3. AYŞENİL ŞAMLIOĞLU’NUN SAHNELEDİĞİ OYUNLAR
3.3. Oyunlar Üzerine Analiz
A compreensão de como se deu o processo de construção da cidadania no Brasil está intimamente relacionada à questão da natureza da democracia que se constituiu no país ao longo da história com todas as suas especificidades e pontos de fragilidade. A formação da sociedade brasileira foi marcada desde o início por uma desigualdade estrutural, reflexo do próprio modelo de expansão imperialista em que o país se insere como colônia, a princípio.
Como colônia do império português, o Brasil, nas suas origens, usando a terminologia proposta pelo pesquisador José Murilo de Carvalho (1995, 2002), abriga os chamados cidadãos plenos, os cidadãos incompletos e os não cidadãos. No primeiro grupo, estão aqueles
cidadãos brancos, de status social privilegiado, que gozavam do poder do dinheiro e que frequentemente se utilizavam deste poder para escapar aos rigores das leis. No segundo grupo, estavam os indivíduos que dependiam da “boa vontade dos representantes para materializar seus direitos” (SILVA, 2000, p.45). Primeiramente esse grupo incluía os trabalhadores assalariados brancos e com a abolição da escravidão, passou também a incluir negros e mulatos. Eram pessoas simples que geralmente não tinham consciência dos seus direitos nem sabiam o que fazer para efetivá-los. O terceiro grupo que Carvalho chama “cidadãos elementos” (1995) abrangia a maior parte da população. Eram indivíduos pobres, desempregados ou subempregados na informalidade, sem educação e que tinham seus direitos constantemente violados.
Na análise de Carvalho (2002), durante todo o período da escravidão, a dimensão de cidadania estava bastante ausente da sociedade brasileira, pois não havia a igualdade de todos perante a lei. Ao mesmo tempo, não havia um poder público que garantisse os direitos civis. Durante a Colônia, nas palavras desse autor “os direitos civis beneficiavam a poucos, os direitos políticos a pouquíssimos,[d]os direitos sociais ainda não se falava, pois a assistência social estava a cargo da Igreja e de particulares” (p.24). Registram-se, contudo, algumas manifestações cívicas de caráter popular nesse período, como a revolta dos escravos de Palmares e a Inconfidência Mineira.
A partir de 1822, Carvalho indica que houve um avanço no que se refere à conquista de direitos políticos de cidadania, com o objetivo central de construir uma identidade nacional para o novo país independente. Isso se revela primeiramente na expansão do número de brasileiros votantes de 1822 a 1930, incluindo analfabetos. Segundo Carvalho (2002), antes de 1889, votavam aproximadamente 50% da população adulta masculina do país. Além disso, ocorreram eleições ininterruptas nesse período, o que teoricamente significava uma maior participação política. Já a situação dos direitos civis só tem uma mudança maior a partir de 1888, com a abolição da escravidão.
Em relação à participação política desde então, cabe destacar o caráter de “obediência forçada” ou de “lealdade e gratidão” do voto. Os votantes, na sua maioria, eram pessoas sem instrução, pobres, e que elegiam os chefes políticos em troca de pequenos favores ou regalos (dinheiro, roupa ou emprego). Isso marca o início de uma política coronelista, que está na origem do clientelismo característico da esfera política do Brasil de hoje. Nessa perspectiva, o Estado era constituído de uma oligarquia, que pouco se interessava pelas reais necessidades da população. O atendimento às demandas da população era feita como uma intermedição de
favores entre a esfera pública e privada, de forma a garantir, através do mecanismo de reciprocidade, a permanência das mesmas elites no poder.
Em 1889, com a República, Carvalho nos mostra que houve um retrocesso no campo político. A exigência de um patamar mínimo de renda para o voto e o impedimento do voto dos analfabetos significou uma redução de cerca de 90% do eleitorado. Essa situação perdurou até a década de 1930, impedindo a constituição de uma comunidade política forte no Brasil, capaz de reivindicar seus direitos civis, políticos ou sociais.
No campo dos direitos sociais de cidadania, até o início do século XX, existiam poucos recursos investidos na assistência social. Fatos isolados, como a regulamentação dos sindicatos trabalhistas ou o estabelecimento do código de menores, restringiam-se ao meio urbano. No campo, permanecia a influência dos coronéis e sua política paternalista condicionando os direitos sociais a uma troca de favores eleitoreiros.
As repercussões dessa prática clientelista, que se apresenta como corriqueira no sistema político do país, desde a sua constituição, são bem explicitadas por Silva (2000). Primeiramente, há uma privatização da coisa pública que vai de encontro ao bem comum, tão valorizado em uma democracia de base republicana. Em segundo lugar os interesses da maioria da população não se encontram representados politicamente, o que gera um descrédito por parte da população no Estado, uma vez que este não responde aos seus apelos e necessidades de forma satisfatória. A perpetuação dessa frustração vai resultar em uma indiferença pela coisa pública, que o que tem um impacto negativo na participação política dos cidadãos em geral.
Ao mesmo tempo, o clientelismo está intimamente ligado ao patrimonialismo, isto é, à dissolução das fronteiras entre o público e privado, permitindo o uso de recursos públicos pelas elites econômicas para aumentar a concentração de renda. Essa postura se observa até hoje quando o político trata o cargo público como se fosse sua “propriedade privada”, usando- o para atender aos seus interesses em detrimento dos interesses da coletividade que o elegeu.
A meu ver, as práticas clientelistas e patrimonialistas que caracterizam o desenvolvimento da esfera política no Brasil contribuíram para a construção de uma cidadania limitada e um regime democrático frágil, em que a maior parte da população não se sente representada, nem é encorajada a participar de forma eficaz. Não se pode esquecer, contudo, que mesmo sem direito oficial à participação política através do voto, nesse período existiram vários movimentos de revolta popular que mostravam algumas noções sobre direitos dos cidadãos e direitos do estado. Movimentos como Contestado, Canudos, a Revolta da Vacina
são a prova que a população brasileira não era completamente apática, mas demonstrava a sua insatisfação com as arbitrariedades de um Estado excludente.
Além do clientelismo e patrimonialismo, é preciso evidenciar outros aspectos responsáveis pelas restrições impostas à consolidação de um espaço de exercício da cidadania mais consistente no país. Assim, o não investimento do país em educação até épocas bem recentes teve uma implicação negativa na formação de cidadãos conscientes de seus direitos e capazes de fazer frente a uma situação política de manipulação e opressão. Só a partir da industrialização do país, na segunda metade do século XX, é que o governo se preocupou em de fato investir na educação pública, sobretudo para a formação de mão de obra especializada.
A partir de 1930, verifica-se uma mudança na organização da sociedade brasileira, sobretudo no que se refere aos direitos sociais. A Revolução de 30 trouxe ao poder uma geração de políticos de origem oligárquica, mas com propostas mais inovadoras no campo social, que culminaram com o estabelecimento da Consolidação das Leis do Trabalho em 1943. De outra forma, no campo político, passaram a se alternar ditaduras e regimes democráticos. No período de 1930 a 1945, o populismo de Vargas durante o Estado Novo foi ambíguo em relação aos direitos de cidadania. Se por um lado havia um maior acesso das massas à vida política, os cidadãos eram colocados em relação de dependência frente aos seus líderes, conforme a política clientelista que descrevi acima. Isso resultava em uma cidadania “passiva e receptora antes que ativa e reivindicadora” (CARVALHO, 2002, p.126). Para esse autor, a primeira experiência realmente democrática no país se deu entre 1945 e 1964, na medida em que, aos direitos sociais conquistados no período anterior, agregaram-se direitos civis e políticos, assegurados pela Constituição de 1946. Infelizmente, essa experiência terminou em 1964, com o golpe militar e o início da ditadura.
Quanto à questão econômica e seu impacto no exercício da cidadania, não se pode deixar de chamar a atenção que o Brasil foi um país cuja atividade econômica principal foi por muito tempo as do setor primário. Ao longo de sua história desde a colônia, o país alternou atividades extrativistas (madeira, borracha, pedras preciosas), monoculturas agrícolas (cana-de-açúcar, café) e pecuária. Os bens econômicos eram propriedade de oligarquias ou elites econômicas, que também correspondiam aos grupos que dominavam o cenário político do país. Percebe-se assim, o fator econômico servindo de base ao estabelecimento de uma democracia pouco representativa das demandas populares, e em que a participação cidadã não tinha grande espaço.
A partir do início do século XX, Comparato (1994, apud SILVA, 2000) afirma que o regime democrático foi afetado pela política unidimensional da industrialização em
substituição às importações. O Estado passou a investir no desenvolvimento da indústria e no provimento da infraestrutura necessária à industrialização (estradas, aeroportos, usinas de energia). Houve um incentivo direto ao consumo e isso certamente conduziu à valorização do cidadão como um sujeito produtivo e consumidor, responsável pelo desenvolvimento econômico do seu país, em detrimento da visão do cidadão como participante ativo da vida política. Esse novo enquadramento do cidadão brasileiro vai atravessar uma gama de instituições da sociedade, inclusive a escola, e assim representa um aspecto importante do estudo que aqui desenvolvo.
O período da ditadura militar representou, em uma primeira fase, um período de grande aceleração industrial, crescimento do número de empregos e aumento de renda, caracterizando o chamado “milagre econômico”. Se a princípio, essa fase da economia brasileira vai deixar grande parte da classe média ascendente satisfeita e até disposta a fechar os olhos à restrição de direitos políticos imposta pela ditadura, essa situação não resiste à crise que se segue por volta de 1975. Com a taxa de desenvolvimento econômico decrescente a partir de então, a classe média começa a manifestar o seu descontentamento com o regime militar e isso será um dos fatores que conduzirá ao processo de redemocratização na década de 80. A mobilização social de resistência ao governo militar, que começou a tomar corpo nos últimos anos da década de 70, se manifesta através de movimentos dentro da Igreja Católica, as Comunidades Eclesiais de Base, mas também através de associações profissionais de classe média, como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Junto a esses grupos, destacam-se os movimentos dos sindicatos, sobretudo o dos metalúrgicos, mas também os sindicatos de trabalhadores rurais (CARVALHO, 2002).
A articulação de todos esses grupos sociais vai culminar no movimento pelas eleições diretas em 1984. A despeito de não ter conseguido a realização das eleições diretas, o movimento vai ter papel fundamental na redemocratização do país que se segue e que vai se consolidar com a promulgação da Constituição de 1988 (CARVALHO, 2002). Do ponto de vista político, a Constituição Cidadã (1988) significou um avanço democrático amplo. Contudo, como Carvalho (2000) ressalta,
a democracia política não resolveu os problemas econômicos mais sérios, como a desigualdade e o desemprego. Continuam os problemas da área social, sobretudo na educação, nos serviços de saúde e saneamento, e houve agravamento da situação dos direitos civis no que se refere à segurança individual (p.199).
Mesmo com a reconquista dos direitos civis a partir de 1985, verifica-se que até hoje a maior parte da população brasileira encontra-se alijada do pleno exercício de tais direitos, especialmente no campo da segurança, da integridade física e do acesso à justiça.
Por outro lado, práticas políticas relacionadas à corrupção têm sido constante nos diferentes governos que se sucederam desde 1985. Governos representados por lideranças messiânicas e carismáticas (Collor), governos neoliberais ou governos de esquerda estiveram igualmente envolvidos em grandes escândalos de má utilização do dinheiro público, e tal fato teve e tem sérias implicações na forma como a cidadania é experienciada pela maioria dos cidadãos.
Os direitos sociais e políticos de cidadania, dessa forma, sofrem a ameaça constante de uma cultura política ainda baseada no clientelismo e na corrupção. De acordo com Carvalho (2002), essa situação é agravada porque no Brasil, de forma distinta de outros países, os direitos sociais precederam os direitos civis, o que resultou em uma postura de corporativismo enraizada na maior parte das lutas sociais. Assim, ao invés de serem tratados como direitos de todos, os direitos sociais se constituem em uma arena onde cada grupo profissional luta por garantir sua representatividade dentro do governo e “abocanhar” uma fatia maior dos privilégios que são distribuídos pelo Estado.
Não se pode deixar de registrar, que nos últimos dez anos, tem havido um esforço por parte de um governo de base política na classe trabalhadora de estabelecer um campo para o exercício de cidadania de base mais participativa. Assim, nota-se um esforço da parte do governo de criar espaços para envolver a população na formulação e execução de políticas públicas, que têm sido mais direcionadas para a redução das desigualdades econômicas e sociais. Também existem ações, no sentido de atender às mais variadas demandas que se articulam no tecido social, procurando até onde é possível, incluir as expectativas de todos os cidadãos. Assim, há políticas voltadas para geração de emprego e renda para grupos antes excluídos da sociedade; políticas de garantia de acesso à educação em todos os níveis por parte das populações pobres, investimentos em infraestrutura e políticas de reconhecimento cultural e social a grupos historicamente excluídos ou sub-representados no cenário nacional. O problema é que tais medidas continuam a ser implementadas em um cenário político onde permanecem fortes o clientelismo e a corrupção, e onde o nível educacional de grande parte dos cidadãos ainda não lhes permite fazer escolhas conscientes e comprometidas com uma sociedade mais justa para todos. Dessa forma, perpetua-se o exercício de uma cidadania pouco participativa e ativa, muito circunstancial e corporativa, incapaz de produzir mudanças radicais na relação Estado/povo.
Nesse capítulo, traçamos uma visão histórica do conceito de cidadania, apresentando essa categoria dentro de diferentes teorias sociais e políticas e situando-a no contexto histórico brasileiro. Na próxima seção, articularemos o conceito às noções de direitos humanos e de cultura e discutiremos algumas dimensões que nos parecem essenciais para compreender os diferentes níveis de interpretação da cidadania na atualidade: a agência, a experiência e a identidade.