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3. AYŞENİL ŞAMLIOĞLU’NUN SAHNELEDİĞİ OYUNLAR

3.2. Grotesk Üslupta Oyunlar

3.2.6. Behiç Ak’ın Bina Adlı Oyunu

O título desta subseção deriva da proposta apresentada por Pineau (2008, p. 55) referente às autobiografias ambientais, as quais pressupõem o reconhecimento de objetos, lugares, plantas e animais como significativos, “já que marcam o curso da vida, imprimindo-lhe sentidos, formando-o, deformando-o ou transformando-o por uma razão ou por outra”.

No sentido por mim empregado, os lugares de formação pessoal são aqueles que foram significados afetivamente e, por isso mesmo, são o cenário das memórias mais marcantes.

Schaller (2008, p. 69) reforça essa perspectiva, ao ponderar que “os lugares são, portanto, tomados nas redes de interesses e de experiências que neles manifestam os sujeitos. Os indivíduos transformam o seu entorno e essas transformações afetam o que eles são e o que fazem”.

Um desses lugares é destacado nas narrativas como o lugar da infância. Na narrativa de Edmar, aparece a referência intensamente afetiva ao rio existente em sua terra natal e de vivência da infância:

Eu nasci na Paraíba, o terreno de meu pai, o sítio, era cortado por um rio. Eu talvez tenha esse dom de poeta, fui muito observador, muito de curtir a natureza, talvez com um olhar diferente. E eu me lembro de uma coisa muito bonita, porque era pertinho da serra da Borborema. A nascente do rio era na Serra de Borborema. Quando chovia a gente ia esperar a enchente lá no rio. Aí vinha ali enchendo o rio. Então uma coisa que eu sempre comento. Eu nasci vizinho à Serra da Borborema, vivi num lugar chamado perto da Serra Azul, então aqui em Fortaleza tinha que morar pelo menos numa Serrinha.(...) Aí lá a gente curtia esse rio, essa liberdade do rio, de correr aquela água toda. E quando eu vim para o Ceará, ali pra Serra Azul, aí já vi açudes, que eu não conhecia muito açudes. Aí já vinha diferente, a água já não era tão liberta. Á água era represada, mas que aquilo era feito pro bem. Pra servir, quando tinha uma cheia era perto da parede do açude, quando ia secando, tinha a vazante. Mas era diferente da água que eu conhecia. O rio era liberto, corria. E ali já era represado. Mas isso tudo eu via, achava muito bonito aquilo tudo, aquela ligação com a natureza, parece que a gente tava no paraíso (Edmar).

Ainda em referência ao lugar da infância, Ademar relata a relação de usufruto do local de moradia, do quintal e das árvores frutíferas.

Então a gente nasceu e se criou nesse meio. Estudava geralmente pela manhã, até gostava de acordar cedo. Dava uma voltinha por aqui mesmo. Nesse tempo o nosso terreno era menor e não tinha esse pé de mangueira, mas a gente descia aqui, nessa rua mesmo aqui a gente andava menos de cem metros e tinha várias mangueiras e a gente já dava pra juntar diversas mangas e, às vezes, a gente até saboreava essas mangas e até tirava um cochilo, depois é que a gente ia se levantar de vez mesmo pra se preparar pra ir pra aula (Ademar).

Semelhantemente, em minha narrativa (Apêndice A), tem destaque o lugar em que vivi os primeiros anos de minha infância, expresso na lembrança das brincadeiras realizadas no quintal, em baixo das mangueiras, nas cenas do relacionamento familiar, a casa com o piso de chão batido e o riacho próximo. Todos esses elementos são componentes do lugar que propiciou uma forma de relação próxima com os demais elementos constituintes do ambiente. Portanto, nesse contexto, lugar não faz referência somente à localidade, delimitação geográfica, mas às relações e significações que foram por mim vivenciadas naquele contexto social e ambiental.

O lugar em que viveu a infância também foi lembrado por Cássio, associado à posterior percepção do impacto das intervenções urbanas sobre as áreas verdes no entorno da cidade.

Eu nasci de frente pro muro da Base, que era ali onde é de frente pro Aeroporto. Aí eu tinha contato com uma região de mata grande, aliás um espaço protegido pela base que tinha alguém que plantava lá, mas mesmo assim aquele espaço que eles separavam pra plantar ainda tinha

muita vegetação natural, aí com o tempo eu vi aquilo ser derrubado e aquelas luzes de noite, trabalhando 24 horas, derrubou tudo praticamente, deixando apenas uns 10%, aterrando uns buracos que tinha lá, lagoas. Foi aí que eu comecei a perceber uma destruição do que eu achava ser tão interessante. Eu olhava pela janela e via, a vontade que eu tinha era de cada vez mais ir ver onde ia dar aquele mato, que na verdade hoje a extensão total seria o final da pista de pouso (Cássio).

A Lagoa de Itaperaoba aparece como um lugar de formação pessoal, propiciador de reflexões sobre a interação sociedade e meio ambiente, tal como a relação que é estabelecida pelos moradores da Comunidade Garibaldi com esse ambiente, destacada na narrativa de Paulina.

Além dessa questão da vulnerabilidade da lagoa, da vulnerabilidade das pessoas, eu vi por outro lado assim, que a lagoa é pra essas pessoas que moram ali, uma coisa mágica, uma coisa que está pra além de ser a paisagem da vida deles, ali onde eles construíram a sua existência, ela tem outro significado. Então isso foi outra coisa que eu acho que é outro gancho interessante da questão ambiental com essa questão da cultura, do sentido que as pessoas dão pra vida, como é que elas explicam a sua existência e até a sua própria fé que tá nesse bordão também (Paulina).

Outro lugar destacado está ligado ao desenvolvimento de atividades profissionais. A narrativa de Ademar traz esse destaque, sendo possível visualizar que sua percepção crítica começa a se formar desde a juventude, tendo por contexto a exploração do trabalho, associada a condições insalubres e malefícios ao ambiente.

Eu me lembro que lá na Santa Cecília [fábrica em que iniciou a atividade profissional], a gente dizia ‘quando é que vão chegar máquinas mais silenciosas pra não ser assim tão agressivas aos nossos ouvidos? Quando é que essa poluição vai diminuir?’ E a gente já ouvia falar ‘não, rapaz, já tem máquina moderna que não causa isso aí’. Eu dizia, ‘pois é, espero que um dia essa fábrica se modernize para que não traga tanto estrago pra nós’. Aí tinha o rapaz lá que dizia ‘pois é, rapaz, estragar o nosso meio ambiente’. Sabe, eu acho que foi uma das primeiras vezes que eu vi a pessoa citar esse nome meio ambiente. Aí aquilo me pegou, e tal – meio ambiente (Ademar).

Ademar destaca ainda os lugares visitados na realização de sua atividade profissional, trabalhando como mecânico de tratores.

Comecei a trabalhar no conserto de tratores agrícolas. E essa profissão me permitiu também estar sempre em contato com a natureza. Porque o trator tá no campo, e a gente vai consertar o trator no interior, lá na fazenda, na serra. Quando eu ia pra um lugar assim como serra, onde tivesse rio, onde tivesse açude, final de semana eu sempre procurava tirar um tempinho ‘ah, vamos conhecer lá o açude, vamos conhecer o rio, vamos tomar banho no rio’. Então isso aí ajudou muito a gente, assim, a

primeiro a gente ir tendo um amor pela natureza e ver as agressões (Ademar).

Avalio como relevante para a Educação Ambiental o reconhecimento dos elementos da vida do(a)s autore(a)s sociais e dos coletivos por ele(a)s constituídos que podem potencializar seu propósito formador. Noto que o delineamento, por via da narrativa (auto)biográfica, dos lugares de formação pessoal, por mobilizar afetivamente o(a)s autore(a)s sociais, e do tornar-se autor(a) ambiental, enquanto projeto ancorado nos desejos e significações pessoais e coletivas, são caminhos para a vivência de uma Educação Ambiental no cotidiano.