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3. AYŞENİL ŞAMLIOĞLU’NUN SAHNELEDİĞİ OYUNLAR

3.2. Grotesk Üslupta Oyunlar

3.2.12. Yavuz Pekman’ın Süleyman ve Öbürsüler Adlı Oyunu

O trabalho – a produção – é o que eleva o homem sobre a natureza exterior e sobre sua própria natureza, e é nessa superação de seu ser natural que consiste propriamente sua autoprodução

(SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 2007, p. 128) Entendendo a práxis como uma categoria genérica, que se faz presente em todas as atividades singularmente humanas, irei agora especificar algumas de suas manifestações. A primeira a ser analisada será o Trabalho, que, por fornecer as bases materiais para que as outras atividades humanas possam existir e se desenvolver, adquire importância central na discussão. Adotei, para tanto, a conceitualização clássica proposta na teoria marxiana, distinta do senso comum que o utiliza como sinônimo de profissão, ou seja, de trabalho assalariado, forma esta específica ao capitalismo e da qual iremos tratar ainda neste capítulo, no tópico sobre o Capital.

O Trabalho, considerado por Lukács como a “primeira práxis” (2010, p. 74), é, antes de tudo, “um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o próprio homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza” (MARX, 1985a, p. 149) – transformando dialeticamente, a partir desse processo, tanto as objetividades naturais quanto os indivíduos que o realizam e a própria sociedade.

Esse metabolismo social com a natureza, enquanto processo fundante e base de reprodução do ser social, é um fenômeno sem o qual as outras práxis não podem ser plenamente desenvolvidas, em qualquer grupo social, pois é através dele que garantimos a produção dos meios que atendem à nossa sobrevivência. Referimo-nos aqui, em primeiro lugar, à satisfação de nossas necessidades mais básicas, cuja conseqüência imediata é precisamente a reprodução biológica da espécie: adaptamos intencionalmente as terras à

produção agrícola, ao pasto, etc., a fim de cultivar nossos alimentos; da natureza, retiramos ainda os materiais para a construção de moradias, para a produção de medicamentos, e assim por diante.

Evidentemente, o Trabalho é também a fonte dos inúmeros produtos utilizados pelas demais práxis: todo acadêmico necessita de meios para divulgar amplamente seus estudos e pesquisas (livros, revistas, computadores, internet, etc.); todo músico necessita de meios para divulgar seu trabalho (gravações, songbooks, espaços adequados para performance, etc.), além do que todo instrumentista necessita de um instrumento musical realmente existente e externo à seu corpo (com exceção de cantores, daqueles que desenvolvem trabalho com percussão corporal, etc).

Em termos estruturais, segundo Lessa, o Trabalho é formado pelas seguintes categorias: “a teleologia, a causalidade, a objetivação, a exteriorização (Entäusserung) e, com as devidas e cuidadosas mediações, a alienação (Entfremdung)” (LESSA, 2005b, p. 44, grifos do autor). Como já vimos, teleologia e causalidade são os momentos característicos da práxis; as outras três categorias são momentos decisivos do Trabalho (LESSA, 2005b).

A objetivação diz respeito à transformação das objetividades naturais em si, ou seja: é através desse processo que o ser social busca conscientemente transformar a Natureza com vistas a atender suas necessidades. Assim, ao modificar o objeto, a sua forma original, natural, com um mínimo de compreensão de sua legalidade (de suas características imanentes, limitações estruturais químicas, físicas, biológicas etc.), cria algo que inexistia na natureza até então, algo que necessitou da intervenção humana para existir (SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 2007; LUKÁCS, 2010;). O Trabalho traduz concretamente a capacidade essencialmente humana de “trazer à vida processos causais” (LUKÁCS, 2010, p. 43-44).

Dotamos essas objetividades resultantes, que seriam inexistentes sem a intervenção humana, de valores de uso. Tal denominação é importante na medida em que esta não é a única forma de valor desenvolvida pelo ser humano (que inclui outros tipos como os valores de troca, valores éticos, morais, estéticos, compartilhados por um pequeno ou grande número de indivíduos, etc.); é, entretanto, a primeira forma de valor, e permanece sendo a mais básica.

A exteriorização diz respeito à complexificação dos processos de Trabalho específicos, como eles se manifestam fenomenicamente, e à possibilidade de que tais processos sejam apropriados por outros seres humanos. Além de transformar as objetividades naturais, através do Trabalho o próprio ser social se auto-modifica. Quando Marx reflete sobre esse tema n’O Capital, parte do princípio de que todo ser humano tem, potencialmente,

capacidade de realizar as mesmas atividades desenvolvidas por qualquer outro ser humano8, de acordo com o dado nível de desenvolvimento individual e social. É nesse sentido que o autor afirma: “Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio” 9 (MARX, 1985a, p. 149).

Tal afirmação, que dentro do contexto da obra citada refere-se especificamente ao Trabalho, pode e deve ser generalizada para todas as formas de práxis social (braçais, intelectuais, artísticas, científicas, filosóficas, etc.). O domínio de novas práxis, que se apresentam dessa forma ao ponto de vista subjetivo, mas que já foram desenvolvidas na objetividade social, é sempre revolucionário para o ser social singular.

A categoria de alienação do Trabalho deve ser entendida para além de sua significação política, normalmente adotada pelo senso comum (indivíduo alienado seria aquele impedido – por si ou por outros – de participar da vida política), pela economia vulgar (a apropriação privada de mercadorias criadas socialmente) ou pelo sistema legislativo (ou expropriação punitiva de bens). A alienação, no sentido marxiano do termo, é entendida a partir do ponto de vista dos produtores, referindo-se essencialmente ao processo de estranhamento entre esses e sua própria força de trabalho, e é fruto direto da histórica divisão da sociedade em classes antagônicas. Bottomore assim resume essa categoria:

No sentido em que lhe é dado por Marx, ação pela qual (ou estado no qual) um indivíduo, um grupo, uma instituição ou uma sociedade se tornam (ou permanecem) alheios, estranhos, enfim, alienados [1] aos resultados ou produtos de sua própria atividade (e à atividade ela mesma), e/ou [2] à natureza na qual vivem, e/ou [3] a outros seres humanos, e – além de, e através de, [1], [2], [3] – também [4] a si mesmos (às suas possibilidades humanas constituídas historicamente). Assim concebida, a alienação é sempre alienação de si próprio ou auto-alienação, isto é, alienação do homem (ou de seu ser próprio) em relação a si mesmo (às suas possibilidades humanas), através dele próprio (pela sua própria atividade). (BOTTOMORE, 2001, p. 5)

Lukács afirma que o Trabalho é “fundamento ontológico de toda práxis social” (2010, p. 45). Dada sua importância, “[...] todas as outras dimensões sociais [...] mantêm com ele

8 Tal discussão é um momento necessário de abstração dentro do contexto da obra citada, e de nossa própria

dissertação, e desconsidera apenas momentaneamente as complexas relações sociais e valores culturais que acabam por caracterizar as especificidades singulares individuais e grupais, suas capacidades, facilidades e dificuldades de aprendizado, suas preferências em relação a uma ou outra forma de práxis, etc.

9 Lembrando que Marx, na 6ª tese sobre Feuerbach, afirma que a natureza humana, ou seja, a essência humana

“não é uma abstração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais” (MARX; ENGELS, 2007, p. 534). As “potências nela adormecidas” referem-se, portanto, não a habilidades biologicamente inatas ou postas por algum tipo de teleologia metafísica, e sim socialmente desenvolvidas.

uma relação de dependência ontológica e de autonomia relativa. Ao trabalho, pois, pertence este caráter matrizador que nenhuma das outras dimensões pode assumir.” (TONET, 2008, p. 5). A garantia de satisfação das necessidades humanas mais básicas, através do domínio do meio possibilitado pelo desenvolvimento do Trabalho, abre um espaço cada vez maior para que os seres humanos possam criar suas próprias necessidades, que se situam para além das necessidades vitais mais urgentes. E, junto com essas necessidades, surgem também novos desenvolvimentos da práxis.

As novas práxis são umbilicalmente dependentes não apenas dos frutos do Trabalho, mas da forma como cada sociedade organiza seu modo de produção. Portanto, a partir do momento em que o desenvolvimento social leva à possibilidade de criar um cabedal cada vez mais rico e complexo de práxis sociais, ela potencializa a gestação de individualidades igualmente cada vez mais ricas e complexas.

2.2 A complexificação do ser social: o surgimento de novas práxis e o advento da