sistema de videoconferência deve ser feito somente em situações especiais. Uma delas, quando houver pedido expresso da defesa com a antecedência necessária, para decisão judicial depois de ouvido o titular da acusação. Outra, quando o juiz entender que a segurança pública deva prevalecer sobre o interesse pessoal do acusado, nos casos, por exemplo, em que esse acusado seja indivíduo de alta periculosidade, ligado a conhecidas organizações criminosas; a decisão judicial deverá, naturalmente, apoiar-se em fundamentação expressa para determinar que o interrogatório seja feito dessa forma.

Nos julgamentos feitos pelo Tribunal do Júri, mais do que nos processos sujeitos à competência do juiz singular, serão maiores os cuidados para adoção do interrogatório à distância. No mínimo porque, em sessões do Tribunal do Júri, uma possível irregularidade acarretará nulidade processual que viciará o julgamento em seu todo, para ser repetido regularmente em data posterior. Nos processos comuns, acaso tenha havido irregularidade no ato do interrogatório e apenas esse ato poderá ser repetido, sem prejuízo dos demais atos processuais90.

      

90  Essa é a orientação pacificada no Superior Tribunal de Justiça: "Não há necessidade de anulação de todos 

os atos subsequentes ao interrogatório, mas apenas do próprio interrogatório e do restante do processo  a  partir  das  alegações  finais,  inclusive",  como  foi  decidido  no  julgamento  de  HC  nº  103.742  e  HC  nº 

Se a decisão judicial, determinando que o interrogatório seja feito por meio de videoconferência, ficar devidamente fundamentada, com apoio em justificação adequada, daí não se poderá extrair nulidade processual alguma.

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