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5. TARTIŞMA

5.2. Premalign-Malign Konjonktiva Tümörleri

5.2.1. Premalign-Malign Epitelyal Konjonktiva Tümörleri

5.2.1.2. Yassı Hücreli Karsinom

Ao buscar entender a construção de ambos os acontecimento com base na cooperação entre indivíduos, é essencial observar que existe uma disputa constante de enunciados - palavras de ordem - em sua organização. No caso do “Churrascão”, por exemplo, um pequeno grupo de indivíduos assume uma postura crítica à manifestação,

tomando parte da discussão ao participar dos mesmos espaços enunciativos daqueles que o defendem, seja interagindo na página do evento no Facebook, ou utilizando a hashtag “#gentediferenciada”. Podemos observar os seguintes exemplos no Twitter:

Tabela 6: Enunciados contra o “Churrascão de Gente Diferenciada”

O melhor exemplo dessa disputa se dá quando Daniel Saraiva, o criador do evento, tenta cancelá-lo no dia 12 de maio. Pressionado pela Polícia Militar e pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da cidade, ele anuncia que a manifestação não poderá ser realizada por questões de segurança. Em mensagem postada no Facebook, Saraiva justificou sua posição:

Mesmo que seja assegurado o livre direito de nos manifestar, ainda não podemos obstruir vias públicas e tampouco nos responsabilizar pelas atitudes de manifestantes mal-intencionados, que por vezes vão ao evento apenas com o intuito de depreciar a propriedade pública e privada.

No lugar do “Churrascão”, tentou organizar, na mesma data, um ato beneficente na Praça Villaboim, para recolher assinaturas em um abaixo-assinado pedindo esclarecimentos ao governo estadual sobre a mudança no planejamento do metrô e, ao mesmo tempo, arrecadar agasalhos e alimentos destinados a uma organização não- governamental.

A multidão, formada por aqueles que haviam se engajado na mobilização, não aceitou uma decisão tomada unilateralmente e demonstrou seu descontentamento através de mensagens no Facebook e no Twitter. Diferentes usuários começaram a criar outras páginas de evento paralelas no Facebook, similares ao original. A pressão obrigou Saraiva a voltar atrás: “Ok, o povo pediu. O churrasco continua”, mas indicando um novo ponto de concentração para manifestação, que seria transferido para a Praça Villaboim. Nem mesmo

essa orientação, no entanto, foi acatada, poucas pessoas compareceram na praça e a grande maioria dirigiu-se diretamente à frente do Shopping Higienópolis, o ponto de encontro original.

No caso do “Amor Sim, Russomano Não”, um dos temas mais debatidos foi o porquê da orientação dos idealizadores do evento em usar rosa. No dia primeiro de outubro, a usuária Luana Maso postou na página do evento no Facebook:

Dúvida: Pq rosa choque? Pergunto pois, como já sabemos as pessoas tem uma dificuldade enorrrrme em protestar, sair na rua, se manifestar e etc, não seria esse mais um impeditivo/desculpa/qqr coisa do tipo para as 960 pessoas estarem de fato lá?

No mesmo dia, Patrícia Recarey reforça a questão: “pq rosa?”. Várias das mensagens justificavam que rosa seria a cor do amor, a resposta do usuário Paulinho Inn Fluxus, contudo, foi a mais interessante:

Porquê é a cor mais vibrante do mundo. Porquê é o maior contraponto ao cinza. Porquê apesar de choq, é vibrante. Porquê traz um lado fêminino a essa cidade hiper-machista. Porquê nossa bandeira é muito mais divertida. É por quê o rosa é CHOQ ! Porquê o vermelho só não basta.

Outro exemplo de como algumas palavras de ordem saem vencedoras nessa disputa foi a confirmação da Praça Roosevelt como local para a mobilização. Mais de dez dias antes que Dríade Aguiar criasse o evento “Festival Amor Sim, Russomano Não” no Facebook, outro usuário, chamado Junior Vieira, já havia criado um outro chamado “Ta RU$$o MANO!”. Ele convocava para uma manifestação no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), também em oposição à candidatura de Celso Russomano. Embora fosse precursor, este evento mostrou ter menor força de mobilização e acabou juntando-se com o “Festival Amor Sim, Russomano Não”. Vieira manteve a página do evento ativa, mas alterou o nome para “Ta RU$$o MANO! Festival Amor Sim, Russomano Não”, além de ajustar a data e o local da manifestação.

O tema de maior disputa do segundo caso estudado, no entanto, foi o caráter apartidário da manifestação. Dos 26 posts analisados no Facebook com mais de quatro comentários, dezesseis são do período anterior à realização da manifestação, ou seja,

correspondem a enunciados que estão estruturando o agenciamento de enunciação do acontecimento. Destes dezesseis, um total de nove trata a respeito do apartidarismo. Primeiramente, alguns usuários tentavam reprimir manifestações de apoio político a determinado candidato na página do evento no Facebook, reforçando o não apoio a nenhuma legenda. Em paralelo, outras pessoas questionavam como uma mobilização pode ser apartidária se, ao colocar-se contra determinado candidato, acabada fortalecendo a candidatura dos outros que concorrem no pleito. Nesse sentido, muitos usuários acusavam a manifestação de ser uma manobra que, travestida de apartidarismo, tinha como objetivo fortalecer a candidatura de Fernando Haddad, do PT, que aparecia em terceiro nas pesquisas até poucos dias antes da votação, o que o deixaria fora do segundo turno das eleições.

Um dia antes do protesto, por exemplo, a usuária Lara Morais postou a seguinte mensagem na página do evento no Facebook:

Muitos falam: ‘Você vai à Marcha da Maconha, à Parada Gay, à Marcha para Jesus, à Marcha das Vadias, mas quando se trata de política, você não se manifesta!’ São Paulo vai provar o contrário amanhã na Roosevelt. E Vai ser lindo!

O post foi o mais comentado em toda a página do evento, com 54 interações. Embora tratasse do caráter político da manifestação, a postagem não falava sobre apartidarismo. No entanto, a questão acabou dominando a conversa. Na disputa de diversas vozes sobre o caráter do movimento, a discussão entre dois usuários, Marina Costin Fuser e Nino Dastre, torna-se mais acalorada e acaba desviando-se do tema. Selecionamos abaixo um trecho dessa troca de mensagens:

Usuário& Data& Comentário&

Nino&Dastre& 5&October& 2012& Marina,'eu'gostei'de'você.'Gosto'de'mulheres'combativas.& Acho%até%que%vou%a%essa%manifestação%para%alavancar%a%candidatura% do&haddad&e&podemos&tomar&um&drink&juntos.&Vou&seguir&apenas&uma& de#suas#dicas,#preciso#mesmo#de#um#analista#para#controlar#meu#ego.# Quanto'à'linguística,'eu'vou'consultar'o'livro'que'eu'mesmo'escrevi' sobre&o&assunto&(pesquise&no&google).&Gosto&de&ter&bons&autores& como&referência!(Aceita(meu(convite?(Um(drink(na(Praça(Roosevelt?( Vou$só$por$sua$causa!& Daniel& 5&October& 2012& Love&is&in&the&air!& Nino&Dastre& 5&October& 2012& Marina,'só'uma'coisa:'você'é'maior'de'idade,'não?'Não'quero' problemas&com&o&Estatuto&do&Menor&e&do&Adolescente.& Marina& Costin&Fuser&& 5&October& 2012& Machismo&is&in&the&air!&

Nino&Dastre& 5&October& 2012& Totalmente.*Como*é*que*você*percebeu?*Eu*tentei*ser*sutil.& Rogério' Godinho&& 5&October& 2012& Carteirada(e(machismo(em(um(único(diálogo.(Isso(que(é(otimizar&o& tempo.& Nino&Dastre& 5&October& 2012& Marina,'quanto'mais'você'me'despreza,'mais'eu'te'quero.& Gosto%de%mulheres%difíceis%como%você,%minha%megera%domada.% Lembre_se,$esta$noite,$às$21h,$em$frente$ao$Parlapatões.$Estarei$ usando&uma&camiseta&da&Soninha,&outra&megera&difícil.& Lara&Morais&& 5&October& 2012& Pareço'engajada,'mas'vou'pra'Roosevelt'procurar'um'homem'cabeça!& Rogério' Godinho&& 5&October& 2012& Creepy!& Nino&Dastre& 5&October& 2012& Lara,%a%caçadora%de%cabeças!%Gosto%do%seu%estilo%também.& Lara&Morais&& 5&October& 2012& <ironia>&</ironia>&hahahah& Nino&Dastre& 5&October& 2012& Marina,'morena'Marina...'como'vou'reconhecer'você'no'meio' daquela'multidão'de'meia_dúzia&de&petistas&empedernidos&e& inconformados&com&o&vergonhoso&terceiro&lugar&do&haddad?#Eu# estarei'com'o'button'da'Soninha'fincado'na'testa.'Não'tem'como'me' perder!& Nino&Dastre& 5&October& 2012& Marina,'estarei'todo'molhado'esperando'por'você.'Creio'que'não'vai' ter$muita$gente$no$evento$pró_haddad.%Só%uns%três%petistas%mais% radicais,&você$(que$não$é$petista)$e$eu$(que$não$sou$petista$também).&

Tabela 7: Exemplo disputa de sentidos no caso “Amor Sim, Russomano Não

Realizamos essa seleção de mensagens para destacar que, também nas redes sociais digitais, a disputa entre posições divergentes é composta por estratégias de coação das mais variadas ordens. Os enunciados que integram uma disputa não necessariamente restringem- se ao tema em controvérsia, mas explicitam diferentes tentativas de minar a voz oponente. Neste caso, podemos observar que o usuário Nino Dastre começa a flertar com a outra usuária, realizando um ato perlocutório que busca não realmente convencê-la a um encontro romântico, mas sim produzir um efeito sobre ela: reduzir seu potencial de enunciação por ser mulher, reforçando uma relação de poder baseada na diferença de gênero.

Em ambos os casos estudados, o Facebook foi a rede social digital mais usada nessas disputas de enunciados, tanto no que diz respeito à organização quanto ao caráter dessas manifestações. Ainda que os usuários no Twitter demonstrassem acordo ou desacordo com determinado tema ou decisão, não se identifica a constituição de um diálogo com uma intensidade comparável à alcançada no Facebook. Aparentemente, a interface e funcionalidades dessa ferramenta não criam um espaço de enunciação propício para tal. Embora a hashtag reúna as mensagens sobre um determinado tema, esse espaço

parece mais propício, no contexto político, para simples busca de apoio a uma determinada ideia, sem necessariamente debatê-la. Outro sintoma desta característica é que, no caso “Amor Sim Russomano Não”, os usuários que declaram seu voto e incluíram a hashtag da mobilização no mesmo tweet não sofreram nenhum tipo de repreensão por parte de outros usuários, ao contrário do que se observa no Facebook, pois a interface do Twitter não favorece esse tipo de comportamento.

Ainda no que diz respeito ao papel desempenhado pelas características técnicas e da interface das plataformas de redes sociais digitais, há que se levar em consideração também que existe uma tensão latente constante entre usuários e plataformas. Essa tensão atualiza-se em conflito, por exemplo, quando o Facebook apaga a página do evento “Festival Amor Sim, Russomano Não”. Antoun e Malini alertam que “basta que os interesses das empresas se vejam ameaçados por iniciativas dos usuários para o conflito explodir e o confronto aparecer em toda sua violência” (2014, p. 164). Ainda no mesmo dia, algumas horas depois, o Facebook reestabelece a página sem maiores explicações, alegando apenas que houve um erro técnico. Nesse intervalo, no entanto, a multidão não se mantém passível e torna a trabalhar: começa a distribuir pela rede uma cartilha ensinando como outros usuários poderiam criar novas páginas similares àquela apagada (figura 6), viralizando a mensagem “O Facebook deleta um evento, juntos nós montamos mil”.

Não cabe aqui avaliar se a empresa Facebook estava defendo os interesses de algum agente, querendo evitar quaisquer complicações políticas futuras, ou se realmente foi um erro provocado pela inteligência por trás da plataforma, que pode cancelar determinado eventos quando estes são acusados de irregularidade por outros usuários. De qualquer maneira, seja qual for a justificativa real, este episódio serve para ilustrar que há sempre uma tensão potencial entre plataforma e multidão, não só com relação aos interesses da empresa detentora, mas também por sua estrutura técnica. Uma vez que se trata de plataformas fechadas, que não permitem que outros usuários interfiram em sua programação para melhor atender alguma necessidade ou projeto da multidão, a atuação política através dessas redes sociais digitais está limitada pela estrutura da interface dada.

Figura 6: Orientações sobre como criar um novo evento.

Nesse sentido, é importante analisar como a multidão se comporta frente a tais limites nos casos analisados. Ao comparar as duas mobilizações, fica claro que a segunda propunha ser uma manifestação bastante mais complexa do que a primeira, não só por pedir que todos fossem de rosa, mas porque tinha por objetivo assumir um caráter de festival, convocando artistas a participar mostrando seu trabalho. No entanto, não se observou no corpus desta pesquisa nenhuma interação significativa para organizar essa participação com temas que fossem além daquelas orientações primeiras, já definidas por Dríade Aguiar ao criar a página do evento. Nesse sentido, não pudemos identificar como isso se estruturou. O que pudemos observar foi chamadas à participação de reuniões abertas sobre o evento na “Casa Fora do Eixo”, sede de um dos grupos artísticos envolvidos na concepção da ideia da mobilização. Assim, assumimos que houve a necessidade de interação em outros espaços que não apenas aqueles das redes sociais digitais para estruturar uma manifestação desse tipo, que pressupõe uma organização mais complexa.