• Sonuç bulunamadı

Kontrol panelini kullanarak fotoğraf düzenleme

A fé nos santos e santas e as festas religiosas tem grande importância na vida da população do Cria-ú. Estas festas fazem parte da afirmação da identidade da comunidade.

As festas de santos de tradição da religião católica realizadas dentro do Quilombo do Cria-ú, e também em comunidades, localidades e bairros de maioria negra em Macapá (Laguinho e Favela), as mais conhecidas, são denominadas respectivamente de Batuque e Marabaixo. As músicas e os ritmos produzidos nestas festas tradicionais são tão originais quanto sugerem os seus nomes, como mencionei na Seção II.

Para os descendentes do Quilombo essas festas são como uma “brincadeira” que os (as) deixa muito felizes e orgulhosos (as) de quem são e de seus ancestrais. Participar dos Batuques e Marabaixos representa, ainda, viver momentos valorosos no reencontro e compartilhar de emoções e aprendizados com seus familiares, parentes, amigos, conterrâneos e desfrutar da imensa fartura de comida – cozidão21- regado a afrodisíaca gengibirra22 distribuída em ambundância nesses festejos.

Segundo meus (inhas) informantes, a organização das “festas de santo” em suas respectivas datas comemorativas existem há muitas décadas dentro da comunidade, sendo a mais antiga a que homenageia o Padroeiro do Quilombo São Joaquim realizada de 09 a 18 de agosto, por aproximadamente 250 anos. Seus (uas) herdeiros procuram manter a tradição seguindo as orientações que receberam de seus familiares, mas ao mesmo tempo realizando algumas mudanças em seu desenvolvimento, com a preocupação e vigilância dos (as) mais velhos (as) para não descaracterizarem a tradição, porque temem serem castigados pelo santo milagroso.

O respeito da comunidade do Cria-ú pelo continuum Cultural, expresso nas festas de santo reforça a responsabilidade coletiva de salvaguardá-las com cuidado, carinho, amor e muita fé para que essa tradição local não desapareça com o falecimento dos (as) moradores (as) antigos (as) do Quilombo.

21 O Cozido com verduras e carne de gado é tradicional servido nos festejos dos Marabaixos e Batuques. Muito

embora a carne de gado seja servida também assada de brasa e panela.

22 É a bebida tradicional da festa. Feita a base de gengibre, cravinho, cachaça, água e açúcar a gosto. É

Por isso, os (as) anciãos (ãs) do Cria-ú tem a preocupação de ensinar, o que aprenderam pelo movimento de “ouvir contar” sobre a tradição local, ou seja, por meio da oralidade registrada e incorporada na memória e corpos durante décadas. A qual tem por princípio “ensinar sem forçar” as crianças e adolescentes a aprenderem sobre o que sabem.

A palavra falada é a alma da narrativa e a narrativa é o caminho que a imaginação e o fazer humanos percorrem para nos ensinar quem somos, como somos e por que somos. Enquanto ouvimos e contamos histórias, incorporamos valores, modos de pensar, sentir e agir e aprendemos mais sobre nós mesmos e também nos construímos como pessoa dentro de um grupo social (SANTOS, 2006, p. s/n.)

Os (as) mais velhos (as) do Cria-ú acreditam que ninguém aprende nada forçadamente. E para que as crianças e adolescentes do Quilombo tomem conhecimento sobre as múltiplas formas de manifestação de sua cultura precisam ser ensinados sobre o valor histórico, material, imaterial, religioso e humano da comunidade onde moram e dos saberes com os quais convivem desde seu nascimento.

Entendo que o ensinamento dentro e fora da escola deve ser baseado na participação efetiva, diálogo, histórias contadas, artes, danças, mitos e vivências cotidianas tendo o reforço constante sobre os valores civilizatórios africanos e afrodescendentes que estão agregados à cultura do Quilombo e se forem potencializados em sala de aula poderão ajudar a alicerçar a identidade étnica positiva do ser aquilombado.

Reconhecer democraticamente a riqueza da diversidade é aceitar esse outro tipo de saber, é procurar o que tem de reacionarismo – que tem também – o que tem de vital, para o dia-a-dia das pessoas. Reconhecer a diversidade cultural implica relativizar um pouco o saber e a memória nacional preservada na forma do livro, na forma de obra de arte, de monumentos, de arquivo. Tudo isso é importante, mas tudo isso só ganha sentido, - o saber do livro, o monumento, a história do país – sentido democrático, quando a gente recria esse saber, ou reapropria esse saber por um discurso, uma fala, uma ação vinculados a um projeto educacional, aberto ao enraizamento comunitário. Ou seja,como é que esse saber se articula com um projeto de enraizamento do lugar onde estamos, do que somos, e de como somos e não como deveríamos ser. (SODRÉ, 2002, p.21).

O autor Muniz Sodré nos ajuda a pensarmos as diversas dimensões culturais e pedagógicas presentes nas culturas afrodescendentes e nos territórios quilombolas e de maioria negra, por exemplo: os terreiros de Candomblé e Umbanda, bairros urbanos com maior concentração de população negra, irmandandes religiosas e movimentos culturais de

maioria negra que podem integrar uma ação educacional transformadora considerando esses espaços não apenas como lugar físico, abstrato, mas como lugar marcado pelo humano, a exemplo de nossos corpos e residências. Ambos são lugares simbólicos ocupados pelo humano.

Destaco e penso ser um fator importante para a educação notarmos que a cultura afroamapaense no Quilombo do Cria-ú, marca positivamente a humanidade e a ancestralidade de seus (uas) herdeiros (as), fazendo com que haja o movimento crescente e coletivo de seus corpos para a preservação de suas tradições. Por isso, os festejos dos Batuques e Marabaixos não são realizados dentro do Cria-ú para fim de espetáculo e nem tampouco são repetições miméticas de movimentos corpóreos. Comportam valores civilizatórios que por vezes, significam um retorno à sua autoimagem, à sua africanidade, saberes ancestrais, orgulho de onde e de quem são e constituem positivamente a identidade étnica do ser aquilombado local.

Todas as festas de Batuques e Marabaixos realizados nesse território fazem parte do calendário cultural da comunidade, considerado o mais extenso de todo Estado do Amapá que é organizado em Festejos Afroreligiosos e de Batuques. A cultura da festa articula praticamente toda a comunidade que se une para reverenciar seus (uas) santos (as) de devoção familiar trabalhando arduamente dia, noite e de madrugada para a realização bem sucedida desses festejos.

A cultura da festa de santo compõe o processo de pensamento da comunidade que se funda na memória, ancestralidade, afrodescendência, oralidade, ensinar e aprender por meio do fazer e ouvir contar, respeito aos (as) mais velhos (as)e seus saberes, participação nos Batuques e Marabaixos por devoção aos (as) santos (as), valorização da cultura negra presente no Quilombo como prática social, cultural e como registro histórico de conhecimentos ancestrais que evidenciam a visão e concepção de mundo salvaguardadas e reinventadas pelos criauenses.

Essa visão de mundo dos (as) herdeiros (as) das terras do Cria-ú se articula a consecução desses Batuques que envolvem uma amálgama de ações e sentimentos distintos, mas que resultam na união de toda a comunidade dentro dessa tradição. Essa brincadeira é cara aos seus partícipes porque representa ainda a possibilidade de encontrar parentes e conterrâneos, relembrar os causos do passado e relatar os do presente, compor as bandaias de Batuque e as cantigas de Marabaixo, sentir a ausência e a presença na memória dos que já partiram, tomar gengibirra, cerveja, refrigerante, compartilhar o caldo – cozidão, matar o boi e retirar seu couro , limpar, cortar, lavar, temperar, cuidar enquanto cozinha, arrumar a mesa, preparar a farinha de mandioca, servi-la as pessoas, encher as bacias com o cozidão , dar de

comer com satisfação as pessoas, recolher as bacias para encher novamente, lavar a louça, dançar Batuque, Marabaixo, Zouk love23, Kaçiko, falar mal de terceiros, elogiar outros, sorrir, arregalar os olhos em sinal de desagravo, balançar a cabeça em sinal de positivo, ralhar, suspirar, requebrar, sonhar, emocionar-se, assustar-se, envolver-se, sentir, tocar, andar, sentar, respirar, fazer, modificar, comer tapioca, bolos variados, sucos de frutas, pães, bolachas, frutas, sopa e acima de tudo agradecer a Deus pela sua bondade e amor de pai que dá saúde para a comunidade continuar com a tradição dos Batuques afroamapaenses em reverência aos seus santos e santas de devoção e fé e a memória de seus ancestrais.

Ao longo do ano há um congraçamento dos filhos (as) do Cria-ú que residem na e fora da comunidade para a organização e cumprimento da tradição das folias, ladainhas e Batuques realizados pelas famílias negras locais que recebem a denominação de devotos (as) . Todas as pessoas do núcleo parental dos festeiros e praticamente da comunidade em geral se unem para trabalhar na organização e desenvolvimento dos Batuques e Marabaixos. O desembolso para o custeio da festa vem das finanças do (s) festeiro(s), o (a) conta com a ajuda de alguns (as) devotos (as) do (a) santo (a), e principalmente do poder público estadual (potencial patrocinador) e municipal.

O (a) ou (s) festeiro (a) ou (s) pode ser escolhido (a) ou (s) de duas maneiras. A primeira apresentando-se como potencial festeiro do ano vindouro por ter alcançado uma graça pedida ao (a) santo (a). A segunda, por pertencerem a “família festeira” ou serem parentes, amigos e conhecidos desta, que são devotos (as) e guardiões (as) da tradição secular local.

Durante a realização das festas de santo transborda de todas as pessoas envolvidas a fé, a dedicação, o respeito, e o amor com que realizam tais festejos. A dinâmica da vida das pessoas e da comunidade altera-se nesse período e tudo fica menor diante da grandiosidade da festa. Os horários de trabalho, o calendário escolar, a rotina familiar se modifica e se incorpora ao desenvolvimento dos Batuques.

Dificilmente observamos reclamações por parte das pessoas envolvidas nessa tradição, nem mesmo por parte dos foliões (corte afroreligiosa de São Joaquim) que durante todos os dias de desenvolvimento dos festejos, em homenagem ao Glorioso Padroeiro, precisam se fazer presentes nos momentos em que são rezadas as folias, ladainhas, aurora e os Batuques que acontecem em horários distintos detalhados a seguir.

23 O Zouk Love é um ritmo musical popular originário de Caienne- Guiana Francesa. Dança-se em dupla

agarradinho, corpo colado em movimentos sinuosos e sensuais. Já o Kaciko, também originário de Caiena é um ritmo de dança tradicional acompanhado por tambores. Dança-se separado seguindo a pulsação dos instrumentos de percussão.

No que se refere aos demais Batuques e Marabaixos que realizam-se no transcurso de praticamente todo o ano, conforme quadro a seguir, os (as) festeiros (as) convidam outras comunidades quilombolas e associações culturais localizadas na área urbana de Macapá que dançam Marabaixo e Batuque, para participarem de suas festas de santo.

Geralmente, a comunidade do Cria-ú realiza uma rodada de Marabaixo e ou Mão- de-Couro e Peça de Batuque e em seguida abre espaço para o grupo convidado cantar, dançar e envolver os presentes na brincadeira. A participação é coletiva, ou seja, o grupo convocado

não vai a comunidade para fazer “apresentação artística” para uma platéia de espectadores. A

festa é de pretos (as) e o é, porque todas as pessoas envolvidos dançam e cantam simultaneamente, a festa é do coletivo e a união de todos (as) faz a festa.

Considero repleto de aprendizados e ressignificações sócio-culturais, para todos os brincantes, o momento de participação integrada entre a comunidade do Cria-ú e demais grupos étnicos convidados a participar de suas festas de santo. Vale ressaltar que dentro dos Quilombos do Estado do Amapá, nos quais dança-se o Marabaixo e o Batuque percebe-se que cada um desses territórios tem seus marcos diferenciais seja no ritmo, no modo de tocar os instrumentos e na dança, apresentados no capítulo 02. No quadro abaixo apresento o calendário de festas realizadas pela comunidade do Cria-ú, com a especificação das datas, meses e santos (a) homenageados (a) e também festas que são realizadas em outras comunidades que São Joaquim é convidado a participar.

CALENDÁRIO AFRORELIGIOSO E CULTURAL DO QUILOMBO DO CRIA-Ú

MÊS

SANTO (A)

DIA (S)

Janeiro São Sebastião ( Cria-ú de Baixo)

19 e 20 Fevereiro São Lázaro (Cria-ú de

Baixo)

11 Março São José (Padroeiro de

Macapá)

19

Abril Festa da Associação

Atlética do Cria-ú

12 Maio Santa Maria ( Cria-ú de

Cima- Dança-se Marabaixo)

31

Junho Santo Antônio ( Cria-ú de Baixo)

13

(Comunidade dos Bois24) Agosto São Joaquim (Padroeiro

do Quilombo do Cria-ú)

09 a 18 Setembro São Raimundo (Festejo na

Comunidade do Curralinho)

13

Outubro São Francisco

(Comunidade de Lagoa de Fora)

06

Novembro - -

Dezembro Nossa Senhora da

Conceição (Residência do Senhor Gorgia)

08

TABELA 5: Calendário Afroreligioso e Cultural do Quilombo do Cria-ú

3.4 O BATUQUE DO GLORIOSO SÃO JOAQUIM - PADROEIRO DO QUILOMBO