Antes da noite chegar o sol vai se pondo gracioso nas terras do Cria-ú. Durante todo o dia se movimenta do nascente para o poente como quem caminha pelas nuvens em um dia lindo de sol. Vai girando... girando...beijando as claras nuvens que enfeitam o céu que parece uma grande obra de arte pintada com pinceladas rápidas com uma variedade de tons/ sobretons de azul e branco que prende o olhar de quem os encherga com olhos de sensibilidade e contemplação. É lindo o céu de nossa terra...Do nosso Quilombo...
Essa obra de arte apresenta novos contornos ao observarmos o por-do-sol na ponte do Cria-ú. As garças aparecem como uma mina de pontinhos brancos espalhadas ao longo da extensão de terra que os olhos humanos são capazes de alcançar. Se misturam aos búfalos que refrescam-se com as águas do rio e ficam parados, inertes apesar de amedrontarem por terem um porte agigantado coberto com pelo negro/reluzente, marcam um dos momentos mais bonitos de serem apreciados dentro do Cria-ú nos finais de tarde.
O sol vai dormir e ainda ficam os resquícios de seu brilho encandescente que vai dando lugar gradativamente a noite linda e misteriosa como agasalho para o fim de mais um dia. Lá vem ela, à noite, trazendo consigo os animais que aparecem quando ela chega. Muitos cantos são ouvidos e muitas coisas acontecem protegidas pela escuridão. Na frente das residências no Cria-ú vê-se lâmpadas ligadas e também a iluminação pública em frente as casas são acionadas. Mesmo assim não é o suficiente para iluminar a contento as casas da comunidade.
Em alguns trechos não é possível visualizar luz elétrica necessária para guiar os viandantes que precisam andar de bicicleta e a pé pela rodovia que cruza o Quilombo , felizmente o que lhes salva de alguns acidentes são os tachões luminosos que servem para sinalizar a estrada. Mesmo assim vivem em perigo constante porque muitos acidentes de
trânsito ocorrem na estrada, na grande maioria na madrugada quase sempre com vítimas fatais, porque além da falta de iluminação na vila, falta também consciência por parte dos condutores de carros e motos que andam em alta velocidade na estrada sob efeito alucinógeno de bebeida alcoólica e outos intorpecentes.
Em dias de festas no Cria-ú as estradas e rua que dá acesso ao Quilombo é só movimento. Há quem se encaminhe de carro, moto, bicicleta, a pé, de cadeira de rodas, carrinho de bebê e os que vão sem precisar desses meios de transporte porque estão no plano dos espíritos. Esses últimos é que não costumam faltar mesmo porque foram eles que escreveram os primeiros capítulos da cepa (primeira geração da comunidade), palma (segunda geração) e a flor (terceira geração) dessa história (SILVA, 2004). São vistos e quem pode vê-
los (as) não sentem medo, os reverenciam e seguem em frente. Dizem: “pra que boli com o
que a maioria não está vendo...”
Nas festas tradicioanais realizada pelos (as) criauenses , no momento da reza da primeira folia que começa com o refrão:
BIS{ Oh devotos vamo rezar BIS{ A ladainha do senhor
Esse momento de chamamento aos devotos encarnados para rezarem a ladainha aos santos, vem também os (as) devotos (as) e foliões desencarnados que ficam atrás da igreja, vestidos de branco rezando para seu santo protetor. É o que dizem os (as) filhos (as) do Cria-ú, médiuns que os enchergam.
Normalmente, sem ser em noites de festas que tem movimento à noite toda dentro do Cria-ú, as pessoas se recolhem cedo para dentro de suas residências, principalmente no primeiro semestre de inverno que dá muito carapanã e muriçoca20 e ninguém consegue ficar no pátio das casas. Excetos alguns casais que aproveitam para trocar carícias íntimas sem a publicização de um dia claro. E durante os festejos dos Batuques que para permanecer na sede, onde se realiza a festa, tem que dançar até amanhecer o dia, porque senão os insetos colocam a pessoa para correr.
A pesca nos lagos do Quilombo, antigamente era feito de maneira artesal por intermédio de caniço, linha de mão, gapuia, flexa e fachiar, na atualidade os (as) moradores (as) do Quilombo que sobrevivem dessa atividade saem de madrugada para realizar esse
ofício e utilizam a malhadeira (instrumento de pesca que considero inadequado porque enlaça tanto os peixes em idade adulta como alguns filhotes que perdem a chance de crescerem e alimentarem os filhos da comunidade no dia de amanhã). Os (as) praticantes da pesca retornam antes do dia amanhecer ou ao amanhecer a suas residências com a refeição garantida pela mãe natureza.
O Quilombo do Cria-ú vem enfrentando um problema sério de invasão em suas terras e apropriação indevida de pessoas de fora desse território das riquezas naturais desse território. Sorrateiramente, os moradores de bairros que ladeiam o local entram nas terras do Cria-ú e estão furtando os peixes. O mais grave é que para furtar o pescado utilizam timbó, espécie de planta venenosa que mata grande quantidade de peixes, incluindo os filhotes. Essa prática predatória e irresponsável está ameaçando a subsistência das gerações futuras do Quilombo e continuando o problema sem solução terá menos alimento para si, seus familiares e seus descendentes.
Em noites tranquilas, o silêncio vai tomando conta após as pessoas desligarem seus aparelhos de televisão. O vento chega a assobiar e as árvores asanhadas se balançam de um lado para outro. Pensam que ninguém está vendo suas insinuações umas as outras. Ás vezes o vento é tão forte que elas trocam carícias sem querer e outras chegam a tocar os lábios mutuamente em sinal de afago e afeto. Se a chuva resolve aparecer ficam oriçadas e brincam animadamente até o frio chegar fazendo com que desejem se recostar entre si como se fossem um agasalho para a noite fria, o sonho.