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O galo começa a cantar (có... cocó... rocóoooooooooooo) desde as 3h00min., anunciando que o dia não demora a nascer. Junto com ele vários bichos emitem seus cantos com maestria a espera dos primeiros raios do sol, por exemplo, os gafanhotos, sapos, corujas,

Figura 11: Paisagem do Quilombo do Cria-ú. Estação do Verão Fonte: Piedade Videira

Figura 12: Paisagem do Quilombo do Cria-ú. Queimadas. Fonte: Piedade Videira

dentre outros. Os (as) idosos (as) que desde pequenos são acostumados a levantar cedo, para aproveitar o dia e desempenharem suas funções na roça espreguiçam seus corpos, depois

fazem suas preces como ritual de fé para “fechar seus corpos e portanto proteje-los de todos os males” se põem de pé. O radinho de pilha é logo ligado para acompanharem a Rádio

Difusora de Macapá, veículo de comunicação do Estado do Amapá, a hora e as notícias locais, do Brasil e do mundo. As mulheres levantam-se e já começam com a “lida” e a perfumarem o ambiente com vários cheiros. Preparam o café preto ou o chá (de plantas caseiras como, por exemplo, Capim-Marin, erva-cidreira, canela e ou camilitana) para

“esquentar o estômago” de toda a família e em seguida acordam as crianças e adolescentes

para se prepararem para ir à escola, os que estudam pela manhã e os demais para realizarem os afazeres diários.

O dia nasce de mansinho, o sol trata logo de acenar no céu se for o período de verão e ou de brigar com a chuva tentando encontrar um espaço para brilhar, no período chuvoso (nos meses de janeiro a primeira quinzena de julho, variando de acordo com as condições climáticas do planeta). Caso esteja chuvendo todos (as) ficam encolhidos (as) com frio e a preguiça ganha força e alimenta à vontade de permanecer na cama e rede que logo é vencida pela responsabilidade de desempenharem as tarefas da “lida”, trabalho diário.

Para as mulheres, as obrigações domésticas são realizadas mesmo que sintam

vontade de permanecer “mais um bucadinho” deitadas. Muitas delas ajudam seus maridos na “lida da roça”. Os homens se o tempo estiver bom, e os que ainda fazem roça, partem rumo a

suas plantações. O que plantam e colhem de suas roças ajudam na alimentação diária de seus familiares e o excedente é vendido a própria escola da comunidade para ser servido como merenda escolar das crianças e adolescentes. E se a produção for grande comercializam alguns desses produtos a conterrâneos que visitam o Quilombo e outros gêneros alimentícios são comercializados na Feira do Produtor, local que os agricultores do estado comercializam seus produtos e gêneros alimentícios: verduras, legumes, frutas, peixes, galinha caipira queijos, plantas medicinais dentre outros, as terças e quintas feiras no Terminal de Abastecimento dos bairros Jardim Felicidade II e Pacoval. Ambos ficam a pelo menos 25 e 35 minutos de carro do Cria-ú.

A planta mandioca (que dá nome a farinha com a mesma denominação) alimento que não pode faltar na mesa dos amazônidas, é plantada e de sua raiz é feita a farinha de mandioca. Saboreada com açaí, bacaba, vinho de frutas, frutas e para acompanhar a

degustação de alimentos salgados, recebendo o nome de xibé17. Em vários quintais os criauenses tem seus fornos a lenha, artesanal para torrar a farinha, bem como o ralo e o tipiti (serve para retirar o líquido de cor amarelada) que após cozido (se não for é venenoso) é utilizado para colocar pimenta no tucupi, consumida durante as refeições na comunidade para apimentar e perfumar o sabor da comida e também para o preparo dos pratos típicos da culinária amazônida por exemplo: tacacá, pato, porco, peixe e frango no tucupi.

A venda de farinha é realizada por parte mínima da comunidade do Cria-ú. A produção realizada desse alimento pelas famílias é para seu consumo próprio. Geralmente quem faz roça, ainda na comunidade, são os (as) idosos (as) e as mulheres que são chefes de família. Os jovens não querem participar desse ofício e recusam esse aprendizado relevante que os permitiriam não ficarem totalmente presos a obrigatoriedade e a condição de ter dinheiro para comprar absolutamente tudo de que precisam. Se plantarem, cultivarem a terra e os alimentos que nascem de suas entranhas, conseguirão livrar a si e aos seus (uas) filhos (as) do mal da fome que assola o mundo.

Na tentativa de modificar o pensamento e as atitudes desinteressadas dos jovens do Cria-ú frente ao trabalho agrícola desenvolvido no Quilombo, na escola José Bonifácio, dialogamos com a comunidade escolar sobre as potencialidades locais que precisam ser enfatizadas pelos professores junto aos estudantes. Para que esses não continuem acreditando que para prosperarem na vida terão que deixar sua comunidade e mudar-se para a cidade. Atitude que levaria ao inchaço populacional na capital, bem como o aumento da violência, da pobreza e da prostituição, a exemplo do que acontece em outros lugares.

A escola da comunidade passou a organizar atividades vivenciadas no próprio Cria-ú para os educandos a fim de ensiná-los a enxergarem que a cultura do Cria-ú expressa- se também por essas práticas ancestrais da produção agrícola de alimentos. E que é importante que as aprendam e pensem em maneiras de desenvolverem outros aparatos tecnológicos para facilitar o cultivo dos alimentos e a desempenharem com menos dureza, com o auxílio de máquinas o trabalho na roça. E mesmo pensar na potencialização da produção local e meios de industrialização dos produtos para aumentar a geração de renda de sua comunidade.

Os (as) educandos (as) da escola, estão sendo insentivados (por itermédio de vivências extra espaço físico da escola, diretamente na roça e na casa dos filhos (as) do

17 O Xibé faz parte da cultura alimentar de praticamente todos os estados da Região Norte. É feito com a mistura

entre a água e a farinha de mandioca. Depois de tufar acompanha a degustação de peixe, carne, frango e camarão salgados. Na falta das carnes sobreditas, é consumido sozinho e serve para saciar a fome de quem não tem outro alimento para ingerir. É bastante apreciado principalmente pelos idosos (as).

Quilombo) para aprenderem esses saberes como mais uma herança rica que precisam valorizar e aprender para não desparecer dentro da comunidade.

A terra é a grande riqueza coletiva de todos (as) no Cria-ú e poderá ser ainda mais fértil, produtiva e geradora de emprego e renda para a comunidade se, tais educandos, forem insentivados a permanecerem e desenvolverem as potencialidades do lugar onde vivem. Por exemplo, a farinha do Quilombo do Cria-ú já é reconhecida pela qualidade que possui dentro da capital Macapá. Essa referência faz os macapaenses comprarem (e até pagarem mais caro) por esse produto, sem olhar e provar, porque o seu atributo diferenciador é ser do Cria-ú. Quiçá no futuro, a feitura da farinha, se transforme em grande fonte de emprego e renda dentro da comunidade e dela possa ser extraído produtos derivados para o consumo humano.

O amanhecer no Cria-ú é ainda para cuidar dos animais domésticos, dar comida aos porcos, galinhas, patos e soltar o gado comum para juntarem-se aos búfalos para pastarem. Recordo de seu Chico cuidando de sua criação de galinhas e patos. Tecendo seus paneiros, cestos grandes para armazenar seus bichos. Ele é uma das pessoas no Quilombo que vende galinha caipira e seus ovos. A exemplo de outros (as) idosos (as) que desenvolvem as técnicas de criação de animais para continuarem movimentando e estimulando seus corpos.

Dizem que “corpo parado, sem fazer nada, só chama doença”. Por isso, os idosos participam

com freqüência dos Batuques que são realizados na e também fora do Cria-ú, dizem que ao dançarem nos Batuques e Marabaixos afastam as dores do corpo.

Outro cuidado especial é com as plantas medicinais que são utilizadas no preparo

de remédios caseiros apreciados por toda a comunidade. Dona Rossilda, “curandeira” do

lugar, tem seu quintal cheio de grande variedade de plantas para uso medicinal e para banhos de limpeza corporal a fim de, afastar a “picica”, espécie de falta de sorte, que pode ser combatida com passe (pelas entidades espirituais) e suas rezas, bem como pelos banhos e defumação de descarga (para afastar a inveja e o olho grande que deixam qualquer um mufino18).

Se for aproximação ou perturbação de espíritos, necessidade de puchações (em partes do corpo com rasgadura, estiramento dentre outros) a boa hora para rezar é antes do por-do-sol, por volta de 17h00 aproximadamente. Dona Rossilda prepara também garrafadas com suas plantas para curar inúmeras doenças e algumas até mesmo desconhecidas pelo

18

Objetivando manter a originalidade da fala dos colaboradores da pesquisa, utilizei a palavra: MUFINO como é pronunciada por eles dentro da comunidade. Mas sua outra forma de escrita, segundo o dicionário Aurélio é: MOFINO.

“homem da letra” e/ou “homem de branco” é como as entidades espirituais referem-se aos

(as) médicos (as).

É especial ver no dia-a-dia do Quilombo do Cria-ú a prática de varrer os quintais com vassouras feitas do cacho de açaí e da bacaba. A atividade é desenvolvida nos quintais das residências pelas senhoras idosas da comunidade a exemplo dos homens. O cenário é bonito tem muitas árvores e plantas frutíferas e medicinais e quem varre tem a possibilidade de escutar o canto dos pássaros, veem os animais caminharem livremente e não sofrem com o sol forte ficando a sombra das plantações, por isso, as pessoas passam horas afinco limpando os terreiros, com os corpos inclinados a frente devido ao tamanho (pequeno) dos cachos, em movimentos corporais repetidos e pausados, ou seja, varrem sem pressa de acabar e a cada erguida do corpo espiam tudo a sua volta com movimentos circulares e longínquos de cabeça. Longe vão pousar seus pensamentos, nas lembranças que alimentam suas memórias.

Algumas senhoras ainda contam com a companhia dos cachimbos que servem para depositar o tabacão, como chamam, comprados em pedaços eu ou já picados em pacotes. Os que vem em rolos tem todo um ritual de preparação até serem fumados.Corta-se em rodelas para em seguida serem picados, algumas pessoas o lavam para tirar os resíduos e outras o utilizam sem fazerem esse procedimento. Em seguida coloca-se para secar, após a secagem está pronto para ser fumado. Algumas senhoras ainda tem por hábito colocar um pouco de tabaco na palma da mão, amassa-lo várias vezes e em seguida colocá-lo no caximbo. Muitos (as) idosos (as) também tem por cultura mastigar o fumo.

Desde que amanhece o dia a comunidade é toda movimento, se encontra mutuamente e nesses encontros, principalmente quando as mulheres estão transportando algo apoiado na cabeça, tem-se uma bela fotografia de um jeito de ser simples, calmo e identificadores da vida em propriedades rurais e em territórios quilombolas, que mesmo localizadas as margens dos centros urbanos como é o caso do Cria-ú, conserva práticas culturais antigas comuns em comunidades tradicionais e não vistas em outros lugares.

Com algumas exceções em Macapá, por exemplo, quando as senhoras criadas nessa cultura e trabalham como lavadeiras na capital Macapá, transportam suas trouxas de roupa na cabeça. Chegam a contrastar com a dinâmica do cenário urbano em sua volta. Não dão bola, seguem caminhando eretas, tranquilamente e com um requebro corporal peculiar. Se encontrarem uma conhecida (o) pelo caminho uma das mãos sob para a cintura, como marca registrada de seu movimento corporal característico e assim conversam horas esquecidas (os).

No cotidiano da comunidade também as trocas alimentares são recorrentes entre os habitantes do Cria-ú. As pessoas enviam e recebem panelinhas e pratinhos com alimentos.

Essa é uma prática cultural antiga dentro do Cria-ú o de compartilhar o que plantam, cultivam, colhem e comem com seus (uas) parentes. E em agradecimento ao que recebem, buscam

enviar “um agrado”nas vasilhas em sinal de retribuição. O recepiente só é enviado “sem nada”, como dizem, se realmente no momento a pessoa não tiver com o que recompensar o

agrado recebido.

Os temperos dos alimentos são simples dentro da cultura alimentar do Cria-ú. O limão não pode faltar para tirar o pitiú das carnes, peixes e frangos. Mas se não o tiverem em seus quintais recorrem ao vinagre e ou ao limão caiana ( que é plantado dentro do Quilombo). O alho, pimenta e cominho, xicória, alfavaca e a cebola (esta última quando tem) o sal, o urucum (feito artesanalmente serve para dar cor ao alimento) e ou o coloral (industrializado) são a base do preparo da culinária local.

Destaco também a maneira de saudação utilizada entre os (as) filhos (as) do Cria-ú que é bem característico da cultura amazônida. As pessoas abanam o braço e gritam de longe

“- Eh parente...” (dizendo o nome da pessoa, prolongando a pronúncia da frase dando tom cantado ao cumprimento) “- Que tal?”. Quem recebe o cumprimento responde dizendo: “- Tá bom minha mana!” ou “- Ah! Minha preta não tá nada bem” e “- Tá como Deus quer”,dentre outros.

A cultura de “tomar a bença” beijando a mão dos mais velhos (as) mesmo que não

sejam pais, mães, tios (as), madrinhas e padrinhos de batismo é mais uma prática antiga mantida dentro do Cria-ú e em famílias tradicionais de Macapá. A bença é sinal de respeito aos mais velhos (sejam eles jovens, adultos, idosos (as)) e desde pequenos (as) as crianças aprendem o valor deste hábito cultural antigo. É bonito vermos por parte das pessoas que chegam, a formação de filas para “tomarem bença”.

São tantos hábitos culturais e antigos que durante toda a manhã o Quilombo do Cria-ú se movimenta em todas as direções evidenciando todos eles. Quem trabalha, sai de casa cedo para enfrentar as longas esperas pelo transporte público de má qualidade, condições de uso e horários irregulares. A bicicleta acaba sendo o meio de transporte mais eficaz dentro do Quilombo, utilizada por muitos criauenses. A caminhada a pé é eficiente para a locomoção das pessoas para distâncias curtas carregando coisas na cabeça e nos braços. O que nos chama atenção é o ritmo calmo e desacelerado da comunidade do Cria-ú como um todo. O tempo e suas passagens parecem ser diferentes dentro desse território. A comunidade tem um ritmo próprio e sem correria deixam claro que há tempo para fazer tudo. Se comparado aos bairros próximos e a cidade de Macapá nos quais presencia-se o extresse do trânsito intenso e

complicado, principalmente em horários de maior circulação de pessoas nas ruas da cidade para se locomoverem a escola, trabalho e centro comercial.

Na hora sagrada das reifeições o que vale é “arrochar a farinha”, tomar aquele açaí19 como alimento principal que pode ser acompanhado de carne, frango ou peixe. Também pode ser degustado após o saboreio do arroz, feijão, macarrão com peixe, carne, porco, frango, cozidão (esses alimentos não são consumidos todos juntos diariamente) e encher a barriga. Depois é o momento do descanço. Nesse momento não aconselhamos visitas às famílias. Após as 16h00min. é oportuno.

Devemos observar esses hábitos cotidianos das comunidades tradicionais para não

invadirmos a privacidade das pessoas e nos tornarmos “incheridos”, ou seja, criar aversão por

parte da comunidade a sua pessoa. Se o sujeito não é bem vindo recebe olhares de “banda”, atravessado, pouco simpáticos e os (as) filhos (as) do Quilombo ficam em silêncio só observando-o. Sendo assim, para entrar e conviver no Quilombo do Cria-ú é preciso termos antes de tudo sensibilidade para sentirmos como as pessoas se expressam e conduzem seu dia- a-dia. Fazer essa observação é indispensável para a convivência respeitosa dentro do Quilombo sobredito e dentro de qualquer comunidade tradicional.