• Sonuç bulunamadı

!

Figura 7: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”. Fonte:

http://amorsimrussomannonao.tumblr.com/

Em ambos os casos estudados, as horas que antecedem a manifestação são aquelas de maior volume de interação nas redes. Conforme indicado nos gráficos abaixo (gráficos 1 e 2), os dias com maior número de mensagens postadas são aqueles nos quais ocorreram as manifestações: dia 14 de maio de 2011 para o “Churrascão de Gente Diferenciada” e 5 de outubro de 2012 no caso do “Amor Sim, Russomano Não.

Ainda que o gráfico referente ao “Amor Sim, Russomano Não” aponte uma queda bastante acentuada no dia dois de outubro, data na qual a página do evento foi apagada pelo Facebook, o que mais chama atenção na curva de evolução diária é o pico que corresponde ao dia cinco. Foram 315 mensagens postadas, das quais 185 (aproximadamente 59% do total diário) foram realizadas antes das 19 horas, horário marcado para início da manifestação.

&& &&

Na manhã daquele dia, o usuário Bruno Torturra, um dos envolvidos nos coletivos artísticos que começaram a mobilização, publicou uma mensagem no Facebook que ilustra bem o tom da maioria dos enunciados empregados no período, que servem como palavra de ordem que convoca o comparecimento à manifestação:

Tá chegando a hora, tropa Rosa Choque! A semana foi curta, a mobilização foi enorme e quem puder é legal chegar cedo na praça para ajudar na montagem e na criação coletiva. Leve o que puder: tinta, cartolina, água, sacos de lixo, frutas, flores, tambores, pilhas, extensão, modens 3G... tudo muito bem vindo!

Vai ser lindo! 0! 100! 200! 300! 400! 500! 600!

Gráfico 1: Evolução diária postagens Facebook no "Churrascão de Gente Diferenciada" Total!interações!de! texto:!! 0! 50! 100! 150! 200! 250! 300! 350! 01/ ou t! 02/ ou t! 03/ ou t! 04/ ou t! 05/ ou t! 06/ ou t! 07/ ou t! 08/ ou t! 09/ ou t! 10/ ou t!

Gráfico 2: Evolução diária postagens Facebook no "Amor Sim, Russomano Não"

Total!interações!de! texto:!!

Já nas primeiras horas da manifestação, em ambos os casos, empreende-se um diálogo entre aqueles que já estão no local do evento e os que pretendem ir. Os primeiros seguem a tarefa de mobilizar o maior número de pessoas, ao mesmo tempo que informam a velocidade na qual a manifestação está ganhando forma. Já os segundos reforçam que estão a caminho, solicitam informações sobre localização exata ou sobre até que horas deverá estender –se o evento.

Neste momento a maioria das mensagens enviadas assume um caráter de relato dos acontecimentos em tempo real. Forma-se, principalmente no Twitter, uma narrativa de cobertura dos fatos, que apresenta características bastante específicas, conforme apontado por e Malini:

À diferença da narrativa jornalística, marcada pela autenticação dos fatos, hierarquização de fontes, predomínio do passado, busca de uma enunciação à distância do fato narrado e repetição de versões únicas, a narrativa colaborativa P2P é o relato feito por uma multiplicidade de perfis na Internet que portam o tempo da linha do tempo como um agora, assume uma franqueza no falar como valor e regra para se alcançar a verdade, identificam-se como sujeitos unidos ao acontecimento, atores de sua atualização, e têm a republicação como estratégia de alargamento de si e de sua própria potência em uma audiência intensa (2014, p. 198).

A já fugidia fronteira entre o ambiente das ruas e as redes sociais digitais torna-se absolutamente difusa durante as manifestações. Mais uma vez retomando Di Felice (2013), o que acontece no espaço público da cidade é reproduzido e ressignificado em tempo real pelas redes digitais, em enunciados muitas vezes acompanhados por fotos e vídeos. Como aponta Ugarte (2008), a visibilidade é um dos pilares do net-ativismo e, assim, o alcance do evento nas redes torna-se tão importante para atualização do agenciamento de enunciação quanto os corpos nas ruas.

No caso do “Amor Sim, Russomano Não”, um dos primeiros fatos que surgem nessa narrativa é a chuva intermitente no início da noite do dia cinco. A usuária Alessandra Ramos de Souza é uma das primeiras a publicar uma mensagem sobre o tema na página do evento no Facebook: “Eu sempre soube que São Pedro é Pelego”. Outros adotam estratégias para que a chuva não coloque em risco o sucesso do evento, seja falando que ela “está passando”, como o usuário Bruno Videira, ou dando um caráter positivo ao mau tempo, como Zeca Bral: “Amor na chuva é tudo de bom! #amorsimrussomanonão”.

Em seguida, um apagão deixa a Praça Roosevelt às escuras. Não há como apurar a razão real da falta de luz, mas nas redes a culpa é atribuída ao prefeito da cidade, Gilberto Kassab, e ao governador do estado, Geraldo Alckmin, que estariam buscando sabotar a manifestação. Seja qual for a causa, o apagão tornou-se mais um instrumento para incentivar as pessoas a comparecer. No Facebook, por exemplo, o usuário Diego Pinheiro postou a mensagem: “Agora que as pessoas têm que ir mesmo! Agora é ditadura?”. Mais uma vez os enunciados ressignificam o que está acontecendo de maneira positiva, carregando implicitamente um caráter convocatório: “apagaram as luzes da praça rooselvt – para esvaziar o ato. mas ta rolando um efeito contrario. O dj agita a pista de dança improvisada, a luz dos carros de policia são um efeito luzes coloridas...”.

A cobertura jornalística que ocorre em paralelo à cobertura dos usuários, seja via perfis oficiais dos veículos da grande mídia no Twitter, seja por textos publicados nos sites desses veículos, acaba também sendo assimilada pela multidão. Quando apresentam uma perspectiva condizente com aquela defendida pelos usuários, estes apropriam-se do material como artifício para reforçar suas palavras de ordem. Foi o caso do portal de notícias Terra, que transmitiu o “Churrascão” ao vivo e teve o link da transmissão amplamente divulgado nas redes sociais digitais, especialmente no Twitter. No entanto, a multidão também não hesita em questionar e criticar qualquer notícia que julgue não- verdadeira ou que prejudica a percepção de sucesso da mobilização. Enquanto o portal UOL publicava notas sobre o evento, por exemplo, o usuário do Twitter Yuri Barichivich questionava a contagem de pessoas feita pela reportagem, indicando o link de uma foto para provar que haveria um número maior de participantes: “O @uol insiste em dizer que só foram 300 pessoas no Churrascão da #gentediferenciada – Confira você se só deu isso http://bit.ly/ivqzMR”.

A disputa de sentidos entre enunciados apontada anteriormente segue aqui na ressignificação do que está acontecendo na rua. Ao mesmo tempo em que os engajados na causa assumem uma perspectiva positiva ou convocatória, aqueles contra a mobilização tentam minar essas palavras de ordem. Embora este não pareça um comportamento muito comum, pudemos observá-lo na atuação do usuário Nino Dastre, o mesmo já citado na seção anterior deste capítulo.

Embora ao longo do conteúdo postado ele deixe entender que, na verdade, não esteve na praça naquela noite (como se confirmará em intervenções comentadas adiante), Dastre publica primeiro a seguinte mensagem na página do evento: “Droga! Que chuva

chata. Micou tudo: o evento, o Russomano e o Haddad...”. Em seguida, posta em todas as conversas em andamento: “Tragam guarda-chuvas, capas de chuva e tragam seus amigos... isso aqui está uma tristeza de tão pouca gente. Um fiasco total”. Ele busca, assim, confundir o enunciatário através de mensagens que tentam emular apoio ao evento, divulgando uma informação que não tem preocupação de vínculo com a realidade, uma vez que ele nem estava no local. Neste exemplo fica especialmente clara a constatação de Deleuze e Guattari (2011) de que a função da língua não é transmitir informações, mas sim palavras de ordem. O enunciado de Dastre traz uma informação (a presença de poucas pessoas em decorrência da chuva) que, na verdade, busca realizar um ato ilocutório ao convencer as pessoas que não vale a pena ir e que o protesto estava sendo um fracasso.

Ainda tratando do momento do protesto, a amostra coletada sobre os dois casos estudados já traz alguns indícios da atuação de um agente que a desempenha um papel secundário nestas ocasiões, mas que ganhará protagonismo no futuro: a polícia. Já no “Churrascão de Gente Diferenciada”, ela se faz presente, primeiro atuando de maneira a convencer o criador da página do evento no Facebook a cancelá-lo e, depois, filmando os manifestantes durante a passeata. Segundo postagens do jornalista Bob Fernandes do Twitter, as imagens eram para a segurança pública e seriam encaminhadas para o secretário de segurança e para o governador. Já no “Amor Sim, Russomano Não”, a polícia chamou atenção pela presença de um contingente numeroso da tropa de Choque da PM, fortemente armado, e da GCM, guarda municipal da prefeitura.

Por último, há um aspecto essencial para apreendermos as principais características da atualização de possíveis que se dá quando os corpos vão às ruas: o caráter “não-sério”, bem humorado e festivo das duas manifestações. Característica esta que fica ainda mais explícita quando observamos também o registro de imagens produzidas durante as manifestações. Conforme identificado por Ortellado (2004), um dos elementos que esse novo tipo de ativismo herda dos movimentos contraculturais dos anos 1960 é o caráter lúdico e performático das manifestações.

Como observamos anteriormente, desde o início, o humor tem um papel mobilizador essencial no caso do “Churrascão”, e segue desempenhando-o ao longo da manifestação. Muitos tweets postados durante a passeata na avenida Angélica, por exemplo, reproduziam os dizeres dos cartazes dos manifestantes que parodiavam o discurso de uma elite preconceituosa, tais como “Minha empregada que venha a pé”, “basta de carros 1.0 em Higienópolis” e “Só ando de metrô em NY, Londres e Paris”.

Alguns manifestantes, inclusive, chegaram a levar uma churrasqueira móvel para a manifestação e assaram um churrasco na esquina onde seria construída a estação de metrô conforme o planejamento inicial da nova linha.

No “Amor sim, Russomano Não” o caráter festivo já estava explícito no nome dado à mobilização: “Festival Amor Sim, Russomano Não”. Nesse caso, a multidão mostrou que faz política trabalhando e também festejando, com DJ e pista de dança improvisada, em meio a balões cor-de-rosa.