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Foi um belo dia de madrugada, eu só ouvi os fogos. Olha, foi a guerra que terminou. Eu disse, vixe Maria, se a guerra terminou eu não vou pra guerra não. No outro dia (...) correu a notícia que a revolução tinha acabado.392

São com essas palavras que o Sr. José Cassiano da Silva, seu Muriçoca, lembra do fim da Guerra de 1932. Ele ainda estava integrado nas forças provisórias em preparação no Teatro José de Alencar quando foi acordado pela queima de fogos de artifício que anunciavam o fim das hostilidades armadas. Realmente, o término da guerra reverberou intensamente pelo Ceará. Demócrito Rocha, uma década depois, lembrou deste mesmo dia em nota, assinada por próprio punho, na primeira página de seu jornal:

A primeira vez que falei diante de um microfone da atual [Rádio] PRE-9 foi a 3 de outubro de 1932. Na véspera, alta noite, chegara a Fortaleza a notícia de que cessara a luta civil em São Paulo. O general Klinger telegrafara ao general Góis Monteiro pedindo-lhe destino. O dia 3 amanhecera ruidoso. Fui despertado de madrugada por um grupo de amigos. Houve manifestações populares ao interventor Carneiro de Mendonça (...). O dia fora de alegrias cívicas e eu deveria estar ainda sob a influência dos brindes de um jantar anti-separatista. Improvisei a oração. (...) Quando acabei de falar, o telefone de manivela chamou á parede. João Dummar foi atender. Era o chefe de polícia empolgado com o discurso e com o êxito da emissão. Estava elê em casa e captara a minha oratória. O discurso fôra, pois, escutado no Benfica! Fantástico!393

Além da capital, várias outras cidades também festejaram: Soure, Crato, Iguatu, Canindé, Uruburetama, Cariri, Russas, Arraial, Icó, Jaguaribe- Mirim, Massapê realizaram manifestações públicas, como passeatas, missas, queima de foguetórios, comícios ... A festa cívica pela vitória foi nas mesmas proporções do envolvimento preparatório das tropas para a luta, já que o sucesso bélico confirmava a força do Governo Provisório, e os vários apoiadores de Vargas no Ceará, com essas comemorações, ratificavam ainda mais as relações entre o novo Governo e a população cearense.

392

Depoimento concedido a Kênia Sousa Rios. 393

Terminada a guerra, o prefeito de Quixeramobim escreveu ao interventor informando que daria o nome do Major Cícero Góis Monteiro a uma rua, para homenagear o irmão do ilustre líder militar das forças varguistas morto em combate.394 O sargento Sobreira, que guerreou nas batalhas do

Morro do Graví, Amparo, Santa Helena, Pedreiras e Coqueiro trouxe um capacete e uma granada da luta, como “lembrança”.395 É provável que esses

objetos tenham sido integrados ao acervo do Museu do Ceará, assim como outros. Entre os anos de 1932 e 1942 entraram vários artefatos da Guerra de 1932 nessa instituição: dois cantis, quatro capacetes das forças paulistas, duas granadas, uma carteira de cigarros “9 de julho”, um curativo usado pelos revoltoso paulistas, cartuchos de guerra, emblemas e medalhas referentes às batalhas, estilhaços de bombas e um lança-granadas.396 Nem todos esses ainda fazem parte do acervo, mas os cantis, os capacetes e uma bandeira do movimento, na qual a bandeira paulista sobrepõe a do Brasil, são facilmente identificadas em exposições.397 Terminado os combates, a guerra e os seus heróis não poderiam ser esquecidos e esses objetos do grande movimento de defesa do Governo Provisório foram percebidos, rapidamente, como importantes para a memória oficial do Ceará.

Como analisei nesse trabalho, a Guerra de 1932 no Ceará foi bem mais que a determinação oficial da Interventoria de declarar apoio ao Governo Vargas. Não à toa, intensas discussões políticas tomaram conta do cenário local e nacional. Essa complexa teia de apoio foi percebida a partir de diversas pessoas que atuaram na sua construção. Assim, além das instâncias governamentais envolvidas com o conflito, diversos sujeitos e grupos sociais articularam várias ações que procuraram legitimar a guerra, tendo como base o significado da “Revolução de 30” para a nação, em contraposição às primeiras décadas republicanas, justamente entendidas como o período no qual os revoltosos de então controlavam a política nacional. Assim, se a chegada de Vargas propunha uma nova República que beneficiaria o Norte, nada mais

394

Jornal O Nordeste, 12 de outubro de 1932. 395 Jornal O Povo, 31 de outubro de 1932.

396 Essas informações foram retiradas de HOLANDA, Cristina Rodrigues. A construção do

Templo da História: Eusébio de Sousa e o Museu Histórico do Ceará (1932-1942).

Dissertação de mestrado. UFC, 2004. 397

Quando esta dissertação foi escrita, os objetos pertencentes ao Museu do Ceará que foram fotografados e apresentados no anexo deste trabalho estavam na reserva técnica desta instituição.

urgente que o posicionamento favorável junto ao lado federal, ainda mais em um momento de grande crise climática – a seca de 32 – na qual já se percebia esses novos rumos, a partir de coordenadas ações de combates aos seus perversos efeitos e o crescente aumento no volume das verbas federais.

O primeiro passo para a vitória foi esse: legitimar a defesa do Governo Provisório e desqualificar o inimigo insurgente.

Ao lado deste intenso debate político, os dias de conflito eram vividos no Ceará não pelas trincheiras ou bombas inimigas, mas por diversas manifestações que buscavam mobilizar a população, aproximando-a da guerra e alertando-a para as ações rivais. Havia um conflito nacional e a população não poderia esquecer que sem a sua participação, mesmo sem partir para o

front, a vitória seria mais difícil e distante. Como foi visto nas páginas deste

trabalho, os ideais defendidos do Governo Provisório foram difundidos no Ceará pelas manifestações públicas ligadas à guerra, buscando sufocar os inimigos e suas idéias nas fronteiras paulista. As estratégias de mobilização da população dialogaram com as propagandas paulistas de exaltação do Estado bandeirante, assim como estiveram presentes também no cotidiano de várias cidades cearenses, a partir de comícios, desfiles públicos, divulgação de panfletos e festivais.

Com esta mobilização, esperava-se o crescimento das fileiras de alistamento, sendo assim necessária a construção de uma estrutura de guerra para receber, treinar e enviar os voluntários para os campos bélicos. Neste momento, como foi visto, três instituições públicas se envolveram fortemente: o Governo Provisório, a Interventoria cearense e o Exército. A formação das tropas voluntárias representou uma interseção dessas três forças em discussões sobre os rumos políticos nacionais, marcada as suas especificidades e objetivos distintos. Esta confluência, em um momento de crise política tão peculiar, não foi livre de tensões e conflitos, e os exércitos federais, em muitos momentos, tiveram esta marca.

Se a legitimação mostrava que a guerra era justa e os ideais inimigos infundados, a mobilização estimulava o envolvimento da população com a guerra.

Estas amplas campanhas de legitimação e mobilização, com enfoques e ações distintas, tinham um objetivo comum: arregimentar pessoas aptas e

dispostas a defender o Governo Provisório. Os batalhões provisórios foram o braço armado do Governo Vargas para vencer os revoltosos que se colocaram, com armas nas mãos, contra a sua liderança. Contudo, eles não estiveram livres de tensões e problemas, tanto de âmbito estadual como federal, assim como o Ceará não esteve imune de opositores do Governo Provisório. Os vários sujeitos históricos que compuseram as fileiras de alistamento tinham origens diversas e foram levados às tropas voluntárias por motivos e circunstâncias diferentes. A situação precária oriunda da seca e a postura de alguns prefeitos em aliviar as tensões que milhares de retirantes traziam às suas cidades construíram o contexto que esclarece a arregimentação de grande parte dos voluntários nas tropas cearenses. Já para outros alistados, a experiência militar como reservistas do Exército, o envolvimento com as idéias tenentistas e os diálogos com os discursos de legitimação e mobilização explicam o interesse pelo ingresso nas forças para participar da guerra. Essa heterogeneidade, como analisei, perpassou toda a formação dos batalhões provisórios, desde a legitimação até o alistamento, tornando-os ainda mais complexos.

A legitimação e a mobilização só estariam completas com o constante aumento das fileiras de alistamento.

Como tentei mostrar, a idéia da Guerra de 1932 como conflito regional se esvai. Sem dúvidas, o desenrolar político que dá início às hostilidades tem como palco principal o Estado de São Paulo, mas quando a guerra foi declarada, em nenhum momento, Getúlio Vargas e seus aliados políticos e militares pensaram em tratá-la como circunscrita àquele estado. Procuraram, desde o início, conclamar todo o país para a defesa do novo Governo, definindo os inimigos e seus intuitos. Os discursos do Governo Provisório e de São Paulo mostravam duas guerras diferentes: para os paulistas, a luta era por uma constitucionalização, por mais participação política e por um poder menos centralizado; já para o lado Varguista, a guerra era uma tentativa arrebatadora dos “decaídos” políticos de retomar o Palácio do Catete, jogando por terra os novos “rumos da política nacional” que tentava efetuar. A questão mais importante nesse quadro político não é determinar quais dessas definições tinham mais sentido sobre a Guerra de 1932, mas explicar como ambas constituíram o conflito, com aproximações, diálogos e divergências. A guerra

que acontecia em São Paulo era a mesma que levou o Governo Provisório a conclamar seus aliados e as Forças Armadas para marcharem rumo ao front. Estas duas vertentes não se opõem: elas se completam, jogando luz uma sobre a outra.

Ao analisar o conflito a partir do Ceará, foi possível perceber que as principais questões envolvendo os batalhões provisórios não constituíram um processo à parte do envolvimento federal na luta. Na verdade, a ação do Governo Provisório só pode ser percebida quando vista, de fato, por quem o constituía: seus diversos aliados distribuídos pelo país. Assim, não é que a realidade cearense durante a Guerra de 1932 explique um processo maior que se desenrolava no Rio de Janeiro ou São Paulo, mas a sua complexidade está em, justamente, apontar como o Governo Provisório, as Forças Armadas, as Interventorias estaduais e os diversos setores sociais dialogaram e atuaram nesse conflito, sem nenhuma hierarquia de importância, mas resguardando a abrangência de cada uma destas esferas, assim como suas peculiaridades.

A Guerra de 1932 só pode ser compreendida quando destacada a força e as ações – tanto políticas e sociais, como militares – do Governo Provisório e de São Paulo para confirmarem (ou reafirmarem) seus ideais e consolidarem seus projetos de nação. Mais do que lutar por uma constitucionalização, a Guerra de 1932 expõe um momento de luta nacional em torno de projetos de República para o Brasil, nos quais vários grupos e sujeitos se congregaram em lados opostos. Nenhum dos dois lados envolvidos podem ser vistos como blocos homogêneos nos quais expoentes políticos “falam” por toda uma população. Ambos os grupos tiveram complexas tramas para organizarem-se e enviarem suas tropas: vozes foram silenciadas, os feitos dos inimigos foram suprimidos e alguns aliados, muitas vezes, entraram em choque.

As discussões sobre o futuro político da nação, nos últimos meses de 1932, ganham nova repercussão, mas sem esquecer a guerra recém terminada. Em inúmeras matérias jornalísticas, outra importante disputa começava a se delinear:

Com a vitoria militar obtida pelas forças federais sobre a rebelião paulista, desapareceu, completamente, a possibilidade de uma nova

ofensiva, a mão armada, dos políticos reacionarios contra o Governo instituido pela Revolução de 30. (...) Batidos pelas armas, na investida que fizeram para retomar o poder, os reacionaristas alimentam a esperança de que, aberta as urnas, os comicios eleitorais lhes restituirão as posições. (...) Longe do que pensam os elementos que anseiam por um regresso ao passado – a rebelião paulista, em vez de fortalecer a oposição á Ditadura, nas futuras eleições, veio contribuir eficazmente para repopularizar a Revolução de 30 e aproxima-la da opinião nacional. (...) A Revolução, triunfante nas armas, ha de triunfar nas urnas, pela vontade soberana do povo.398

Para o jornalista, a Guerra de 1932 tinha representado a tentativa de retorno político dos derrotados pela Aliança Liberal, mas a vitória do Governo Provisório expurgou a hipótese desse retorno, por via armada. Contudo, era necessário que as eleições que despontavam não fossem vencidas por esses inimigos. A confiança era alimentada pela “repopularização” do Governo Vargas que a guerra promovera, ao ser legitimado pela comparação com os anos republicanos anteriores. Para os apoiadores varguistas, o modelo político “triunfante nas armas, ha de triunfar nas urnas”, tudo isso em nome de uma “vontade soberana do povo”.

No caso do Ceará, dois importantes aliados traçaram caminhos distintos neste novo duelo. O grupo mais ligado à Interventoria e aos ideais tenentistas congregou-se sob o Partido Social Democrático (P.S.D.), já a Igreja Católica lançou a Liga Eleitoral Católica (L.E.C.), objetivando orientar o eleitorado católico. Apesar das aproximações durante a guerra, os dois grupos tinham posicionamentos distintos sobre os contornos políticos nacionais. Mesmo assim, havia tinham uma convergência entre ambos: eram contra os líderes e modelos políticos passados, já que se sentiam preteridos em favorecimento a uma restrita elite política e econômica de outros Estados.

O modelo republicano que despontava nas eleições futuras não poderia esquecer as mudanças que já começavam a aparecer, assim como as promessas de uma política mais igualitária em relação às unidades federativas ou, pelos, mais atenta ao restante da nação. Mesmo que os anos que seguiram tenham alterado o tabuleiro político nacional, o apoio conseguido por Vargas na Guerra de 1932 e os diálogos com vários Estados da federação, com as Forças Armadas e com relevantes forças econômicas e sociais, além dos grupos

398

paulistas derrotados, foram fundamentais para os rumos políticos que traçaria nos anos vindouros. Novos atores políticos entraram no jogo de disputas ou reconfiguraram sensivelmente suas posições.

A vitória na Guerra de 1932, dessa forma, representou uma expectativa de mudanças para amplos setores sociais, econômicos e políticos do Nordeste, na esperança de melhores dias. A força da região era evidente para o Governo Provisório e seus opositores. Ou como foi escrito, de uma maneira simples e clara, em um telegrama felicitando Carneiro de Mendonça pela vitória: “magnifico empurrão carros vazios acabam dar formosa locomotiva paulista”.399

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FONTE: Revista A Careta, 03 de setembro de 1932 (Fundação Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro).

FONTE: Revista A Careta, 03 de setembro de 1932 (Fundação Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro).

FONTE: Revista A Careta, 20 de agosto de 1932 (Fundação Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro).

FONTE: Revista A Careta, 29 de outubro de 1932 (Fundação Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro).

FONTE: Revista A Careta, 01 de outubro de 1932 (Fundação Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro).